A BABYSITTER

DIANA DIAMOND

A
BABYSITTER

Traduo de SANDRA OLIVEIRA

BERTRAND EDITORA CHIADO 2002

Ttulo Original: The Babysitter
 Autor: Diana Diamond

e 2001, by Diana Diamond

Todos os direitos para a publicao desta obra em lngua portuguesa, excepto Brasil, reservados por:

Bertrand Editora, Lda.

Rua Anchieta, 29-1.
1249-060 Lisboa

Telefone: 21030 55 00
 Fax; 21 030 55 63
 e-mail: editora bertrand.pt Revisor: Cristina Oliveira

Fotocomposio e montagem: Espao 2 Grfico

Impresso e acabamento: Tilgrfica
 Depsito Legal n. 182 766 02

Acabou de imprimir-se em julho de 2002

ISBN: 972-25-1253-6

CAPTULO UM

Gordie! Gordie! Gordie! - O grito assumiu o ritmo crescente do rudo de uma locomotiva. - Gordie! Gordie!
Gordie!
 Gordon Acton olhou para Henry Browning, que estava de p junto  parte lateral do palco, de onde
podia ver a multido. Acenou com a cabea querendo perguntar: Agora?" Browning respondeu com um
gesto, abanando a cabea. "No!" Ellie Acton olhou de um homem para outro e depois para o palco, onde
aterravam bales e serpentinas.

- Ests  espera de qu? - sussurrou ela ao marido. Ele respondeu com um aceno de cabea para Henry.
- Ele diz que ainda no.

Houve um rugido quando a locomotiva atingiu a velocidade mxima. Depois comearam as palmas.

- Queremos o Gordon! Queremos o Gordon!
- Pronto, agora - disse Henry.

Gordon esticou a mo a Ellie.

- No, s voc! - disse Henry rispidamente. Gordon olhou pouco -vontade para Ellie.

- Ela vai mais tarde - instruiu Browning. - Quando agradecer  sua mulher, a multido comear a gritar por 
Ellie. - Ele retirou a mo dela da de Gordon, -  a que entra.

Gordon hesitou, depois abotoou o casaco do fato e avanou sob os holofotes. O bramido era 
ensurdecedor. Acenou na direco do brilho e apontou intencionalmente para ningum em particular. 
Pegou num balo e atirou-o de volta para a multido. Depois subiu ao pdio, examinou o aglomerado de 
microfones e ergueu as mos para silenciar os aplausos. Os gritos aumentaram alguns decibis e depois as 
lderes das claques do liceu iniciaram outra locomotiva.

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Gordie! Gordie! Gordie!

Ele acenou vagamente pedindo ordem, depois fez um gesto expressando a sua derrota e submeteu-se 
humildemente  adorao da multido.

O frenesim, durou vrios minutos, num tom suficientemente elevado para afundar a entrevista de uma reprter 
de televiso local ao muito admirado senador de Rhode Island.

- Trata-se certamente de uma vitria popular - gritou ela e depois ambos acenaram com as cabeas em unssono.

Entretanto, Gordon descera do pdio e movimentava-se ao longo do palco, estendendo a mo 
s que se esticavam para lhe tocar.

- Obrigado pela vossa ajuda. No o teria conseguido sem vocs.  uma vitria vossa tambm. - Distribuiu 
lugares-comuns por rostos perdidos nas luzes. Mas quando voltou a subir ao pdio, o rugido calou-se 
dramaticamente. Agora havia vozes individuais.

- Congressista Gordon Acton! - Veio de um dos lados do ginsio.

- Presidente Gordon Acton! - Foi a resposta do outro lado. Depois risos, com Gordon a participar.

- Meus bons amigos - tentou ele. Ainda no se conseguia fazer ouvir.

- Meus bons amigos... - Agora os que tinham gritado na multido exigiam silncio. O barulho transformou-se num 
murmrio de fundo.

- No mereo ter tantos e to bons amigos - gritou Gordon. A observao desencadeou nova desordem. 
Gordon levantou as mos e desta vez o gesto conseguiu repor um pouco a ordem.

- E no mereo uma esposa como a Ellie!

- Ellie! Ellie! Ellie! - Comeava a formar-se uma nova locomotiva. Na parte lateral do palco, Henry disse a Ellie:

-  a sua deixa.

- Avano apenas at ele?

- Sim! - Mas imediatamente. - No, espere! Henry tirou uma rosa de um dos arranjos de flores.

- Leve-a consigo. D-lha quando ele lhe pegar na mo.

- Oh, Jesus - murmurou ela com averso. Avanou para o palco sem a flor, ouviu gritarem o seu nome e olhou 
de soslaio para as luzes. Limita-te a sorrir, lembrou Ellie a si mesma. Vai at 
ao Gordon e agarra-te a ele.

Gordon desceu, pegou-lhe na mo e ajudou-a a subir  sua frente.
- Gordon! Ellie! - Este novo cntico refrescou o entusiasmo.

Ela continuava a no conseguir vislumbrar um s rosto que fosse. Sorriu e acenou fingindo encontrar velhos 
amigos. Depois Gordon lanou subitamente as

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mos unidas de ambos ao ar como que anunciando um novo campeo. Ela sentiu o soutien saltar-lhe 
por cima do peito e tentou puxar a mo para baixo. Mas Gordon elevou-a mais ainda noutra saudao de vitria. 
Por fim, ele desistiu de animar a claque e acenou  multido deixando-a quase em silncio. Finalmente, meia 
hora depois de ter chegado ao liceu onde os lderes republicanos do distrito tinham reunido um exrcito de 
apoiantes, Gordon. conseguiu lanar-se no seu preparado discurso.

Agradecer a Chris Kirby, recordou ele do resumo de Henry, prestando assim homenagem ao negociante de 
Cadillacs que o desafiara nas primrias para o lugar vago nos republicanos. Uma campanha 
limpa e um debate inteligente foram os primeiros atributos positivos que atribura a Chris nos ltimos dois meses. 
Convidou o adversrio derrotado e todos os seguidores deste a juntarem-se a ele na luta por um bom governo.

Baixar impostos, restringir os gastos do governo, melhorar a educao, combater o crime e dar aos idosos a 
dignidade que merecem eram os outros pontos que Henry queria que ele mencionasse,

- Nada de pormenores - aconselhara Browning. - Apenas uma coisinha de nada para todos.

Depois o grito de guerra. A luta no chegara ao fim; estava apenas no incio. Novembro estava apenas a cinco 
meses de distncia, logo no fim do Vero. No havia praticamente tempo para apresentar as questes aos 
eleitores nem para responder s mentiras e distores que j emanavam do campo democrtico. Teriam de 
fazer o mximo dos esforos para levar esta candidatura  vitria e conferir uma representao condigna ao 
distrito no Congresso dos Estados Unidos.
- Posso contar convosco? - gritou Gordon.

Mais dez minutos de berros e chuva de confetis responderam  pergunta. E depois terminou. Os 
seguranas contratados conduziram-no a ele e a Ellie por entre a multido. Distriburam cumprimentos pelas 
centenas de mos que se lhes ofereciam, agradeceram a dezenas de desejos de boa sorte, mas nunca 
interromperam a marcha em direco s portas duplas de emergncia no fim da sala. Depois correram para a 
limusina que os esperava como uma noiva e um noivo a fugir da igreja. O carro escapou ao brilho das luzes da 
escola e dirigiu-se para a paz da casa de Newport.

Assim que se viram na escurido, Ellie comeou a contorcer-se, tentando enfiar a mo direita na manga do brao 
esquerdo.

- Reparaste? - perguntou ela.
- Reparei em qu?

- Espero que ningum tenha reparado.
- Que ningum tenha o qu?

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- Reparado.

- De que ests a falar?

- De me teres levantado o soutien um pedao acima da cabea. Ele olhou para o local onde a mo 
direita dela andava  pesca.
- A srio?

- Quando me ergueste a mo acima da cabea, a copa do soutien saltou do stio.

Gordon riu-se, um riso silencioso a transformar-se num urro.

- No vais achar assim tanta graa quando vires as fotografias da tua mulher de trs seios. Tentei escond-lo 
cruzando os braos. Depois olhei para baixo e vi que a copa do soutien estava no cimo do brao e 
que o seio estava abaixo dele. Devo ter parecido uma vaca.

- Estavas ptima.

Encontrou a ala elstica e conseguiu coloc-la na posio certa.

- No sou boa nisto. Detesto poltica - disse ela enquanto aconchegava o peito.

- De que ests a falar? s natural.

- Uma qu natural? O que  que tem trs seios?

- Ningum reparou - disse Gordon, chegando-a a si. Ela relaxou no ombro dele.

- Se o Henry Browning disser uma palavra que seja...

CAPTULO DOIS

As crianas foram as primeiras a acordar e correram para o quarto dos pais quando o sol tentava encontrar 
espao entre as frinchas das persianas. Timothy mergulhou na cama de casal, tal como fazia sempre que 
estavam em casa, e comeou a lutar com o pai. Gordon fingiu terror pelo ataque do menino de cinco anos e 
escondeu-se da almofada que o rapaz tinha na mo. Molly, de nove anos, ficou pacientemente  espera da 
sua vez. Era demasiado sofisticada para saltar simplesmente para debaixo do cobertor dos pais; comeava a 
suspeitar que a cama deles era um local privado. Porm, continuava a querer os abraos e beijos que 
acompanhavam a chegada a casa. Gordon rendeu-se  energia dos filhos e seguiu-os at  cozinha onde 
projectaram o pequeno-almoo. Meia hora depois esgueirou-se de novo pelas escadas acima para levar o 
caf da manh a Ellie.

O quarto abria-se para um alpendre construido sobre a fachada leste, vulnervel ao vapor salgado que 
explodia nas rochas e inundava o ar, e voltado para o nascer do Sol. No mundo inteiro, este era o local 
preferido de Ellie, que lamentava cada momento de ausncia.

- Poltica - queixou-se ela para o vapor que saa da chvena de caf. A candidatura de Gordon estava a 
arrast-la para fora da sua prpria vida, para longe dos filhos e do trabalho. Antecipara as intruses da 
noblesse oblige quando casara e entrara para a famlia Acton, mas nunca imaginara 
que essas intruses pudessem ser to desenraizantes.

- Porqu? - perguntara ela a Gordon quando ele lhe disse estar a pensar em preencher a vaga para o 
Congresso.

 algo que devo fazer.

Porque  que o deves fazer? No tens escolha?

Creio que  algo que quero fazer. As outras coisas tomam conta de si mesmas. Isto  algo que 
posso afectar.  um local onde me posso manifestar.

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Ellie no o desencorajara. Pusera de parte a sua carreira acadmica para poder estar com ele em eventos 
importantes. Cedera a cozinha  governanta. Mais perturbador ainda, entregara os filhos a amas durante o 
dia e, muitas noites, correra para casa tarde para os encontrar j a dormir.

- Poltica - murmurou ela novamente.

Mas tambm tinha havido benefcios, sendo o mais importante o reavivar do seu casamento. Era difcil 
fazer qualquer coisa importante para Gordon, que estava habituado a que lhe fizessem tudo. Mas com a 
formao dela em educao especial, tornara-se um smbolo das promessas de Gordon de melhores 
escolas. Ele submetera-se publicamente aos pontos de vista dela e admirara abertamente a sua 
determinao em mandar os filhos para as escolas pblicas. Havia at a possibilidade dela se tornar o czar 
educativo do estado.

Tambm ela contribura com um pouco de histria. Ellie era Ellie Williams, descendente directa de Roger 
Williams. As suas raizes no estado remontavam a tempos em que ainda nem sequer era estado, nem mesmo 
colnia. Enquanto os Actons tinham construido navios em Narragansett desde a Guerra Civil, os Williams 
tinham lutado pela tolerncia religiosa na rea desde 1650. Foi o facto de serem quem eram mais do que 
aquilo que Gordon representava que esmagara as esperanas do maior negociante de 
Cadillacs do estado.

E, havia a classe evidente dela. Aqui estava uma mulher de meios casada com um homem de meios ainda 
mais vastos. Podia fazer com que tudo aquilo em que tocasse se tornasse um capricho seu. Optara por se 
envolver na resoluo de problemas de escolas com insucesso e, mais importante, de crianas com 
insucesso escolar.

Mesmo que um eleitor no se identificasse com um mido rico cuja famlia fizera fortuna a vender botes 
salva-vidas  Marinha na Segunda Guerra Mundial, era fcil admirar a sua encantadora esposa. Ellie voltou 
a sentir-se importante.

Gordon avanou silenciosamente para o alpendre aberto e deixou-se escorregar para uma das cadeiras 
Adirondack, pousando o caf no brao desta.

- Esto alimentados, vestidos e hipnotizados pela televiso - anunciou ele.

-  Alguma coisa educativa? - perguntou Ellie.

- Wile E. Coyote - riu-se Gordon. - No faz mal desde que os eleitores no descubram.

Partilharam o nascer do Sol e o aroma a ar salgado.

- Gordon, ontem o Henry estava a falar em ver-me durante o Vero. No vais precisar de mim durante o 
Vero, pois no?

- Eu preciso sempre de ti, na Primavera, vero, inverno e Outono. - Comeou a cantarolar a cano de 
Camelot.


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- Quero dizer para a campanha.

- No tanto. As primrias foram o verdadeiro teste. A ltima vez que o distrito foi 
democrata foi durante a Grande Depresso.

- Ento posso contar com o meu Vero. Ele acenou com a cabea.

- Da forma como combinmos. No Cape onde posso acabar a minha maldita tese.

Ele voltou a acenar.

- Com uma ama para no ser constantemente interrompida?

- Certo - disse Gordon. - Longe da poltica. Longe do Henry Browning. Excepto 
uma apario ocasional de vez em quando. E eu vou l ter todos os fins-de-
semana. Talvez at alguns dias durante a semana.

Ela encostou-se para trs e suspirou de prazer.
- At j tratei da tua ama - disse ele.

Ellie sentou-se muito direita.

- Dependente da tua aprovao, claro - apressou-se ele a acrescentar.
- Tu ests a tratar da minha ama.

- No propriamente. Isso  contigo.

- Estava a pensar na Trish Mapleton. Tomou bastantes vezes conta dos midos no 
Vero passado e a Molly gostou muito dela.

Gordon acenou com a cabea.

- Ento que seja a Trish Mapleton.

Ellie olhou fixamente para ele durante um momento.

- O que foi, Gordon? O que  que no me ests a contar? Ele tentou mostrar-se 
inocente de qualquer fraude possvel.

- Nada. Nada mesmo.  que h uma rapariga... de 19 anos a tirar um bacharelato... 
escolhida pela turma para discursar quando terminou o liceu. Pensei em combinar 
contigo para que a entrevistasses.

- Conheo-a?

- Acho que no. Chama-se Theresa. Theresa Santiago.  de Tiverton. Zona de 
muitos operrios.

Eu conheo Tiverton - ripostou Ellie. Olhou desconfiada para o marido.  uma 
espcie de prodgio. Trabalhou para ajudar a famlia enquanto vencia todo o tipo 
de honras acadnicas. Agora anda a tentar ganhar dinheiro para a faculdade - 
disse Gordon para preencher o que se estava a tornar um silncio pesado.

 ideia do Henry - concluiu Ellie.

No,  minha. O Henry s chamou a ateno para a oportunidade. Como fez 
sentido para mim, pensei em falar-te do caso. E parece que j tenho a tua 
resposta.

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 - Levantou-se da cadeira Adirondack. - S me pareceu que, com 
o teu interesse pela educao, isto te pudesse atrair. - Pegou na chvena de 
caf e comeou a dirigir-se para dentro do quarto.

- Santiago - disse Ellie lentamente, -  portuguesa?

- No - disse Gordon, voltando-se para trs desde a porta.
- Minoria?

-  hispnica. A famlia veio de Santo Domingo.

- E o Henry quer que os eleitores te vejam a agitar o cadinho. Ou a mexer a 
salada ou seja qual for a metfora politicamente correcta.

Gordon exaltou-se e voltou a pousar a chvena no brao da cadeira.

-j te disse que a ideia foi mnha. E no tem nada de racial. Trata-se 
apenas de pura lgica. A rea limtrofe do estado  uma fortaleza 
democrtica. As pessoas de l no se importam muito com os fidalgos de Ocean 
Drive.

- Porque somos todos americanos de origem e eles so todos imigrantes. E 
isso a mim soa-me a racial.

- Pronto, chama-lhe racial se quiseres, mas o meu termo no  esse. Chamo-
lhe poltica inteligente. Se conseguirmos derrubar os democratas na rea, 
podemos transformar esta eleio numa maioria esmagadora. Seria ptimo se 
algumas dessas pessoas chegassem at ns e penso que uma forma de 
conseguir que tal acontea  sermos ns a chegar at eles. Esta rapariga  um 
cone da vizinhana.  a criana-cartaz para as escolas que esperas construir. 
Apenas me pareceu que vocs as duas juntas iam arrasar.

Ellie no fez qualquer tentativa para esconder a sua raiva.

-Assim, em vez de trabalhar na minha tese, tenho de entreter a criana-cartaz 
bem como os meus filhos. E aparecer em todas as oportunidades de fotografia 
com a minha companheira latina. Meu Deus, como tudo isto me cheira a 
esturro, Cheira mesmo a Henry Browning.

-j disse que a ideia foi mnha. E no pretendo que entretenhas a 
menina Santiago. Espero que ela cuide dos nossos filhos para que tu possas 
terminar a tese.

Ellie voltou as costas, amuada.
- Aposto...

Gordon tornou-se agressivo,

- Foi isso que pensei, Com base, em parte, no facto de no teres ficado muito 
satisfeita com a Trish Mapleton no Vero passado.

- A Trish foi ptima... Ele interrompeu-a.

- No a apanhaste debaixo de uma manta com um nadador-salvador quando 
devia estar a olhar pelos midos?

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- Foi apenas um incidente.

- E no ficaste preocupada com o que a Molly podia ficar a pensar com tudo 
aquilo a acontecer a trs metros do local onde construa um castelo de areia?
- Bem, talvez a Trish Mapleton no seja a escolha perfeita - concedeu

Ellie. - Mas penso que devia ser uma das raparigas que passa frias no Cape.
- Cabelo loiro, olhos azuis e belos dentes - disse Gordon sarcasticamente. 
Ellie voltou a atacar.

- No foi isso que quis dizer. Mas j que tocas no assunto, que tipo de 
experincia pensas que uma mida, de minoria tem de um Vero no Cape? 
Pensas que vai passar o tempo livre no clube com o resto dos midos? Pensas 
que ser convidada para os churrascos de marisco?

- Ellie, no estava a planear adopt-la. Estava a pensar em dar-lhe um 
emprego onde pudesse arranjar dinheiro para a faculdade, aprender contigo 
e desfrutar da praia pelo meio. Imaginei que ela ficaria a cuidar dos nossos 
filhos enquanto tu e eu fssemos aos churrascos.

- E arrecadar mais mil votos pelo caminho - acrescentou ela.

- E arrecadar mais mil votos pelo caminho - concordou Gordon. -  assim to 
mau? Se uma ideia resulta para mim e resulta para ti e para os midos, porque 
 que achas que tem de vir do Henry Browning?

Este foi o seu ltimo comentrio. Saiu tempestuosamente do alpendre, 
atravessou o quarto e desceu as escadas para se juntar aos filhos e a Wile E. 
Coyote. Ellie ficou no alpendre enquanto a raiva arrefecia e se transformava 
em pena de si mesma.

- Maldita poltica - resmungou ela para si mesma vezes sem conta. Demorou 
meia hora a levantar a moral para se embrenhar na actividade do dia.

CAPTULO TRS

Gordon afastou-se do ancoradouro e rumou para oeste na direco de Jamestown, penetrando no vento 
gelado que mantinha viva a memria do Inverno.

- A motor ou  vela? - deu ele  escolha.

Molly disse " vela" em simultneo com a deciso de Tim de "a motor".
- Est bem, um pouco de cada - decidiu Gordon.

Eram uma famlia nuclear no seu momento mais nuclear, todos juntos no cockpit do 
Lifeboat, o grande veleiro de um s mastro, baptizado de acordo com a fonte da fortuna da 
famlia. Sentado ao leme, com o vento a varrer-lhe o cabelo grisalho, Gordon desempenhava o papel que 
mais gostava. A sua mo forte sobre o leme transmitia uma sensao de comando. Era ele que mandava, 
capaz de levar o barco para onde achasse melhor. O corta-vento, por cima de uma camisa de colarinho 
aberto, retratava o seu lado informal, um capito cuja autoridade era evidente sem divisas especiais nem 
smbolos de patente. O fsico alto, musculado, em forma - anunciava a sua fora. Porm, o rosto, com olhos 
azuis muito abertos e lbios cheios que pareciam sempre prestes a irromper num sorriso, moldavam a 
presena fsica com uma promessa de preocupao e compreenso. Era esta a sua auto-imagem, que 
representava para que pudesse ser partilhada pela mulher e pelos filhos e agora pela sua famlia poltica 
mais abrangente. Henry Browning quisera enviar um fotgrafo muito dotado juntamente com eles quando 
soube que Gordon ia passar o dia, a seguir ao lanamento da candidatura, a passear de barco com a famlia.

- Ele s l vai estar a tirar fotografias informais. Uma pequena mquina. Nem vo dar por ele a bordo. - Mas 
Gordon, antecipando a reaco de Ellie, vetara imediatamente a ideia.

- Agora no - dissera ele a Browning.

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E Henry acatara o veredicto.

- Tem razo. Fica para mais tarde quando puder incluir a Theresa Santiago no cenrio familiar.

Ellie estava sentada no lado oposto, incapaz de relaxar enquanto observava os filhos. Eram marinheiros 
experientes; Molly fizera viagens com eles quando tinha apenas trs anos e j capitaneava o seu pequeno 
bote  vela no programa para jovens do clube. Tim fora levado para bordo mesmo antes de saber andar. 
Tinham ambos coletes salva-vidas e estavam sentados na parte baixa do cockpit onde no 
corriam o perigo de serem lanados borda fora pelas ondas ou de sofrerem uma pancada no costado. Mas 
o mar era sempre incerto e Ellie gostava de certezas para os filhos.

Era, em muitos aspectos, o oposto do marido. Enquanto ele era fsico, ela era intelectual. Enquanto ele era 
robusto e musculado, ela era magra e frgil. No doentia, em nenhum dos sentidos da palavra, mas mais 
erecta do que curva, mais angular do que malevel. Tinha mais de um metro e setenta e cinco e, no 
entanto, pesava menos do que sessenta quilos, facto que explicava como o souten conseguiu 
passar-lhe por cima do peito. No Vero, praticamente nem o usava, preferindo vestir uma camisola justa 
para que as formas por baixo constitussem ocasionalmente uma sugesto provocadora ao mover-se. O 
rosto era mais interessante do que encantador, com um longo nariz e feies fortemente delineadas que se 
assemelhavam ao rosto do seu distinto antepassado, cujo retrato estava pendurado no vestbulo do 
parlamento. Os olhos eram castanhos mas adoptavam tons esverdeados sempre que pintava, de mais claro 
o cabelo escuro que usava curto.

- Iar a vela - exigiu Molly.

- Quando estivermos no canal - respondeu Ellie.

Era uma operao que ocorria de uma forma ou de outra sempre que saam do ancoradouro.

No entanto, a Ellie faltava-lhe um pouco da segurana de Gordon, provavelmente por ter mergulhado 
tarde na carreira e no reconhecimento que o seu trabalho obteve.

Fora uma aluna de liceu indiferente cujos melhores momentos surgiram no cour de tnis, mas mesmo 
esses nunca chegaram ao nvel qualitativo dos campeonatos. Escolhera a faculdade, uma pequena escola 
para professores em Boston, por ser menos competitiva e escolhera a carreira em educao porque no 
parecia to exigente quanto uma carreira em direito ou medicina. De acordo com os padres da famlia 
Williams, estava um pouco aqum dos objectivos a atingir, opinio que talvez explicasse o facto de nunca 
ter falado aos alunos ou na faculdade sobre a sua distinta herana.

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Mas quando comeou a trabalhar com crianas de escolas pblicas, os seus interesses concentraram-se, a 
energia fortaleceu-se e a personalidade floriu. Ellie tornou-se a advogada incansvel de cada criana com 
insucesso escolar no distrito e um estorvo para administradores aterrorizados s de pensarem em 
aventurar-se para alm da sua posio.  medida que os seus novos programas foram implementados e as 
crianas perdidas recuperadas, foi reconhecida como um prodgio incansvel. O nome Wlliams associou-
se com bastante facilidade  sua nova reputao quando jornalistas e responsveis por brindes pblicos 
comearam a ver um paralelo entre a revolta contra a conformidade religiosa de Roger Williams e a 
batalha contra a apatia educacional de Ellie Williams. Foi a herana reclamada que fez dela o partido ideal 
para os poderosos Acton.

Mas, por debaixo da sua conduta ousada, Ellie continuava um pouco tmida, particularmente quando se 
tratava da segurana dos filhos e da sade da famlia. As ambies polticas de Gordon constituam uma 
ameaa  privacidade que desejava para a filha e o filho, pelo que era uma esposa de candidato pouco 
entusiasta. Da mesma forma, andar de barco, mesmo com a mestria e responsabilidade do marido, 
representava um perigo fsico para os filhos, pelo que Ellie era uma colega de bordo pouco entusiasta. 
Fora a sua preferncia por um barco fcil de manusear que levara Gordon a comprar um veleiro largo de 
um s mastro em vez de uma das mquinas mais poderosas que atravessam o oceano, que ele teria 
preferido.

- Molly... Tim? - perguntou Ellie.

Nenhum deles mostrou indcios de lhe ter ouvido a voz.

- Tenho... alis, o pai e eu temos uma pergunta para vos fazer.

Molly levantou a cabea com ateno enquanto Tim continuou a dar ns numa das cordas de amarrao.

- Estamos a pensar contratar algum para ajudar a me a tempo inteiro para o Vero. Uma rapariga que 
ficaria a viver connosco e convosco a toda a hora. Gordon centrou a sua ateno nela. Muito agradvel, 
pensou ele. Podia ter

usado palavras como babysitter ou tpo diferente de 
rapariga ou nova rapariga, que os teria posto imediatamente contra a 
ideia. Estava antes a expor a ideia sob uma luz positiva. Algum que ficaria com a famlia no Vero e com 
eles sempre que precisassem de superviso.

- E a Trish? - perguntou Molly, percebendo a questo por entre as palavras inofensivas da pergunta. - Ela 
vai ocupar o lugar da Trish?

- No - mentiu Ellie. - A Trish vai continuar a aparecer para sair convosco. Mas tem as suas coisas para 
fazer. No pode estar sempre convosco. Esta rapariga estar sempre por perto sem mais nada para fazer 
do que estar com vocs.

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Gordon deu por si a sorrir, no tanto por vender a ideia mas de admirao

pela habilidade de Ellie. Ela era uma poltica, capaz de tomar qualquer deciso agradvel junto do diverso 
eleitorado. Sabia que ela no gostava do plano, apesar de lhe estar a dar todas as oportunidades de ser 
aceite.

- Eu gosto da Trish - decidiu Molly. - Mas se a outra rapariga s estiver por perto quando a Triish no 
puder, est bem.

- E se estiverem as duas por perto de vez em quando? - perguntou Ellie, no querendo que a filha 
pensasse que a nova rapariga funcionaria apenas como substituta eventual.

Molly encolheu os ombros mostrando a sua indiferena.
- Ento posso convid-la para a conhecerem?

- Claro!

- E tu, Timmy?

Ele levantou a cabea do ninho de ratos que estava a atar na corda de amarrao.

- Gostavas de a conhecer? Ele esfregou o nariz na manga.
- Conhecer quem?

- A nova rapariga que talvez fique connosco no Cape.
- Que nova rapariga?

Ellie olhou para Gordon, sorriu e abanou a cabea.

- Acho que por ele tanto faz. Provavelmente nem se lembra da Trish do Vero passado.

Gordon debruou-se sobre o leme para lhe conseguir murmurar ao ouvido.
- Obrigado pela forma como trataste do assunto.

Ela aceitou o cumprimento.

- Pronto - gritou ele para a tripulao. - Vamos iar a vela.

Ellie deslizou em direco  popa e ocupou o seu lugar ao leme, mantendo a proa do Lifeboat 
para o vento e os aximetros indicando que soprava de popa. Molly desprendeu a escota da vela grande 
para que a verga se pudesse movimentar livremente. Gordon comeou a dar  manivela na adria 
principal, iando a vela pelo mastro acima, onde comeou a desenrolar-se e a bater com o vento. Ellie 
virou alguns pontos para estibordo para que se encapelasse e assumisse a forma da verga.

- Pronto para dar a volta - disse Ellie ao sinal de Gordon. Molly e Tim correram para a cabina, a salvo dos 
cabos que se iriam movimentar de um lado ao outro do convs. - A sotavento - gritou Ellie ao voltar o barco 
pesado contra o vento e ao direccion-lo para o canal. Abrandou o ritmo enquanto Gordon ajeitava a vela. 
Depois desligou o motor. A calma imediata foi irresistvel, a primeira

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oportunidade para entrar em contacto consigo mesma desde que Gordon anunciara a candidatura.

Ellie no quisera que ele se candidatasse ao Congresso nem fora entusiasta de nenhum dos desejos 
anteriores dele de poder. Casara com o herdeiro abastado de um negcio lucrativo e honrado, esperando 
que a posio dele lhe permitisse passar mais tempo com ela e a famlia. E, durante o primeiro ano, assim 
foi. Mas depois os barcos insuflveis tornaram-se um reino pequeno demais para o seu prncipe. Procurara 
e conseguira a presidncia de organizaes de negcios locais, dirigira comisses de comrcio do estado 
e presidira a programas de redesenvolvimento e comisses de negcios. Gordon estava perpetuamente 
envolvido e parecia prosperar com a exposio pblica, Ellie percebera gradualmente que ocupava 
apenas um pequeno compartimento do comboio expresso do marido em direco ao topo.

Era um compartimento agradvel. Quando estava com ela, o seu amor parecia genuno. Fora cuidadoso 
durante as gravidezes e mostrava-se orgulhoso dos filhos. Em dias como este, os momentos tranquilos 
entre as actividades pblicas, era um marido perfeito e um pai dedicado. Mas,  medida que a sua carreira 
se foi tornando mais vasta, os dias entre os compromissos tinham diminudo. Outros interesses exigiam cada 
vez mais do seu tempo.

Ela odiava a poltica e a ambio cega que parecia alimentar. Mas a campanha tinha pelo menos 
restabelecido o seu lugar ao lado de Gordon. Os congressistas tinham de ser vendidos ao pblico e a 
imagem familiar era considerada uma parte essencial da venda. Ela e os filhos tinham sido trazidos para o 
primeiro plano e, apesar do ritmo frentico da campanha, via o marido com mais frequncia.

Pela primeira vez no casamento, sabia que era necessria. Racionalizara os namoricos de Gordon com 
outras mulheres, mas agora a devoo fiel era obrigatria. Ela era o seu nico interesse amoroso. Ele 
mostrara estar pouco a par da carreira de Ellie na educao mas agora o papel dela como defensora das 
crianas era inestimvel. Ele tinha o brao em torno dela em quase todos os eventos pblicos e ela via-se 
subitamente a ser tratada como a rainha do seu imprio em expanso. Preferia a admirao dele na 
privacidade da famlia, mas j no havia privacidade na famlia. Por isso, aceitava-a em pblico ainda que a 
sua sinceridade estivesse sempre tingida por comentrios acerca da importncia dela para a sua imagem.

- Ellie? - Era a voz de Gordon da parte da frente do cockpit.

Ela sorriu com embarao, percebendo que a sua mente estava algures l atrs no rasto deixado pelo 
veleiro.

-  to lindo - respondeu ela.

 23

Ele olhou de lado para a gua de prata que reflectia as nuvens douradas e depois para a linha costeira 
rochosa colorida de Primavera.

-  mesmo - disse ele como se, de repente, tivesse arranjado tempo para olhar para fora de si mesmo. - 
Fantstico,

- Ias perguntar-me qualquer coisa - lembrou-lhe Ellie quando ele voltou a ateno de novo para ela.

- Era apenas sobre a rapariga. Vais pelo menos t-la em considerao, no vais?

Ela acenou com a cabea sem grande entusiasmo.
- Os midos parecem no se importar.

- Porque  importante. O Henry pensa que vai ajudar a apagar o estigma do sangue azul. Ele pensa que 
me dar muito mais apoiantes.

O Henry, pensou ela, com cuidado para no mostrar o seu desespero. A estratgia dele estava a 
intrometer-se em todos os cantos do relacionamento de ambos, at mesmo na escolha de companhia para os 
filhos. Meu Deus, como odiava a poltica.

CAPTULO QUATRO

Ellie estava to nervosa como se fosse ela a entrevistada. Percorreu o corredor de entrada, olhou para o 
relgio - que parecia estar parado - e espreitou atravs das janelas para a entrada vazia. Theresa Santiago 
s devia chegar dali a cinco minutos, mas Ellie andava nervosa de um lado para o outro h 20 minutos.

Para o bem de Gordon, queria que o encontro corresse bem. Idealmente, Theresa devia encant-la, os 
midos ficariam entusiasmados e poderia dizer a Gordon que concordava que a babysitter 
e o seu ramo de oliveira para a comunidade minoritria eram a mesma pessoa. Mas o instinto dizia-lhe 
que o encontro ia ser um desastre. Molly j decidira que queria a Trish Mapleton como 
babysitter de Vero. Estava agora um ano mais velha e Ellie desconfiava que ela queria 
outra oportunidade para descobrir o que se passava debaixo da tal manta. Timmy fora um passo mais 
longe, anunciando que queria que a me passasse o Vero a cuidar dele e que no ia ser simptico nem 
com a Trish nem com a Theresa. E, claro, a criana-cartaz da minoria era ideia de Henry Browning. Como 
resultado, Ellie estava predisposta a no gostar de Theresa. Planeara um Vero produtivo mas relaxante 
interrompido apenas por algumas obrigaes da campanha de Gordon. Agora estava  espera da chegada 
de uma jovem que podia estragar tudo?

Viu o carro assim que ele virou para a longa entrada de automveis. Instintivamente, foi at  janela e 
encostou o nariz ao vidro na esperana de que a conduta e aparncia da rapariga fossem um raio de sol. 
Mas a esperana morreu quando o carro se aproximou e se tornou ntido.

Era um carro velho, duas eras de design atrs da aerodinmica da indstria actual e estava pintado 
numa cor que podia ter sido qualquer coisa entre um cinza sujo e um preto desmaiado. japons, pensou ela 
imediatamente. Um daqueles coup sem rosto definido que tentavam passar por carros de 
passeio

 25

europeus. Quando parou em frente  garagem, conseguiu ver as margens gastas dos pneus e as jantes fracas a 
que faltavam tampas. No Cape, o carro teria sido rebocado at ao porto e afundado como ancoradouro 
permanente.

Depois Theresa saiu do carro e olhou para a porta da frente, apanhando Ellie no acto de espreitar a convidada 
esperada. Ellie encolheu-se;

o cabelo estava despenteado e o vestido era um pesadelo. A jovem, que deu a volta at  frente do carro 
agarrada a uma carteira que provavelmente pedira emprestada, flutuava no espao entre duas geraes. 
Trocara as calas de ganga dos seus contemporneos pelo vestido de negcios formal dos seus antepassados e 
o desconforto era aparente.

Ellie fixou o seu sorriso mais caloroso e abriu a porta.

- Theresa? - disse ela, usando o nome como pergunta.

A jovem ficou imvel como se tivesse sido apanhada a levar uma televiso de uma montra partida.

- Sim. Venho ter com a senhora Acton.

- Eu sou a senhora Acton. Entre, por favor. - Ellie afastou-se para o lado, desobstruindo a entrada mas, mesmo 
assim, Theresa conseguiu manter tanto espao entre ambas quanto as dimenses da entrada permitiam. Depois, 
 medida que foi entrando, o rosto destacou-se do corpo para que os grandes olhos pudessem medir o tamanho 
e a moblia da sala de estar.

- Entre - disse Ellie em tom agradvel. - Vou buscar qualquer coisa para beber. Quer um refrigerante? Ou uma 
limonada?

Theresa continuou a olhar pasmada para a sala de estar como se estivesse a ver atravs das barras dos portes 
celestiais.

- Claro. Obrigada - respondeu ela para o espao.

Meu Deus, pensou Ellie. Desastre. Pior do que tinha imaginado. Encheu dois copos de gelo e verteu uma lata 
de Coca-cola Diet sobre os cubos.

-j comeu? Quer que lhe faa uma sanduche ou outra coisa? - ofereceu ela ao entrar na sala.

- No, obrigada - disse Theresa do centro do sof do outro lado da enorme mesa de apoio. Mantinha a carteira 
agarrada sob os braos cruzados como se levasse o cheque do ordenado por um beco escuro.

Os atributos fsicos de Theresa eram imediatamente visveis. Tinha uma pele bronzeada e macia de cor mulata, 
um rosto de propores perfeitas e olhos azuis incrivelmente claros. Branca, talvez com um escravo negro 
preso  genealogia e presena clara de um inspector irlands que passara revista s cabinas. Era uma criana do 
mundo, o receptculo ideal de adulao por parte de um poltico que precisava de ser um homem do povo. Mas 
as deficincias eram igualmente visveis e muito mais numerosas.

26                             

Primeiro havia o cabelo . Destacava-se da cabea formando uma moldura grande demais para o rosto. 
Precisava de ser desbastado.

Depois havia o vestido. O padro cinzento e azul era deliciosamente conservador, apropriado certamente 
a uma seCretria de um escritrio de advocacia. Mas o decote estava debruado a renda branca 
pesadamente bordada e bem subida. Parecia quase o suporte de uma trepadeira ao elevar-se at ao 
cabelo. A mesma renda delineava os bolsos falsos e terminava a bainha. As meias eram cinzentas e 
os sapatos pretos tinham acabado de sair da caixa.

Parecia um pouco pesada, no para um adulto que se teria sentido confortvel com o vestido, mas 
para a jovem que acompanhava o rosto. A sua figura era bvia e atraente, mas mais madura do que 
as tpicas capas da Cosmo. As raparigas do Cape, que tinham treinadores pessoais e ostentavam a 
sua anorexia, no a reconheceriam como uma das suas.

- Bem, conte-me qualquer coisa a seu respeito - tentou Ellie para comear. Theresa clareou a garganta e 
manteve os olhos fixos nas mos, que estavam agora dobradas sobre a carteira cativa.

- Sou finalista do liceu - comeou ela. - Nos dez por cento melhores da minha turma e no quadro de honra.

- Soube que representou a turma no discurso final - ajudou Ellie. Theresa acenou com a cabea. 
Depois abriu subitamente a carteira e tirou um envelope selado.

- Tenho uma carta de referncia do meu director. - Esticou-se sobre a mesa para entregar a carta a 
Ellie, que pegou nela, abriu-a e mostrou grande interesse a l-la.

- Foi a melhor da turma - deixou Ellie escapar ao ler os comentrios do director da escola.

Theresa acenou com a cabea.

- E manteve um emprego depois das aulas e aos fins-de-semana? Outro aceno de cabea.

- Que tipo de emprego?

- Na Digital Electronics, em Fall River. Estou l a tempo inteiro agora. Sou inspectora de qualidade da 
linha de produo de placas de circuitos.

Ellie no conseguiu esconder a sua surpresa.

-  um emprego de grande responsabilidade. Gosta?

-  um pouco aborrecido. E nunca se acaba. As placas esto a descer a linha quando se entra e continuam a 
descer a linha quando se sai. - Sorriu perante a ironia, o que deu a Ellie um motivo para rir.

- Ento porque  que o escolheu?

Agora Theresa parecia surpreendida pela densidade da pergunta.

 27

- Pelo dinheiro. Pagam muito melhor do que os empregos de vendas. 

uma fbrica sindicalista... - Calou-se assim que disse "sindicalista", lembrando-se que a palavra era muito 
ofensiva para quem vivia em Ocean Drive.

- E as actividades escolares? - perguntou Ellie.

- Estou agora a tirar um bacharelato. E no tenho actividades. Mas no liceu estive na orquestra. Toco flauta. 
- Voltou a olhar fixamente para as mos at se lembrar de que havia salvao dentro da carteira. - Tenho 
uma recomendao do meu professor de msica. - Tirou o envelope oficial para fora e entregou-lho por 
cima da mesa.

Ellie leu rapidamente, depois parou e voltou a ler.

- Aqui diz que foi msico principal. E que foi solista no concerto anual. Theresa acenou de novo com a 
cabea.

- O que tocou?

- O Allegro do concerto de Mozart para flauta.
- H quanto tempo toca?

- Desde os cinco anos. Mas no incio no era bem uma flauta. Era mais um apito de lata.

Ellie levantou os olhos acima da carta, tentando descobrir a pessoa que estava na sua frente, escondida 
atrs do vestido de outrem. Era uma jovem muito talentosa, pertencente obviamente a outro planeta 
acadmico do que Trish Mapleton e os seus amigos, que se sentiam pressionados por ter de rabiscar um 
recado Para o leiteiro.

Theresa voltou  carteira, retirando mais outro envelope.

- Tambm tenho uma carta do meu chefe na Digital Electronies - disse ela. Ellie abriu a carta ansiosamente, 
esperando quase saber que Theresa tinha inventado um novo chip de computador.

A menina Santiago  a nossa melhor inspectora 
de qualidade, tendo falhas deproduo de 
apenas 0,06por cento das unidades da sua 
linha, menos de metade dos erros de todo 
opessoal de inspeco e menos de um quarto da 
mdia da indstria.

Ellie leu vrios pargrafos semelhantes de uma empresa que media a sua qualidade e que provara com 
documentos que Theresa excedia todos os padres. Mas foi o ltimo pargrafo que a deixou perplexa.

A menina Santiago alcana esses resultados 
apesar do tempo que passa a ajudar os outros 
trabalhadores. Quando encontra um erro, no se 
limita a rejeitar a placa. Leva ela prpria o erro 
at ao computador adequado e ajuda o tcnico 
a desenvolver procidimentos correctivos.

28                             

Ellie ficou muito impressionada com as 
credenciais e admirou sinceramente a modstia 
quase apagada da jovem. Mas simplesmente no 
ia dar certo; as pessoas do Cape estavam-se 
nas tintas para linhas de produo. 
Interessavam-se por carros, barcos, moda e 
festas. A qualidade s se tornava importante 
quando as suas aparelhagens de som se 
avariavam. E, embora muitos deles fossem 
benfeitores de cinemas e orquestras, no 
conseguia lembrar-se de um s que soubesse o que era um 
allegro de flauta e isso seria doloroso para ela, bem como um problema para os filhos.

A voz suave de Theresa interrompeu-lhe os pensamentos.

- A descrio do emprego dizia que  professora, a trabalhar numa tese? Apresentou as ltimas palavras da 
pergunta como se mal pudesse acreditar no que estava a dizer.

-  verdade - respondeu Ellie. - Infelizmente, a tese tem-se arrastado por vrios meses sem grandes 
progressos. Tenho mesmo de a acabar! - Talvez fosse essa a sua desculpa. Por estar encostada  parede e 
por no poder simplesmente dar uma oportunidade a uma babysitter nova e 
inexperiente.

- Talvez eu pudesse ser til - sugeriu Theresa, como se o pensamento fosse absurdo. - interesso-me muito 
por educao. Gostava de ser professora. E desenrasco-me muito bem dentro de uma biblioteca. Depois 
de tratar dos seus filhos, eu podia... talvez pudesse ajudar como... uma espcie de assistente de 
investigao. - Parou diante da temeridade da sua prpria sugesto. - Bem, no seria bem uma assistente, 
mas talvez apenas... uma espcie de... moa de recados.

-  uma ideia muito interessante - disse Ellie, surpresa por se tratar realmente de uma boa ideia. Mas depois 
apercebeu-se de que no se queria mostrar entusiasmada. A rapariga no ia dar certo e no valia a pena 
dar-lhe esperanas.

- Fale-me da sua experincia com crianas. j trabalhou alguma vez como babysitter a tempo 
inteiro?

Theresa abanou a cabea lentamente.
- No. Entre o emprego e a escola...

- Claro - disse Ellie para a despachar. - Quando  que ia ter tempo? Mas sabe que essa tem de ser a minha 
primeira preocupao. Os midos conseguem arranjar tantas formas de se meter em sarilhos. No se pode 
desviar os olhos deles um instante.

- Eu sei - disse Theresa. - Tomo conta dos meus irmos e da minha irm mais pequena aos sbados  noite e 
a maior parte dos domingos.  difcil mant-los juntos onde possa tomar conta de todos ao mesmo tempo. 
Por vezes s consigo que calcem os sapatos para irem  igreja.

Mant-los todos juntos?  cabea de Ellie acorreram imagens de pastores a tentar que o rebanho 
avanasse numa s direco.

 29

- Quantos irmos e irms tem? - perguntou.

- Cinco. Tenho quatro irmos e uma irm. isso contando apenas com os mais novos. Tenho duas irms mais 
velhas.

- Toma conta de cinco crianas aos sbados  noite e aos domingos?

- A maior parte dos fins-de-semana. Os meus pais tm de ir at Bridgeport para tomarem conta dos pais 
deles. E as minhas irms mais velhas so casadas. Por isso fico eu no comando.

Ellie ficou a olhar em silncio, sabendo que precisava de ajuda para tomar conta de apenas duas crianas. 
A jovem tinha j mais responsabilidades familiares do que ela ou as amigas. Porm, era calma e composta, 
enquanto muitas das amigas de Ellie estavam viciadas em Xanax ou Valium.

- Quem toma conta dos seus irmos e irms se estiver a trabalhar comigo?
- Os meus pais alternaro os fins-de-semana. E as minhas irms ajudaro se eles tiverem algum problema. 
Esto todos prontos a ajudar. A minha me diz que se trata de uma grande oportunidade para mim.

Ellie recostou-se na cadeira e respirou fundo.
- Quer conhecer os meus filhos? - sugeriu.

CAPTULO CINCO

Gordon ficou surpreendido com o entusiasmo de Ellie.

- Cinco irmos e irms - continuava a repetir abanando a cabea com genuna admirao. - E nem sequer 
puxou o assunto. Fui eu que falei nisso.
- No estava no currculo dela? - perguntou ele.

- No tinha currculo. Apenas algumas cartas de recomendao e nem sequer realou os pontos fortes, 
Disse-me que tocou flauta na orquestra. A carta dizia que foi msico principal e solista. Disse que 
trabalhava em montagem de electrnica. O patro diz que ela  a melhor inspectora de controlo de 
qualidade que tm e que trabalha com algumas das pessoas mais lentas para as ajudar a melhorar as 
qualidades.

- No admira que a tenhas aprovado.

- Fui atropelada. Esta mida  mais competente do que eu. Mas ainda estava  procura de uma forma de me 
escapar. Quer dizer, havias de v-la. Nunca vai ser feliz no Cape. Por isso levantei a questo dos midos 
para poder deit-la um pouco abaixo. Queria ser capaz de lhe dizer coisas muito positivas mas confessar-
lhe que realmente precisava de algum com mais experincia.

- Como a Trish Mapleton?

- No, no esse tipo de experincia. Mas foi a que ela mencionou os cinco midos de que 
toma conta. E o mais espantoso de tudo foi no fazer transparecer que fosse alguma coisa de especial, 
Como se toda a gente passasse o fim-de-semana a tentar impedir que os cinco filhos se matassem uns aos 
outros. E sabes qual  a parte que ela considera mais difcil? Vesti-los a todos 
para rem  igrja! Meu Deus, arranjei motivos para no ir  igreja desde 
que soube que estava grvida da Molly, Tremo de medo de voltar quando ela se comear a 
preparar para o crisma.

- Ento contrataste-a.

 31

- No, primeiro queria ouvir a opinio da Molly e do Tim, Por isso apresentei-lhos e depois deixei-os sozinhos 
aos trs.

- E eles adoraram-na?

- O Tim, adorou. Ou, pelo menos, disse que era simptica.
- A Molly no.

- No! E foi exactamente isso que me decidiu. Gordon, sabias que a nossa filha  uma pequena racista?

Ele pareceu horrorizado.
- A Molly?.

- Apetecia-me esgan-la! No queria que a Theresa fosse viver connosco por ser mais escura do que ns.

- Ela disse isso?

- Vou citar. "Nenhuma das meninas vai querer brincar comigo se tiver de levar uma daquelas pessoas."

- "Daquelas pesssoas?"

- Foi o que ela disse e s piorou quando a repreendi. No gosta de negros, nem de hispnicos, nem mesmo de 
portugueses. "Tm um cabelo esquisito e vestem-se de maneira estpida", de acordo com a nossa filha mais 
velha. Apeteceu-me apertar-lhe o pescoo. Quer dizer, onde  que foi buscar aquelas ideias?

- Talvez as tenha aprendido na escola ou no grupo de amigas. Tu prpria disseste que no h sociedade mais 
segregada do que os miidos, na cantina de uma escola.

- Bem, este Vero vai ter de as desaprender. A Theresa conseguiu mais, contra todas as adversidades, do que 
qualquer pessoa que a Molly j conheceu. Vou certificar-me de que a nossa filha angelical aprenda a dar valor 
a isso.

Gordon de repente comeou a pensar melhor sobre os benefcios, de associar a famlia  criana-cartaz. Partira 
do princpio de que Theresa se ajustaria a uma famlia feliz, com centenas de oportunidades fotogrficas 
maravilhosas. Nunca pensara na hiptese da relao no dar resultado. Molly era perfeitamente capaz de fazer 
da vida de uma ama um inferno. Se conspirasse com os outros midos de origem americana do Cape podia 
facilmente criar um incidente. A ltima coisa de que ele precisava era da defensora da oportunidade hispnica 
em frente a uma cmara de televiso a explicar que o candidato ao congresso tinha filhos e amigos racistas.

- Bem, talvez estejamos a ir depressa de mais - tentou ele explicar  mulher. - Afinal, a Molly no passa de 
um beb.

- Que queres dizer com "ir depressa de mais"? A Molly est muito longe de ser um beb. Comeo a pensar que 
j  um adulto corrompido.

- O que estou a dizer  que tinhas razo. No foi uma boa ideia. Se a Molly no aceitar a Theresa, isso s vai 
significar mais trabalho para ti. Em particular se

32                            

estiveres a arbitrar uma tenso racial. A primeira tarefa do Vero  ajudar-te a terminar a tese.

- Que por acaso  sobre criar oportunidades remediadoras para crianas em desvantagem. Que raio, 
estaria a fazer exactamente o oposto de tudo aquilo que o meu trabalho defende.

- Mas, se a Molly...

- A Molly tem de aprender. O que  que achas que lhe estaria a ensinar se me sujeitasse s suas ideias de 
Ku Klux Man?

- Ests a exagerar - disse Gordon.

- A exagerar? A primeira afirmao social da nossa filha  que "aquelas pessoas 
se vestem de maneira esquisita e tm cabelo que no presta". E achas que estou a exagerar?

- No, no, de modo algum. Estou to chocado quanto tu. E acho que devemos mostrar-lhe que est errada. 
Mas estavas preocupada porque podia ser uma experincia terrvel para algum do meio de Theresa 
Santiago. E agora eu estou preocupado com a mesma coisa.

Ellie fez uma pausa para pensar.

- Ento temos de nos certificar de que se divirta ao mximo. Ele abanou a cabea.

-  um sentimento bonito, mas no ia dar resultado. O facto  que a Molly est certa. A maior parte dos 
nossos amigos e dos amigos dela sentir-se-iam muito confortveis de capuz e lenis vestidos...

- O qu? - Ellie ficou visivelmente furiosa diante da imagem.

- Bem, talvez seja uma imagem demasiado forte - disse Gordon, recuando um pouco. - Mas somos todos 
passageiros de primeira classe que no se envolvem com os problemas l de baixo no poro.

-  exactamente nisso que me envolvo, para usar a tua metfora. E nunca me constou que algum dos 
nossos amigos no achasse importante o que fao. Ele riu-se.

- Claro. Ento diz-me quantos hispnicos tm casas no Cape. Ou diz-me o que achas que aconteceria se um 
dos agentes de imveis alugasse um imvel a hispnicos. Os nicos negros a quem nos associamos so os 
que nos estacionam

o carro.

- isso vai ter de mudar - insistiu Ellie. - Os nossos amigos vo ter de viver com a Theresa e ela vai ter de 
viver com os nossos amigos. E a Molly vai ter de aprender a no julgar as pessoas pela aparncia ou pela 
forma de se vestirem.

- Como  que pretendes fazer tudo isso? - disse Gordon com sarcasmo.
- Pagando a Theresa para comear a tomar conta dos nossos filhos a partir de agora, para que, quando o 
Vero chegar, estarmos todos habituados uns aos outros.

CAPTULO SEIS

No  totalmente sincero, racionalizou Ellie enquanto enfiava o Land Rover no espao de 
estacionamento. Mas  por uma boa causa: a Theresa agradecer-me-.

Guiou os filhos at ao passeio enquanto Theresa tirava as mochilas que continham os lanches. Ellie ajudou 
Molly a colocar a mochila enquanto Theresa manobrou os braos no cooperantes de Timmy para lhe pr 
as alas aos ombros,

- No posso ficar contigo? - perguntou Molly pela dcima vez desde que a me lhe explicara como iria ser 
o dia. Pela dcima vez, Ellie disse-lhe que no, prometendo que ela e Timmy se iriam divertir mais no 
parque de diverses do centro comercial do que ela no cabeleireiro, Molly revirou os olhos na direco 
de Theresa mas no choramingou que os amigos os podiam ver, tal como fizera antes de Theresa chegar. 
Relutantemente, partiu com a nova ama e Ellie entrou para o cabeleireiro que se auto-intitulava de Fm 
Worth it.

Decidira que a introduo de Theresa  sociedade tinha de comear pelo cabelo, mas no conseguia 
pensar numa forma de puxar o assunto com tacto. Talvez fosse uma coisa cultural e a rapariga se 
ofendesse com qualquer sugesto de mudana. Ou talvez no soubesse como fazer melhor; com as suas 
muitas responsabilidades adultas, pentear-se talvez no constasse da primeira pgina da lista. Mas tinha de 
arranjar maneira de lhe dizer que o cabelo dela possua todo o estilo de um animal que vive numa toca. As 
jovens da comunidade do Cape no teriam assim tanto tacto. E tinha de ser mais do que uma sugesto. 
Assim que percebesse a mensagem, Teresa podia no saber como proceder e voltar ao mesmo 
cabeleireiro que a deixara no estado actual.

1 Em portugus: Eu Mereo.

34                            
 O plano pelo qual se decidira resolvia ambos os problemas. Se resultasse, Theresa talvez nunca 
percebesse que fora insultada. E ficaria nas mos de um estilista profissional que saberia o que a multido a 
par da moda usava. Ellie reservara duas sesses, uma para si e outra para Theresa, com a segunda a 
comear 15 minutos depois da primeira acabar. Quando Theresa voltasse com os midos, Ellie planeava 
anunciar que o salo de beleza tivera um cancelamento raro e atrairia a jovem para a cadeira. Tal como 
relembrara a si mesma uma dzia de vezes, no era propriamente uma abordagem honesta. Mas era 
certamente mais gentil do que dizer-lhe directamente que precisava de se adaptar.

Outros melhoramentos, calculava Ellie, podiam ser feitos sem o envolvimento directo de Theresa. Podia 
oferecer roupa a Theresa com comentrios inocentes como "Pensei em si assim que o vi", ou "Estava em 
saldos e pensei que o pudesse usar na escola." As subtilezas da etiqueta e as dicas certas para a conversa 
trivial refinada seriam apanhadas por associao. Tudo funcionaria em conjunto para lhe conferir a 
autoconfiana que claramente lhe faltava. Mas o penteado tinha de ser a primeira coisa e no havia 
nenhuma forma completamente segura de lidar com o assunto. Theresa podia perceber logo o seu plano. 
Mas, mesmo que tal acontecesse, compreenderia a necessidade da fraude sempre que se visse ao espelho.

Ellie praticamente no estava a prestar ateno ao seu prprio penteado, quanto menos  adulao que 
Harold usava como conversa. Enquanto batia ao de leve na cabea dela com as pontas dos dedos, 
suspirava perante a obra artstica da estrutura ssea dela. Quando a inclinava para a frente, respirava 
ofegante como se tivesse dobrado a esquina de uma galeria e ficado frente a frente com uma grande obra 
escultrica.

- Tem de usar roupas que lhe mostrem os ombros. Tem um pescoo to bonito! - Quando era mais 
novo, Harold costumava juntar-se aos mexericos locais, mas uma revista do ramo aconselhara que se ele se 
voltasse para a adulao, podia aumentar os preos.

- Senhora Acton? - Ellie apercebeu-se subitamente de que ele fizera uma pergunta. Olhou vagamente 
para o espelho. Estava a perguntar-lhe qualquer coisa sobre o corte que ela deixara escapar por completo.

- O que  que acha? - disse ela para disfarar.

- Oh, eu experimentava. De certeza que isso lhe fica bem - respondeu Harold.

Isso era afinal uma mecha de cabelo que lhe caiu sobre a testa. Graas a Deus que no era uma 
variao de corte ndio, pensou ela.

Comeou a ficar cada vez mais nervosa  medida que a sua hora se aproximava do fim. A 15 minutos de 
distncia, o seu esquema parecia humilhante.

 35

Gostava que uma amiga cheia de boas intenes a entregasse a uma tesoura estranha? O insulto seria 
evidente. Theresa teria todo o direito de recusar e de lhe dizer que tinha um cabeleireiro prprio.

Quando faltavam dez minutos, Ellie comeou a sentir-se culpada. Se pregava tolerncia e aceitao, 
porque  que estava a tentar mudar Theresa? No a deveria aceitar pelo que era? A cinco minutos da 
hora marcada, era uma hipcrita transparente que tentava que a jovem se parecesse e agisse como as suas 
amigas, como se fossem melhores do que Theresa. Raios, estava a tentar transformar a mida numa 
americana de origem e a convencer-se de que a transformao era benfica. Porque  que Theresa se 
sentiria grata por ser transformada em algo que no era? Nunca dera a mais leve impresso de estar 
descontente com quem era.

Ellie queria saltar da cadeira, voltar para o Land Rover e guiar at ao parque de 
diverses antes de Theresa e os midos sarem de l. Mas Harold estava na sua azfama interminvel, 
outra qualidade que a publicao do ramo recomendara. Estava a espreitar-lhe por cima da cabea, 
examinando a imagem ao espelho, com os lbios franzidos como se alguma coisa simplesmente no 
estivesse bem. Depois os olhos explodiram-lhe de reconhecimento. Agarrou numa escova e comeou a 
arranjar de novo o pedao de cabelo que lhe cara sobre a testa, colocando-o mais abaixo, sobre um dos 
olhos. Assim que ficara satisfeito, o rosto de Timmy surgiu  janela. Era tarde demais para fugir. Harold 
esperava pela segunda sesso e ela j estava  porta.

- Sabem a ltima? - disse Ellie com grande entusiasmo ao sair da loja. Tiveram um cancelamento. - Pegou na 
mo de Theresa e comeou a lev-la para dentro, - Assim que ouvi, marquei-lhe uma sesso. Vai querer 
uma coisa rpida e casual para o Vero.

Theresa oferecia resistncia, com os olhos a mostrar medo ao observarem o interior atravs da janela.

- No tenho... no posso...

- Claro que pode. Fica na minha conta. - Deu um abrao conspirador a Theresa e murmurou: - Vamos 
deixar que o senhor Acton pague por ns as duas. Harold fez os possveis para esconder o seu desdm 
pela cabea despenteada que ela conduzia para a sua cadeira.

- Onde  que vamos agora? - choramingou Timmy quando percebeu que estava a ser arrastado de volta 
para o centro comercial.

- Pensei em comermos um gelado enquanto esperamos pela Theresa,

- Vo-se esgotar os gelados antes dela ficar com bom aspecto - disse Molly, olhando para trs na 
direco do salo de beleza. - O que  que vo fazer por ela?

36                             

Ellie teve vontade de esganar a filha, mas 
percebeu que Molly estava apenas a dar voz ao 
sentimento de que Theresa ia ser um embarao.

Comeram gelado, que Timmy deixou cair na 
parte da frente da camisa. Depois passaram 
meia hora numa loja de roupa onde ela mitigou 
a culpa comprando uma camisola a Molly. Ellie 
no tirava os olhos do relgio, temendo o fim 
da hora em que o embarao de Theresa seria 
insuportvel, mas, ao mesmo tempo, ansiosa 
para acabar de vez com o assunto. Decidira 
que Theresa saberia imediatamente que a 
sesso cancelada fora simplesmente um 
pretexto e que a sua aparncia no estava  
altura das exigncias. Mas esperava que os 
resultados trouxessem perdo pela sua 
intromisso. Tentou olhar de relance pela 
janela quando se aproximaram do cabeleireiro 
Frn Worth lt, mas no conseguiu ver Theresa 
em nenhuma das cadeiras. Estava  espera do 
pior quando empurrou a porta para entrar.

Harold fez girar a cadeira, desvendando a 
nova Theresa, levantando o brao como que 
para aceitar o aplauso que lhe era devido. Os 
olhos azuis-claros de Theresa s revelavam 
ansiedade. Ellie olhou para o cabeleireiro e 
depois para a cliente.

- Uau! - disse Timmy, deixando a me para se 
dirigir para a pessoa da cadeira. - Ests 
bonita.

O rosto de Theresa desfez-se num sorriso 
enorme.

- ptimo! - disse Ellie. Sentiu o peso sair-lhe 
do esprito. E reparou que Theresa tinha mais 
um atributo: o sorriso era deslumbrante.

Harold desbastara e cortara. Depois moldara o 
cabelo de forma a cair livremente sobre a 
testa e enrolara-o para dentro sobre o topo 
das orelhas. Por fim, pintara-lhe o cabelo de 
preto, cobrindo o castanho de rato original. 
Tinha um ar casualmente profissional, como o 
corte padro das apresentadoras de televiso. 
Theresa parecia mais madura e vrios pontos 
de QI mais inteligente, mas continuava a ser a 
Theresa. Harold no a transformara noutra 
pessoa, centrando antes a sua ateno na 
mulher que j ali estava. Os olhos azuis-
claros eram imperdveis e cintilavam quando a 
boca generosa se iluminava num sorriso.

- Lindo - exclamou Ellie cumprimentando 
Harold. Ele acenou com a mo recusando o 
elogio,

- Ela sabia o que queria - disse ele ao retirar 
rapidamente a capa dos ombros de Theresa. - E 
o que queria era perfeito.

Theresa levantou-se e depois parou para 
abraar Timmy. Levantou os olhos para Ellie.

- Obrigada, senhora Acton.

Ellie estava quase fora de si. Como se tivesse 
feito um milagre.

CAPTULO SETE

Gordon comeava a aborrecer-se, Estava sentado 
h quase trs horas  mesa de conferncias do 
hotel, a ouvir o relatrio dos gestores de Henry 
Browning sobre o planeamento da sua campanha. 
No incio, os relatrios tinham sido 
interessantes e at excitantes.

A publicidade estava ptima. Os anncios da 
imprensa constituam citaes arrojadas dos seus 
discursos, alguns dos quais nem sequer se 
lembrava de ter feito. As citaes, todas elas 
endossamentos incuos dos valores americanos, 
serviam como ttulo e corpo de texto. 
Fotografias dinmicas de Gordon surgiam dentro 
de aspas de tamanho exagerado. O nome dele 
flutuava no espao bem acima do slogan: "Um 
governo que funciona."

A campanha televisiva, organizada em torno de spots de 15 segundos, exibia excertos de filmes de 
Gordon a saudar os eleitores. As citaes, que nem sequer na sua voz eram familiares, eram ditas em jeito de 
narrao das imagens.

Gostou particularmente do design dos cartazes. Eram reprodues dramticas gravadas a meia-tinta de 
fotografias sinceras tiradas enquanto falava. As citaes tinham sido impressas atravessando fragmentos do torso 
e das mos, deixando o rosto limpo.

- Estamos a negligenciar o deslumbramento - repetira Henry vrias vezes.
- E no estamos a incutir carisma. Depois de Clinton, as pessoas tornaram-se desconfiadas de uma cara bonita. 
Estamos a tentar projectar substncia.

- Pensei que o contedo fizesse o eleitorado dormir - questionara Gordon.
- E faz. Quando fizemos o teste, ningum se lembrou de uma s palavra que voc disse - riu-se Henry. - Mas 
todos se lembraram que era um homem de ideias.

A agenda dos comcios era bastante razovel durante os meses de Vero, tal como Gordon prometera a Ellie. 
Mas comeava a apertar em Setembro e, no incio de Outubro, havia um comcio planeado ou espontneo todos 
os dias.

38                            

Browning marcara mais de 100 entrevistas em programas de rdio e 30 aparies em programas durante o 
dia. Concordara relutantemente com um debate televisivo a uma hora tardia e com dois durante o dia na 
rdio. No queria exposio para os debates porque s resultariam em tempo de antena grtis para o 
adversrio democrata financeiramente seguro.

Agora os relatrios estavam a chegar ao mago da questo. Um tipo pedante explicava as formas 
necessrias para cobrir todo o financiamento da campanha. Ficar  espera j era uma forma de conteno 
de custos. Gordon teve de se pr de p e dar alguns passos em torno da mesa para impedir que os olhos 
se fechassem. Simulou interesse, tranquilizando-se com a ideia de que Henry trataria de tudo. O que 
Henry queria em troca era controlo total do patronato da administrao Acton.

Finalmente, ficou s ele e Henry, afundados nos extremos opostos de uma mesa desordenada com 
chvenas de caf sujas e papel de embrulhar sanduches manchado de mostarda.

- No vi grande coisa dirigda ao grupo de proletariado - disse Gordon, apenas para participar um pouco 
na campanha de Henry.

- Temos algumas citaes sobre manter empregos em casa - respondeu Henry. - Vamos pass-las em fora 
nas zonas de trabalhadores.

- Proletariado, est bem - concordou Gordon. - Mas eu estava a pensar mais especificamente nas minorias. 
No me devia identificar com alguns dos interesses deles?

- No nos nossos panfletos. Ia parecer coisa de alcoviteiros. Vamos tratar disso com eventos e com um 
esforo de relaes pblicas.

- Que tipo de eventos?

Henry Browning encostou-se para trs cansado e empurrou os culos para a testa. Era a primeira vez que 
Gordon o via fatigado e aparentando realmente a idade que tinha, algures nos 60 anos. Henry pertencia  
poltica do estado h mais de 30 anos, sempre animado pela batalha. Agora, apesar do seu fsico em boa 
forma e cabea cheia de cabelo, parecia um velho que at podia ser vulnervel.

- Estava a pensar em fazer com que a Ellie visitasse algumas escolas em reas de minorias e imigrantes. 
Como ela tem as credenciais para l estar, talvez no parea tratar-se inteiramente de uma questo poltica. 
Ela podia afirmar que essas so as mesmas escolas pblicas em que confiam para os vossos filhos. Talvez o 
faa parecer um pouco preocupado, mesmo um pouco humano.

- Assim to drstico? - brincou Gordon. - A seguir vai querer que arbitre uma das lutas de galos deles.

 39

- E vamos tentar colocar o nosso prodgio hispnico nas fotografias de

famlia. Talvez p-la ao lado de Ellie, a ajud-la a cuidar dos midos. No podemos dizer que voc no 
 intolerante. Mas talvez o possamos mostrar.

Gordon acenou com a cabea,

- Penso que podemos contar com a Ellie para uma ou duas aparies pblicas. E talvez ela no se importe 
de estar acompanhada de Theresa Santiago. Est muito impressionada com a jovem.

- Isso  ptimo! - Browning estava sinceramente satisfeito. - Pensei que ela pudesse criar uma empatia com 
algum do meio de Theresa.

- Criar empatia? Ela est maravilhada. Acha que a Theresa  a mida mais competente que j conheceu. E 
modesta alm disso. S faz  elogiar a nossa jovem-cartaz e deitar abaixo os nossos amigos.

- ptimo! Fico contente que esteja a dar resultado. Nunca se sabe o que esperar, de jovens problemticas.

- Problemticas? - Gordon riu-se. - No tem nada de problemtico. Principal inspectora de controlo de 
qualidade na Digital. Solista na orquestra da escola... Henry acenou com a cabea.

- Pois , tentei que ela tocasse na tomada de posse do Governador.

- Tudo isso enquanto tomava conta da famlia. A Ellie diz que a Theresa se saiu melhor com cinco do que 
ela com dois. At os levava a todos  igreja aos domingos. Henry demonstrou surpresa.

- Que famlia? Quem disse que tomou conta de cinco midos? Gordon ficou espantado.

- Bem, no se gabou disso nem nada. De facto, a Ellie disse que teve de ser ela a perguntar. Mas tem cinco 
irmos mais novos por quem  responsvel aos fins-de-semana.

- Ela disse isso? A mida Santiago disse que tomou conta de cinco irmos e irms?

Gordon acenou com a cabea. Browning abanou a dele.

-  novidade para mim. Se ela tem irmos e irms, devem estar espalhados pela cidade porque no h 
famlia em casa. O pai fugiu quando ela era beb e a me estava a vender o corpo para manter os 
fornecedores satisfeitos. Theresa cresceu num lar adoptivo. Um casal de idosos que toma conta de alguns 
midos para ajudar a pagar a renda. Viveu com eles at aos 18 anos. E depois alugou um quarto na mesma 
rua.

- Mas ela disse... - tentou Gordon, mas parou porque j contara o que Theresa Santiago dissera. E Henry 
acabara de lhe explicar que se tratava de uma mentira descarada.

CAPTULO OITO

Gordon seguiu a fila de trnsito da baixa at  estrada interestadual e seguiu por uma sada a norte em 
direco ao distrito das antigas fbricas. Os edifcios de tijolo vermelho com as suas filas interminveis de 
janelas minsculas tinham passado uma gerao como armazns depois da manufactura ter sado de Nova 
Inglaterra. Agora estavam a ser renovados e transformados em guas-furtadas elegantes para artistas e em 
escritrios selectos para as indstrias de publicidade e marketing.

Estacionou num parque ao nvel do solo e entrou no velho elevador que parecia uma jaula de ao at aos 
escritriios na penthouse da Simpson and Weyer Public Relations. Quando saiu do elevador, 
viu-se numa rea de recepo de paredes pretas iluminada por uma prateleira acima da cabea com luzes 
de palco. A recepcionista, sentada atrs de uma secretria de vidro guamecida de um ecr de computador 
e de um teclado, sorriu assim que o viu.

- Parabns, senhor Acton. j tem o meu voto.

Ele acenou com a cabea mostrando agradecimento.
- Ela est?

- Claro. Est numa reunio, mas sei que a vai encurtar por sua causa.

- No tenho pressa - disse Gordon ao instalar-se numa das cadeiras de designer com um 
exemplar da Grapbc Aris.

Sabia que no ia esperar muito. Ela era Pam Lambert, uma das vice-presidentes da firma, responsvel 
pela promoo dos Action Inflatable Dinghies, as nicas propriedades de barcos que restavam na famlia 
Acton. A fortuna feita em botes salva-vidas na Segunda Guerra Mundial transferira-se quase por completo 
para seguros, propriedades e centros comerciais. Os Action Dinghies, cujo nome fora adoptado para se 
assemelhar ao nome da famlia mas para o manter separado de outros interesses, tornara-se mais um 
passatempo do que um negcio.

 41

Mas quando Gordon conhecera pela primeira vez Pam ela era uma jovem

gestora ambiciosa e os botes estavam a facturar o suficiente para fazer deles um negcio muito apetecvel. 
Ambos sabiam que o romance assentava numa base firme de ganncia mtua. E ambos tinham tido boas 
razes para o manter em segredo, ela para no o dar a conhecer aos colegas que murmurariam que 
andava a dormir com ele para subir na vida, e ele para o esconder de Ellie, totalmente envolvida com a 
ento filha beb.

Tinham acabado e recomeado vrias vezes desde ento, na maior parte delas no papel de velhos amigos 
e colegas ocasionais de negcios, mas por vezes arrebatados de novo por uma paixo que os surpreendia. 
Tinham estado juntos durante um longo e quente Vero h seis anos, quando Pam fora deixada por um 
homem que pensava que viria a ser seu marido. E depois de novo h quatro anos, quando Timothy 
nascera e Ellie o levara para a solido do Cape. Na mente de Pam restavam poucas dvidas de que 
Gordon. e ela formariam de tempos a tempos um casal para o resto da sua carreira de negcios. E na dele 
no restava qualquer dvida de que, se isso no fosse prejudicial para a sua imagem pblica, ele e Pam 
manteriam uma casa juntos.

Ele realara o prestgio do nome Acton quando o associara  linhagem de Roger Williams. Mantivera-se no 
registo social ostentando ocasionalmente Ellie, tal como ganharia pontos na comunidade de arte ao ostentar 
ocasionalmente um Picasso de preo incalculvel. Um romance que manchasse o seu casamento com um 
Williams seria como salpicar o Picasso com tinta para paredes ou pendur-lo juntamente com arte de quarto 
de motel. Pam sempre se disfarara bem como simples parceira de negcios.

As outras indiscries dele tambm tinham sido resolvidas discretamente. Houvera uma jovem modelo que 
surgira como coelhinha em vrios anncios de iates, uma bailarina no ballet de Providence e, 
durante algum tempo, uma mulher de um dos seus representantes de vendas. Gordon tivera sempre o bom 
senso de escolher mulheres que tivessem as suas prprias razes para guardar segredos ou que 
pudessem ser postas de parte com uma quantia modesta ou um favor na carreira. Ser que Ellie sabia? 
Achava que ela provavelmente suspeitara. Mas sabia que ela tinha o bom senso de no procurar provas e 
a boa educao de nunca dar voz  sua desconfiana. Tinha o nome dele, os filhos dele, as casas dele e a 
riqueza necessria para comprar todos os seus interesses. Partia do princpio de que ela lhe daria sempre 
uma rdea relativamente solta fora de casa.

Ser que a sofisticao marital dele se estendia a casos que Ellie pudesse ter? Gordon nunca considerara a 
possibilidade. Mas se lhe tivessem colocado a questo, teria decidido provavelmente que esse 
comportamento rebaixava o seu estatuto como esposa dele e que constitua um acto de ingratido que seria 
difcil de perdoar.

42                            

Pam entrou no hall com um sorriso e com um beijo afectuoso na face que no tinha nenhum significado 
mais profundo do que negcios como habitual. Depois dirigiram-se, atravs do labirinto de cubculos de 
secretrias e pequenos gabinetes privados, ao grande escritrio executivo dela que possua uma 
secretria macia com cadeiras laterais, um arranjo de sofs em torno de uma mesa de apoio e um bar com 
dois bancos almofadados. Pam foi para trs do balco e Gordon deixou-se cair sobre um banco de forma 
to confortvel como se estivesse no seu clube privado. Ela preparou dois copos com cubos de gelo e 
encheu-os generosamente com um usque de malte exorbitantemente dispendioso.

Gordon examinou a garrafa.

- Os negcios devem ir muito bem.

Pam acenou com a cabea ao erguer o copo num brinde.

- Melhor do que merecemos. Mas isso no quer dizer que no conseguimos tratar de outra conta de cinco 
milhes de dlares se por acaso tiveres alguma.
- Nenhuma - disse Gordon, retribuindo o brinde. -  por isso que estou aqui. Para pedir desculpa.

- Desculpa de qu?

- A publicidade da minha campanha vai passar para outra agncia. S descobri isso hoje e achei melhor ser 
eu a dizer-te.

- Ainda bem que no te tinha includo no meu plano de negcios - disse Pam sem qualquer sugesto de 
desiluso.

Gordon explicou.

- So as malditas leis de financiamento da campanha. Se estou a fazer negcio contigo ou se a minha 
empresa est a fazer negcio contigo,  difcil ficares a trabalhar na campanha. Os contabilistas afirmam 
que no h forma de provarem que no te estou a pagar atravs da Action Dinghies pelo trabalho que 
ests a fazer para a minha campanha de eleio. Querem manter tudo separado.

- Faz sentido - disse Pam.

- Por isso vou aumentar o oramento da Action Dirighies - Gordon completou imediatamente a frase. - 
Quero dominar a indstria.

Pam acenou com a cabea

- isso merece outra bebida. - Voltou a encher-lhe o copo. Depois perguntou: - Vou ver-te algum 
bocadinho este Vero?

- S um bocadinho. O Henry Browning tem-me sob rdea curta.

- Parto do princpio que ficas na cidade e que a famlia vai para o Cape. Gordon acenou com a cabea.

- No s isso, mas a Ellie vai estar a tempo inteiro na tese. Eu vou estar quase a tempo inteiro a pregar as 
virtudes do bom governo. Mas... adorava ver-te sempre que conseguirmos um minuto livre.

 43

Ela inclinou-se sobre o bar e beijou-o na face.

- Estava indecisa se havia de fazer uma viagem este Vero. Acabei de decidir que  prefervel ficar em 
casa.

- Podemos jantar mais cedo? - perguntou ele.

- D-me cinco minutos - disse ela. Pam contornou o bar, levando a bebida consigo, e foi para trs da 
secretria enquanto fazia alguns telefonemas. jantaram num restaurante muito pblico onde nunca podiam 
ser acusados

de tentar esconder alguma coisa. Gordon falou dos planos de campanha que revira nessa tarde e Pam 
interveio com sugestes inteligentes. Ouviu com ateno enquanto ele lhe explicou as razes para 
contratar a rapariga-cartaz para ajudar a Ellie.

- Cuidado com essa - aconselhou ela. - Se houver algum indcio de que ests com falinhas mansas para a 
comunidade hispnica, s crucificado por todos os lados.  prefervel que seja uma funcionria legtima a 
fazer um trabalho legtimo. E, por amor de Deus, no te esqueas dos impostos na folha de pagamento.

Gordon falou-lhe do meio de Theresa Santiago e da razo por que Henry Browning a introduzira na 
famlia Acton. Mencionou os cinco midos e o comentrio de Henry de que os cinco midos deviam 
constar da imaginao de Theresa.

- A Ellie est pronta para a eleger uma santa - concluiu ele. - Mas eu estou a pensar duas vezes. Se est a 
mentir, ento est a usar-nos. E se nos est a usar, ento todo o comportamento tmido e inocente  mentira. 
Quer dizer, posso estar a contratar uma louca para viver com a minha mulher e tomar conta dos meus 
filhos.

- No consegues suportar pessoas que usam pessoas - brincou Pam. Gordon riu-se com ar de conspirao.

- Claro que estou a usar a rapariga. Mas sei que no sou perigoso. Quanto a ela, no estou to certo disso.

Analisaram as possveis razes para Theresa ter mentido e depois Pam decidiu:

-  Aposto que estava a exprimir o que desejava. A famlia dela  uma confuso. V a famlia 
perfeita da Ellie e quer ter o que a Ellie tem.

- Parece-me esquisito - respondeu Gordon. - Uma espcie de dupla personalidade.

- No sejas melodramtico. Trata-se apenas de uma jovem a dar os primeiros passos para o canto muito 
sofisticado do mundo adulto. Est simplesmente a experimentar um vestido novo para a ajudar a passar nas 
entrevistas.

- Mas mentir! Isso est a preocupar-me.

44                           

- Foste sempre assim to sincero? - Pam sorria enquanto esperava pela resposta.

Gordon acenou com a cabea.

- Est bem. Todos ns alteramos a verdade. Parece-me que tenho de lhe dar um pouco de espao de 
manobra.

- Isso mesmo! - disse ela sarcasticamente. - E, por falar em espao de manobra, tens de voltar para casa 
hoje?

- Tenho - disse ele cansado. - Mas no preciso de chegar muito cedo.
- Ento despedimo-nos em frente ao restaurante. E deixo a chave no vaso das flores.

Ele examinou-a com ateno.
- Achas que  boa ideia?

Pam ps o guardanapo em cima da mesa e empurrou a cadeira para trs.
- Pensa nisso - disse ela. - A chave no vai sair do stio.

CAPTULO NOVE

Ellie ficou estupefacta quando Gordon lhe contou que no havia irmos nem irms mais novos na casa de 
Theresa Santiago.

- No h famlia - disse ele - e, na verdade, no h casa. - Explicou-lhe que ela fora colocada num lar 
adoptivo pelo tribunal e que fora assim que chamara a ateno de Henry Browning. O casal que a 
adoptara era provavelmente a tia e o tio dela, mas no devem ter admitido o facto com medo de perder os 
pagamentos mensais fornecidos pelo estado.

- Que mais  que no ser verdade? - pensou Ellie em voz alta.

Gordon tranquilizou-a dizendo-lhe que o resto das referncias da rapariga parecia estar correcto, A 
posio na turma, as habilidades musicais e o emprego em controlo de qualidade eram tal e qual os 
apresentara. Era, de facto, uma jovem extraordinria. Usou a explicao que Pam Lambert oferecera sem 
a atribuir  outra mulher.

- Ests a ver, ainda  uma mida. Provavelmente magoa-a o facto de no ter famlia e talvez no o queira 
admitir, Deve querer dizer: "Vejam, as pessoas tambm me amam!" Por isso inventa um lar repleto de amor 
e preocupao.

- No achas que ela estava a mentir s para conseguir o emprego - contra-argumentou Ellie. - Acho que 
deve ter imaginado que eu a ia rejeitar por no ter experincia com crianas. Disse o que tinha que dizer.

Ele acenou com a cabea.

- Suponho que  possvel, e se for? Ests a pr-lhe  frente da cara tudo o que ela quer, Uma famlia. 
Crianas simpticas. Frias numa casa de Vero. At mesmo a oportunidade de trabalhar contigo num 
projecto acadmico de nvel superior.  assim to horrvel que tenha exagerado as credenciais para 
conseguir o emprego?

- No, acho que no. Todos ns nos elogiamos quando  preciso, Mas isto foi mais do que um exagero. 
Exagero  se ela me disser que cuida dos irmos e

46                            

irms todos os fins-de-semana quando afinal  apenas duas vezes por ms. Inventar irmos e irms 
que no existem  uma mentira pegada.

- Ento queres contratar outra pessoa? A Trish Mapleton, talvez?

Ela no se decidiu imediatamente, ponderando no problema durante alguns dias. Conseguia suportar um 
lapso momentneo na sinceridade, especialmente quando se punha no lugar de Theresa e pensava no que 
estava em jogo para a rapariga. Mas no podia aceitar nenhum risco em relao a Molly e Timmy e a 
verdade parecia ser que Theresa no tinha qualquer experincia com crianas. Tambm era possvel que 
estivesse a mentir a respeito de outras coisas.

-  possvel descobrirmos se ela j foi presa alguma vez? - perguntou ela a Gordon. - Se alguma vez fez 
mal a algum? Tanto quanto sabemos, pode at ser uma assassina.

- Oficialmente, no posso investig-la - respondeu Gordon. - Qualquer cadastro policial ou judicial que 
tenha tido antes de fazer 18 anos estar selado. Mas prometeu averiguar e colocou a questo a Browning. 
Henry pediu alguns

favores e conseguiu tranquiliz-los quanto ao facto da mida ter um registo exemplar.

- Nem sequer uma vez atrasada para as aulas - rira-se ele. Gordon levou a informao para casa e atestou a 
sua veracidade.

Entretanto, Ellie recebia confiana de outra fonte. Theresa ia l a casa todas as tardes e tomava conta dos 
midos sob a superviso de Ellie. Viu grande pacincia quando Theresa conseguiu contornar facilmente 
uma das birras de Timothy. Viu compreenso quando a jovem ignorou a atitude superior de Molly e 
mesmo insultos directos. E viu imaginao quando Theresa inventava jogos e histrias que cativavam 
Timothy e a que Molly aderia com relutncia.

- Decidi ficar com ela - disse ela a Gordon uma noite quando ele lhe telefonou dizendo que chegaria 
muito tarde. - Mas vou dizer-lhe que sei que me mentiu e explicar-lhe que nunca h razo para mentir.

- Creio que  uma boa deciso - disse-lhe Gordon, embora ele prprio estivesse no meio de uma mentira 
enquanto conversavam. Estava a telefonar-lhe do carro, a caminho do apartamento de Pam Lambert onde 
a chave o esperava na floreira.

CAPTULO DEZ

Theresa estava a brincar com os midos enquanto Ellie organizava as roupas deles para a 
viagem at ao Cape, Conseguia ouvir o jogo com a Molly e o Timmy a rir e deu-se conta que a lida 
domstica estava a correr muito bem desde que a ama se juntara  famlia, Desenvolvera total confiana em 
Theresa e sentia-se cada vez menos inclinada a confront-la com o estatuto da famlia e a experncia que 
declarara ter em cuidar dos irmos e irms. Mas evitar o assunto, percebeu Ellie, era a maneira mais fcil de 
fugir ao problema. Tinha de tornar claro que no podia haver mentiras entre ambas. Esperou que os 
midos se embrenhassem nos projectos que Theresa lhes criara. Depois chamou a jovem ao seu quarto, 
quase a engasgar-se com as palavras. Theresa veio imediatamente com o seu sorriso branco a reluzir por 
baixo dos olhos azuis-claros.

- So umas crianas maravilhosas - disse ela a Ellie.

- Voc parece conseguir exteriorizar o que de melhor h dentro deles. Nem sempre so assim to 
cooperantes, Mas deve ter tido dias maus juntamente com os dias bons com os seus irmos e irms.

Theresa acenou resumidamente com a cabea, mas no respondeu. Sentia-se claramente desconfortvel 
com o assunto.

- Aquilo no era bem verdade, pois no? - continuou Ellie.

- O qu? - O desconforto de Theresa transformou-se em alarme.

- Sobre os seus irmos e irms. Dsse-me que eram cinco e que tomava conta deles aos fins-de-semana.

- Bem... no. No eram irmos e irms... no propriamente. - Estava a contornar mal a pergunta.

- Theresa, penso que era melhor se me falasse dos seus irmos e irms.

A rapariga ficou quieta como uma pedra, com os olhos vagos e os lbios comprimidos. No parecia estar  
procura de uma resposta. Estava antes despedaada por ter sido apanhada a mentir.

- Por favor, Theresa, Vou confiar-lhe os meus filhos. No h lugar para dvidas. Voc e eu temos de 
confiar totalmente uma na outra.

48                                      

Os olhos da rapariga voltaram a concentrar-se e a cor regressou ao seu rosto. Os 
meus pais adoptivos tiveram outras crianas durante algum 
tempo.


Por vezes tinha de tomar conta deles. Mas no conseguia dar conta do 
recado. Eu tinha apenas 12 anos. Na maior parte das vezes estava 
ocupada demais.

Isso era uma responsabilidade terrvel - disse Elie com simpatia,

No conseguia fazer tudo, - continuou Theresa. - Choravam muito. Por vezes saam para a rua e os 
vizinhos tinham de os trazer de volta. Por isso os assistentes sociais colocaram-nos noutras famlias.

- Os seus pais adoptivos eram...

- A culpa no era deles - acrescentou Theresa rapidamente, - 
Faziam ambos o mximo que podiam.

Porque  que no me contou a verdade? - perguntou Ellie. - No fez nada de que se deva envergonhar. 
No havia razo para mentir.

- No  uma coisa fcil de contar.

Eu compreendo - disse Ellie simpaticamente. Theresa esboou um pequeno sorriso.

No compreende, no - disse ela a Ellie. - Penso que no faz a mnima ideia disso.

Ficaram de p por um instante, enfrentando-se uma  outra como 
adversrias. Depois Theresa voltou costas e saiu lentamente do 
quarto em direco  zona familiar onde as crianas 
brincavam, Ellie decidiu no a seguir, para lhe dar um momento para si 
mesma. Mas de repente Theresa estava de p junto  ombreira da porta, desta vez com a 
camisola sobre o brao.
 - Vou andando - disse ela a Ellie. - S queria agradecer por tudo. Gostei de a 
conhecer a si e aos midos. - Avanou rapidamente para a porta da frente.

Ellie seguiu-a de imediato.
 - Theresa, no a estou a despedir, S quero ter a certeza de que vai haver sempre 
sinceridade entre ns,

Eu sei - respondeu a jovem. - Mas penso que me devo ir embora, No 
sabemos nada uma da outra. No ia resultar.

- Podemos fazer com que resulte - tentou Ellie. Mas a ama ja se esgueirara pela porta e fechara-a atrs de 
si. Ellie pensou durante um momento. Seria a maneira correcta de terminar a 
relao entre ambas? Ou estariam as duas a cometer um erro terrvel 
Ela sabia que Theresa queria o emprego. E sabia que queria a rapariga como parte 
da sua casa de Vero,

Correu disparada para a porta quando ouviu o motor tuberculado do automvel arfar em busca de ar e 
depois pegar, Mas o carro j se estava a afastar e Theresa no olhou para trs na direco dela. Parecia 
estar a chorar.

  49

Ellie passou o resto da tarde a contrabalanar ambos os lados da questo.

Num momento parecia-lhe que tinha todo o direito de confrontar a jovem e a reaco de Theresa 
demonstrara imaturidade e falta de responsabilidade. Talvez tivesse sido melhor ter-se ido embora. Mas, 
segundos depois, sentia dio de si mesma por ter esmiuado uma mentira insignificante. Fizera Theresa 
sofrer sem qualquer razo de peso. No admirava que tivesse desistido do emprego. 
Quando Gordon estacionou junto  entrada, ela ainda continuava sem decidir se se devia culpar ou culpar 
a rapariga. Mas quando comeou a contar-lhe o que acontecera, teve a certeza de que queria Theresa de 
volta,

Gordon ficou surpreendido com o relato de Ellie e apreensivo quanto ao efeito que poderia ter sobre a 
sua campanha, No contratar a rapariga teria passado despercebido, mas obrig-la a despedir-se podia 
facilmente ser usado contra ele. Tecnicamente, tal como Ellie lhe explicou vrias vezes, Theresa 
despedira-se. Mas seria fcil para os seus adversrios dar uma volta muito diferente ao rompimento. Podia 
logicamente parecer que uma rapariga de uma famlia de imigrantes desmembrada no era 
suficientemente boa para se associar aos filhos de Gordon Acton. No  o tipo de reputao que um 
candidato deseja, nem mesmo num distrito seguro.

Mas ficou do lado de Ellie, dizendo-lhe que tinha todo o direito de pedir um esclarecimento quanto s 
afirmaes de Theresa.

- Se a mida quer esconder as razes,  com ela. E se preferiu despedir-se a dizer a verdade, tambm  
com ela.

- Bem, sinto um grande peso na conscincia - contra-argumentou Ellie.
-  como ela me disse; no fao a mnima ideia do tipo de vida que teve de levar.

- Ela disse isso?

- No por essas palavras. Mas quando lhe disse que compreendia porque  que ela no queria falar sobre 
o assunto, ela disse-me que eu no compreendia nada. Que ns no sabamos nada uma sobre a outra. E 
ela estava certa. Passei dos limites.

Ele acenou com a cabea concordando que Ellie talvez tivesse sido dura demais, Mas fez com 
que as suas palavras assumissem um tom tranquilizante.
- Tudo o que fizeste foi verificar as referncias.

Ellie abanou a cabea.

- Foi muito mais do que isso, Julguei-a. Julguei-a de acordo com a nossa maldita moralidade superior. No 
dirs nenhuma mentira! Ela no deve mentir para conseguir um emprego. Mas no faz mal ns mentirmos 
para enchermos os bolsos.

Gordon mostrou-se na defensiva.

50                            

- No estou certo de que se trate da mesma coisa.

- Claro que no . Pessoas como ns mentem para poupar nos impostos. Ela mente por uma oportunidade 
de uma vida melhor. Assim, qual de ns  pior? Os nossos amigos fingem que no esto a lidar com 
informao confidencial. Ela finge que j teve experincia. Qual de ns  o criminoso?

- No penso que sejamos criminosos - decidiu Gordon.

- Mas estou certa, no estou? Ela e o povo dela mentem  maneira deles e ns e os nossos queridos amigos 
mentimos  nossa maneira. Que direito tenho eu de a julgar a no ser que saiba aquilo por que passou? E, 
quanto a isso, ela tem toda a nazo. No fao a mnima ideia.

- Ento o que queres fazer? - Estava satisfeito com a inclinao dela.
- Quero pedir-lhe desculpa e propor-lhe que reconsidere o emprego.

CAPTULO ONZE

A casa no Cape ficava em Chaffiam, no cotovelo da massa de terra que se assemelha a um brao a 
flectir os msculos. Construido imediatamente antes da Guerra Civil por um capito do mar que nutria 
enorme respeito pelo poder das ondas e do vento, ficava assente como uma fortaleza sobre uma pedra 
com afloramento sobranceira a Pleasant Bay e  distante faixa de areia. As suas fundaes ficavam  
vontade seis metros acima das marcas da mar cheia e mais trs metros acima da praia de areia. Nem 
mesmo a tempestade do sculo se aproximara dos degraus do alpendre. O telhado em cume era baixo na 
frente, reduzindo a resistncia s brisas costeiras. O tufo de 44 arrancara algumas das telhas, mas a 
chuva nunca conseguira penetrar no sto.

No entanto, o tempo cobrara o seu preo. As rachas na madeira tinham ficado manchadas de verde-
escuro pelo ar do mar que triunfara sobre a tinta e o verniz, As tbuas que enfeitavam os alpendres do 
rs-do-cho estavam a empolar nos cantos. E os caixilhos das janelas tinham desaparecido para dentro de 
colunas que tinham ficado mais espessas com repetidas camadas de massa e tinta. Estava, na gria dos 
habitantes do ano inteiro, bem acondicionada. Mas para os agentes de venda de imveis que cuidavam das 
novas fortunas dos financeiros de Boston, era demasiado pequena e demasiado estranha para a 
vizinhana.

Arquitectonicamente, era um clssico, com todas as limitaes da era passada. O primeiro andar tinha 
quatro quartos de tamanho igual com roupeiros pequenos. As duas casas de banho de azulejos brancos, 
cada qual com uma banheira gigantesca de ps, ficavam nas extremidades dos halls, tornando os roupes 
de banho um vesturio essencial. No andar de baixo, o alpendre exterior com o seu telhado completo, 
colunas e grades servia como sala familiar. A porta de rede desempenhava o papel duplo de ar 
condicionado e proteco contra insectos. Assim que se transpunha a porta macia da frente, um amplo 
lance

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de escadas separava uma sala de estar grande e geralmente no usada 
de uma sala de estar mais pequena mas sempre cheia, A cozinha, as despensas e mais outra casa de banho 
com azulejos ficavam nas traseiras da casa.

A cozinha, remodelada h alguns Veres, era o nico compartimento contemporneo, com 
uma rea de cozinhar isolada do resto, dois fornos de parede, um 
frigorfico encastrado e uma bancada para refeies. A sala de jantar era forrada em 
madeira, com cadeiras de coxins, papel vitoriano, louceiros com a 
baixela e um candeeiro no centro. A moblia era escura, trabalhada e pesada. A sala 
de estar estava atulhada de coisas, com capas para proteger do p que se mantinham por toda a temporada. A 
nica zona vital era uma secretria macia e uma cadeira de espaldar alto que servia de escritrio 
de Vero a Gordon. Ellie estava prestes a apossar-se dele.

Conduzira at l a carrinha completamente carregada com Theresa e os midos 
e encontrara o caseiro na porta da frente. Herman recebera-
a, como era habitual, com uma litania de todos os desastres evitados apenas 
graas  sua vigilncia constante. Embora se considerasse protector de todas as 
propriedades voltadas para o mar desde Pleasant Bay a Nantucket Sotind, a maior parte dos novos residentes 
com casas na primeira linha da costa tinham-no substitudo por servios de segurana e 
detectores de movimento. Gordon ficou com ele porque sempre l estivera e por estar sempre 
pronto a ajudar quando era necessrio algum trabalho.

Theresa levara para dentro a bagagem dos midos, tirara da mala a roupa de praia deles e conduzra-os pelos 
degraus abaixo at s pequenas ondas que batiam na areia. Ellie colocara-se 
junto  porta da frente e dava orientaes a Herman quanto ao destino de cada embrulho 
que ele trazia da garagem. Reparara na caixa de carto que fora para o quarto de Theresa, contendo tudo 
aquilo de que precisaria para o Vero. Era embaraante para Ellie comparar a caixa com o desfile uniforme de 
malas e cestos que deveriam sustent-la apenas at Gordon conseguir levar o resto das 
coisas.

- Ali, na secretria - disse ela a Herman quando este entrou com a primeira parte do 
computador. O CPU do computador ficaria ao lado da secretria com o 
ecr em cima do tampo. A caixa de folhas de papel que continha as notas de investigao podia 
ficar debaixo da secretria onde estariam escondidas e a impressora foi para o roupeiro do 
hall, para se tirar e ligar apenas quando fosse necessrio. A linha telefnica podia ser desligada do 
telefone da secretria e ligada  parte de trs do CPU sempre que quisesse estar 
on-line. Era uma disposio perfeita, que lhe dava todo o espao de 
escritrio de que precisaria num local voltado para o alpendre onde os midos estariam a 
brincar, Ficaria apenas a alguns segundos dos degraus 
que davam para a praia.

 55

Ellie ocupou-se a preparar o seu escritrio 
at Herman anunciar que a carrinha estava 
vazia. Deu-lhe uma gorjeta extravagante e 
depois correu at ao quarto para vestir o 
fato-de-banho e o roupo de praia. A janela 
trapeira dava directamente para a baa e, 
enquanto se despia, aproximou-se do vidro 
para poder ver a praia l em baixo. Theresa 
enrolara as calas de ganga at acima dos joelhos e estava  borda da gua a 
supervisionar a construo de um castelo de areia. Molly parecia ser a arquitecta e Tmmy servia de 
empreiteiro, fornecendo a areia molhada e as pedras necessrias. Era uma cena de alegria domstica e 
Ellie estava uma vez mais grata a Theresa por ter reconsiderado a sua deciso. Fora uma grande ajuda no 
s a fazer as malas dos midos como a organizar e empacotar o computador e os ficheiros de 
investigao. Ellie j a considerava indispensvel.

Theresa no fora fcil de convencer. No estava em casa quando Gordon e Ellie l tinham ido e nunca 
parecia estar disponvel quando Ellie telefonava. Ellie fora ter com ela aos degraus da escola, pedira 
desculpa por ter exagerado na reaco quanto  discrepncia e pediu-lhe que voltasse. Theresa 
agradecera-lhe educadamente mas dissera-lhe que ia voltar para o emprego na fbrica. Tinha l muitos 
amigos, explicou ela. Eram pessoas que conhecia e que a conheciam. Ellie percebeu a mensagem; a 
jovem sentir-se-ia mais confortvel com pessoas que soubessem tudo sobre ela e que a aceitassem como 
era, Theresa prometeu pensar, mas a Ellie pareceu-lhe ser mais uma cortesia do que uma realidade ela vir 
a mudar de ideias.

Ellie voltara a pedir desculpa em duas conversas pelo telefone e expusera os benefcios do emprego de 
ama. Falara sobre o cenrio das frias, das oportunidades de tempos livres e at das vantagens de alargar 
as relaes e de conhecer pessoas novas.

- At parece que s tu que te ests a candidatar a uma posio - comentara Gordon, - Que fique claro que 
s tu que a ests a contratar.

Ela voltara por fim   escola e oferecera o emprego a Theresa uma ltima vez antes de contratar outra 
pessoa.

- Acho que ser boa para ns e ns seremos bons para si - argumentara ela. - E conhecer pessoas que 
andam no encalo do xito, tal como voc. -
O ltimo argumento parece ter sido o vencedor e Theresa sorrira, dissera que ia voltar e depois abraou-
se a Ellie a rir.

Regressara no dia seguinte e Ellie tivera cuidado desde ento com os seus pedidos e comentrios,

Desceu os degraus de madeira at  praia, com o chapu de palha na cabea para se proteger do vento, 
Os midos correram a cumpriment-la e Theresa deiXou-se ficar  beira de gua a apreciar 
a reunio familiar.

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Suba e vista o seu fato-de-banho - disse Ellie. - Esperamos por si antes de tomarmos banho.

Theresa sorriu nervosamente.

No tenho fato-de-banho. No sou grande nadadora. - Reparando na desiluso de Ellie, acrescentou 
rapidamente: - Mas no me importo de molhar as calas de ganga. Posso entrar na gua at onde o Timmy 
quiser.

Quando Gordon telefonou, Ellie falou-lhe mais da ama do que dos midos. Acho que ela gosta do stio.

- Acho bem. No  exactamente miservel.

- O que quero dizer  que parece sentir-se confortvel c, Havias de ver a expresso dela quando viu o 
quarto. Ficou parada em frente  janela a olhar para a baa e depois para o oceano. Acho que nunca 
suspeitara que existiam mesmo locais destes.

Talvez lhe devamos dizer quanto custa um quarto com vista durante a temporada - riu-se Gordon.

Ellie tinha a mo  volta do bucal.

- Gordon, acho que ela no sabe nadar. Nem sequer tem fato-de-banho.
- ptimo! - disse Gordon com sarcasmo. - Se o bote se afundar, talvez a Molly a salve. Como  que 
uma mida cresce numa vila de pescadores e no aprende a nadar?

As corridas de barco talvez no tenham feito parte da sua vida social disse Ellie com igual dose de 
sarcasmo.

Bem, compra-lhe um fato-de-banho e tudo aquilo de que precisar. Quando contratares um carpinteiro 
amador, tens de lhe comprar um martelo. No te esqueas quem sugeriu contratar o carpinteiro amador - 
lembrou-lhe Ellie.

Gordon ficou calado por um instante. Depois respondeu,

Mea culpa! Tens razo, claro. Fui eu que comecei tudo isto. E peo desculpa por te estar a 
causar problemas.

Na manh seguinte, Ellie anunciou uma ida s compras a Hyannis, que certamente teria suscitado protestos 
das crianas se no tivesse acrescentado que escolheriam novos brinquedos para a 
praia. Esses, tal como planeara cuidadosamente, eram melhores numa loja de surf, 
que tambm ostentava longas alas de fatos-de-banho e roupa de praia.

Compre aquilo de que precisar - disse Ellie a Theresa, tentando assumir 
um tom casual. - Eu levo os midos para os brinquedos mais seguros. - Theresa hesitou sem se dirigir para 
nenhuma das direces adequadas. - Para este emprego - lembrou Ellie - 
um fato-de-banho e um chapu para o sol so como uma farda. E  melhor comprar algumas camisas e 
um bom par de sandlias.

 57
  - Mesmo assim, Theresa no se dirigiu para nenhuma das alas. - Vm com o emprego - disse-lhe Ellie. - 
Espero pagar pelas coisas de que precisa para tomar conta dos meus filhos.

- Mam, olha! - Timmy j estava a correr na direco dela com um tubaro insuflvel que tinha o dobro do 
seu tamanho.

- Escolha algumas roupas - ordenou Ellie, pegando na mo de Timmy e dirigindo-se para o outro extremo 
da loja.

Deu uma gorjeta ao empregado para levar brinquedos de praia, bias e o tubaro enorme at a 
carrinha e conduziu depois os filhos de volta  seco de vesturio. Theresa tinha uma pilha de camisas e 
fatos-de-banho cados sobre o brao e trazia um grande chapu de palha na parte de trs da cabea. 
Estava de p em frente a uma prateleira com sandlias.

- Vejamos - disse Ellie, mostrando j entusiasmo pelas seleces de Theresa.

As t-shirts com cenas de vela e peixes a saltar correspondiam quilo de que estava  
espera. Nenhuma delas ostentava as palavras mais vulgares nem trocadilhos sexuais. O chapu era prtico, 
ainda que um pouco de tipo matrona.

- Vai precisar de uma coisa que fique bem justa para andar de barco disse Ellie e escolheu um bon de 
beisebol com o logotipo da cerveja de Narragansett. - Estes ajustam-se a qualquer tamanho. - E pegou num 
par de socas que eram moda no meio dos jovens. - Leve estas para a praia. Por aqui as sandlias so mais 
para andar vestida.

O fato-de-banho  que era o problema. Era de uma s pea num padro florido, com corda nutica a fingir 
delinear as alas dos ombros e o decote. No era horrvel, mas no era certamente o que uma jovem com 
boa figura vestiria para uma praia fina, Ellie tinha a lngua presa, sem saber como sugerir que procurasse 
algo um pouco mais revelador.

- No vais usar isso! - guinchou Molly. Ellie estava capaz de a beijar.

- No gostas? - perguntou Theresa. Ellie percebeu que Theresa tambm no estava maravilhada com ele. 
Escolhera-o por estar em saldo.

-  horrvel - respondeu Molly, virando a cara para o lado como se tivesse detectado um odor 
desagradvel.

Ellie avanou rapidamente, escolhendo um fato-de-banho de competio azul-escuro com enfeites verde-
claros. Depois pegou num biquini branco simples com ancas bem recortadas e cordes a servir de alas 
para o soutien.

- Experimente estes - disse ela a Theresa. E depois acrescentou: - Talvez goste mais deles. - No queria 
parecer estar a dar ordens.

Theresa pegou nos dois fatos e inclinou-se para Molly.

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- O que  que achas destes? Molly olhou de relance.

- So melhores do que aquele que escolheste.

Theresa desapareceu para dentro do vestirio e saiu com o fato-de-banho. Elle ficou espantada. Tinha 
bonitas curvas, com um pouco de busto e de ancas a mais para uma modelo, mas uma jovem certamente 
muito bem proporcionada. Possua uma pele esplndida, de um moreno escuro que revelava um brilho 
quase lustrado. O sorriso branco e os olhos azuis-claros ficavam ainda mais evidentes. No havia dvida 
de que Theresa competiria com qualquer uma que as famlias vizinhas arrastassem para os churrascos de 
marisco.

- Muito, muito melhor - disse Ellie.

Mas Theresa estava a desfilar o fato para Molly.
- Gostas deste?

Molly estava fascinada com todas as curvas e com a suavidade comprimida contra o tecido semelhante a 
pele.

- Sim! Fica bem!

- Experimento o outro? - pergunta Theresa a Ellie.

- Claro, se quiser. - Mas Ellie achava que nada poderia melhorar a aparncia actual.

Theresa voltou alguns minutos depois e o rubor rosa de embarao tornou a sua compleio escura ainda 
mais reluzente, O biquini branco parecia mnimo, revelando por completo uma clivagem perfeita. Os 
mamilos mostravam-se salientes encostados  Curva do soutien. E a cintura parecia ainda 
mais delgada do que com o fato-de-banho.

- Uau! - disse Ellie com um sorriso.

Os olhos de Molly estavam arregalados, cheios de esperana de um dia vir a ter uma aparncia assim.

- Est muito melhor - concedeu ela,

- Snto-me nua - murmurou Theresa a Ellie.

- Bem, desde que no o vista quando houver muita rebentao.
- Vai usar um destes?

- No, mas tambm no o encho to bem como voc.
- Ento no o levo - decidiu Theresa.

- Leva-o! - ordenou Molly. Estava a pensar na multido que Theresa atrairia e na inveja que os outros 
midos iriam sentir.

- Sim - concordou Ellie. -Pode us-lo  vontade, por isso no h razo para no o levar.

- Levo se a senhora tambm levar um - respondeu Theresa.
- Oh, meu Deus. Tenho uma figura de tbua de engomar.

 59

- Mas vou ficar com vergonha se parecer despida e a senhora parecer estar completamente vestida,

- V l, me - juntou-se Molly. - A me do Haley usa biquini.

- A me do Haley no  bem me dele - murmurou Ellie, - Uma segunda mulher,

- Ento no deve desistir - encorajou Theresa. - Pelo menos experimente um.

Ellie corou com embarao, embora lhe agradasse que a filha a visse como contempornea da segunda me 
de Haley.

- Oh, acho que no--- - Mas j estava a empurrar os cabides  procura do seu tamanho.

No vestirio, voltou-se lentamente para o espelho. O biquini que escolhera tinha uma barra horizontal que, 
pelo menos, lhe conferia largura. Teve de admitr que no ficava mal. Tinha umas pernas boas, 
compridas e magras. E a zona mais larga do diafragma era a parte de baixo das 
costelas. O busto era pequeno, mas pelo menos o biquni no trazia copas 
pr-formadas. Era natural e mesmo provocador.

No podia! Se o levasse para o clube as amigas iam perguntar-se quem  que ela queria enganar. Realmente 
no precisava de competir com uma adolescente. Mas ao dar umas reviravoltas, lembrou-se de que era alguns 
anos mais nova (to que a maioria das mulheres do seu crculo. Porque haveria de ter pressa de as apanhar?

Que se dane, decidiu ela, podia us-lo na sua pequena praia privativa.
O Gordon que decidisse se queria que ela mostrasse as costelas e, quando se debruasse para a frente, tudo o 
que lhe restava das mamas. Se ele gostasse, e vesti-lo na sua prpria praia dava-lhe coragem, talvez at o usasse 
no clube.

CAPTULO DOZE

Nessa noite, Ellie comeou o trabalho h muito adiado na tese. Enquanto Theresa dava banho aos midos, 
ela sentou-se no alpendre e voltou a ler o esboo, Parou quando eles desceram as escadas para darem as 
boas-noites e fez outra pausa quando ouviu Molly a desafiar Theresa. Depois de restaurar a ordem, reviu 
as estatsticas e quadros, isolando a informao de que ainda precisava e fazendo uma lista das autoridades 
cujas opinies seriam essenciais. Estava a organizar os documentos em cima da secretria quando 
Theresa desceu finalmente para anunciar que os midos j tinham adormecido.

- Como  que vai isso? - perguntou Theresa, apontando com a cabea na direco dos documentos.

Elle SUSPirOU.

- Desencorajante. Parece que no estou to adiantada como pensava. Theresa sentou-se de pernas 
cruzadas no cho, junto  secretria.

-  sobre qu? - perguntou ela.

Ellie ia dar-lhe uma resposta casual, mas detectou interesse verdadeiro e Por isso comeou a explicar o 
trabalho. Estava a tentar mostrar que, em comunidades despojadas, recursos escassos de ensino seriam 
melhor dirigidos para os pais do que para as crianas. Em programas auspiciosos, os educadores 
profissionais deviam trabalhar com os pais e depois deixar que esses trabalhassem com as crianas. Ambas 
as abordagens tinham sido experimentadas e havia alguns relatrios muito favorveis. A sua tarefa era 
reunir essa informao de jornais profissionais publicados pelos estados e relacionar depois os dados com 
os pontos de vista expressos pelas universidades e especialistas governamentais.

- Bem - disse Theresa. - Sei que posso ajud-la com os quadros. Sou muito boa em matemtica.

- Agradecia - disse Ellie.

 61

- E sei como usar o catlogo de uma biblioteca. At posso procurar parte da informao na Internet.

Ellie encostou-se para trs, com uma expresso que denotava prazer.

-j usei computadores nas bibliotecas - disse ela - e j estive on-line a ver o que havia no 
estrangeiro. Mas fazer pesquisa mesmo...

- Fez parte de um curso que acabei de tirar - disse Theresa. - Se quiser, posso pelo menos tentar ver se 
consigo obter alguma coisa.

- Est bem - disse Ellie, deixando-se ficar na cadeira. Depois olhou por cima do ombro de Theresa 
enquanto a babysitter se lanava na Internet, escolhia um motor de pesquisa e comeava 
a pedir temas. Ellie observou com fascnio enquanto viajavam de estado em estado, limitando 
constantemente a descrio dos artigos-alvo.

- Maxwell - gritou Ellie de repente quando o nome Surgiu numa lista de autores. -  uma das minhas fontes.

Theresa fez aparecer ttulos e resumos de trs artigos do autor e gravou depois todo o texto para uma 
disquete. Ellie empurrou uma das cadeiras de tecido at  secretria e comeou a oferecer palavras e 
expresses que pudessem acelerar a busca. Theresa escrevia-as nos motores de busca chegando 
normalmente a becos sem sada, mas ocasionalmente tendo sorte. Tinham identificado trs das bases de 
dados e reproduzido mais dois artigos quando Theresa limpou os olhos de exausto.

- Meu Deus,  quase meia-noite - anunciou Ellie. Theresa riu-se.

- Parei de pensar h meia hora atrs. Acho que no conseguimos grande coisa.
- Conseguiu muito. Fez mais do que uma mossa no trabalho. No sei como agradecer-lhe.

-   Gosto de fazer isto. E gosto do que est a tentar demonstrar. Importa-se que leia os seus ficheiros? 
Posso ter algumas ideias.

- Se me importo? Adorava. Os olhos de Gordon fecham-se sempre que lhe falo do meu trabalho.

- Acho que gostava de seguir educao - disse Theresa. -  to importante.

Ellie apeteceu-lhe abra-la.

Sentou-se  secretria durante vrios minutos maravilhada com o desempenho a que acabara de assistir. 
Nunca tivera uma aluna to inteligente. Aluna? Era injusto pensar em Theresa dessa forma. Ela fora a 
professora, mostrando a Ellie como se desembaraar no ciberespao, um local onde Theresa estava 
perfeitamente  vontade e onde ela era apenas uma visita, Parecia que com apenas algumas horas por 
noite, Theresa podia ajud-la a gravar centenas de artigos.

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Ellie olhou para o relgio, perguntando-se porque  que Gordon no telefonara tal 
como fazia quase todas as noites em que estava fora. E depois lembrou-se; a 
linha telefnica fora ligada ao computador. Gordon provavelmente no coonseguira ligao. Assim que 
voltou a ligar a linha ao telefone, este comeou a tocar.

- Com quem  que estiveste a falar? - exigiu ele. Havia um timbre de fria na sua voz.
 -
Desculpa, mas espera at eu te contar. A Theresa deu-me acesso  Internet, para fazer a 
minha pesquisa on-lne. Fiz tanta coisa!

Tu? On-line? 

- Bem, na verdade foi a Theresa. Eu s lhe dei palavras e 
observei por cima do ombro dela. Mas foi espantoso!

- Os computadores so o futuro...

O computador no. A Theresa! Ela  a mida mais inteligente com quem j trabalhei. Foi fntstica com as 
crianas e depois de cuidar deles durante todo o dia, veio ajudar-me com o meu trabalho.
 - Ela no  uma aluna j licenciada, Ellie.  apenas uma babysitter.

Podia ser uma aluna licenciada. Pela primeira vez, comeo a acreditar que vou acabar isto no fim do 
Vero.

Fica de olho no trabalho dela. Ellie detectou alarme.

Porqu? O que  que pensas que ela vai fazer?

Nada! Mas no vai perceber o que est a ler. Pode cometer algum erro
1          que te deixe embaraada.

Ela suspirou,

Santo Deus, tudo o que est a fazer  procurar informao. Eu  que estou a escrever a tese.

ptimo - respondeu ele e depois comeou a dizer-lhe que tinha saudades dela. 
Ela encostou-se para trs, encostou o telefone ao ombro e perguntou-lhe 
se no podia ir at ao Cape um dia mais cedo.
 -Tenho uma surpresa para ti - disse ela, pensando no biquini ousado.
 Gordon no lhe contou as notcias surpreendentes que tinha para ela. Henry Browning 
telefonara-lhe a avis-lo de que a polcia estava interessada na menina Santiago. 
Semicondutores roubados oriundos da fbrica da Digital Electronics onde Theresa trabalhara estavam a 
aparecer no mercado negro da zona. Algum descobrira como alterar um programa de 
inventrio com base num computador para que no se desse pela falta deles nas 
prateleiras do armazm.
 Na manh seguinte, Ellie ensinou Theresa a usar a cmara de vdeo e mandou-a ir at  
costa com as crianas. A temporada estava a abrir com um concurso

 63

de esculturas de areia em que Molly queria participar e, embora no tivesse nenhum talento especial, cada 
um dos participantes com menos de 12 anos receberia uma faixa.

- Filme a Molly e o Timmy a trabalhar - pediu Ellie, - E depois as obras deles. O pai vai gostar de as ver. E 
filme algumas das obras dos adultos. Algumas so magnficas.

Depois deles sarem, ela sentou-se ao computador e comeou a moldar a sua discusso em torno da 
informao que Theresa retirara da Internet. Enquanto trabalhava, apercebeu-se da importncia do 
contributo da jovem e ponderou nos contrastes existentes dentro de uma personalidade. Ela era to hbil 
no trabalho escolar, no emprego da fbrica e estava espantosamente  vontade com o computador. E, no 
entanto, era muito insegura quanto ao penteado,  roupa e a outras coisas tipicamente importantes para 
mulheres da sua idade. Era como se tivesse passado directamente (ta infncia para as responsabilidades da 
fase adulta, sem ter parado na adolescncia.

Ouviu o rudo de um motor a reduzir a velocidade e depois o derrapar de pneus. Quando foi at ao 
alpendre, um jipe descapotvel encontrava-se estacionado quase em cima de uma duna. Trish Mapleton 
estava a subir as escadas.

- Trish! - Ellie estava sinceramente contente por v-la. Com os seus cales atlticos, camisola sem mangas 
e bon de beisebol, estava de uniforme familiar. Os culos de sol eram de se esperar e as botas de 
caminhada com meias enroladas para baixo estavam de acordo com a ltima tendncia da moda. Ellie 
sentia-se- muito  vontade com Trish.

- Senhora Acton! Acabaram de me dizer que tinha chegado. Como  que foi o Inverno? - j se estava a 
instalar numa das cadeiras de vime almofadadas.
- Maravilhoso! Muito ocupado! Creio que deve ter ouvido falar da candidatura.
- Claro. Os meus pais acham o mximo. Ento como  que esto os midos? Aposto que a Molly j est uma 
mulherzinha.

A alegria de Ellie desvaneceu-se. Trsh esperava reassumir a tarefa de ama. Ellie no tinha vontade de lhe 
dar a m notcia.

- Foram at  costa. O concurso de castelos de areia.

- ON - Surgiu desconfiana nos olhos de Trish. - Com quem  que eles esto?

-  Com a minha assistente - respondeu ela com o mximo de indiferena que conseguiu reunir. - Tive de 
arranjar uma pessoa em Providence para me ajudar durante a campanha, - Assistente 
parecia sugerir algum que tomasse conta dela e no dos midos. No soava de forma to 
ameaadora,

- Oh, ptimo! - Mas o entusiasmo de Trish era falso e a desconfiana demorava-se ainda nos seus olhos.

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- Ela vai c estar de vez em quando durante o Vero - esforou-se Ellie por continuar - a ajudar-me com o 
trabalho da escola e... com os midos. No conseguira fazer com que os midos soasse de 
modo indiferente. E pde ver que a convidada o compreendeu rapidamente.

- Bem, provavelmente j no vai precisar de mim. Ellie continuou a no conseguir dar a notcia.

- Claro que vou precisar de si, E a Molly est morta por v-la. Talvez no precise de si com tanta 
frequncia, mas pode vir sempre que queira.

- Oli, obrigada. - A rapariga foi educada, mas era bvio que percebera a mensagem. - Tambm eu vou 
estar muito ocupada, mas vou tentar passar por c para ver os midos. - Levantou-se e dirigiu-se 
para as escadas.

- No quer uma Coca-cola ou ice tea? - ofereceu Ellie com pouco 
entusiasmo.

- No, obrigada. S vim cumpriment-la rapidamente.

Desceu os degraus a correr e saltou para o jipe. O carro rodopiou fazendo inverso de marcha e 
levantando areia. Depois passou rapidamente junto  fachada lateral da casa e desapareceu depois de 
contornar a garagem.

Ellie ficou a observ-lo com ar triste.

- Bem, trataste mesmo bem do assunto - dsse repreendendo-se a si prpria. j podia imaginar a 
recepo fria que a esperava quando encontrasse os Mapleton no clube.

Voltou para a tese, mas a sua mente regressava sempre ao seu encontro com Trish. Gostava de lhe ter 
telefonado assim que Theresa fora contratada para lhe contar a verdade de imediato. Depois 
reconsiderou. Teria sido igualmente difcil contar-lhe nessa altura como agora e os pais dela teriam tido 
muito tempo para envenenar a atmosfera no clube. Deu por si a brincar com a ideia de enterrar Theresa 
no trabalho de pesquisa para poder precisar de Trish para os midos. Isso deixada todos satisfeitos, 
especialmente a sua filha pr-adolescente. Mas contratara Theresa para cuidar dos filhos, com a promessa 
acrescida de um Vero na praia. No seria justo fech-la dentro de casa como uma bibliotecria. Por fim, 
ps os papis de parte. Theresa, recordou ela, era muito mais competente do que qualquer filha dos seus 
amigos e precisava mais do emprego e provavelmente levava-o mais a srio. No iria comprometer a 
rapariga s para evitar alguns momentos desagradveis.

Foi at ao andar de cima, reparou que a porta do quarto de Theresa estava ligeiramente aberta e foi fech-
la. Depois, quando chegou  soleira da porta, no resistiu e espreitou l para dentro. Ellie foi 
imediatamente arrebatada pela atmosfera dispersa e quase militar do quarto. No havia objectos pessoais, 
nenhum cartaz, nenhuma revista feminina e nenhum guia de beleza nem revista de moda.

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o indispensvel leitor de CD estava ausente juntamente com a torre familiar repleta de discos. No havia 
fotografias de pais nem instantneos de amigos. De facto, Ellie no encontrou nenhum sinal de vida.

olhou para as prateleiras da estante de livros que ficava do outro lado da cama. Havia agrupamentos de 
livros escolares sobre matemtica, ingls, cincia informtica, biologia e histria. Nada de romances nem de 
livros com fotografias nem nada que aludisse a um passatempo ou sugerisse diverso. Deu por si a sentir 
pena da rapariga. As posses reflectiam uma existncia lgubre.

Ellie entrou no quarto em bicos de ps e sem fazer barulho, embora soubesse que estava sozinha em casa. 
Estava a espiar desavergonhadamente e a tentar esconder as aces at mesmo de si prpria. Abriu a 
porta do roupeiro. As coisas que trouxera no dia anterior estavam penduradas primorosamente de um dos 
lados do roupeiro. As coisas que trouxera com ela - dois vestidos vulgares, um par de calas de ganga 
e algumas t-shirts e blusas - estavam relegadas para o outro lado como se um grupo de 
roupa pudesse contaminar o outro. No cho, ao lado das sandlias novas e de sapatos de lona velhos, 
estava uma caixa de flauta gasta nos cantos.

Fechou a porta e voltou-se para a cmoda.

No devias estar a fazer isto, lembrou Ellie a si mesma. Inclinou-se para a porta do quarto, sabendo que 
era aquele o caminho que devia seguir, mas depois dirigiu-se para as gavetas fechadas da cmoda. 
Encontrou um conjunto bsico de meias e roupa interior, tudo do tipo atltico de algodo. No havia nada 
que pudesse ser qualificado como lingere. No havia sequer uma camisa de noite, apenas um 
pijama s riscas. Para Theresa, o vesturio parecia no passar de recato e seriedade.

Olhou para o tampo da secretria, com um s lpis a repousar junto do mata-borro. Depois abriu a gaveta 
da secretria. L dentro havia canetas, artigos de papelaria e blocos de papel que Ellie fornecera. Havia 
tambm um nico envelope branco com fotografias visveis dentro. Levantou-o e comeou a fazer deslizar 
as fotografias para fora.

Reconheceu Theresa. Estava ao lado de um rapaz da idade dela e em frente ao carro desgastado que 
conduzira at  casa de Ellie. Tinham uma arca frigorfica de plstico junto aos ps. Havia outro casal ao 
lado do carro, uma rapariga ligeiramente gorda com um rapaz alto e magro. Pareciam ser amigos da mesma 
Zona, todos de um bairro do outro lado do mundo. O carro, a roupa, os penteados e mesmo os modos 
causariam preocupao na praia de Cape Cod e levantariam suspeitas junto da polcia local.

As fotografias seguintes mostravam combinaes das mesmas pessoas, agora numa praia de areia. Estavam 
em cima de uma manta, com a arca aberta pousada

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 na areia ao lado deles. Cada um tinha uma garrafa de cerveja e fazia caretas para a mquina. Ellie deu 
por si a sorrir, maravilhada por Theresa parecer ter, pelo menos, alguns amigos e uma certa vida social.

Retirou a fotografia seguinte. Mostrava Theresa com o namorado a mergulharem de uma rocha para a 
gua numa zona funda. Ellie ficou estupefacta diante da prova de que Theresa devia saber nadar. Ficou 
ainda mais surpreendida com o biquni muito mnimo que tinha vestido. No havia nenhuma razo para se 
ter mostrado tmida ao experimentar um fato-de-banho na loja.

- Sua impostora - disse Ellie em voz alta. Depois respirou fundo quando se lembrou de que Theresa estava 
com os filhos na praia.

CAPTULO TREZE

Quando Gordon entrou no gabinete de Henry, j l estava outro homem sentado numa das cadeiras 
laterais.

- Gordon, este  o Sargento Edward Wass...

- Was-chay-vitz - disse o sargento, que passara obviamente muitas vezes por essa rotina. - Departamento 
de Fall River.

Wasciewicz era de estatura mdia e possua ombros redondos, com o peito afundado de um fumador 
inveterado. Estava algures entre os 30 e os 50 anos, com cabelo branco fino e uma compleio plida. No 
teria nada que o definisse exactamente se no fossem os olhos azuis penetrantes que avisavam no ser de 
brincadeiras. Gordon deu-lhe um aperto de mo e depois sentou-se ao lado dele, do outro lado da 
secretria de Henry Browning.

Henry criou o cenrio.

- O sargento concordou generosamente em informar-nos do estado da investigao sobre o assunto Digital 
Electronics. O seu capito sabe do meu interesse por Theresa Santiago e teve a simpatia de me telefonar 
quando o nome dela veio  baila.

Gordon compreendeu a verdade da questo. A influncia poltica de Henry estendia-se para l da linha do 
estado at Fall River. Algum no departamento zelava pelos seus interesses e pedira a Wasciewicz para o 
manter informado.

O sargento curvou os ombros em resposta  introduo. Nada de especial, parecia ele indicar. Era bvio 
que no sabia o que se passava.

- No h muito sobre que o informar - comeou ele. - Microprocessadores de uma fbrica da nossa rea 
tm aparecido em centros de reparaes de meia dzia de cidades. Como a empresa no vende para 
centros de reparao, verificou tudo desde o seu armazm at aos centros -de distribuio aos clientes 
para tentar encontrar a fonte. Afinal o material vinha directamente das suas prprias prateleiras.

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Gordon olhou de relance para o relgio. O polcia recuperou a cadncia.
- Parece que um ladro local entrou em contacto com algum da fbrica que estava a pr as componentes 
c fora juntamente com o lixo. Material de rotina que podemos facilmente apreender. Mas algum mudara 
os programas de inventrio do computador para que no se desse conta das componentes que faltavam. 
Conseguimos uma lista de pessoas com acesso aos computadores da empresa e Theresa Santiago estava na 
lista. Para o fim da lista pelo que no  bem suspeita, mas algum viu o nome dela e achou que o senhor 
Browning devia saber disso, Henry fechou a descrio dizendo:

- E uma vez que a contrataste, Gordon, pensei que devias ficar a par disso imediatamente.

Gordon acenou com a cabea e depois voltou-se para Wasciewicz.
- Diz que ela no  suspeita de nada.

- Ainda no - respondeu o sargento. - Provavelmente nunca o ser. Mas se chegarmos ao fim da lista, 
talvez seja necessrio interrog-la,

Gordon olhou para Henry.

- No vejo problema nenhum. Ela trabalha num local onde houve um roubo, mas no  suspeita de nada, - 
Voltou a olhar para o polcia. -  s isso?
-  s. Mas ainda estamos no incio. Talvez quando soubermos mais...

- Mantm-me informado - disse Henry, concluindo o pensamento.

- Claro. - Wasciewicz j estava de p. No se sentia  vontade a prometer favores polticos a ningum. 
Cumprimentou Henry por cima da secretria e depois estendeu a mo a Gordon.

- Prazer em conhec-lo, senhor Acton. E se houver algum desenvolvimento da sua parte, espero que 
retribua o favor e me telefone.

- Que desenvolvimento da minha parte?

- Oh, tipos estranhos a telefonar  menina Santiago. Ou talvez ela desaparecer sem dizer a ningum onde 
vai. Ou at parecer assustada.

- Ela tem alguma coisa de que ter medo?

- Provavelmente no. Mas o tipo que estava a pr as componentes c fora com o lixo desapareceu. No 
sabemos o que lhe aconteceu.

CAPTULO CATORZE

Gordon foi at Chaffiam, na sexta-feira  noite j tarde, depois de um jantar de angariao de fundos e 
chegou a casa muito depois dos filhos j se terem deitado, Embora houvesse luz na janela da sala de estar, 
fechou a porta do carro com cuidado e subiu silenciosamente os degraus. Ficou surpreendido, ao entrar, 
por encontrar Ellie e Theresa a trabalhar furiosamente  secretria.

Ellie deu um salto e cumprimentou-o com um beijo. Theresa mal levantou os olhos, continuando absorvida 
pelo computador.

- Estamos a fazer tantos progressos - anunciou Ellie e apressou-se a voltar para a secretria para reunir as 
pginas impressas.

- ptimo! - Ele juntou-se a ela por detrs da secretria, mas centrou-se no trabalho que Theresa estava a 
fazer e no nos papis que Ellie lhe entregara. -
O que  isso? - perguntou ele, apontando com a cabea na direco do que estava exposto no ecr.

- Estamos na Biblioteca de Yale - contou-lhe Ellie - a escolher seces do estudo de Wortheimer sobre 
filhos de professores.

- Columbia - corrigiu Theresa. - O material de Robinson  que era em Yale.

- Claro, Columbia - concordou Ellie.

Gordon observou a rapariga a manipular a informao, sublinhando as seces para serem 
gravadas para a disquete. Era bvio que conhecia o suficiente do trabalho para saber quais os quadros 
relevantes.

 mesmo boa nisso - elogiou ele,

Gosto de computadores - disse Theresa, ainda que completamente absorvida pelo que estava a fazer.

- No  s gostar. Voc compreende os computadores. Aposto que era capaz de fazer 
programas seus.

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Theresa acenou com a cabea. Mas de repente afastou-se do teclado. Oh, programas 
verdadeiros, no.  mais mudar algumas instrues. Apenas coisas que aprendemos na escola. - 
Gordon estava a olhar fixamente para ela de cima e Theresa comeou a 
inquietar-se. - Aprendemos apenas as coisas simples--- a mecnica...

- A mim no me parece assim to simples - persistiu ele. - Voc percebe mesmo de organizao 
de ficheiros. E sabe exactamente onde a Ellie est a tentar chegar.

Theresa saiu da cadeira.

- Estou apenas a copiar aquilo de que a senhora Acton precisa. No 
sei do que se trata.

Oh, voc  muito mais til do que isso, Theresa - respondeu Ellie. Depois disse a Gordon, - 
No sei o que faria sem ela.

-
 melhor ir subindo - disse Theresa. -  um bocado tarde. Sim, claro - concordou Ellie. - Um dia atarefado 
amanh.

Ela e Gordon levaram uma garrafa de Pinot Gngio para o alpendre protegido por rede 
e instalaram-se ambos num grande sof.  esquerda, estavam as luzes dos barcos 
ancorados ao largo do clube, com um clarao ocasional de dentro das cabinas. Em 
frente, as luzes da estrada da faixa de areia reflectiam-se em Pleasant Bay.
 Ele ouviu com ateno enquanto ela lhe explicava exactamente onde ia no desenvolvimento dos seus 
argumentos e todo o trabalho que Theresa tivera para

o conseguir. A mida era uma investigadora espantosa e aprendia muito depressa.
Esboara at as partes de ligao entre algumas das citaes e demonstrara capacidades de escrita 
invulgares.

- No admira que Yale a queira - disse ela em forma de resumo. Yale? - Gordon 
estava espantado.

Ellie acenou com a cabea.

Tem uma bolsa de estudo juntamente com grande crdito pelo trabalho no bacharelato. S tem 
de pagar as despesas pessoais.

- Talvez seja melhor deixares a Theresa escrever a tese por ti - disse ele com um riso irnico.

Ellie sentou-se subitamente direita.
 - No vou fazer nada disso!

Ei, s estava a brincar, - Gordon levantou as mos fingindo render-se.
-  que ela no estava a brincar com jogos de vdeo ali. O que est a fazer  uma coisa muito 
sofisticada, Se a nossa aluna mdia de liceu tem tanto talento, no sei se 
precisamos de novos mtodos de ensino.

Ela no  a tua aluna mdia de liceu, j  uma assistente de pesqusa magnfica. Mas estas so 
ideias minhas apresentadas  minha maneira. Tal como ela disse, s est a fazer o 
trabalho mecnico.

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- Eu sei, eu sei - concordou Gordon. - E estou contente que ela seja uma ajuda to grande para 
ti.

Ellie beberricou do copo, demorando um momento a organizar as palavras.
- Sabes, ela  muito mais preciosa a ajudar-me com a minha tese do que apenas a cuidar dos midos. Estava a 
pensar...

- Apenas a cuidar dos midos? - interrompeu ele. - Ests sempre a dizer que esse  o trabalho mais 
importante que fazes.

- E . No foi isso que quis dizer. Mas pensei em falar com a Trish Mapleton amanh sobre dar-me uma ajuda 
com os midos para que a Theresa possa passar mais tempo no meu trabalho. Ela podia ir a Brown e a Harvard 
para fazer parte da pesquisa que no conseguimos fazer pela Internet. No geral, talvez me d ainda mais tempo 
com as crianas.

Gordon olhou para ela desconfiado,

- Claro, se  isso que queres. Mas parece-me que ests  a pensar no que a Molly quer. Decidiu 
que quer ficar com a Trish? Est a criar dificuldades  Theresa?

Um pouco. A Molly anda mal-humorada e no quero que tenha um Vero horrvel. Mas a verdade  que 
no confio a cem por cento na Theresa. No tenho a certeza se  a pessoa que finge ser. Com a pesquisa no 
faz mal. Sei que posso tomar conta de mim. Mas no quero dvidas quando se trata dos midos.

Ele perguntou-lhe se ainda estava preocupada por Theresa ter mentido em relao s responsabilidades 
familiares.

- Por isso, mas por outras coisas tambm. Como as fotografias que encontrei na gaveta dela,

- Andaste a mexer-lhe nas coisas? - Estava completamente surpreendido. Ellie tinha o mximo respeito pela 
privacidade das outras pessoas.

Ela admitiu o crime, mas depois contou a Gordon a cena de timidez de Theresa na loja e a fotografia 
contraditria dela com um bquin de cordel. Lembrou-lhe que no era suposto Tberesa ser grande nadadora e 
depois descreveu o mergulho para guas profundas.

- Quero dizer, no h nada de mal em saltar das rochas se se souber o que se est a fazer. Mas porqu fingir 
outra coisa? No h problema nenhum num fato-de-banho decotado, especialmente se se tiver a figura dela. 
Mas porqu fingir que nunca esteve num vestirio?

Ele acenou lentamente com a cabea e murmurou palavras de concordncia. Mas no partilhou o seu 
desassossego sobre o roubo de semicondutores da Digital Electronics. Era uma associao demasiado 
improvvel apesar da possibilidade ter sido reforada pela demonstrao de mestria informtica que ela fizera.

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- Vamos combinar uma coisa - props-lhe ele. - Vamos dormir e pensar no assunto durante o fim-de-
semana. Os tipos de Newport vo trazer o barco e devem chegar ao clube logo de manh cedo. Depois 
o Henry vai mandar um fotgrafo que vai querer ver-nos todos juntos no ancoradouro a ssubir a bordo e 
esse tipo de coisas. Por isso vamos ser ns a cuidar dos midos.

Ellie acenou com a cabea pensativamente.

- Est bem. No ia trabalhar na tese durante o fim-de-semana. Como a Trish deve andar pelo clube, talvez 
a Molly no seja to maadora.

- Ento estamos de acordo.

- Excepto na parte de "dormir". Estava  espera que no quisesses ir j dormir.

Ele sorriu, engoliu o resto da bebida e ajudou-a a levantar-se do sof.
- Dormi bastante ao jantar - prometeu Gordon.

CAPTULO QUINZE

O dia seguinte comeou mal. Molly gritou dizendo que no queria ir ao clube. No deu 
nenhuma razo, mas Ellie sabia que ela tinha medo de ser deixada de fora das actividades 
por estar ao cuidado de algum que no pertencia ao meio. Molly arrastou-se e atrasou-se 
at que Gordon se zangou porque havia um fotgrafo e uma tripulao  espera na doca e 
depois Ellie deu por si a arbitrar o confronto entre o marido e a filha.

Quando finalmente chegaram ao barco, encontraram o fotgrafo a discutir com a tripulao. 
Era um jovem efeminado com mquinas fotogrficas, fotmetros e caixas de rolos 
pendurados  volta do pescoo. Estava a fazer finca p com os tipos do porto, exigindo que 
o barco fosse posto noutro ancoradouro para proporcionar um fundo 
mais cnico. O capito da tripulao de trs homens insistia no ter autoridade para mudar 
para o ancoradouro de outra pessoa e estava a segurar fisicamente num dos 
seus marinheiros que queria lanar o fotgrafo  gua. Gordon livrou-se da 
tripulao e acrescentou uma gorjeta muito generosa. Depois levou o barco at ao 
ancoradouro que o fotgrafo seleccionara,

Henry Browning prometera um fotgrafo imperceptvel que tiraria algumas fotografias 
informais e que depois desapareceria de vista. Mas o jovem tinha ambies muito mais 
elevadas. Colocou Ellie ao leme com Gordon a espreitar-lhe por cima do ombro, 
aparentemente em alto mar, mas na verdade ao lado de outro iate, Depois foi Gordon a 
instruir Timmy a ler a bssola. Depois os midos na coberta de proa com Ellie e Theresa e 
depois a famlia e a babysitter no cockPit com Gordon ao leme.

Enquanto posicionava os seus sujeitos, ordenava  assistente - uma jovem com 
piercings e tatuagens - para colocar reflectores, endireitar o vesturio e at 
pr algumas gotas de suor na testa de Gordon. As actividades no barco, juntamente

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 com a quantidade de caixas de equipamento no cais, atraram uma multido de espectadores. E 
a agitao fez por fim com que o comodoro surgisse com queixas sobre a interferncia no decoro normal 
do clube. Quando terminaram as poucas fotografias simples e informais, Gordon estava furioso e Ellie 
envergonhada.

Mandaram Theresa para a praia com as duas crianas e o carto do clube que lhes possibilitaria a 
todos almoar no bar. Depois foram para a sala debaixo do alpendre e pediram gin tnico 
embora ainda fosse cedo. Jack OCotinelli, que tinha a gargalhada mais estridente do clube e que 
considerava que tudo o que dizia era hilariante, juntou-se a eles sem ser convidado e acenou  mulher, 
Mary, para ir at  mesa assim que ela chegou. Gozou cruelmente com Gordon a respeito das fotografias 
de falsa navegao e ofereceu-se para lanar um balde de agua do mar por cima dele para que parecesse 
estar a atravessar uma tempestade.

Enquanto Jack limpava as lgrimas de riso, os Mapleton chegaram para o almoo, com Cecil a comentar o 
pedao de traseiro das Carabas", que Gordon mantinha sob a desculpa de Star a cuidar dos filhos. 
Pricilla nunca se aproximou da mesa mas conseguiu trocar um olhar cmplice com Mary OConnelli. 
Quando os Acton ficaram sozinhos, Gordon j ia a caminho da segunda bebida. Quando for eleito - disse 
ele a Ellie - a primeira coisa que vou fazer 

mandar o ministrio do ambiente fechar este local por violao de pntanos. Ellie limitou-se a abanar a 
cabea.

No pode ficar pior do que est - anunciou ela.

Mas ficou e, no momento em que levaram o almoo at  mesa deles, Molly dirigiu-se  esplanada de fato-
de-banho exigindo que a levassem para casa. Trish e a sua multido tinham ido para alm da rebentao 
em colches nsuflveis e as outras crianas pequenas - vigiadas pelas raparigas mais velhas - tinham-se 
juntado a elas. Molly no fora convidada e Theresa no quisera que ela fosse a nadar sozinha para se 
juntar  diverso, A sua birra er-a suficientemente alta para se ouvir nas outras mesas e para arrancar um 
pequeno sorriso de satisfao aos lbios de Pricilla Mapleton. Depois Theresa veio  procura de Molly e, 
como estava de fato-de-banho, foi expulsa da esplanada por violao das regras de vesturio do clube. 
Timmy correu at aos pais, deixando Theresa a sofrer a sua desgraa sozinha.

Bem, o que  que seria de esperar - comentou a voz de uma mulher com implicaes de rectido puritana. 
Ellie e Gordon decidiram no ficar para a sobremesa.

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Theresa levou Timiny at ao andar de cima para lhe dar banho e MollY foi

at  praia privada para pensar. Ellie sentou-se no alpendre at Gordon acabar de tirar as malas da 
carrinha e sentar-se ao lado dela com meio jarro de mailins. -Jesus, que dia horrvel. - Ele 
verteu a mistura potente para um copo com cubos de gelo.

- Talvez o pior at hoje - concordou Ellie.

- Bem - continuou ele depois de um lapso de silncio. - Prometo-te uma coisa, No haver mais 
fotografias no clube. Qualquer coisa que o Henry precise, vai ter que ser c em casa. E vai ter de arranjar 
outro fotgrafo,

Era um pnis que a assistente tinha tatuado no brao? - perguntou Ellie. Acho que sim. Tinha uma ereco 
sempre que ela levantava qualquer coisa pesada. E como  que ela conseguia falar com aquela correia 
pendurada na lngua? - Ele esvaziou o copo e encheu outro.

- Cuidado com isso. Vais fazer um churrasco hoje  noite. No quero que pegues fogo a ti prprio.

Gordon fez sinal com a cabea na direco dos quartos do andar de cima.
- Quanto a ela, no vai dar certo. Acho que deves contratar a Trish e deixar que a Theresa se perca nas 
prateleiras de uma biblioteca. Jesus, que se perca numa adega, que eu estou-me nas tintas.

- No - disse Ellie instantaneamente. - Vou encontrar outra pessoa, mas a Trish, no. Nem pensar em dar 
aos Mapleton a satisfao de suplicar  filha deles, O Cecil acusou-te praticamente de perverso e mesmo  
minha frente, como se eu no estivesse l. E a maldita Pricilla! Tem a cara to tesa quanto o rabo!

- Bem,  melhor que faas qualquer coisa. - olhou para a praia onde a filha estava deitada de cara para 
baixo, com o queixo apoiado nos cotovelos.  velocidade que vamos, a Molly ser a nica mida do Cape 
sem amigos. At pode ficar com algum problema mental.

- Vou arranjar algum - prometeu Ellie.

Timmy desceu as escadas de cales e camisola, com o rosto bem lavado e o cabelo primorosamente 
penteado ao meio. Molly veio da praia e passou como se no os visse, sem gestos nem palavras.

-  melhor eu falar com ela - disse Gordon, levantando-se da cadeira. Vacilou um pouco ao tentar lutar 
contra o lcool. - Que se lixe, no ponho fogo a mim mesmo, Mato-me  a cair das escadas abaixo.

- No  preciso ires l acima. Ela s est a ser mimalha,

- Pois, mas sou responsvel por todos os problemas dela - disse Gordon.
- Tenho de lhe pedir desculpa.


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 Quando comeou a subir as escadas, percebeu como 
estava tocado. Agarrou-se com mais firmeza ao corrimo e parou a meio do caminho 
para controlar as pernas.
 - No podes beber - disse ele a si mesmo, lembrando-se que h muito 
tempo que no tomava meia dzia de bebidas antes do jantar.

Ouviu a porta da casa de banho no fim do hall do lado de Molly bater quando alcanou o cimo 
das escadas e a gua j estava a correr quando chegou                   porta. bateu 
abruptamente e gritou:

- S um minuto, jovem. Preciso de falar consigo. - O som da gua parou imediatamente. Depois a maaneta 
da porta girou e a porta abriu-se. Gordon ja estava a falar quando o rosto de Theresa olhou 
para ele.

- Oh, meu Deus, desculpe.

Theresa no parecia estar minimamente embaraada.

- Pode dar-me um segundo, senhor Acton? Vou pr de novo o fato-de-banho,

- No, no  necessrio... quero dizer, voc  a pessoa errada. 
No estava  sua procura.,. - O seu balbuciar era quase incoerente e o embarao to bvio 
que Theresa estava a comear a sorrir. Gordon parou de se explicar e ficou imvel, com os olhos fixos no 
espelho ligeiramente visvel sobre o lavatrio. Theresa pensava que se estava a esconder 
atrs da porta, mas no espelho estava completamente nua, 
revelando todo o perfil de um corpo maravilhosamente adulto. Gordon estava a beb-la como se ela fosse 
um filme pornogrfico.
1 m

-  s um segundo - repetu Theresa. Mas quando se voltou, viu-se ao espelho, 
agora em nudez frontal completa. E viu Gordon de p no espao estreito da porta aberta. Os olhos de 
ambos encontraram-se no vidro.

-
Oh, que diabo, desculpe - disse Gordon, desviando subitamente o olhar. - Estava  procura da 
Molly. Pensei que ela estava a dentro.
Quando ele voltou a olhar, Theresa estava uma vez mais a espreitar atrs da porta, sorrindo pudicamente 
para Gordon. O seu perfil cheio continuava disponvel no espelho. - Acho que ela no est aqui - disse 
Theresa. - Mas, se quiser, pode entrar para confirmar. - Estava ainda a 
sorrir quando fechou a porta. Ele retirou-se para a segurana do seu prprio duche e 
ps o rosto debaixo do fluxo gelado, tentando afastar a letarga induzida pelo lcool. Mas enquanto o 
corpo recuperou rapidamente, continuava um sentimento pesado no centro do crebro. E havia a imagem 
de Theresa, a sua pele escura perfeita a contrastar com os olhos 
azuis-claros e o brilho branco do seu sorriso. Era um sorriso matreiro, divertido com os 
pensamentos que Theresa devia saber que ele estava a ter. E sedutor, como o sorriso que uma 
prostituta lana para o outro lado de um

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bar, na direco do seu alvo. "Parece gostar do 
que v", estava ela A dizer-lhe. "O prximo 
passo  consigo,"

Gordon abanou a cabea, tentando desalojar as 
teias de aranha. O seu engano fora inocente por 
isso no tinha realmente culpa. Mas demorara-se, 
absorvendo-a luxuriosamente. E ela apanhara-o. 
Senhor Acton, o que  que a sua mulher 
iapensar? Mas fora mais descarada do que isso. O sorriso dela afianou-lhe que aquele ia ser 
um segredo apenas entre os dois. Lembrou-se da descrio de Ellie de como Theresa ficara envergonhada s 
por experimentar um fato-de-banho.

- Envergonhada, uma ova - murmurou Gordon para o barulho do duche. Aquela cabrinha j  rodada, - Deu 
por si a pensar se teria sido assim que ela conseguira elogios to maravilhosos do patro e dos professores. 
Talvez lhes tivesse dado a eles a mesma anteviso das prximas atraces.

Limpou-se vigorosamente com a toalha, aliviado por as nuvens estarem a levantar-se-lhe da mente. A rapariga-
cartaz de Henry Browning era uma jovem muito perigosa. Tinha de se ir embora e, com base no dia que 
Ellie sofrera, duvidava que a mulher arranjasse algum argumento de defesa. Ia dizer simplesmente ao Henry... 
dizer o qu ao Henry? Que ficara excitado com a rapariga e que tivera de fugir 
dela? Que era uma ajuda to grande para Ellie que ele j no a queria mais por perto? Controla-te!

O que  que Theresa fizera de mal? Impedira Molly de nadar at aos midos que estavam nos colches 
insuflveis e talvez de se afogar pelo caminho? Fora uma deciso muito responsvel, ir at  casa do clube 
buscar Molly pAra que ele e Elie pudessem acabar de almoar? Era para isso que lhe estavam a pagar. Ajudar a 
Elle na tese? Onde  que estava o crime? Ou sorrir de forma sedutora quando dera com ela na casa de banho? 
Ela escondera-se atrs da porta. E no havia maneira de saber que ele se estava a aproximar e de ajustar o 
espelho para um ngulo revelador.

O problema, quando se debruou sobre isso, foi ter bebido demais e ter feito figura de idiota. E no podia 
despedir a rapariga como se a culpa tivesse sido dela. Ela no tentara entrar no duche dele, Fica de bico calado 
e deixa que a Ellie trate do assunto  maneira dela, decidiu ele. Regressaria a Providence amanh e no fim-
de-semana seguinte todos os problemas de hoje teriam sido esquecidos.

Saiu para o hall embrulhado numa toalha que o cobria de cima a baixo. No mesmo instante, a porta da casa de 
banho do outro extremo do hall abriu-se e Theresa saiu, vestida com um roupo e uma toalha embrulhada 
na cabea. Gordon voltou rapidamente para a casa de banho, percebeu que fora pouco prprio e 
dirigiu-se apressadamente para a porta do quarto. ouviu o riso de Theresa e, quando levantou os olhos, ela 
estava a divertir-se bastante com o embarao dele.

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- Oh, ol! - resmungou Gordon, com um rpido aceno de cabea reconhecendo a presena dela. 
Mergulhou no quarto e depois resmungou entredentes: - Cabrinha espertalhona!

Gordon grelhou hambrgueres e salsichas para cachorros no grelhador a carvo enquanto Ellie cozia 
milho e aquecia feijo de lata na cozinha. Theresa estava a empurrar Timmy sentado em cima de um pneu 
pendurado de uma rvore. Molly estava sentada sozinha no alpendre da frente pensativa e a chupar uma 
lata de Coca-cola. Quando Ellie anunciou que o jantar estava pronto, juntaram-se todos 
na mesa de piqueniques, cada um isolado numa nuvem pessoal de silncio. Timmy estava totalmente 
absorvido a pr mostarda numa salsicha, Molly a tratar friamente toda a gente para os castigar pelas 
indignidades que sofrera e Gordon e Theresa a esforarem-se para evitar o contacto visual entre ambos. 
Ellie estava ocupada a servir e s quando estava a tratar do prprio prato  que reparou no silncio 
embaraoso. Decidiu entrar logo em aco COM O seu plano para afastar Theresa das tarefas de 
babysitter, aproxim-la da pesquisa acadmica.
- Theresa, o material que no conseguimos obter pela Internet; acha que conseguir encontr-lo nas 
bibliotecas? Talvez em Harvard ou Brown?

Theresa recebeu de bom grado a oportunidade de falar para a outra ponta da mesa onde no teria de 
encarar Gordon olhos nos olhos.

- Acho que sim. A maioria das bibliotecas tem apenas os ltimos anos no computador. Para o resto do 
material, h que procurar no catlogo e nas prateleiras, Harvard e Brown tm provavelmente cpias de 
tudo o que j foi publicado, por isso, se no conseguirmos encontr-lo com o computador, podemos ir 
busc-lo s prateleiras.

- Ser que me podia ajudar nisso?

- Claro - respondeu Theresa com entusiasmo. Mas depois o seu interesse desvaneceu-se. - Mas acho que 
no podia levar... - Olhou de relance para Molly e Timmy. - Acho que eles no podem ir comigo.

- E quem  que quer ir? - rosnou Molly, mostrando estar a seguir todos os contornos da conversa,

- Isso no seria problema - disse Ellie pensativamente, como se ainda estivesse  procura das peas do 
puzzle. - Penso que posso pr uma das outras raparigas a substitu-la.

- A Trish? - perguntou Molly, com uma insinuao de entusiasmo que no revelara nas ltimas semanas.

- No sei, mas deve haver algum disponvel para ajudar em caso de emergncia.

MoIly estava em xtase.

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os olhos claros de Theresa escureceram. Compreendeu perfeitamente onde Elie estava a tentar chegar e 
sabia no valer a pena colocar objeces.

- Como achar melhor, senhora Acton - disse ela. Usou um guardanapo de papel para limpar os restos de 
hambrguer dos lbios, Depois levantou-se do banco. - Do-me licena? - disse ela na direco de Ellie e 
depois olhou directamente para Gordon. - Estava delicioso, senhor Acton. Espero que faa mais Vezes.

Gordon tentou responder mas ficou repentinamente engasgado com a comida. S conseguiu acenar com a 
cabea.

Quando Theresa saiu, Ellie olhou para Gordon.
- O que  que achas?

- Um pouco bvio - respondeu ele. - Acho que percebeu exactamente o que tu querias.

- Quero que a Trish fique connosco - disse Molly, - Podes chamar a Trsh?

Ellie detestava ceder a favor da filha.

- Vou ter de pensar nisso - disse ela. - E, alm disso, a Trish pode no estar disponvel, Pode estar a 
trabalhar para outra pessoa.

- Aposto que preferia trabalhar para ns - insistiu Molly - se lhe desses a oportunidade. - Levantou-se de 
um salto e desatou a correr para a praia. Gordon saiu da sua ponta do banco, preparado para a apanhar e 
traz-la de volta.

Ellie levantou a mo,

- Deixa-a ir. Tem de perceber por ela prpria. No podemos prometer-lhe tudo o que ela decide que 
precisa.

Gordon voltou a instalar-se no banco e esticou a mo para a arca frigorfica em busca de uma garrafa de 
cerveja. Timmy encostou-se  me, com os olhos a comear a fechar.

Olharam para cima ao primeiro som de flauta. Foram apenas algumas notas e depois uma escala muito 
rpida,  medida que Theresa orientava os dedos e experimentava o lbio. Houve uma pausa de silncio e 
depois comeou a melodia de uma sonata de flauta, calma, etrea, como se viesse de outro local e de Outro 
tempo, Os sons espalhavam-se de forma nobre e depois as notas comearam a cair rapidamente, Ellie deu 
por si a sorrir e, quando olhou para Gordon, Os olhos dele estavam esbugalhados de espanto. Timmy 
endireitou-se.

 a Theresa? - perguntou ele. Ellie acenou com a cabea, Acho que  - disse Gordon.

O som profundo danava alegremente como que a imitar riso. Timmy dava Pequenas risadas e o som 
divertido fez com que todos voltassem a cabea para

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cima na direco da janela iluminada do quarto de Theresa. E depois Molly apareceu vinda da praia, seguindo a 
msica como que incapaz de resistir ao seu encanto. 
- Uau - disse ela.

- Uau, realmente - respondeu Ellie.

A msica assumiu um ritmo constante, quase como o som de um tambor.
Mas depois o motivo de dana leve modificou-se e abrandou para um apelo que arrebatava o corao.
-  a Theresa - contou Timmy  irm mais velha. Molly acenou com a cabea, passou pela mesa de piqueniques 
e dirigiu-se silenciosamente para os degraus da frente.

 lindo - reconheceu ela, subitamente sem as aluses de autopiedade que ultimamente se tinham tornado parte 
da sua personalidade.

Estavam todos completamente imveis, com Gordon a segurar numa garrafa de cerveja que pairava sobre a 
mesa e Ellie com um garfo de plstico suspenso no ar. At Tmmy, que costumava estar sempre a mexer-se, 
estava parado no seu prazer de olhos esbugalhados.

A msica elevou-se de forma majestosa, repetindo o tema vezes sem conta em tons cada vez mais elevados. E 
depois caiu pateticamente quase para o leve ofegar de uma respirao moribunda. Havia sempre o som nico 
da flauta ecoando a respirao a que estava a dar vida. A melodia lanou-se num final e depois a ltima nota 
associou-se ao vento suave que vinha das ilhas da barreira de areia. A msica transformou-se em silncio, que 
parecia to dramtico quando o prprio som.

Que bonito - disse Ellie, perdida ainda no transe que a msica de Theresa induzira.

Que talento - concordou Gordon.

Ela vai tocar outra vez? - perguntou Timmy, olhando primeiro para o pai e depois para a me.

Molly no disse nada, limitando-se a olhar atravs da porta para os degraus que levavam ao segundo andar. 
Depois abriu a porta de rede e subiu as escadas a correr.

Acho que a Molly gostou - disse Ellie.

Como  que no havia de gostar?  impossvel, mas no  surda - disse o pai. Gordon levantou-se e comeou a 
reunir os pratos de papel para o lixo e a recolher os talheres para a cozinha.

Molly desceu as escadas a correr, abriu a porta da frente de rompante e dirigiu-se apressadamente para a mesa 
de piqueniques.



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- A Theresa vai ensinar-me a tocar flauta - anunciou. - Ela diz que  fcil e que vou aprender num instante. - 
Voltou costas abruptamente e voou de volta para a casa e pelas escadas acima.

Ellie e Gordon olharam um para o outro,

- Acho que decidiu que gosta da Theresa - disse Gordon.

- Creio que j no tenho de rastejar at aos Mapleton - acrescentou Ellie.

CAPTULO DEZASSEIS

Timmy interrompeu o tratamento de silncio no dia seguinte. Theresa levara os dois midos  praia do clube, 
estendera a manta e fora at  beira da gua

para os vigiar dentro de gua. Ao fim de alguns minutos, as 
outras raparigas e as crianas de que estavam a tomar conta, 
conduzidas por Trish Mapleton, tinham chegado atrs deles. Trish 
olhou para a esquerda e para a direita e depois directamente para o local onde 
estava Theresa. Estabelecera contacto visual com Molly que estava 
dentro de gua at aos joelhos e fizera depois um gesto para o
seu grupo na direco do final da praia, mais prximo da casa do clube. Colocaram as mantas e 
cadeiras num padro muito fechado que servia para 
realar o isolamento de Theresa e das suas crianas. Depois 
escolheram equipas para o jogo do toca e foge e comearam a estabelecer as 
fronteiras junto  beira-mar.
 Molly saiu furiosa da gua e atirou-se de cara para baixo para cima da manta,
onde podia pelo menos fingir-se abstrada do desprezo e despreocupada com o resto do Mundo. Mas Timmy 
fugiu de Theresa e correu para o grupo, onde se posicionou exactamente no meio do campo de 
jogo e comeou a correr de um lado para o outro imitando as crianas mais 
velhas, sem perceber que estava a perturbar o jogo. Por duas vezes, as 
raparigas mais velhas pegaram-lhe na mo e conduziram-no at  
linha lateral e por duas vezes ele voltou a correr para o Centro do jogo.

Theresa pensou em mandar Molly buscar o irmo, mas sabia que a jovem preferia ser amarrada e torturada a 
enfrentar as pessoas que a tinham desprezado. Por isso, armou-se em forte e dirigiu-se pela praia abaixo na 
direco do clube, Ao mesmo tempo, Don McNeary, o nadador-salvador do clube, desceu da esplanada, 
pegou num Timmy maravilhado aos ombros e foi na direco de Theresa. Pretendia assim mostrar-se til a Trish 
e s outras enquanto aproveitava a oportunidade de se apresentar  nova jovem atraente de fato-de-banho 
ajustado s

 83

formas. Theresa agradeceu-lhe Com um sorriso tmido que reluziu contrastando com a pele escura e 
McNeary demorou-se o suficiente para a acompanhar de volta  manta. Ao fim de alguns segundos, outros 
dois jovens foram at  praia para conhecerem a nova amiga que McNeary encontrara e depois duas das 
raparigas que deviam andar na faculdade separaram-se do agrupamento original e 
vaguearam pela praia para ficarem de olho nos rapazes. Agora havia dois grupos  beira-
mar e num deles, graas ao nadador-salvador, Theresa estava a sentir-se bem-vinda. Quando os midos 
mais pequenos gritaram para se retomar o jogo, as duas raparigas convidaram Theresa a juntar-se ao 
grupo e Molly aceitou o convte antes que Theresa tivesse oportunidade de recusar.

O seu ar de novidade tornou-a clebre. Falava de maneira diferente, com a pronncia da lngua materna 
da famlia nas palavras, enquanto os outros entoavam as vogais fechadas de Nova Inglaterra. Tinha um ar 
diferente; a cor muito mais escura e mais extica do que o rosa queimado do sol dos herdeiros europeus 
que a rodeavam. Era diferente, a atitude mais sria e adulta do que a indiferena confiante dos membros 
privilegiados do clube. Pelo menos, nesse dia, ela era o centro das atenes e Molly 
apreciou a ateno dedicada  nova amiga.

- Ela est a ensinar-me a tocar flauta - contou ela aos outros midos da 
mesma idade, que responderam com a devida reverncia.

Quando Ellie e Gordon foram buscar a famlia, preparados para uma repetio dos horrores do dia 
anterior, ficam estupefactos com a normalidade da cena. Durante o regresso a casa, Molly falou 
continuamente, entusiasmada com os seus prprios feitos mas mais excitada com a nova notoriedade de 
Theresa,

- Os rapazes estavam-se todos a exibir para ela - disse Molly e, quando Theresa negou a ateno, Molly 
desafiou: - O Don McNeary no te convidou para sair?

- No - respondeu Theresa. - Perguntou quais eram as minhas noites de folga. E eu dsse-lhe que estava 
ocupada  noite com o trabalho da escola.

- Pode ter o tempo que quiser - disse Ellie.

- Eu sei - riu-se Theresa. - Mas prefiro trabalhar consigo na tese. Tiveram um jantar barulhento  mesa de 
piqueniques.

- Muito diferente da noite passada - murmurou Ellie ao ouvido de Gordon,

- Parece que vai finalmente ajustar-se - respondeu ele, como se a noite anterior tivesse sido culpa dela, 
sem que os seus mailinis tivessem desempenhado qualquer papel.

Estava escuro quando os midos foram dormir e Gordon voltou para Rhode Island para a campanha da 
semana. Ellie instalou-se  secretria e Theresa exps Os novos resultados da pesquisa que recolhera na 
Internet. Estavam a trabalhar

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arduamente quando ouviram um carro estacionar junto  garagem e estavam  espera com ar expectante 
quando Don McNeary bateu levemente  porta de rede exterior.

Ele procurou conversa at que Ellie sugeriu que entrasse e depois Comeou a andar  volta de Theresa 
como um co que fareja uma cadela no cio. Por fim, instalou-se atrs da secretria onde podia olhar por 
cima do ombro de Theresa para o ecr, lanando entretanto olhares furtivos pela sua camisola sem mangas 
abaixo.

- Ento, o que  tudo isto? - perguntou ele quando a confuso se transformou em embarao.

- A Theresa pode explicar - disse Ellie enquanto reunia os papis e se dirigia para o isolamento do 
alpendre. Don sentou-se ao lado de Theresa, inclinando-se para ela enquanto acenava com a cabea 
seguindo a descrio que ela fazia da tese.

- Fixe! - Foi o melhor que conseguiu dizer. - Ento, queres ir dar um passeio pela praia? - perguntou ele, 
indo directo  questo que tinha em mos.
- Volto num minuto - prometeu Theresa a Ellie e depois foi com Don at  pequena faixa de areia 
directamente em frente  casa. Ellie ficou perto da janela onde a sua presena desencorajaria ambies a 
mais longo prazo do jovem e onde tivesse a certeza de que ouvia um grito de socorro de Theresa. Afinal, 
era responsvel pela segurana da rapariga.

No dia seguinte, Theresa levou os midos de novo ao clube e usou a cmara de vdeo para que 
Ellie pudesse partilhar da diverso.  noite, Ellie riu-se de uma produo bem filmada do dia de Molly e 
Tinmy na praia, incluindo uma lio privada de natao que Don McNeary dera a Timmy. Era bvio que 
assumira pessoalmente a responsabilidade para deixar Theresa feliz. A atmosfera do vdeo, com as outras 
raparigas e as crianas de que tomavam conta no pano de fundo, era jovial. S Trish 
Mapleton se manteve de fora das actividades, lanando um olhar ocasional de fria a Don e Theresa.

A surpresa, filmada na ntegra colocando simplesmente a cmara ligada em cima da balaustrada do clube, 
foi o desvendar publicamente do biquni que Theresa se mostrara muito envergonhada ao experimentar, 
No parecia nada tmida ao expor a melhor figura na multido e tinha um ar absolutamente provocador 
quando emergiu da gua com o biquni molhado,

Ellie estava encantada com o modo como as coisas estavam a correr. Os filhos estavam felizes e seguros e 
o seu tratado acadmico avanava rapidamente. Mais importante, Gordon fora libertado das 
responsabilidades de pai e das tarefas caseiras e parecia contente com a forma como a campanha estava a 
decorrer. Estava particularmente impressionado com a recepo calorosa que

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tivera nas comunidades da fronteira do estado. A publicao subtil por parte de Henry de fotografias de 
famlia que incluam Theresa tinha sido bem recebida. "Um tipo decente,", era a opinio da vizinhana 
sobre Gordon, embora fosse republicano. "No  como os outros tipos ricos", era outra forma de dar voz 
ao elogio.

No teve qualquer receio quando Henry sugeriu outra dose de fotografias, desta vez numa entrevista 
televisiva gravada com um canal afiliado local. Gordon sentou-se numa cadeira Adirondack 
enquanto batia nas perguntas servidas como bolas de futebol lanadas devagar. Proclamou a sua 
preocupao pelo ambiente enquanto caminhava descalo a beira-mar e ajudava Theresa e os filhos a 
construir um castelo de areia. Cozinhou na churrasqueira enquanto Ellie servia Theresa e os midos  
mesa de piqueniques.

Theresa, coberta por uma camisola, foi entrevistada enquanto observava Molly e Timmy a nadar. 
Ofereceu a sua opinio cndida de que os filhos dos Acton eram tratados <tal como outros midos 
quaisquer, e mostrou-se radiante por fazer parte da famlia Acton. Ellie foi apanhada ao computador, onde 
reafirmou a sua dedicao  educao pblica e exagerou a importncia do seu trabalho de pesquisa. 
Depois foi fotografada a caminhar de mo dada com o marido ao longo da costa.

Foi um dia inteiro de trabalho para o sPot de 30 segundos que a estao iria transmitir no horrio de 
notcias, mas Henry Browning conseguira os direitos da gravao e pretendia us-la na ntegra para 
publicidade de final da semana. Recusou um convite para passar l a noite e voltou com os fotgrafos para 
despachar a edio das imagens.

- Espero que a mida esteja a dar resultado para vocs - disse ele a Gordon e Ellie quando o 
acompanharam at ao carro. - Porque est realmente a dar resultado junto dos eleitores. - As sondagens, 
informou ele, davam Gordon apenas cinco pontos atrs numa seco tradicionalmente democrtica e 
laboral do distrito. - Estamos a comear a pensar numa maioria absoluta. Qualquer coisa que possa ser a 
principal histria da noite de eleies por toda a Nova Inglaterra. - Gordon ficou to contente com o dia 
que decidiu no voltar para Providence e comear o fim-de-semana mais cedo,

 noite, j tarde, quando os midos estavam a dormir, Gordon e Ellie deixaram Theresa no comando e 
foram dar um passeio pela praia. Escorregaram para as dunas de areia e fizeram amor como 
adolescentes culpados, rindo-se depois da sua ousadia durante todo o caminho de volta a casa. No dia 
seguinte repetiram a aventura amorosa na cabina do veleiro quando este deslizou at ficar ao largo da 
costa, com as velas  bolina do vento ligeiro. Estavam divertidos quando
voltaram ao clube para tomarem cocktails e encontraram uma mesa voltada para

     
86

a baa. Mas Jack OConnell saiu do bar com a quinta dose de gn tnico na mo.  PUXOU de 
uma cadeira para se juntar a eles.

Bem, vocs os dois deram espectculo l ao fundo - disse ele com um piscar de olho cmplice e um riso 
obsceno.

L ao fundo - desafiou Gordon.

Voc sabe onde. - Acariciou Ellie no joelho. - Num minuto estava a navegar e no outro estava parado na 
gua com vocs os dois a desaparecer do cockpit l para baixo. - Voltou a cabea na direco do bar. - 
Estvamos, a fazer apostas sobre o tempo que iam l ficar em baixo.

Ellie corou de embarao ao pensar nos clientes habituais do clube a espreitarem-lhe a vida privada. Pediu 
licena e dirigiu-se para a casa de banho das senhoras, sem nunca olhar para os homens do bar.

A cor de Gordon era mais produto de raiva. Estvamos a almoar - disse ele.

jack OConnell inclinou-se para ele em tom confidencial.

Pois, eu gostava era de almoar com aquela sua babysitter j a viu a sair da gua com 
aquele biquni branco?

No, no vi - respondeu Gordon num tom gelado. OConnell piscou-lhe o olho.

- Pois, voc provavelmente costuma v-la sem o biquni branco. Gordon enfureceu-se.

Jesus, Jack, ela acabou de sair do liceu.

-A melhor idade -brincou Jack. -Devia haver uma lei que a protegesse. Fingiu um murro no peito de 
Gordon. - Mas que diabo,  voc quem faz as leis, por isso deve saber como  que se pode safar.

Gordon ps-se furiosamente de p. OConnell retrocedeu subitamente, inclinando-se de forma precria na 
cadeira. Procurou manter o equilbrio e depois caiu de costas, esparramando-se no cho.

Voc est bbedo! - gritou-lhe Gordon. - Estpido e bbedo! - Dirigiu-se apressadamente para a casa de 
banho para ir buscar Ellie e ir embora. Cecil Mapleton saiu da rea do bar, alarmado pelo rudo da cadeira 
a cair.

Viu OConnell estendido no cho e interpelou Gordon que passava rapidamente.
O que  que aconteceu? - Gordon continuou a afastar-se, sem se dar ao trabalho de responder. Mapleton 
apressou-se a ajudar Jack a pr-se de p. Est bem? O que  que aconteceu?

l                 - O nosso candidato no gosta que as pessoas falem da sua jovem amiga das Carabas.

- Ele bateu-lhe?

- Atacou-me. Perdi o equilbrio.

 87

- o que  que lhe disse?

- Apenas o que temos estado todos a dizer. Uma rapariga assim, no pertence a este clube.

Mapleton acenou a cabea em sinal de concordncia.
- Penso que o Gordon Acton tambm no,

Gordon decidiu no contar a Ellie as coisas que jack OConnell dissera. Percebeu que deva ter dado 
provavelmente um desconto a OConnell pelo seu estado negligente. A sua reaco fora demasiado 
abrupta, talvez por ainda se sentir um pouco culpado por ter tropeado no duche de Theresa e pela 
imagem no espelho que no conseguia tirar da cabea,

JUNHO

CAPTULO DEZASSETE

A semana seguinte comeou mal para Gordon. Teve incio com a perda de um negcio importante quando um 
fabricante de iates cancelou uma encomenda de barcos insuflveis j em produo. O que tornou as coisas 
mais amargas foi o facto de ser o nico culpado disso. Tudo o que o fabricante de iates pedira fora 
uma pequena ateno pessoal para mostrar que era um amigo e um par social e no apenas um cliente. 
Gordon negligenciara-o em nome da candidatura e agora de uma vitria esmagadora.

Telefonou a Pam, na esperana de que ela arranjasse a estratgia promocional certa para recuperar o 
contrato, mas ela estava para fora de frias. Remeteram-no, para um novo gestor de contas que aconselhou 
uma nota de imprensa imediata indicando que o negcio era insignificante.

- Queremos mostrar j  Street que isto no vai resultar em lucros desapontadores - informara solenemente o 
jovem.

- Que se lixe a Street! - ripostara Gordon. - Como  que o vou trazer de volta se fao uma declarao pblica 
dizendo-lhe que o negcio dele no  importante para mim? - Decidiu no fazer nada at Pam regressar 
no fim da Semana.

Depois Ellie telefonou. O orientador da tese estaria disponvel em Providence na sexta-feira. Ser que 
Gordon podia encurtar a semana e ir at ao Cape na quinta  noite? Isso dar-lhe-ia um dia inteiro para rever 
o trabalho que fizera e recordar ao professor quem ele era e como  que era.

-j no o vejo h mais de um ano e, se no o apanho agora, s o volto a encontrar no fim do Vero.

Gordon telefonou a Browning a cancelar os encontros de sexta-feira e teve de Ouvir Henry resmungar sobre 
a dificuldade de arranjar eventos que dessem Publicidade e o quanto se perderia desapontando as pessoas 
envolvidas.

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Quando telefonou de volta a prometer a Ellie que estaria l, ela sugeriu-lhe que talvez fosse bom 
aparecer no clube durante o fim-de-semana. Don McNeary contara a Theresa 
que alguns dos membros andavam a ver se o prejudicavam e se o levavam  direco disciplinar.

Isso so tretas - gritou ele  mulher.

- Eu sei. Mas  fcil para o OConnell e o Mapleton serem ms lnguas, quando no ests presente. Tambm no 
acredito que nenhum deles tenha coragem para dizer alguma coisa  tua frente. 
- Ento esse tornou-se o plano. Ir at ao Cape na quinta  noite e passara sexta-feira com 
os midos no clube. E, entretanto, podia evitar telefonemas de Henry Browning a perguntar-lhe 
sarcasticamente quando  que tencionava voltar  campanha.

Pam telefonou-lhe para o apartamento de Providence na noite de 
quarta-feira. j soubera do negcio perdido e investigara o suficiente para saber que o 
contrato ainda no fora adjudicado a outro fornecedor.

- Penso que, se agirmos rapidamente, provavelmente ainda o conseguimos 
recuperar. Na quinta de manh cedo j estava no escritrio dela e, com Pam. a ouvi-lo do outro 
lado da secretria, Gordon telefonou ao cliente humilhando-se, lendo um 
guio que ela preparara.

Tem todo o direito de nos abandonar, Lennie. Nos ltimos meses tenho deixado para trs muitos amigos e voce 
e aquele de que mais me arrependo. Tem sido bom para mim tanto a nvel 
pessoal como financeiro.

Lennie recontou as suas mgoas; no era os barcos. Continua a ter a melhor qualidade do mercado - 
elogiou ele. - Mas houve problemas de servio e, quando telefonei a 
esse respeito,, fui remetido para um funcionrio inferior que disse que tinha de consultar o contrato. No o 
consegui apanhar.

Gordon ouviu enquanto Lennie contou exemplos das muitas instncias em 
que tinham abusado dele.
-
 Tem razo. Fi-lo passar um inferno. E independentemente do que resolva fazer com o negcio, gostaria que 
me desse a oportunidade de me desculpar em pessoa.

Lennie fez-se de difcil. Tinha um calendrio muito ocupado e no sabia quando  que podia encaixar os Action 
Boats.

- Devo dizer-lhe que se  apenas um pedido de desculpas, j est desculpado. No precisamos de nos 
encontrar para isso, E no me posso sujeitar a mais nenhuma possibilidade de indiferena.

Tinha a mo sobre o auscultador quando disse a Pam:

Bajul-lo no chega. Acho que ele quer que lhe lamba os ps... 

 93

Ela esfregou o polegar no indicador para simular a sensao de dinheiro.
- Comea a lamber-lhe os ps - disse ela com um sorriso de satisfao.
- Lennie, seria um favor para mim. Preciso da sua opinio sobre tudo o que estamos aqui a fazer na Acton 
Boats. Talvez me possa atender  sua hora de almoo. Ou ento  hora de jantar. Podamos arranjar um 
canto escondido no meu clube para conversar.

pam manteve-se em silncio e acenou com a cabea a sua aprovao. Lennie remexeu em alguns papis 
enquanto atrasava o veredicto,

- Gordon, hoje  noite  a nica altura que tenho livre at ao ms que vem.
- Ento que seja hoje  noite - respondeu ele com entusiasmo fingido. Tentou contactar Ellie para lhe dizer 
que s chegaria muito tarde, mas teve de se contentar em deixar mensagem no atendedor de chamadas. 
Depois voltou ao apartamento para se barbear e vestir uma camisa lavada para o encontro com o cliente 
descontente.

O jantar arrastou-se pela noite dentro, com Lennie a oferecer conselhos sbios enquanto bebia trs 
garrafas de Bordeatoc de preo exorbitante. Gordon ouviu, acenou com a cabea, pediu 
clarificaes e lanou solues para serem tomadas em considerao. Por volta das onze horas, estava 
desejoso de pr fim s coisas e rezava em silncio para que o convidado parasse de puxar 
pela trela e reafirmasse o acordo entre ambos. Mas esse fora o nico aviso que Pam lhe fizera.

- No perguntes pelo negcio, Isso vai estragar tudo. E se ele o oferecer cedo, diz-lhe que no  
necessrio. - Por isso esperou pacientemente, lanando olhares para o relgio e percebendo que a 
combinao da hora e do vinho fariam com que fosse impossvel ir at ao Cape,

- Gostava de continuar a fazer negcios consigo - concedeu Lenne enquanto Gordon estava a pagar a 
conta. - Mas compreendo que vai estar muito ocupado com a campanha. E depois, se for eleito, bem, o 
negcio ser secundrio para si.

Gordon assegurou-lhe que a Action Boats nunca seria um negcio secundrio e aludiu aos 
benefcios potenciais para os negcios de ambos de ter um amigo no Congresso. Quando se separaram 
junto  porta, Lennie ofereceu-se para "falar com a gente dele," a respeito de reafirmar a encomenda, 
telefonando depois com a deciso.

Foi directamente para o apartamento de Pam e encontrou-a a p e  espera dele, ansiosa por saber como 
correra o encontro.

- Tal como previste. Passou a noite toda a falar e depois deixou-me suspenso,

- Provavelmente vai estragar-te o fim-de-semana e na segunda-feira diz-te que te vai dar mais uma 
oportunidade.

94                            

Gordon encolheu os ombros.

- Foi essa a impresso com que fiquei. - Desapertou a gravata.

- H mais uma coisa que talvez te estrague o fim-de-semana - continuou Pam. - Acho que vou ficar 
desiludida se disseres que no.

Ele voltou a concentrar-se por entre a nvoa de fadiga e vinho.
- Meu Deus, vais abandonar os meus negcios.

- Espero que no. Mas receio que v haver uma alterao no nosso relacionamento.

- Vais casar-te! Ela riu-se.

No vou assim to adiantada, mas devo dizer-te que conheci uma pessoa.
O ar saiu-lhe de rompante dos pulmes.

- Oh... 

- No  assim to srio, mas acho que gostava que fosse.

- Claro, claro. Tu mereces - disse ele sem convico. - Quero dizer, fico feliz por ti... e por ele...

s um mentiroso terrvel. E fico contente por no conseguires mostrar alegria genuna. Ficava muito 
magoada se no te importasses.

Gordon voltou a endireitar o n da gravata at ao boto do colarinho.
- Importo-me. Mas s estou a fazer-te perder tempo.

Pam pegou-lhe na mo.

Nunca me fizeste perder tempo.

Ele acenou com a cabea, levantou-se e lanou o casaco por cima do ombro.
- Depois aviso-te se o Lennie voltar a querer o negcio.

- Vai querer. Podes contar com isso.

Guiou cuidadosamente at ao apartamento, apercebendo-se que, se fosse parado pela polcia, 
provavelmente no passaria no teste do lcool. No havia Muita coisa com que podia contar.

CAPTULO DEZOITO

Quando acordou na manh seguinte, o Sol j estava a espreitar atravs da janela. Pestanejou 
para o brilho, encontrou provas suficientes de que estava no apartamento e depois 
reconstituiu a noite anterior. Estremeceu face  adulao a um homem de quem no gostava 
muito e arrastou-se at ao duche para limpar o embarao. Quando estava  espera que a 
gua aquecesse pensou em Pam a admitir que conhecera outra pessoa.

- Que classe - disse ele abanando a cabea. A senhora dera a m notcia da 
forma menos indolor possvel.

Gordon estava a mergulhar no duche quando se lembrou que devia ir a caminho do Cape. 
Deixou pegadas molhadas pela carpete do quarto ao dirigir-se apressadamente para o 
telefone.

- Ela acabou de sair - respondeu Theresa.

- Bolas - exclamou Gordon. - Estava zangada?
- Acho que no. No disse grande coisa.

- Estava zangada.

- Disse-me para manter os midos em casa.  sua espera, acho eu.

- Pois, ponho-me a caminho daqui a alguns minutos. Diga  Molly e ao Tim que os levo ao 
clube esta tarde,

- Eu posso lev-los - ofereceu-se Theresa. - O Don disse que nos vinha buscar a todos.

- No! Fique em casa. Eu vou a caminho. - Sabia que Theresa seria uma incendiria para o 
mau gnio dos seus caluniadores. Era melhor se fosse ele a levar os filhos para pacificar as 
coisas, E talvez Ellie pudesse sugerir que Theresa guardasse o biquini para a praia privada.

Estacionou junto a casa um pouco antes do meio-dia e encontrou os filhos 
impacientemente  espera, j de fato-de-banho e com as coisas da praia na mo. Ele trocou 
de roupa rapidamente, disse a Theresa que tinha o resto do dia de folga e depois partiu para 
o clube.

96                            

Molly e Tim foram a correr para a praia e Gordon subiu os degraus para a esplanada. No tinha a certeza, 
mas pareceu-lhe ver algumas cabeas voltarem-se e vrios pares de olhos levantarem-se de 
livros e sarem de trs de culos de sol levantados. Respirou fundo e dirigiu-se com confiana at ao bar.
- 
Senhor Acton. - O empregado do bar estava cordial. Ele debruou-se sobre o bar.

O Jack OConnell j chegou?

O empregado aproximou-se da cabea dele.

O senhor OConnell est a descansar em casa. Sofreu um traumatismo no pescoo quando caiu no outro 
dia.
- 
Oh, Meu Deus. - Gordon j estava a imaginar os perseguidores da ambulncia a fazerem 
fila. Depois perguntou: - E o Mapleton?

O senhor Mapleton ainda no chegou.

Gordon voltou  esplanada. Procurou sinais de vida a bordo do barco de Mapleton que estava 
ancorado no ancoradouro principal. Nada; ainda tinha as cobertas nas velas. Depois reparou que 
Tom Cameron estava a bordo da sua chalupa, com a cabea para cima e para baixo por detrs da tampa de 
um motor aberto. Cameron era o comodoro do clube, director da entidade administrativa e a pessoa que 
faria de juiz se as acusaes de OConnell alguma vez fossem a uma audincia. Gordon tentou parecer 
casual quando se passeou at  rampa de flutuao e subiu a bordo ao lado de Cameron. Saltou a conversa 
habitual de marinheiros e nem sequer perguntou pelo problema aparente com o motor.

Tom, h alguma verdade em tudo isto sobre eu vir a ser acusado? Cameron falou com o rosto voltado para 
o poro, confirmou que OConnell pedira uma audincia e que Mapleton corroborara a histria.

Mas no sei se ir realmente chegar ao conselho de administrao. Apareceu de repente para sorrir a 
Gordon.

Tm-me dito que ele estava bastante bbedo e com uma linguagem um pouco picante. - Enfiou de novo o 
rosto no poro e grunhiu enquanto usava uma chave inglesa. -  claro que se realmente lhe 
bateu... ou o empurrou...

isso  mentira. Levantei-me para me ir embora e ele deve ter pensado que me ia atirar a ele, Inclinou-se 
para trs na cadeira.

E voc ia?

- Ia o qu?

- Ia atirar-se a ele?

- Claro que no. Estava a tentar fugir dele. A Ellie j se fora embora para evitar dirigir-lhe a palavra e eu 
fui atrs dela.

O problema  que ningum viu o que aconteceu. Por isso resume-se ao "diz que disse". A administrao 
no tem forma de saber o que realmente se passou. 

 97

- A Ellie estava l. Ouviu o que ele estava a dizer.

- Mas no estava l quando ele teve o acidente. Gordon, ps-se de p e encostou-se  amurada.
- Oh, Jesus...

Cameron sentou-se sobre as ancas e limpou as mos a um farrapo com lubrificante.

- Para ser sincero, Gordon, no me parece que a altercao alegada seja a verdadeira questo. Penso que o que est a 
incomodar alguns dos membros  aquela rapariga que tem a cuidar dos seus filhos. Ouvi algumas queixas de que o comportamento e a forma de 
vestir dela no esto de acordo com os padres do clube.

-  isso que o OConnell diz? Que no gosta do "comportamento" dela? Porque o que ele me disse, depois de acusar a 
Ellie de ter relaes comigo  vista de toda a gente, foi como adorava entrar para dentro do fato-de-banho da rapariga. At me acusou a mim de 
andar a com-la.

Cameron acenou com a cabea,

- Soa mesmo a conversa do OConnell. Mas no foi s ele. Algumas das mulheres parecem estar ofendidas.

- Claro - concordou Gordon impulsivamente. - Porque as filhas andam fulas com a concorrncia. Alguns dos garanhes deram tampa a algumas 
das nossas jovens para poderem pairar  volta da Theresa. As filhas querem-na daqui para fora.

- Provavelmente tem razo - concordou o comodoro. - E creio que alguns dos seus problemas talvez desapaream assim que a rapariga moderar 
mais a presena dela. No mnimo, o jack OConnell teria de arranjar outra coisa de que falar.

- Que horror. Temos de castigar a rapariga porque o OConnell tem uma mente suja.

- No, temos de considerar a ideia porque o OConnell  um membro com Os pagamentos em dia e com boa reputao.

Gordon ficou revoltado, mas acenou com a cabea demonstrando a sua rendio.

- Diga-me, Tom, se a rapariga fosse branca e loira acha que os nossos Membros continuariam a ach-la uma m influncia? Como aquela 
babysitter dinamarquesa que o Edd e a Tracy Lawrence tiveram h alguns Veres atrs? Fez toplless atrs da 
casa dos barcos e ningum a achou imprpria.

Cameron reflectiu.

-  capaz de ter razo, mas a questo  discutvel. Os nossos membros Pagam muito dinheiro para virem para aqui por forma a protegerem os 
filhos de

98                          

indesejveis. Se realmente quisssemos justeza e igualdade, no creio 
que houvesse motivo para existir um clube como este,

Gordon passou por cima da amurada at  doca.

- Vou dizer-lhe uma coisa, Cameron. Diga o que me acabou de dizer.
- S em privado. Na minha posio oficial, minto como toda a gente, Gordon riu-se e virou 
costas.

- H mais uma coisa que talvez queira ter em considerao - disse-lhe ainda 
Cameron em voz alta. - Passe pela casa do OConnell para ver se resovem isto com um 
aperto de mo, Penso que devamos evitar uma audincia 
disciplinar. Criaria divises.

Ele deixou os filhos no programa de dia do clube sob a superviso de Donald McNeary. O nadador-
salvador estava ansioso pela oportunidade de os levar a casa porque lhe 
proporcionaria uma desculpa para ver Theresa e 
talvez ser convidado para jantar, Gordon dirigiu-se a casa de 
OConnel], disse a Mary que lamentava as dificuldades de Jack e fez-lhe uma visita no alpendre 
de rede onde estava deitado numa chaise-longue, exagerando a dificuldade que tinha 
em movimentar-se. Pediu desculpa por - qualquer coisa que possa ter feito para 
causar-lhe a queda - e OConnell admitiu que lamentava - qualquer coisa que possa ter dito que 
embaraasse Ellie. - Ofereceu uma bebida a Gordon como sinal de amizade e 
Gordon beberricou um rum Collins para selar o pacto de silncio. Mary voltou  
questo quando o estava a acompanhar  porta exprimindo a esperana de que uma 
das raparigas locais ainda estivesse disponvel para ajudar Ellie com as 
crianas.

Ao dirigir-se para casa, Gordon estava ligeiramente irritado por se ter sujeitado a mais uma humilhao 
num espao de 24 horas. Mas quando chegou a casa estava afogado em pena de si 
mesmo, induzido pelos efeitos depressivos, de um rum Collins derramado para um estmago vazio. 
Blasfemou quando encontrou a porta da frente trancada e resmungou ameaas 
contra o clube enquanto experimentava vrias chaves que tinha no porta-
chaves. A primeira coisa que faria no Congresso, imaginou ele, seria transformar o local numa base naval. 
Quando conseguiu entrar, mudou de roupa e vestiu cales e camisola e preparou um gin 
com gua tnica. Depois sentou-se no alpendre exterior a 
planear como dizer a Theresa que no era desejada no clube. Tinha de a convencer de 
que dedicar o tempo inteiro  tese de Ellie era uma promoo.

No a viu a subir as escadas da praia, por isso ficou espantado quando 
deparou com ela de repente nos degraus do alpendre,

- Oh, ol! Estava... s... - Ela tinha o biquini branco e o pouco que havia dele estava molhado do 
banho e agarrado s curvas como um papel de embrulho que encolhe. -Apercebeu-se de que estava a 
olhar pasmado para ela, mas no

  99

conseguiu desviar os olhos. - Estive... no clube... com os midos... - Foi uma coisa estpida de se dizer. Ela sabia que ele estava com os midos e 
sabia onde  que ele os levara, - Esto no acampamento... com o Don...

os olhos dele encontraram finalmente o rosto dela e uma ligeira sugesto de um sorriso. Ela sabia exactamente para onde  que ele estava a olhar 
e, a julgar pela sua expresso cptica, fazia uma boa ideia do que ele estava a pensar.

Ele levantou-se abruptamente.

- Quer uma bebida? - Theresa olhou para a lima reveladora a flutuar no copo e depois novamente para ele. O sorriso dela estava um pouco mais 
amplo e os olhos um pouco mais astutos. - Uma cerveja? Um refrigerante? O que  que bebe? - Meu Deus, estava a tropear nas 
palavras como um idiota.

-j soube das pessoas no seu clube - disse ela. - Peo imensa desculpa por todo o transtorno que pareo estar a causar-lhe.

- Que transtorno? - Gordon tentou fingir que no fazia ideia do que ela estava a falar. - Que pessoas?

- O Don telefonou e contou-me que o estavam a fazer passar um mau bocado. Por causa... - Theresa olhou para baixo na direco do biquini. - Por 
causa de mim.

- No, no, nada disso.  por causa de um bbedo que caiu e pensou que eu o tinha empurrado. j est tudo esclarecido.

- O Don ouve tudo no clube. Disse-me que algumas das raparigas esto furiosas comigo porque queriam o emprego de cuidar dos seus filhos,

- Oh, talvez haja um pouco disso... - Encolheu os ombros como se um pouco de inveja por parte das filhas debutantes no tivesse qualquer 
importncia. - Sabe como so as raparigas... - Estremeceu ao reparar no que dissera, Claro que sabia, ela prpria era uma rapariga. Parecia ter 
perdido a capacidade para falar de forma inteligente,

- O Don pensa que o esto a culpar por eu no me integrar no meio. E sabe que  verdade. Realmente no me integro. No sou um... deles.

Ele estendeu a mo cuidadosamente e tocou-lhe no queixo para impedir que escondesse o rosto.

- Graas a Deus que no  um deles.

Os lbios de ambos estavam apenas a poucos centmetros de distncia e Gordon nem sequer tentava esconder o desejo que sentia por ela.

- Nenhum deles lhe pode tocar - murmurou ele.

Os olhos dela fecharam-se lentamente e inclinou-se para ele, O movimento foi mnimo, mas revelava que queria ser beijada, Os braos dele 
envolveram-na e Puxaram a figura molhada para mais perto. Meu Deus, era linda e o sabor a sal nos lbios dela era excitante. A boca dela 
abriu-se esfomeada e Gordon mergulhou

100                           
 Sabia existirem milhes de razes para no deixar escorregar a mo para debaixo da parte de cima do 
biquni da assistente da mulher, mas nenhuma delas era to forte quanto o toque da pele dela. E agora os 
braos dela estavam fechados em torno dele, puxando-o ainda mais para si. A mo dele estava agora a 
empurrar o elstico da parte de baixo e Gordon estava a encost-la ao sof. Theresa afastou a cabea para 
trs.

- No... por favor..

Gordon no sabia se havia de a soltar,

- Aqui no... - Ela pegou na mo que j estava a meio caminho dentro do biquni. - L em cima. O meu 
quarto.

Ele seguiu-a atravs da porta e quase correu atrs dela at ao cimo das escadas.

-   S um segundo - pediu Theresa quando chegaram  porta do quarto. Gordon deixou-a esgueirar-se e 
ficou a ver a porta fechar-se no seu rosto.

Que diabo ests tu a fazer?, perguntou ele a si mesmo. Levou a mo  testa. Meu Deus! Ela tinha metade da 
sua idade. Estava a deitar tudo fora. Diz-lhe agora! Arrepende-te agora antes que seja tarde de 
mais.

No! No lhe digas. No fiques  espera. Sai daqui. Desce as escadas, passa pela porta e vai at  praia. 
Vai dar uma volta. Uma corrida! Pe o mximo de distncia entre ambos nos prximos dez segundos. 
Tinha o peso de novo assente nos calcanhares e estava prestes a virar costas quando a porta se abriu 
lentamente revelando o interior do quarto. A parte de cima do biquni estava no meio do cho. A de 
baixo estava num pequeno local molhado directamente por baixo da estante dos livros. Ele ouviu-a a 
deslizar para dentro da cama,

Gordon olhou para trs na direco do corredor, Depois entrou no quarto e fechou a porta 
silenciosamente atrs de si.

CAPTULO DEZANOVE

Estava deitado ao lado dela, a apreciar o seu abrao, mas comeara a sentir os primeiros acessos de culpa 
quando ouviu pneus a triturar a entrada de gravilha. Saltou da cama e danou num pequeno crculo 
enquanto saltava para dentro das cuecas e puxava para cima as bermudas.

-  maravilhoso - disse Theresa com os braos esticados para o envolver em mais um abrao.

Tinha a camisola do avesso e estava a dar-lhe um n no esforo para a pr do direito.

- Foi to bom! - Ela parecia estar ainda no auge do orgasmo. - No posso deix-lo ir embora.

- Vem a algum - disse ele para explicar as suas aces. Portas de carro bateram nas traseiras da casa. A 
camisola estava a tapar-lhe o rosto e arrastava os ps na tentativa de os enfiar nos sapatos de vela.

- No me importa - respondeu Theresa.

Ele esbugalhou os olhos quando o seu rosto surgiu por cima do decote. No se importava? Era maluca? 
Claro que se importava.

- Temos de falar - disse-lhe ele quando se dirigiu para a porta.
- Eu sei, Foi o que sempre quis desde a primeira vez que o vi.

- No. Quero dizer falar. E no desa at estar... - Fez gestos mostrando a sua confuso enquanto tentava 
pensar numa, forma de lhe dizer que at uma freira conseguiria perceber que ela acabara de ter relaes 
sexuais. - At estar completamente vestida - decidiu ele. Abriu a porta e lanou-se para o corredor Mesmo 
a tempo de ouvir Molly a gritar com Timmy. Agradeceu em silncio a Deus por no ser Ellie. Precisava de 
alguns minutos para se recompor.

Estava sentado no alpendre ao lado do gn tnico agora aguado e quente quando McNeary 
e as duas crianas chegaram aos degraus. Os midos passaram

102                         

a correr sem interromperem a discusso, ameaando ambos que iriam "contar  mam."
 - Ei, no h ol? Nem beijos? - Gordon chamou-os tentando parecer que tinham sido a sua nica 
preocupao.

- Ele  um pirralho - respondeu Molly.
- Vou dizer  mam - repetiu Timmy. Gordon voltou a sua ateno para McNeary.
- Parece estar tudo normal - disse ele.

- Sim, tivmos um bom dia - disse o nadador-salvador. Balanou-se desajeitadamente de um p 
para outro.

- Quer tomar alguma coisa? - perguntou Gordon.

- No... S queria dizer-lhe que lamento... aquilo do clube. Gordon acenou com a cabea mostrando 
gratido e Don continuou.

- Quero dizer, toda a gente l sabe que o senhor OConnell  todo... Pensou em todas as Coisas 
que podia chamar a OConnell e decidiu ser prudente na presena de outro 
membro do clube.

- Um pouco difcil.

-  um canalha - disse Gordon. McNeary sorriu.

- Pois, isso tambm,

- Quer beber alguma coisa? Uma cerveja? - No sabia a idade do jovem, mas a julgar 
pelas garrafas vazias no caixote do lixo no exterior do 
barraco dos nadadores-salvadores, sabia que esta no seria a 
primeira de Don.

McNeary abriu-a ruidosamente e depois perguntou se Theresa estava por perto.

Gordon encolheu os ombros.

- No sei, Acabei de chegar tambm. Sente-se enquanto vou ver l em cima.

Mas quando chegou s escadas, Theresa j vnha a descer de calas de ganga, t-shirt e 
sapatos de lona, que combinavam para lhe dar um ar um pouco atrevido.
- Ol, senhor Acton, no sabia que estava em casa. - Gordon ficou admirado 
por ela no exibir qualquer sugesto de familiaridade ao passar por ele.
 - Ol, Don - disse ela a McNeary. - Como  que os midos se portaram? 
Pegou num refrigerante enquanto ouvia o resumo do dia. Depois acompanhou-o at  porta 
sem prestar a mnima ateno ao patro. No se estava a fazer de inocente; 
estava a fazer como se no houvesse nada de que pudesse ser inocente.

Theresa voltou apressadamente para casa quando Molly e Timmy se lanaram 
num concurso de gritos e subiu as escadas a correr para fazer 
as pazes, Foi

 103

tudo to normal que Gordon se perguntou se no teriam acabado de fazer amor. Teria sido tudo na sua 
imaginao doentia? Ser que ela j se tinha esquecido?

Tinha os peitos de frango sobre a grelha quando Ellie chegou a casa. Pensara em vrias maneiras 
diferentes de se comportar, receoso de que uma mostra exagerada de afecto lhe levantasse suspeitas. 
Decidiu-se por um sorriso, um beijo rpido e a notcia encorajadora de que ele e Theresa tinham o jantar 
sob controlo, Mas Ellie estava ainda aborrecida com a promessa quebrada por ele de chegar a casa a 
tempo de levar os midos ao clube. O beijo dela foi indiferente.

- Fico contente por teres conseguido finalmente chegar - disse ela e voltou toda a sua ateno para os 
midos e para Theresa.

Quando voltou o frango, ouviu cada um dos filhos fazer uma lista das queixas do dia e Ellie responder com 
sons simpticos. Ficou de olho em Theresa, observando-a nas actividades normais de preparao do jantar. 
Ria-se com as crianas, respondia a Ellie e desempenhava o papel de uma ama alegre e grata. No 
conseguia acreditar que fosse a mesma mulher que apenas h uma hora estivera montada em cima dele, 
sorrindo do prazer que lhe lia no rosto.

Quem era ela? A criana-cartaz com cabelo pssimo e olhos chorosos? A jovem pateticamente tmida 
demasiado embaraada para experimentar um fato-de-banho? Ou a mentirosa calculista que inventava 
irmos e irms? E a mulher sensual que o conduzira at  cama dela? Os contrastes eram impossveis de 
conciliar. Recordou a forma fsica e suada como tinham feito amor. E depois observou-a a correr pelas 
escadas acima com Molly, duas crianas com pressa para irem brincar.

Levou o esboo de um discurso at ao alpendre da frente, mas no conseguiu concentrar-se nas palavras 
da pgina. S conseguia pensar em como dizer a Theresa que a brincadeira deles fora um terrvel erro 
que era melhor esquecer. Tambm tinha de imaginar como  que a ia tirar de casa e do Cape. Tinha de 
encontrar as palavras certas porque naqueles poucos minutos ntimos dera-lhe o Poder de o destruir. Os 
conhecimentos dela eram como um vrus que, uma vez  solta, se propagaria rpida e amplamente, 
revelando-se mortfero para o seu casamento, para a sua famlia e para a sua carreira poltica. Tinha de a 
afastar das pessoas que podiam ser infectadas pelo vrus, Don McNeary, diante de quem podia querer 
vangloriar-se da sua experincia. Trsh Mapleton, para quem a seduo de Gordon Acton seria uma 
vantagem deliciosa. O problema era que j no possua o poder de patro para determinar o destino de 
um assalariado. Theresa tinha agora o poder de determinar o destino dele. Tudo o que fizesse para se 
proteger provavelmente aborreceria Theresa. E j no podia correr o risco de a aborrecer.

104                            

Ouviu a cadncia da flauta vinda do andar de cima, pura e quase anglica, e ps de lado o 
discurso para conceder toda a ateno  msica. A beleza era esmagadora, fazendo com que as 
actividades da tarde parecessen indizivelmente corruptas.

Ellie levantou-se da secretria e foi at ao alpendre. Ficou atrs da cadeira de 
Gordon a ouvir, com as mos suavemente cadas sobre os ombros do marido, Ela  mesmo uma 
artista - disse Ellie.

- Sem dvida - respondeu ele, tentando no parecer cnico. - Uma artista...

CAPTULO VINTE

Ellie resolveu parte do problema. Regressara da reunio com o orientador com dzias de comentrios, 
crticas e sugestes, que, na totalidade, eram sinnimo, de que ainda tinha muito trabalho pela frente. 
Theresa, decidiu ela, seria muito mais valiosa a ajud-la com a investigao e organizao. As 
crianas, durante as semanas envolvidas, ficariam ao cuidado de Trish e das amigas e do centro 
de dia do clube. Theresa concordou com a nova disposio com um entusiasmo generoso, embora isso 
prometesse mant-la na biblioteca e no na praia. Molly protestou que quando comeara a gostar de 
Theresa a sua vida fora desenraizada. Timmy chorou porque no queria ir para o centro de dia. E 
Gordon ficou em xtase; era Ellie que a estava a manter afastada do clube e no ele.

Sabia que no estava totalmente a salvo, Lembrava-se de Theresa a tentar atra-lo de volta para a cama 
quando o carro estacionara  entrada. Era bvio que pensava que se iriam ver mais vezes e possvel que 
ousasse preparar um encontro. Ainda precisava de uma oportunidade de a apanhar sozinha, pedir-lhe 
desculpa pelo seu momento de fraqueza, elogiar a discrio dela e assegurar-lhe a sua preocupao de 
pai pelo bem-estar dela, Precisava de a pr atrs dele mas com a certeza de que nunca faria nada para o 
prejudicar.

Theresa mergulhou na sua nova tarefa com uma energia incrvel, organizando a investigao 
sugerida pelo orientador e passando dez horas consecutivas ligada a fontes promissoras por todo o pas. A 
meio da semana conseguiu apresentar a Ellie um plano que envolvia o tempo que podia passar no 
computador, dois dias em Cambridge na biblioteca de cincias sociais de Harvard e dois dias na biblioteca 
da Universidade de Brown, em Providence. Enquanto uma delas estivesse a retirar material das fontes 
da Internet, a outra podia ir at s bibliotecas, Theresa sugeriu que podia tomar conta dos midos 
enquanto Ellie fosse at s universidades.


106
- Eles podem ficar no clube durante o dia, tal como planeou - explicou ela. - E depois eu 
estou c  espera deles quando chegarem a casa  noite.

Ellie afligia-se por deixar os filhos. Tinha toda a confiana em Theresa, mas havia sempre a 
possibilidade de uma emergncia. As bibliotecas franziam o sobrolho a clientes que deixavam os telefones 
celulares ligados, pelo que no estaria contactvel durante horas a fio. E, mesmo assim, podia demorar 
meio dia a voltar de Cambridge,

Theresa sugeriu que podia sempre contactar o senhor Acton e Ellie achou que essa 
podia ser uma soluo. Mas depois lembrou-se que o calendrio de Gordon o obrigava a estar na estrada                  
a maior parte dos dias, a a moar com as organizaes mais 
insignificantes de eleitores e comits para todo o tipo de causa cvica. Talvez ainda fosse mais difcil 
contact-lo a ele do que a ela.

Como soluo, Theresa sugeriu ser ela a fazer a investigao em bibliotecas,
deixando Ellie junto de Molly e Tinimy. Foi uma oferta generosa e Ellie agradeceu-lhe imenso. Mas 
sentiu-se um pouco inquieta por ter peugadas de Theresa Santiago por toda a tese. 
A Internet oferecia um biombo de anonimato mas um carto de 
biblioteca identificava um investigador especfico. Tal como Gordon a avisara, este teria de 
ser um trabalho inteiramente seu.

Quase como que pressentindo o problema, Theresa deixou escapar uma soluo.

- No tenho cartes de biblioteca em Harvard e Brown, mas aposto que posso usar o seu carto da 
universidade em ambos os stios. Por isso, no terei problemas em arranjar o material de que precisa. - 
Theresa pensou estar a resolver um problema de acesso, mas Ellie percebeu que o que ela estava a 
propor resolveria tambm questes de autoria. As credenciais universitrias de Ellie 
estavam honradas em todas as bibliotecas acadmicas numa base 
recproca.
 - Est bem - disse ela depois de pensar na ideia durante vrios minutos.

- Se tem a certeza que no  estar a pr-lhe um peso demasiado grande em cima.

Theresa tinha a certeza.

Vou j comear - ofereceu-se ela, - Quanto mais depressa fizer isto, mais cedo voltarei 
para as crianas.

Elie estava ansiosa por contar a Gordon como tudo estava a correr to bem
e, quando ele telefonou durante a semana, at se esqueceu de perguntar como estava a campanha dele.

Ela  a jovem mais extraordinria - disse ela. -Acho que deves dizer ao Henry Browning que 
ficaremos em dvida com ele para sempre. Extraordinria! - disse Gordon entredentes.

 107

- Ela est em Brown hoje e depois vai passar a noite com amigos em Tiverton para poder voltar 
a Brown logo de manh cedo.

- Ela est c? Em Providence?

- Em Brown, Talvez pudesses passar por l e lev-la a almoar fora.

- Provavelmente no. Tenho mais almoos de frango com lentilhas agendados. Quem me dera que algum 
fizesse qualquer coisa politicamente perigosa e servisse sanduches de manteiga de amendoim. - Estava a 
pensar que ela estava apenas a alguns minutos de distncia e que essa podia ser a oportunidade perfeita 
para colocar a uma luz adequada o caso momentneo entre ambos.

- Oh e adivinha o que  que ela fez esta manh.
- Transformou chumbo em ouro?

Ellie riu-se.

- No, uma coisa engraada. To querida que me apeteceu chorar.
- Oh, lavou os vidros!

- Sabes todos aqueles vdeos que ela fez dos midos na praia?

O nico de que ele se lembrava era do que fora filmado pela cmara pousada em cima do alpendre 
mostrando Theresa a sair da gua, A sua memria estava ainda mais intensa agora que vira o 
que o biquni escondia.

- Bem, comprou uma cassete nova enquanto esteve em Cambridge e passou a maior parte da noite enfiada 
no quarto com o gravador de vdeo. Esta manh perguntei-lhe que coisa to importante era aquela e ela 
contou-me que fizera uma cpia de todas as filmagens dos midos. Quer lev-la com ela para a faculdade 
para se lembrar deles.

- Diz-lhe que pode levar os midos - brincou Gordon, mas os seus pensamentos j estavam longe. Mesmo 
que no conseguisse encontrar-se com ela ao almoo, talvez pudesse ir at ao campus de 
Brown ao incio da tarde. Seria mais seguro ser visto com ela no campus do que num restaurante. 
At podia parecer estar envolvido na educao dela.

O almoo foi uma perda de tempo. Havia trs mesas das Filhas da Liberdade, todas mulheres 
preocupadas com as intruses do governo nas liberdades pessoais que tinham motivado a fundao de 
Rhode Island. Mais especificamente, tinham medo que grupos ambentais pudessem interferir com a 
expanso das suas casas voltadas para o mar, baixando o valor das propriedades.

- Porque  que estamos a falar com estas pessoas? - perguntara ele a 
Henry a caminho do restaurante.

- Oportunidade de publicidade. Vamos tirar-lhes fotografias  sua volta e depois elas faro com que as 
fotografias sejam impressas nas pginas da sociedade. O lado bom da questo  que as nicas pessoas que 
lem as pginas da

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1        sociedade so os amigos delas, Os ambientalistas 
normalmente vo directamente para a seco humorstica.
 Ainda estava a pensar numa conversa com Theresa enquanto se esforava por seguir uma conversa trivial 
com as duas presidentes que o ladeavam. Ouviu humildemente uma introduo 
de quinze minutos que narrou os contributos da sua famlia para a regio de Narragansett. Depois 
passou dez minutos a dizer s mulheres exactamente o que elas queriam 
ouvir. Dava preferncia aos valores Cristos e  propriedade privada. Era 
um homem de famlia que abrira a sua casa aos menos afortunados. Dava grande 
valor  sua herana de marinheiro e apoiaria sempre os interesses dos que amam o 
mar. Duas das mulheres dormitaram durante o perodo de perguntas e respostas.

Gordon pediu a Henry que o deixasse na biblioteca de cincias sociais de Brown onde o seu nome e 
credenciais polticas lhe permitiram passar pelo torniquete de entrada. Depois vagueou de andar em 
andar, olhando para todos os quiosques de alunos e procurando pelas prateleiras. Quando viu que no a 
encontrava, voltou para o balco e pediu livros sobre o tema de Ellie. Depois voltou 
para aquela seco e esperou cerca de meia hora na 
esperana de que Theresa voltasse.
No queria atrair atenes, mas detestava perder a oportunidade de esclarecer o mal-
entendido. Por isso, esperou ainda mais tempo num canto vazio e silencioso.
 - Theresa, primeiro que tudo quero pedir desculpa pelo que fiz no outro dia - ensaiou ele, praticando a sua 
expresso de desnimo enquanto dava voz s palavras. - O que fizemos no outro dia - corrigiu Gordon e 
depois decidiu suavizar ainda mais o pedido de desculpas. - O que 
dixmos que acontecesse no outro dia.
Ela provavelmente acenaria com a cabea. Duvidava que ela colocasse o 
caso no seu devido contexto dizendo.

- Quer dizer, quando fodeu uma jovem empregada? - Mas no lhe queria dar oportunidade de interferir no 
discurso. Por isso, decidiu ele, no faria huma pausa. - Como sabe, tive um dia 
terrvel, completamente abandonado pelos amigos. Estava exausto da campanha da semana. Tomei uma bebida
e, com o calor do sol, ela deve ter-me subido directamente  cabea. Quero que compreenda que no estava 
em mim quando reagi... - No, isso era demasiado cnico; tinha pelo menos que reconhecer a sua bvia paixo, -
... quando me agarrei  sua expresso de compaixo.
- Mas... - Sabia que no a podia deixar interromp-lo. - Mas, no entanto, o que eu... o que 
ns fizemos foi terrivelmente errado. Fundamentalmente, sou um homem de moral e o 
meu sentido do que  certo e errado nunca me permitiria comprometer-me com, uma rapariga... 
jovem... com metade da minha idade, muito menos desonrar o meu casamento,


 109

Gostou do tom. Estava a admitir a culpa sem abandonar a aura de integridade 
pessoal. Ela ia admirar isso. Mas ele no queria a sua admirao; queria o seu silncio.

- Por isso, espero que me possa perdoar e apagar por completo sexta-feira  tarde da sua mente - - 
Assim parecia estar a implorar. No queria que ela pensasse que fora 
nteramente culpa dele. Ela despra-se. Lembrava-se de que ela pedira um 
momento de privacidade atrs da porta fechada, provavelmente para cuidar das suas necessidades 
contraceptivas. E no lhe parecera que fora o primeiro, A jovem estava muito familiarizada com os 
preceitos bsicos da arte de fazer amor.

- Por isso, espero que nos possamos perdoar um ao outro e colocar a ltima sexta-feira 
 tarde para trs das costas. Espero que continue a estimar-me e sei que irei sempre t-la na mais alta 
estima,

Gordon olhou pela ltima vez em redor da biblioteca, na esperana de a encontrar sozinha 
para poder dizer rapidamente aquelas palavras. Mas no havia sinal dela. Teria de a encontrar sozinha 
algures durante o fim-de-semana quando estava previsto que voltasse para o Cape.

Atravessou a cidade para uma reunio da cmara do comrcio, onde Henry conseguira que ele 
recebesse um prmio como defensor do reavivar da baixa. Percorreu como um sonmbulo todos os 
lugares-comuns habituais e fez pose com o director enquanto seguravam numa placa de madeira entre 
ambos.

A noite foi um desperdcio at Pam chegar, beberricar vinho e mordiscar queijo e depois juntar-se  fila 
para oferecer as suas felicitaes,

- Ainda ests envolvida? - perguntou-lhe ele fingindo uma conversa trivial.

Ela balouou a mo simulando um barco a flutuar sobre grandes oscilaes no terreno.

- Adorava ver-te - disse-lhe ele. - Se... Ela sorriu.

- No acho que haja tanta incerteza. S no est a andar to depressa qUanto esperava,

Gordon acenou com a cabea.

- Mantm-me informado de um caso ou de outro.
- E tu diz-me como vo as coisas com a tua mulher.

Riram-se ambos e depois Pam afastou-se na direco do vinho e do queijo, deixando-o saudar perfeitos 
estranhos como se fossem os amigos mais antigos e queridos.

Era tarde quando o grupo de negcios se separou. Henry fez sinal a Gordon Para dentro de uma 
suite privada onde havia todos os utenslios de bar preparados

110                                 
  sobre o balco da cozinha, Henry tratou das bebidas e depois juntou-se a Gordon na sala de estar, os dois 
homens em lados opostos de uma enorme mesa de apoio.

- Ento, como  que estamos? - perguntou Gordon, bastante 
seguro de que ia ficar satisfeito com a resposta.

Henry acenou com a cabea.

- Nada mal. Nada mal mesmo. Na verdade, estamos um pouco  frente do que esperava estar 
a esta altura. Continua  frente por 20 pontos e, quando receber as sondagens de manh, aposto que haver 
cerca de 23 Pontos.

- isso significa...

Uma maioria absoluta - concedeu Browning, erguendo a mo 
para receber as congratulaes de Gordon. - Partindo do princpio de que todos os seus 
apoiantes saiam de casa e votem,  a que estou particularmente 
satisfeito. Parece que estamos a gerar um verdadeiro entusiasmo pela sua 
candidatura. Pessoas que no votaram nos ltimos quatro anos dizem-nos que esto a pensar em votar 
em si.

E a gente da rea fronteira?

Vou saber ao certo logo de manh cedo. Mas tenho a sensao de que est a fazer 
grandes progressos. T-lo fotografado com Theresa deu-lhe certamente o toque comum,

Oh, a Ellie  disse para lhe dizer que ela  maravilhosa. 
No sabamos o que fazer sem ela.

- Eu tambm no - admitiu Henry. - Conseguimos grande destaque com as 
fotografias que tirmos, Apareceram em todos os jornais tnicos, espanhis, portugueses, russos e mesmo 
ingleses.
 - Ento estamos em grande - concluiu Gordon.

- Provavelmente. Agora s voc nos pode prejudicar.
 - Prejudicar-nos como?


Henry arquejou os ombros e deu um gole pensativo.
 - Vi a Pam Lambert esta noite.

Gordon pensou em fingir surpresa, mas sabia que poucas coisas surpreendam o seu amigo.

- Sim. Falmos brevemente.
 - Vocs ainda tm alguma coisa?

- A Pam e eu?! - Agora tinha de fingir estar surpreso. - Ela est no negcio. 
Faz alguns trabalhos para a minha empresa.

Browning acenou com a cabea.

- Sabe certamente o que aconteceria se se tornasse pblico que existia mais alguma coisa entre 
vocs do que uma relao de negcios,

  111

- Henry, so s negcios. Onde quer chegar? - Gordon j sabia a resposta.

S no tinha a certeza de quanto  que Henry j sabia. E se o Henry sabia, quantos dos seus colegas 
polticos tambm sabiam.

- A sua mulher, Gordon,  um atributo distinto. Atravs do trabalho dela, tornou-se uma figura querida. 
Engan-la vai custar-lhe o voto da famlia. E a menina Lambert  uma trabalhadora ao seu servio. Se 
parecer que est a extrair favores sexuais para os seus negcios, perder tambm o voto das mulheres.

- Henry, no est a pensar que...

Foi silenciado pela mo erguida do homem mais velho.

- No quero prolongar a discusso. Sabe que tem dormido com ela e eu sei que tem dormido com ela. 
Tanto quanto pude apurar, ela  a nica pessoa com excepo de ns que conhece todos os pormenores. 
Por isso, h duas coisas que no podemos deixar que aconteam. No podemos deixar que mais algum 
descubra e no podemos fazer nada que a possa prejudicar. Isso significa que no pode ser visto com 
ela. Significa tambm que no pode simplesmente abandon-la porque isso podia enfurec-la.  
suficientemente esperta para saber que dar com a lngua nos dentes a seu respeito seria uma forma muito 
eficaz de se vingar. Por isso, temos aqui um pequeno dilema,

Gordon sentou-se em silncio, com o ar de uma criana castigada.

- Acho que no temos nada com que nos preocupar - disse ele em voz baixa.

Browning continuou no seu modo no absurdo.

- Eu sei que no temos nada com que nos preocupar. Tratei para que fosse ela a dex-lo a si para que 
sinta compaixo por si e no raiva. - A cabea de Gordon levantou-se lentamente, com os olhos a 
tornarem-se mais estreitos quando comeou a compreender. - O que no precisamos  que complique as 
coisas tornando-lhe atraente a ela a ideia de voltar para a sua cama. Precisa de cortar completamente 
enquanto a jovem pensa que ainda est em vantagem,

- Arranjou-lhe uma pessoa. Contratou algum para se fazer a ela...

- Os pormenores no so importantes. O que  essencial  que voc deixe o novo romance dela seguir o 
seu rumo at Novembro.

Gordon ps-se de p.

- Seu sacana sem corao. Est a brincar com uma mulher inocente. No se rala com os sentimentos dela? 
Ou dele?

- Os dele esto pagos. E penso que no a tratei de forma mais vil do que voc, No lhe 
acenmos ambos com a sugesto de felicidade romntica?

- Mas eu nunca menti...

- Isso so tretas e voc sabe - ripostou Henry, levantando a voz pela primeira vez na memria de Gordon. 
- O que , que lhe disse quando estavam na

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cama? Que era s para dar emoo? Mentiu-lhe e eu estou a mentir-lhe. A nica diferena  que a sua 
mentira pode destru-lo a si e a tudo aquilo por que anseia. A minha mentira pode salv-lo.

Gordon afundou-se na cadeira. Os dois homens ficaram sentados em silncio durante vrios minutos. Foi 
Henry quem quebrou o silncio.

- Peo desculpa se me mostrei desnecessariamente brutal. Mas no aguento toda a estupidez que 
acompanha as afirmaes de amor. Conseguiu o que queria e safou-se. Espero que seja to 
afortunado ao longo da sua vida na poltica.

Gordon estava a falar muito depressa.

- Mas no pode... simplesmente... usar as pessoas.

- Passo a vida a faz-lo para conseguir algo de valor. A forma como voc a estava a usar s podia acabar 
em destruio.  isso que espero evitar. A destruio de uma carreira poltica muito promissora. Uma vez 
que se trata da sua carreira, espero poder contar com o seu apoio.

Fez uma pausa e observou Gordon mergulhar na sua prpria insensatez. Depois perguntou:

- Posso contar com o seu apoio, no posso?

Gordon estabeleceu contacto visual com ele. Depois acenou com a cabea e desviou o olhar.

CAPTULO VINTE E UM

Ele acelerou percorrendo as ruas a caminho do seu apartamento e fez chiar os pneus ao contornar as 
curvas apertadas na garagem subterrnea. Estava furioso mas no conseguia centrar a raiva em ningum, o 
que tornava tudo mais difcil de controlar. A culpa no era de Henry Browning. Tudo o que Henry fizera 
fora recordar-lhe a realidade da sua situao. Talvez Henry no devesse ter enfiado o nariz nos 
seus assuntos privados, mas Gordon escolhera tornar-se uma figura pblica e abrira a vida a um exame 
minucioso. Contava com Henry para promover a sua persona pblica. Certamente que no 
podia estar furioso com Pam; ela nunca exigira nem recusara nada. No entanto, ela estava a ser violada 
para o bem da imagem pblica dele. A nica pessoa com quem se podia enfurecer era consigo prprio.

Bateu com a porta do carro e dirigiu-se ruidosamente para o elevador, com a cabea baixa e os lbios a 
formar blasfmias mudas. Falou cuspindo enquanto o elevador subia com barulho at ao quinto andar e 
percorreu o corredor de mau humor at ao apartamento. Quando abriu a porta, ficou espantado ao ver 
que havia luz na sala de estar. Ficou aturdido quando o rosto de Theresa Santiago surgiu acima do sof.

Gordon entrou lentamente, fechando a porta atrs de si.
- Como  que...

Ela levantou as chaves do cano dele no ar.

- A chave-extra do apartamento est no porta-chaves. E a morada est em todas as revistas que leva para 
casa. - Theresa sorriu face ao seu gnio inventivo,

Gordon ainda estava em choque mas lentamente comeou a compreender a situao. Theresa pensava 
que o percalo na casa de Cape Cod fora o incio de um romance e estava emocionada por ter descoberto 
uma forma de se encontrarem.

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     Tinha obviamente de a tirar do apartamento. Mas como? No queria ser visto a acompanh-la at  porta 
da frente. Ou queria? Talvez isso fosse exactamente o que queria se algum a tivesse visto 
entrar no edifcio. A sua mente

comeou a redemoinhar, em busca de uma maneira para fazer parecer que ela nunca estivera l.
 - Usei as escadas de incndio - disse Theresa como que lendo os seus pensamentos. - No queria 
encontrar ningum no elevador. E certifiquei-me de que no estava ningum no corredor quando entrei.

Ela estava ainda no sof, olhando para trs na direco do hall de entrada. Ele continuava de p 
no hall de entrada, com medo at de dar um passo na direco dela.

- No est contente por me ver? - perguntou Theresa.

Gordon voltou  vida.

-
Claro. Estou maravilhado, - Entrou na sala de estar com todo o entusiasmo que 
consegUiU reunir. - De facto, estive na biblioteca  sua procura esta tarde. Pensei que podamos almoar 
juntos porque h coisas de que precisamos de falar.

- Tinha sido bom. - disse Theresa.

- Na verdade - continuou Gordon - porque  que no samos para jantar? Theresa 
levantou-se e olhou de relance para o relgio.

- So dez e meia!

- Pronto, talvez apenas um lanche. Ou uma bebida. - Meu Deus, porque  que lhe estava a 
oferecer uma bebida? Era a ltima coisa de que precisavam, Uma Coca-
cola... ou qualquer coisa assim,

Ela contornou lentamente o sof.

-j bebi uma Coca-cola e fiz um lanche. Espero que no se importe.
 - Importar-me? No, claro que no.

Ela estava a dirigir-se lentamente para ele.
 - Passei a semana toda a pensar em si.

- E eu pensei em si...

Ela sorriu. Os braos dela esticaram-se para lhe cingirem o pescoo. O sorriso branco e os olhos azuis-
claros pareciam irreais em contraste com o bronzeado escuro da pele dela.

- No - respondeu ele ofegante, rodopiando para longe dela. Atravessou a sala at ao outro sof para 
que a mesa de apoio ficasse entre ambos. - O que queria dizer  que pensei no que lhe ia dizer. No que 
tinha para lhe dizer.
Parecia divertida com o pnico bvio dele.

- Theresa, no devia estar aqui. Pode dar a impresso errada. As pessoas podem pensar...

 115

Por isso  que vim pelas escadas. Sei que temos de ser um segredo.

 mais do que isso. Sou um homem casado. Amo a minha mulher. No lhe posso dar... - No tinha a certeza 
do que devia dizer exactamente que no lhe podia dar.

- No quero que me d nada. - Estava a contornar lentamente a mesa de apoio na direco de Gordon. - 
No quero meter-me entre si e a senhora ActOn.

- Mas ento tem que perceber... - Ela estava to perto que ele lhe sentia a respirao.

- Tudo o que quero  agora. O que podemos dar um ao outro, antes de ter de me ir embora, Voc  
maravilhoso e eu quero sentir-me perto de si.

Ele recuou.

- isto pode... destruir-nos a ambos.

- S se algum descobrir e vou certificar-me de que isso nunca acontea. Nunca direi a ningum. Nunca! E 
s me encontrarei consigo quando souber que est sozinho.

- Mas no  correcto para mim...

- Desejo-o tanto. - Agarrara-o e as mos dela estavam a puxar pelas lapelas do casaco dele. - No me quer?

Tinha os braos  volta dele, dentro do casaco do fato. Ele sentia-lhe os seios contra o peito e as coxas 
contra as pernas.

- Nunca ningum h-de saber - murmurou ela. - Excepto ns. Ser sempre o nosso segredo. - Theresa 
tirou-lhe o casaco dos ombros e comeou a desapertar o n da gravata. Gordon reparou que a porta do 
quarto estava aberta e que a roupa da cama j fora puxada para trs.

CAPTULO VINTE E DOIS

Acordou sobressaltado e deu por si a olhar fixamente para as pregas da almofada. Houve uma fraco de 
segundo de confuso e depois lembrana total dos acontecimentos da noite. Estava peganhento e dorido 
entre as pernas e os lbios pareciam inchados. Minsculos arranhes picavam-lhe as costas. Tinham feito 
amor selvaticamente, cada arremesso e reviravolta estava fixa como uma imagem gravada na parte da 
frente do seu crebro.
 - Oh, Meu Deus, pensou ele, o que  que eu fiz?

Gordon ficou imvel, mantendo o mesmo padro respiratrio para que ela no notasse que ele estava 
acordado. Ficou atentamente a escuta do som da respirao dela, na esperana de que ainda 
estivesse a dormir, mas havia um silncio de morte. Mexeu lentamente a mo por debaixo da roupa, 
esticando-a cuidadosamente atrs de si na direco do outro lado da cama,  procura dela e esperando que 
ela no o sentisse. Levou a mo mais e mais longe at ficar esticada atrs de si. Ela no estava l.

Sentou-se direito e olhou para a esquerda, o lado onde Theresa estivera quando ele cara de exausto 
fsica. No havia sinal dela. Ela endireitara o seu lado do cobertor e at a almofada. Gordon pestanejou 
com descrena e passou um segundo a fantasiar que ela nunca l estivera. Olhou em volta. As roupas que 
atirara para o cho estavam esmeradamente dobradas no seu cabide. A roupa interior que fora aglomerada 
junto  cama desaparecera. No havia sinal das roupas dela na porta do quarto onde deixara tudo menos as 
cuecas. Talvez tivesse sido um sonho.

Mas ele sabia que no. O seu lado da cama exudava o aroma de sexo e o seu corpo estava dordo em 
todos os locais adequados. Deslizou para fora dos lenis e encontrou roupa interior lavada na cmoda. 
Procurou depois o roupo de banho quase novo e tentou fazer uma entrada casualmente graciosa no 
resto

  117

da casa, partindo do princpio de que ela estava  espreita algures. Olhou para a sala de estar e para a sala 
de jantar e depois abriu cuidadosamente a porta oscilante que dava para a cozinha. No havia sinal dela. 
Absolutamente nada parecia ter sido perturbado. Aparentemente ela levantara-se, vestira-se e sara do 
apartamentO sem sequer deixar uma pegada na carpete. Os especialistas laboratoriais do FBI, decidiu ele, 
no a teriam conseguido colocar na cena.

Quem era ela? O que  que era ela? A sua mente andava  volta enquanto procurava em vo 
alguma pista da existncia dela. Tratava-se de uma mulher de uma minoria em desvantagem incapaz de 
levantar os olhos durante uma entrevista para um emprego. Porm, parecia ser perita informtica e com 
habilitaes de investigao ao nvel de licenciatura. Era certamente uma amante muito competente. E 
agora estava a demonstrar uma capacidade sobrenatural para levar avante um caso amoroso adulto sem 
deixar qualquer vestgio de provas incriminadoras. At enterrara a roupa interior dele no cesto da roupa 
suja. No era apenas boa para a idade que tinha. Era inacreditvel para qualquer idade, to capacitada em 
personalidades to divergentes que era positivamente assustadora.

Tomou um duche rpido, vestiu-se e saiu a correr do apartamento. Havia um homem no elevador a quem 
cumprimentou com indiferena, procurando depois algum sinal atravs do qual ele ficasse a saber do 
segredo da culpa de Gordon. No havia vestgios de reconhecimento. No trio de entrada, foi at  
secretria do porteiro e perguntou se havia mensagens para si. O homem olhou de relance para a ranhura 
da caixa de correio vazia e abanou a cabea. Gordon olhou-o fixamente nos olhos. Teria visto alguma 
coisa? Sabia de alguma coisa? Estaria a rir-se em segredo s custas de Gordon?

- Mais alguma coisa? - perguntou o porteiro, enervado com o exame minucioso do morador.

- Oh, no. Nada. Estava s  espera de... uma entrega expresso. Deve ter ido para o meu escritrio.

Voltou para o elevador e desceu at  garagem. Depois dirigiu-se para a biblioteca de cincias sociais da 
Universidade de Brown.

Viu Theresa assim que chegou ao segundo andar. Estava com as calas de ganga e com a camisola sem 
mangas que vestira na noite anterior e sentada num cubculo de leitura, rodeada por uma montanha de 
livros. Ps-se de p num salto assim que o viu aproximar-se.

- Senhor Acton! - O pasmo na voz dela fez com que parecesse uma surpresa total. - O que esta aqui a 
fazer?

Ele olhou em volta pouco -vontade.
- Podemos ir l fora por um minuto?

118                        

- Claro! - Theresa passou alguns segundos a dobrar os livros uns sobre os outros para marcar as pginas. 
Depois acompanhou-o pelos degraus abaixo e passaram pela secretria da frente. - No sabia 
que estava na cidade - disse ela suficientemente alto para provocar olhares desaprovadores dos bibliotecrios. 
Quando estava a passar pelos detectores acrescentou: - S contava v-lo quando chegasse a casa no 
sbado.

Foi absolutamente convincente. Nem mesmo Gordon teria adivinhado que se tratava de algo mais do que um 
encontro inesperado. E estava fresca e lavada, como uma candidata a Miss 
Amrica, nada parecida com a sedutora da noite anterior.

Conduziu-a at um banco, esperou que ela se sentasse e depois instalou-se com dificuldade na outra 
ponta.

- Fiquei... preocupado... quando no a encontrei no apartamento esta manh.

- Achei que era melhor assim - disse ela por detrs da sua mscara sorridente. - Sa antes que todos acordassem. 
Antes de amanhecer, na realidade. Ele acenou com a cabea.

- Claro. Agradeo.

- Dormitei um pouco no carro antes da biblioteca abrir.

- Theresa, foi um erro terrvel. No podemos deixar que se repita. - Os olhos dela caram tristemente. - 
Podemos estragar-lhe a vida inteira.  muito jovem, com um futuro maravilhoso diante de si. Sou velho demais 
para si.

Ela levantou os olhos com um pequeno sorriso.
- Achei-o maravilhoso.

- Sabe o que quero dizer. Ela acenou com a cabea.

- Quer dizer que pode perder tudo. A sua mulher e filhos. A sua carreira...
- Estou a pensar em si.

Theresa ignorou a mentira bvia.

- Nunca faria nada para o magoar a si nem  senhora Acton. S estava a roubar um minuto do que ela tem 
sempre. Sei que est errado. Mas h muitas coisas erradas.

- Mas se algum descobrir...

- Ningum descobrir. Veja como fui cuidadosa. Ningum tem de saber. Gordon hesitou por um instante, 
reagrupando os pensamentos.

- No  s o facto das pessoas poderem descobrir. Para mim,  muito errado. Sou um homem mais velho, Devia 
ser eu a manter as coisas na ordem. No me devia estar a aproveitar de si,

- No est! Sei o que estou a fazer. No sou nenhuma mida tola.

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- Eu sei.  uma jovem adulta... bela e... talentosa. Mas  errado para mim aproveitar-me dos 
seus sentimentos. Compreende isso, no compreende?

Theresa parecia estar prestes a chorar, mas aguentou-se e acenou vigorosamente com a cabea.

- Eu sei.

- Ento estamos de acordo. Isto nunca mais vai voltar a acontecer. outro aceno de cabea.

- Se  isso que quer. Gordon expirou lentamente,

-  o que tenho de querer. No tenho escolha. Nenhum de ns tem. Ela fez um sorriso forado.

- Est bem, senhor Acton.
- Obrigado, Theresa.

Ela levantou-se abruptamente.

- Tenho de voltar para a pesquisa. - Depois rodou sobre os calcanhares e subiu as escadas da biblioteca a 
correr. Gordon ficou a v-la at desaparecer pelas enormes portas duplas.

CAPTULO VINTE E TRS

Ellie ficou encantada com o material que Theresa trouxe de Providence.

- isto  magnfico - disse ela a Theresa ao dar uma vista de olhos ao trabalho. - 
Simplesmente perfeito, - Pegou numa pgina. - Como  que sabia que estes quadros podiam 
ser includos?

Theresa estava sentada ao lado dela no cho. Riu-se deleitada.

- Porque me disse que se fosse o mesmo estudo e a mesma amostra... Ellie interrompeu-a 
com um abrao.

- Voc  maravilhosa. Absolutamente maravilhosa. Nem sei dizer-lhe quantas horas, dias, na 
verdade, me poupou.

- Ento, vamos comear a fazer um esboo disso para o papel? -j estava a dirigir-se para o 
computador.

- Voc no! j fez que chegasse do meu trabalho. Tire o dia de folga. Pode levar as 
crianas at ao clube, pois  dia de jogos. V nadar. Deite-se no barco.
O que quiser,

- Gostava de a ajudar!...

- No. Chega de trabalho na tese, j me aproveitei demais de si.

Theresa levou Molly e Timmy at ao clube e ficou a v-los participar nos jogos  beira de 
gua. Conversou calmamente com Don McNcary e com os outros rapazes que pareciam 
procurar o apoio de McNeary. Eles, por sua vez, atraam algumas das raparigas, a maioria de 
frias da faculdade. Trish, com um pequeno contingente de seguidoras, manteve-se a uma 
certa distncia, lanando olhares semelhantes a setas na direco de Theresa.

Molly chamou Trish, que olhara por ela nos ltimos dias, e pediu-lhe que participasse 
num dos jogos. Trsh usou a desculpa para se aproximar dos outros rapazes sem parecer 
estar a ceder terreno e, quando as amgas a seguiram, os dois campos hostis fizeram uma 
trgua custosa. Quando se decidiu deixar os conselheiros

  121

encarregues das crianas e ir at a piscina tomar um refrigerante, Theresa foi includa. Passou a tarde no 
centro do grupo de jovens,  vista dos idosos com ar desaprovador. Os Mapleton, os Stucky e os 
OConnell estavam deitados numa fila de espreguiadeiras, a apanhar sol juntamente com os seus 
cocktails da tarde,

- A rapariga contratada pelo Acton parece ter conseguido enfiar-se c dentro - observou a senhora 
OConnell.

- Umas mamas grandes atraem sempre uma multido - reparou Cecil Mapleton.

- Que grandes olhos que tu tens - repreendeu-o a mulher.

- No so os olhos dele que so grandes - disse Phil Stucky em abono do amigo.

-  isso que atrai os rapazes - respondeu Emily Stucky. -  s nisso que esto interessados.

- E so os rapazes que atraem as raparigas - observou Jack OConnell, acenando o copo para o crculo de 
jovens mulheres de fatos-de-banho reveladores. A me de Trish ofendeu-se.

-  um comentrio muito triste quando uma rapariga daquelas pode tornar-se o centro das 
atenes. No h uma regra qualquer sobre os ajudantes usarem as instalaes dos membros?

- Isso  apenas para os ajudantes contratados pelo clube - respondeu Phil Stucky. - As amas foram sempre 
tratadas como familiares dos membros.

- Bem, talvez seja uma regra a estudar - sugeriu a senhora Mapleton.

- Eu sei o que gostava de estudar - disse Jack OConnell com uma gargalhada gutural.

- Toma mais uma bebida, Jack - sugeriu a mulher,
-  isso mesmo que vou fazer.

Os comentrios continuaram no fim-de-semana quando Gordon chegou com Theresa e os midos ao clube 
e os levou a passear de barco, Manteve-se na baa, sempre  vista dos membros no alpendre, sempre ao 
leme enquanto Theresa tinha as crianas reunidas na frente do cockpit.

- Aposto que ele gostava de se livrar dos midos por uma hora - disse Jack OConnell s gargalhadas.

- Tenho pena da Ellie - disse Pricilla Mapleton, abanando a cabea tristemente. -  to bvio que ela  mais 
do que uma babysitter para ele.

- O Gordon no  do tipo que engana a mulher - disse Emily Stucky energicamente.

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 -
O que queres dizer com "no  do tipo"?  homem, no ? So todos desse tipo.
-
 Mas aqui no! No mesmo na sua frente - protestou Emily.
O Don McNeary esteve a contar  Trish que a pequena Miss Brasa esteve em Providence 
durante a semana - revelou Prclla. -  onde o Gordon est durante a campanha.

Emily Stucky respirou ofegantemente diante da prova irrefutvel, Aposto que est a fazer campanha - riu-
se Jack OConnell.

Gordon dera a volta com o barco na extremidade sul da baa e alinhara-o de 
forma a seguir em linha recta at ao ancoradouro. Molly comeara a ficar 
aborrecda com as voltas repetitivas e tinha a mo a arrastar pela 
borda, Timmy estava a dormir, com o colete salva-vidas a servir de colcho enquanto o 
colo de Theresa era a almofada.

- Grande dia para andar de barco - disse Gordon pelo menos pela quinta vez. Olhava com ar de alerta 
para o mar e depois para a disposio do cordame para no ter que 
estabelecer contacto visual com Theresa. Mas a 
conversa tornou-se inevitvel quando j no tinha comandos de 
navegao para preencher o silncio. - Ento - disse ele para anunciar 
que ia comear um novo tpico - quais so as ltimas notcias de Yale? Deve estar a ficar muito 
entusiasmada,

Porque  que queres ir para Yale? - perguntou Molly sem levantar o olhar do 
rasto deixado pelo barco, -  demasiado longe, Nunca mais te vemos.

- Vou ver-vos bastante - respondeu Theresa - porque no me vou embora,

Gordon ficou surpreso.
- Pensei que ia para Yale. Com uma bolsa.
 Theresa acenou com a cabea.

- A bolsa  s para a mensalidade e isso  apenas uma fraco do custo.
Falta muito.
- O emprego de Vero no ajuda?

Ajuda... um pouco. Mas havia de ver a tabela de preos que me enviaram. Quarto e refeies. 
Taxas de utilizao do laboratrio. E depois h as roupas.
 cerca de quinze mil dlares que a bolsa no cobre. - Olhou para 
Molly. - Por isso provavelmente vou voltar para Tiverton, o que 
significa que me vo ver bastante. - O sorriso de Molly 
indicava que no podia estar mais feliz.

- Que pena - disse Gordon, - Detesto v-la desistir de uma oportunidade to boa.

-j estou habituada a que o dinheiro nunca chegue - suspirou Theresa. Depois olhou directamente para 
Gordon e acrescentou: - Mas, pelo menos, vou v-lo bastante a si e  Ellie.

 123

Sentiu a sua guarda em alerta como se as palavras fossem uma ameaa.
 - Que bom - disse ele entredentes para que a Molly ouvisse, mas estava a pensar que no era nada 
bom. A rapariga era uma bomba-relgio que o podia fazer ir pelos ares com um simples movimento da 
lngua, A ansiedade que ela causara era apenas suportvel porque pensara que ela se iria embora antes do 
final de Agosto para uma nova vida num local diferente. uma observao reveladora passaria 
provavelmente despercebida em New Haven, mas podia ser fatal no seu quartel-general ou na sua sala de 
estar. Tambm estivera a contar com as propriedades de cura do tempo. Uma acusao agora mereceria 
credibilidade imediata. Mas se ela decidisse mencionar as indiscries dali a seis meses, depois de j estar 
bastante longe, tudo o que dissesse podia ser instantaneamente negado, Gordon at ensaiara as 
palavras. - "No passa de imaginao dela, Talvez uma coisa que ela queria que acontecesse.  muito 
nova. No deve fazer ideia do quanto as fantasias dela so embaraosas para mim e para a minha 
famlia."

Mas se no se ia embora no haveria distncia suficiente. S precisava de aparecer na sede da campanha 
dele uma vez porsemana e tudo o que dissesse sobre a relao de ambos seria levado muito a srio.

Ela estava a olhar directamente para ele, com os olhos um pouco fechados como que em busca dos 
pensamentos de Gordon, Oh, meu Deus, ela sabe que me possui? Ser que sempre soube? Tornou-se 
subitamente muito claro. Ela manobrara-o at  cama. Colocara-o numa posio em que no podia negar-
lhe nada sem correr grandes riscos. Tinha-o de trela muito curta e sabia disso. Agora estava a dizer-lhe o 
preo que teria de pagar.

Os olhos dela abandonaram-no e suavizaram-se quando desviou o olhar do sol para a extenso de areia 
que ficava para este,

- Isto  to bonito, senhor Acton. Muito obrigada por me ter trazido. Jesus, controla-te, pensou ele. Ela no 
te est a ameaar. Ainda nem sequer sugeriu que podia dizer a algum. No pediu nada- Tudo o que fez 
foi dizer que Yale era demasiado caro, o que era certamente verdade. Claro que fazia mais sentido ir para 
um local mais barato e mais prximo de casa. Ele estava a cometer o Pior erro possvel ao tomar uma 
observao to inocente como uma ameaa.

Contornou a bia da entrada em direco ao porto do clube.

- Devia ter trazido a cmara de vdeo - disse Theresa de repente. Ele no compreendeu.

-  to bonito, entrar assim no porto com todos os barcos ancorados e com o Sol a pr-se.

Gordon olhou por cima da proa.

-  realmente lindo. Acho que j me habituei de tal maneira a estas coisas que j nem reparo nelas.

124                        

- Ainda  novo para mim - respondeu Theresa. -  por isso que tento filmar tudo. Para as ter sempre 
comigo,

Lembrou-se que ela fizera cpias dos filmes das crianas.  realmente uma boa rapariga, pensou ele, 
olhando para trs na direco do cockpt onde Tmmy dormia em paz no colo dela. Talvez lhe 
devssemos dar o dinheiro de que precsa para ir para Yale.  claro que tinha de estar preparado para lhe 
dar essa quantia, ou talvez ainda mais, em cada um dos quatro anos. Sera ento mais do que um gesto. 
Estava a pensar em dinheiro a srio. E no valia a pena enganar-se. A nica razo porque estava a pensar 
nisso era para a levar para longe o mais depressa possvel. Mesmo que no estivesse a tentar agarr-lo, 
percebeu que tinha medo do que ela podia fazer com uma nica palavra de descuido. Quanto seria na 
totalidade? Algures entre sessenta e setenta e cinco mil. Era muito dinheiro para comprar o silncio dela. 
Mas, que diabo, todo o seu futuro estava em jogo.

- Comeamos a baixar as velas?

Apercebeu-se de repente da presena de Theresa e, mais importante, de que estava a dirigir-se para o 
canal estreito entre ancoradouros.

- No, vou s soltar as escotas e entrar com motor. - Deixou a vela ser impelida livremente pelo vento 
enquanto inclinava habilidosamente o barco para o ancoradouro. Depois mandou Theresa para casa com 
os midos enquanto prendia tudo e subiu at ao bar. Fez questo de se aproximar de Jack OConnell.

- No tenho visto muito a Ellie - disse OConnell em forma de cumprimento.

- Est atolada na dissertao da tese de doutoramento. Tem vivido em frente ao computador, enterrada em 
livros.

- Pensei que a sua pequena senhora latina a estava ajudar nisso.

Jesus, ser que todas as partes da sua vida eram conversa na esplanada da piscina?

- No - disse ele pacientemente com o gin tnico pousado  sua frente.
- A Ellie  que est a fazer tudo. A Theresa s d uma perninha no trabalho externo.

Jack, aproveitou a dica.

- Aposto que  especialista em dar perninhas!

O mido McNeary tinha razo, pensou Gordon. jack OCon-nell era realmente difcil, Mas conteve a raiva; 
no ia dar outra desculpa a OConnell para cair para trs.

-  uma rapariga muito atraente - disse ele concordando de forma agradvel. Depois 
ergueu o copo num brinde. - A todas as raparigas atraentes.

  125

- Brindo a isso! - concordou OConnell.

Tu brindas a qualquer coisa, pensou Gordon.

Cecil Mapleton estava subitamente junto ao cotovelo dele.

- Que bom v-lo, Acton. - Levantou um dedo para o empregado do bar, que automaticamente comeou a 
servir um puro malte com gelo. - A Pricila e eu estvamos ainda agora a dizer que no temos visto muito os 
Acton.

-  um Vero muito ocupado para ns. A Ellie tem o trabalho do doutoramento e a campanha obriga-
me a estar fora a maior parte do tempo.

- Que diabo, no me diga que est preocupado com a eleio. Parece-me que j est eleito.

- Ainda tenho de passar por todas as fases, Na poltica no se deve ter nada  por certo.

Mapleton deu um gole e expirou.

- Soube que teve a famlia toda, em Providence. No andam todos de porta em porta, ou andam?

Gordon ficou confuso.

- No. Tentei mant-los afastados. A Ellie e os midos tm passado c todo o Vero.

- Oh, no ouvi dizer que a vossa babysitter esteve em Providence? Pensei . que...

So ambos uns canalhas, pensou Gordon.

- Talvez tenha estado. A Ellie tem-na usado para procurar informao de que precisa. Ela tem viajado at 
Harvard. Pode ser que tenha estado em Brown.
O Gordon chama-lhe "fazer uma perninha em trabalhos externos", -
interps Jack. Ele e Mapleton desataram-se a rir e Gordon viu-se obrigado a juntar-se-lhes com um sorriso 
de embarao.

Apressou a bebida.

- Vou andando - disse ele aos dois homens. - Tenho que fazer na cozinha,

Espero que no faltem ao churrasco de marisco - gritou-lhe Cecil. Gordon abanou a cabea.

- Nem pensar. Encontramo-nos l.

Controlou a raiva para conseguir sorrir a membros no parque de estacionamento, mostrando-se encantado 
por ver pessoas que mal conhecia. Quando estava no carro gritou uma asneira. Estariam a segui-lo? Como 
 que o Cecil Mapleton sabia que a Theresa estivera em Providence? Jesus, teriam contratado
um detective para o seguir desde o clube? O que  que lhes tinha feito excepto contratar uma pessoa de 
fora para um emprego que ia geralmente para as filhas dos membros?

126

Pobre Theresa, pensou ele ao virar para a entrada de sua casa. Ela pensa que pode guardar o 
segredo, que nunca ningum h-de saber.

- Bem, bem-vinda  camada superior, mida - disse ele em voz alta. Fazem questo de saber tudo! Pelo 
menos, tudo o que puderem usar contra ti. Tentou parecer descontrado ao subir as escadas, mas, ao ver 
Ellie, percebeu

que acontecera qualquer coisa terrvel. Ela estivera a espera dele logo do outro lado da porta de rede e 
saiu a correr ao seu encontro assim que o viu chegar ao alpendre.

- Oh, Gordon...

Estava plida, com excepo dos olhos com raios vermelhos.
- O que foi? O que  que se passa?

Ela tirou uma folha dobrada do bolso das calas de ganga.
- isto chegou hoje de manh. Assim que saste.

- O que ? - perguntou ele ao abri-la,

-  do reitor da faculdade. Sobre a minha tese...

Leu a carta concisa do orientador pedindo-lhe que se encontrasse com ele e com membros da direco de 
doutoramentos para esclarecer certas ambiguidades do trabalho dela. Depois 
encolheu os ombros.

- E depois?  provavelmente qualquer coisa de rotina. Algum procedimento acadmico obscuro que...

Ellie interrompeu-o.

- No, telefonei assim que a recebi. Querem ficar convencidos de que o trabalho  todo meu.

- Claro que o trabalho  teu - assegurou-lhe ele, mas sentiu um mal-estar instantneo no estmago.

Ela abanou a cabea com raiva.

- No, suspeitam que estou a usar um escritor-fantasma. Algum lhes deve ter contado que a Theresa me 
estava a escrever a tese.

Ele tomou-a nos braos.

- Isso  ridculo - tranquilizou-a. - Vamos esclarecer tudo isto num instante. - O mal-estar estava 
rapidamente a tornar-se um ponto de medo. Ele e Ellie tinham-se ambos aproveitado da jovem ama. Agora 
estava na hora da cobrana  mulher.

CAPTULO VINTE E QUATRO

Ellie e Gordon sofreram agonias privadas durante a missa de domingo de manh  qual raramente iam. 
Sentaram-se  frente, cada um deles com um livro de oraes na mo e olhando atentamente para o padre no 
plpito que evocava imagens de um salvador carinhoso. Mas era a imagem de Theresa que estava fixa na frente 
da imaginao de cada um deles. E era doloroso para ambos pensarem nela.

Gordon viu uma ninfa nua que o arrastara duas vezes para a cama. Estava envergonhado da sua fraqueza, mas 
aterrorizado com a revelao inevitvel do segredo sujo. Mais cedo ou mais tarde ficaria a saber-se. Talvez ele 
escorregasse, mencionando sem querer qualquer coisa sobre ela que s um amante ntimo saberia. Uma marca 
de nascena, uma verruga, uma tatuagem privada. Comeou  procura pelo corpo dela de uma marca de 
identificao, com a inteno de a banir da sua memria.

- H pecados que clamam aos cus por vingana - entoou a voz dramtica do padre. Gordon deu-se conta de 
que se estava a lembrar dos seios dela e bateu na cabea para apagar o pensamento.

Seria provavelmente qualquer coisa que ela deixasse escapar, talvez para as raparigas do iate durante uma das 
suas sesses de vestirio. Um homem maduro, particularmente uma figura pblica, contava mais do que um dos 
rapazes da cabana. O seu apartamento na baixa tinha de valer mais pontos do que as sombras debaixo da 
passadeira. Era uma conquista demasiado grande para que ela a guardasse s para si.

Ou talvez qualquer coisa murmurada ao ouvido de um jovem amante. "Oh, Gordon", quando queria 
dizer; "Oh, John" ou "Oh, Jos!"

- Para Deus, os nossos pensamentos so to claros quanto as nossas palavras - ouviu ele do plpito. Estava a 
pensar em Theresa no abrao de algum amante do lar de estudantes e de novo estremeceu para limpar a mente.

130                            

Lanou um olhar na direco de Ellie e absorveu a inocncia da expresso 
dela. Assim que se soubesse, as pessoas atropelar-se-iam na pressa de lhe contar sobre o marido infiel. A 
notcia no seria incrvel, mas, assim que se tornasse pblica, seria imperdovel. O orgulho dela ficaria 
terminalmente danificado.

Ellie retribuiu o olhar e sorriu-lhe, mas no sentiu qualquer alegria, A sua imagem era 
importante para a carreira poltica dele. A sua desgraa acadmica podia 
ser um golpe fatal para todas as suas esperanas bem como 
para os planos dela de reformar o sistema de educao pblico do estado, E ele 
avisara-a. Ele vira o perigo da dependncia dela em Theresa. e previra correctamente a sua queda. O que 
 que ela lhe podia dizer quando a sua carreira idealista estava exposta como uma fraude?

- Mais cedo ou mais tarde, todos ns enfrentamos 2 verdade sobre ns 
prprios - lembrou-lhe a voz do pastor. Era exactamente o que tinha de 
fazer: enfrentar a verdade, Era fcil fingir que tudo o que Theresa fizera 
fora fazer recados at  biblioteca. Era o que toda a gente esperada de uma aluna 
de bacharelato. Mas a verdade era que Theresa fizera um trabalho muito 
original. Usara as suas habilidades nformticas para procurar de 
forma muito mais abrangente e completa do que Ellie teria feito sozinha. Fizera julgamentos 
sobre o valor dos materiais que eram extremamente precisos. Ellie podia 
reivindicar que a tese bsica era dela e que imaginara e estruturara a sua apresentao. 
Mas tinha de admitir que o desenvolvimento das provas eram, pelo menos, um esforo de equipa, com 
a fatia maior a ser desempenhada pela ama.

Como  que ia explicar a Gordon que defender-se perante uma direco acadmica no era simplesmente 
uma exposio de notas? Os esboos e notas escritos  mo iriam mostrar claramente o papel importante 
que Theresa tivera. Ellie nem sequer sabia explicar as tcnicas pelas quais se tinham copiado ficheiros em 
massa.

- Os nossos actos revelam as nossas intenes e as nossas intenes revelam as nossas almas - continuou o 
sermo em direco ao seu final previsvel. Os actos de Ellie demarcavam-se como marcadores de canal. 
As pessoas deviam ter reparado na jovem nas bibliotecas que pedira materiais to especializados. Quanto 
tempo levariam a provar que ela os assinara com o nome de Ellie? Se fosse apenas uma moa de recados, 
porque estaria a mentir sobre a sua identidade? Porque  que Ellie estava a emprestar o nome a algo que 
era obviamente trabalho de outra pessoa?

Olhou de relance para o marido e ficou humilhada com a integridade que lhe brilhava nos olhos. O que 
diria quando ela lhe contasse? O que faria ele? Estavam calados quando iniciaram o regresso a 
casa, absorvidos nos seus prprios pensamentos. Mas enquanto Gordon necessitava de silncio, Ellie 
precisava de falar.

 131

 verdade, Gordon - disse ela sem mais nem menos.
O que  que  verdade?
- 
O trabalho no foi inteiramente meu.
 - Ellie, no sejas ridcula. Como  que podiam desconfiar que uma mida de 19 anos escrevia uma tese de 
doutoramento?

-  - Ela fez contributos substanciais. Foi muito mais do que uma moa de recados.

- Nunca ningum h-de acreditar. Tudo o que ela tem de fazer  dizer-lhes... - Calou-se de 
repente.

- Ests a ver o que quero dizer? - disse Ellie. - Ela tem de lhes dizer. A minha carreira depende do que ela lhes 
disser e estou cheia de medo do que ela pode dizer.

Gordon procurou uma resposta. Sabia exactamente o que a mulher estava a sentir, mas tinha de ter cuidado para 
no mostrar como  que compreendia to claramente os sentimentos dela.

- Acho que ela  doida por ti, Ellie. No a estou a ver a fazer alguma coisa para te magoar.

-Gordon, quem  que pensas que pode ter contado  universidade sobre o papel dela?

Ele encolheu os ombros. Nunca pensara na questo.
 Ellie continuou.

- Quem  que sabia, para alm dela e de mim? Nem mesmo tu compreendas ao certo o quanto ela estava a fazer 
por mim.

Ele acenou com a cabea.

- Teve de ser ela - continuou Ellie.


- Porqu? Porque  que faria isso? - perguntou Gordon. Mas, ao mesmo tempo que fez a pergunta, soube a 
resposta. Seria para ela o mesmo que para ele,

- Para conseguir o que quiser de mim. No ests a ver? A minha vida depende dela. Se ela me pedir a Lua, 
tenho de lha dar.

Gordon esbugalhou os olhos como se tivesse acabado de ver a implicao, Mas j respondera  pergunta nas 
suas prprias palavras. Porque  que ela dorMiu comigo? Para conseguir tudo o que quiser de mim e eu terei 
de lho dar.

- Ela teria que ter uma prova - ofereceu finalmente Gordon. - Ests em boa posio. O pressuposto seria que ela 
no conseguiria fazer esse tipo de trabalho.

Uma posio muito melhor do que a minha, estava ele a pensar enquanto falava. Bastava olhar para o corpo dela 
para qualquer um saber que conseguia fazer aquele tipo de trabalho.


132                          

- Como por exemplo? - perguntou Ellie.

- Diz-me tu. De que  que ela precisava para provar sem sombra de dvidas que  autora de partes 
substanciais da tua tese?

Ellie pensou.

- Notas. Notas extensivas com a letra dela. Fotocpias de documentos onde tenha posto as iniciais dela no 
original ou copiado o nmero do bilhete de identidade no cimo do original. Coisas assim, acho eu.

Ele acenou com a cabea e depois perguntou:
- E o material do computador?

- Isso  mais difcil. Foi tudo copiado para o meu computador. Mas ela pode ter feito alguma coisa durante o 
registo que tenha deixado a pegada dela. No sei exactamente o que ela estava a fazer..

- Ento ela tinha que ter um ficheiro algures. Provavelmente no quarto dela.

Ellie acenou com a cabea.

- Para provas de confirmao, precisa de documentos.

Mandaram Theresa para a praia com os midos, sugerindo a extenso de areia voltada para o oceano 
porque levariam mais tempo a l chegar. Depois, aps esperarem para terem a certeza de que no 
voltariam atrs em busca de qualquer coisa de que se tivessem esquecido, Ellie e Gordon subiram as 
escadas em bicos de ps. No havia necessidade de silncio; estavam sozinhos na prpria casa. Mas 
nenhum deles falou enquanto percorreu o corredor at ao quarto de Theresa.

Ellie conduziu a busca partindo do pressuposto de que fazia uma ideia melhor do que estavam 
exactamente  procura. Comeou pelas gavetas da cmoda, levantando a roupa interior, blusas e meias 
apenas o suficiente para espreitar por debaixo. Ficou satisfeita quando percorreu os cantos com as mos e 
no encontrou nada do que estava  espera. Mas Gordon no estava satisfeito. Quando Ellie 
terminava uma gaveta, ele tirava-a para fora para poder examinar por baixo. Lembrou-se de que na escola 
colara cartas que no queria que os colegas de quarto partilhassem na parte debaixo das gavetas da 
cmoda. Fizeram a mesma busca completa na secretria, com Gordon a afast-la da parede para se 
certificar de que nada fora colado na parte de trs. Depois levantaram as almofadas das cadeiras, tiraram os 
coxins do assento junto  janela e viraram ao contrrio os cantos da carpete.

- Agradeo imenso a tua ajuda - disse Ellie quando o marido levantou a tbua da cama junto aos ps para 
que ela pudesse levantar um pouco mais o tapete.

Ele acenou com a cabea.

  133

- Se ela o tem, ns havemos de o encontrar.

- A no ser que o tenha levado com ela para casa quando esteve em Providence.

- Duvido - assegurou-lhe ele. Ellie levantou a cabea.

- Bem,  possvel.

- Mas no  provvel - disse Gordon com confiana.
- Como  que sabes?

A cabea dele deu um salto e surgiu um vestgio de pnico nos seus olhos. Como  que sabia? Porque ela 
no fora para casa. Passara os dias na biblioteca e a noite na cama dele. Exactamente o tipo de 
escorregadela que receava que acontecesse.

- Bom, no me parece que ela fosse deixar uma coisa dessas numa casa onde provavelmente tem 
menos privacidade do que aqui. Quero dizer, num pequeno quarto com os pais adoptivos logo ao lado. - 
Ficou a olhar fixamente para o rosto de Ellie at a expresso dela lhe dizer que estava satisfeita com a 
explicao.
O facto era que ele provavelmente nem sequer devia estar a ajudar Ellie na busca. No naquele quarto, 
onde at podia ter deixado manchas de smen nos lenis. Tudo lhe era to familiar que parecia inevitvel 
que iria deixar escapar

uma sugesto ou observao que anunciasse que j estivera antes no quarto da jovem. Mas tinha de se 
manter junto da mulher; tinha de estar pronto para saltar sobre qualquer pedao de prova que o pudesse 
incriminar.

Um dirio! Pensara nisso assim que Ellie decidiu que iriam fazer uma busca. Se Ellie encontrasse um dirio, 
fazia sentido que o lesse em busca de comentrios sobre o trabalho que estava a fazer na tese ou talvez 
mesmo a admisso do telefonema aos reitores da universidade, Mas era muito mais provvel que 
encontrasse outra coisa. As mulheres jovens no enchiam os dirios com fantasias romnticas e descries 
penosamente pormenorizadas de como fizeram amor? Se houvesse um dirio, queria ser o primeiro a l-
lo.

Ou cartas! Theresa devia estar a enviar notas a vangloriar-se aos amigos de casa. Estava encarregue dos 
midos, a bronzear-se na praia exclusiva do clube, a ajudar uma candidata na sua tese de doutoramento. E 
os amigos comentariam sobre todos os xitos dela quando lhe respondessem. Ellie havia de querer ter as 
respostas em busca de pistas de que Theresa estava a enrol-la. Gordon estava determinado a encontr-las 
primeiro caso houvesse palavras de congratulao por ter seduzido o chefe da casa. Tinha de ficar ao 
lado da mulher com os olhos bem abertos e a boca bem fechada.

Ellie j estava quase no roupeiro, fazendo deslizar os cabides pelo varo para poder observar entre as 
roupas. Percorreu cada camisa com as mos de cima

134                           

a baixo e mergulhou os dedos nos bolsos de cada par de 
calas de ganga. Gordon colocou-se ao lado dela e ps-se em 
cima de um cesto do lixo virado de lado enquanto procurava na prateleira. Estava sempre a 
olhar de relance para Ellie, secretamente satisfeito por ela no encontrar nada. Colocaram tudo na ordem e 
depois fecharam a porta tal como a tinham encontrado.

-j est tudo excepto a estante dos livros - anunciou Ellie. Deu um passo nessa direco 
mas depois parou abruptamente. - Gordon, ser que estou 
completamente paranica? Estarei  procura de algo que no 
existe?

Ele encolheu os ombros.

- Ficaremos a saber quando acabares a busca. - Foi at  estante e comeou a folhear os 
livros da prateleira de cima. Ellie comeou pela prateleira de baixo, o que possibilitou a Gordon observar 
as pginas que ela ia virando bem como as que ele prprio ia examinando. Estava 
completamente absorvido quando estendeu a mo para o livro seguinte e bateu contra a 
cmara de vdeo.

- No achas que ela fez um vdeo das notas. Ou que tenha colocado a cmara numa prateleira 
da biblioteca para se poder filmar durante o teu trabalho.
- Seria um vdeo muito chato - disse Ellie sem levantar os olhos da sua busca.

- No era o tipo de coisa que pudesse vender na 
Internet.

Gordon sentiu o corao saltar um batimento e a respirao sair-lhe apressadamente do peito como se 
tivesse levado    um murro na barriga. Tirou as mos da cmara de vdeo como se tivesse comeado a 
arder de repente. A cmara! A maldita cmara, colocada na prateleira com o seu nico olho voltado para a 
extenso da cma. Baixou-se com cuidado, voltando a cabea para trs e colocando a face no 
cimo da caixa. Fechou um dos olhos para poder focar com o outro, abaixo do 
eixo da cmara e acima da lente, Estava a ver o mesmo que a cmara desde a 
prateleira de cima e o alvo era a cama de Theresa.

Mas a luz, havia uma pequena luz vermelha que se acendia quando a cmara estava ligada. Se ela tivesse a 
maldita coisa ligada, ele teria reparado na luz. Deu um meio suspiro de alvio e procurou o sinal 
luminoso. Mas no o conseguiu ver, Estava escondido por detrs 
da juno decorativa que sustentava a prateleira. Quando estava posta l mesmo atrs da 
prateleira, como agora, a luz no se via. Sentiu um n na garganta e as primeiras gotas 
de suor comeavam -a pingar da linha do cabelo,

- Nada aqui - disse Ellie pondo-se de p ao lado dele.
- Aqui tambm no - mentiu Gordon.

- Bem, vamos dar uma vista de olhos em redor para ver se no deixmos nada fora do lugar,

 135

S conseguia olhar para a cmara. O boto de ligar estava do lado da cmara,  perto da frente, mas o boto de 
gravar estava na parte de trs, Ela no conseguia ter ligado. Ele t-la-ia visto se tivesse ido at  estante. A 
cabea dele voltou-se automaticamente como reaco ao pedido de Ellie, mas a mente tentava reconstruir 
tudo o que acontecera naquela primeira tarde. Tinham subido as " escadas juntos e percorrido o hall a 
correr. Ela no fora  casa de banho, tendo pegado antes na mo dele para o conduzir atravs da porta. Depois 
tinham-se despido. No, espera, ela j estava despida, Mas como  que podia ser? No estava nua quando 
passaram pelo hall a correr. Ela estava de fato-de-banho. Ele tinha-a visto tir-lo? Ele ajudara-
a a tir-lo?

-No vejo nada. Ests a ver alguma coisa fora do lugar?

Ele nunca chegou a ouvir a pergunta. Estava a tentar desesperadamente lembrar-se de como ela despira o fato-
de-banho. Porque tinha a certeza que ela estava nua quando os dois comearam a despi-lo.


- Gordon?
 - O qu? - Pestanejou ele. Est tudo em ordem?

- Oh, sim. Parece-me bem.

Saram do quarto, ele primeiro e depois Ellie, que fechou a porta atrs de si. Quando se aproximavam das 
escadas, ela disse:

- Pronto, estou paranica. Ando a imaginar inimigos onde no existem. No me disseste que ela copiara uma 
cassete de vdeo? Qualquer coisa sobre querer ter imagens dos midos.

Ellie desceu as escadas  frente dele.

Sim. Quer levar as imagens deles para a escola com ela. Ento onde est? - perguntou ele.

Ellie voltou-se para o encontrar ainda no primeiro degrau.

- Onde est a cpia dela da cassete? Se a fez, no devia estar no quarto dela?
 - Penso que sim - respondeu Ellie, sem saber ao certo se compreendera onde ele queria chegar. O Gordon 
no pensava realmente que a Theresa tivesse feito uma cassete de vdeo das notas.

- Ento porque  que no a encontrmos?

- Deve t-la posto--- noutro stio qualquer. - Quando respondeu, compreendeu, Se a cassete estava noutro stio 
qualquer, ento as notas e as cartas tambm podiam estar noutro stio qualquer. Ela encontrara obviamente um 
local Para esconder a cassete. Podia ter feito o mesmo com o dirio.

- Oh, meu Deus, Gordon, Ento no encontrei nada. Excepto que ela deve ter levado algumas coisas para casa 
quando esteve em Providence.


136                             

- Ou escondido em algum stio desta casa. Talvez na garagem ou num dos carros.

- Mas no podemos procurar em todo o lado. Gordon desceu as escadas a correr e passou 
por ela,

- Talvez no, mas posso comear pela garagem. - 
Transps a porta e desceu os degraus da frente. Apenas alguns segundos 
depois ela ouviu o barulho dele a vasculhar nas prateleiras da 
garagem.

Percorremos o hall at ao quarto dela, continuava Gordon a rever mentalmente, Ento porque  
que no me lembro de a ver a tirar o fato-de-banho? Fechou os olhos com fora, tentando voltar atrs a 
imagem da noite de h duas semanas atrs. Theresa estava de biquni, ainda molhada do banho. E abraou-
o, com pena dos problemas que lhe estava a causar no clube. E depois estavam aos beijos e 
carcias. Ele lembrava-se. Puxara para baixo a parte de cima do biquni. No! Ela impedira-o. 
Dissera qualquer coisa sobre no o fazer no alpendre e conduzira-o pelas escadas 
acima. Ento ainda tinha o biquni vestido quando chegaram  porta do quarto.

Claro! Ela pedira-lhe para lhe dar um segundo, E ele imaginara que ela precisava de um momento ntimo 
para fins contraceptivos. Lembrava-se que queria dar meia volta e ir-se embora, Ela desaparecera durante 
vrios minutos. No, minutos no. Talvez um minuto. Mas mais do que o tempo suficiente 
para ligar uma cmara de vdeo, e despir o biquni. Depois, quando abriu a porta, j estava 
despida, E a cmara ligada, a captar toda a aco que decorria em cima da cama dela.

E depois provavelmente fizera uma cpia. Ellie pensava que ela levara o gravador de vdeo, 
para o quarto para fazer cpias das actividades dos midos. Talvez fosse, mas tambm 
podia ter feito uma cpia de Gordon Acton, candidato   Cmara de Representantes dos Estados Unidos, 
no acto de adultrio. Ela j era maior por isso no era crime, Mas que diferena fazia? Se o 
vdeo fosse divulgado, ele ficaria sem carreira e provavelmente 
sem mulher. Que Diabo, com o tipo de acordo que Ellie obteria, talvez ficasse tambm 
sem empresa, sem apartamento e sem carro.

Estava ensopado de suor da busca ftil pela tralha da garagem. Onde mais, pensou ele? Talvez no 
apartamento ou em casa dos pais adoptivos dela. No a encontrara na biblioteca e depois fora para um 
jantar poltico. Ela podia ter estado na biblioteca, depois sado, entrado no carro e ido at Tiverton. Mas 
no achava que ela deixasse o bilhete para a fama e para a fortuna fora 
do seu alcance. Por sso, se tinha alguma coisa incriminatria, estava 
provavelmente ainda em casa.

Ellie estava  espera quando ele transps a porta da frente.

 137

- Gordon, vamos parar j com isto. Sinto-me uma idiota  procura de uma coisa que provavelmente nem existe.

- Disseste que ela ia precisar de provas concretas.

Se  que  ela e se quer desgraar-me. Mas ser que isso  realista?  apenas uma rapariga e parece to grata 
por tudo o que fizemos por ela.

- Eu sei, mas h muita coisa em jogo. Vamos continuar a procurar. - Passou por ela e dirigiu-se de 
novo para as escadas. No era realmente com a tese de Ellie que estava preocupado. Mas tinha de a deixar 
acreditar que era. Tentou no pensar no que fizera. por Theresa.

Entrou na casa de banho dela, procurou nos armrios e nas gavetas da roupa, virou o cesto da roupa suja de 
pernas para o ar e ps-se de gatas para ver debaixo da banheira. Depois foi ao quarto de Molly e fez uma 
busca apressada pela montanha de brinquedos, examinou os roupeiros e tacteou pela cmoda.
Gordon estava quase frentico quando comeou a procurar no ba de brinquedos de Tmmy.

Gordon, agradeo imenso a tua ajuda. Mas penso que devemos parar. Devem estar achegar.

Ele olhou para Ellie, que estava de p junto  porta de Timmy, olhou fixa mente com ar de incerteza durante um 
momento e depois acenou com a cabea. Est bem. Hei-de encontrar uma oportunidade para revistar o carro. E 
hoje  noite vou dar uma vista de olhos pela cave.

Ellie abraou-o  entrada da porta.

- Obrigada por toda a ajuda. Avisaste-me para me certificar de que era a mnha tese. Se estou em apuros, a culpa 
 minha.

Ele no concordou. O verdadeiro problema no era dela. Por isso abraou-a durante um momento apenas e foi 
depois l para fora para acender a grelha para o jantar.

Don McNeary apareceu quando estavam a comer e estabeleceu uma conversa trivial at ter oportunidade de 
apanhar Theresa sozinha. Levou-a a dar um passeio pelos degraus abaixo e ao longo da costa da praia 
privada e depois pegou-lhe na mo quando a trouxe de volta at  porta da frente. Quando Theresa se voltou 
para enfrentar Ellie e Gordon, tinha o rosto incandescente.

- O Don convidou-me para o baile do churrasco de marisco - disse ela.
- Oh, Theresa, isso  maravilhoso - gritou Ellie.

- ptimo! - disse Gordon. -  uma festa e pras.

Estavam ambos a transbordar de alegria, escondendo a desconfiana e at mesmo o mais pequeno vestgio de 
que tinham passado o dia a revistar-lhe o quarto.

138                         

- Vai precisar de um vestido - disse Ellie. Estava repleta de preocupaes,
- Oh, acho que no. No quero incomodar.

- Que disparate! No  incmodo nenhum - disse Gordon incluindo o seu apelo de sobrevivncia.

Theresa olhou para um e para outro.
- Bem, no tenho nada   ...

- Vai ser a primeira coisa a fazer amanh - insistiu Ellie.

CAPTULO VINTE E CINCO

Saram no Land Rover pouco depois de Gordon ter regressado  campanha em 
Providence. Timmy estava de birra por ter sido obrigado a faltar ao dia de jogos e choroso por ter de 
usar sapatos. Molly, para delcia de Ellie, estava esfuziante por fazer parte da equipa de compras para o 
vestido de Theresa. Imaginava um vestido de noite cravejado de prolas, um pouco  imagem da 
Cinderela da Disney.

Entraram e saram de trs lojas em Hyannis antes de enfrentarem a inevitabilidade de uma ida at 
Providence ou Boston.

- Tm mais escolha - disse Ellie, tornando leve a ideia de uma viagem longa. Com o trnsito de Boston e o 
inferno do estacionamento, ficariam no carro durante duas horas.

- Mas que injustia - argumentou Theresa. -  suposto eu deix-la relaxar na praia. - Mas teve de 
concordar que as coisas que tinham visto no Cape se adequavam mais a uma me da noiva. Usavam 
ornamentos e penas para esconder os defeitos inevitveis da idade, enquanto Theresa no tinha nada para 
esconder e tudo para mostrar.

- Theresa, estava a pensar se viu algum na biblioteca quando esteve a recolher o meu material? - tentou 
Ellie quando se aproximavam da ponte do canal.

A rapariga ficou claramente aturdida com a pergunta.

- Quem? - respondeu ela. - Quem  que pensa que vi?

- Oh, ningum em particular. Estava apenas a pensar se algum viu o trabalho que estava a fazer. Algum 
que soubesse que era para a minha dissertao. Sentiu que Theresa estava a arfar. Tinha havido 
algum e a rapariga estava a tropear em busca de uma mentira plausvel.

- Acho que no. Onde? Em que biblioteca?

140                          

- Oh, numa delas. No tenho nada de especial em mente.

Ellie ouviu o suspiro de alvio de Theresa. Depois a rapariga respondeu confiante.

- O bibliotecrio em Brown perguntou-me em que  que estava a trabalhar. Mas penso que no ouviu a 
resposta. Era um aluno licenciado e acho que estava era a tentar 
engatar-me.

- O que  que lhe disse?

- Disse que era professora e que estava a fazer investigao para 
um curso.
- Theresa hesitou at ver o sorriso de Ellie. - Espero no ter feito nada de mal,
- Claro que no. Estou a perguntar-lhe isso porque o meu conselheiro

parece ter ouvido dizer que... bem, que na verdade o trabalho  seu. Por isso 
eu---
- Que loucura - interrompeu Theresa. - Eu s lhe estava a poupar a viagem,
- No - corrigiu Ellie, - Estava a fazer muito mais do que isso. Foi uma ajuda 
enorme. Mas penso que concorda que estava a trabalhar sob a minha orientao.

- Claro. No sei nada sobre como escrever uma tese.

- Sabe bastante. Tal como disse, tem sido uma salvadora. Mas no concorda que estava simplesmente a reunir 
informao que eu pedi?

- Claro, Fui uma espcie de mensageira.

Ellie no sabia em que acreditar, A primeira reaco de Theresa fora praticamente uma confisso de que 
encontrara algum numa das bibliotecas, mas a sua negao soava a verdadeira. E estava a minimizar o seu 
contributo para a dissertao, o que no parecia ser de algum que pretendia ganhar credibilidade diante de 
uma direco de crtica de teses,

- Quero dizer, acho que estava praticamente entregue a mim prpria no computador. Mas foi s porque 
tnhamos acabado de ter um curso de informtica na escola, Eram tudo coisas que a senhora podia ter feito.

Ellie sentiu-se subitamente enjoada. Praticamente entregue a mim 
prpria no era o que esperava que Theresa reportasse ao orientador, E a nfase no 
computador! Ellie no tinha nenhum nome de utilizador da Internet nem 
passiword prpria. Se pudessem ser investigadas, Theresa tinha provas electrnicas de que fora 
ela a fazer a pesquisa.

- Theresa, uma resposta dessas pode ser muito embaraosa para mim disse Ellie, desconfiando que a rapariga 
sabia que embaraosa era dizer pouco.
- Se voc estava "praticamente entregue a si prpria", pores da 
minha dissertao seriam trabalho seu e no meu.

- Oh no! Estivemos sempre a trabalhar em conjunto.

Mais nusea. Theresa estava a sorrir ao reivindicar co-autoria. Ellie estava 
hesitante num esforo de explicar o seu dilema, mas suspeitava que fora Theresa quem a atirara para os 
espinhos. Ser que a mida estava ali sentada a rir-se dela?

  141

- Sim, estvamos a trabalhar em conjunto - concordou Ellie da forma mais agradvel que conseguiu. - Mas 
estvamos em papis diferentes. Eu estava a decidir qual a informao de que precisvamos e o que 
escreveramos; voc estava a recolher a informao que eu especifiquei.

- Claro - disse Theresa em tom concordante. - Excepto algumas vezes, lembra-se, em que nem sabamos que a 
informao existia at a descobrirmos na Internet.


Ela pode destruir-me, pensou Ellie. Ela pode mesmo destruir-me.

- Que tipo de vestido achas que vais comprar, Theresa? - perguntou Molly para ultrapassar a conversa 
aborrecida.


Theresa corou e olhou para Ellie.

- No sei. Temos de encontrar uma coisa de que gostemos todos.

- Vais precisar de sapatos para condizer com o vestido - observou Molly.
- Oh, no sei se os sapatos tm de condizer - respondeu Theresa.

Ellie sabia o que tinha de fazer.

Claro que precisa de sapatos. E vamos ter de pensar neles quando estivermos a comprar o vestido. No vamos 
ter tempo de os tingir.

Timmy comeou a choramingar. Tnha-lhe saltado a tampa do copo de gua e entornara o 
lquido em cima dele.

Eu trato disso - ofereceu-se Theresa ao virar-se para trs desde o assento da frente.

j ests a tratar de tudo, pensou Ellie.

Em Boston, andaram de loja em loja com Theresa a entrar e sair dos vestirios. Os empregados estavam sempre 
a arrastar vestidos com flores e penas, partindo do princpio de que uma rapariga latina queria algo muito 
vistoso para o seu primeiro baile formal. Molly gostava de tudo o que era brilhante e colorido e Timmy estava 
ocupado a atar e desatar os atacadores dos sapatos. Theresa no tinha opinio, limitando-se a posar para Ellie 
e a esperar por uma reaco. Ellie no tinha razo para se importar com mais nada a no ser certificar-se de que 
Theresa estava feliz, Mas esteticamente no suportava as decoraes exageradas que nada faziam para 
realar as feies da jovem,

- No quer que as pessoas vejam o vestido - explicou ela. - Quer que o vestido as ajude a verem-na a si. - E 
Theresa corou s de pensar em vir a ser o centro das atenes.

Ellie estava mais confusa do que nunca. No carro, a ama demonstrara a facilidade com que se podia mostrar 
como co-autora da dissertao. Era quase como se estivesse a avisar Ellie. Parecera ser dura, esperta e 
determinada. Agora estava de volta  sua persona de patinho feio; tmida, envergonhada e 
quase incapaz de se olhar ao espelho. Passara de intimidante a intil no espao de tempo que decorrera

142                            DIANA DIAMOND

entre cruzar as portas de uma loja. E, no entanto, Ellie estava genuinamente preocupada que Theresa 
encontrasse o vestido certo para danar num clube muito presumido.

- Qualquer coisa deste gnero, talvez - disse Theresa erguendo um vestido branco-acinzentado de uma fila de 
cabides de tamanho trinta e seis. Encostou o cabide aos ombros de forma que o gancho parecia pender-lhe do 
nariz.

- Sim, acho que sim - disse Ellie com os olhos meios fechados em tom de crtica, - Experimente-o.

Quando voltou do vestirio, Ellie ficou sem flego. Contrastando com o fundo quase branco, a pele escura de 
Theresa parecia seda. O pouco que havia de cinzento tornava o azul dos olhos dela ainda mais profundo.

-  esse! - disse Ellie. - Absolutamente magnfico. Molly levou as mos  boca para conter o seu agrado.
- Fica lindo - disse ela na sua voz mais madura.

- Gostas? - perguntou Theresa.

- Gosta? - disse uma vendedora por detrs da fila de cabides. -  maravilhoso.

Segundos depois, empregados de loja e clientes rodearam Theresa, todos espantados pela aparncia dela no 
vestido.

- Sei exactamente o que precisa - disse a gerente do andar, apressando-se a escolher roupa interior e meias. - 
Temos sapatos dessa cor - lembrou uma empregada. Soutiens, cuecas e 
calcinhas materializaram-se. Depois a multido movimentou-se em procisso at ao departamento de sapatos.

- Isto assim est bem? - perguntou Theresa, pensando na despesa.
- Est perfeito - respondeu Ellie, pensando no conjunto.

Quando deu por si, estava junto  caixa registadora a olhar para um total de setecentos dlares e a entregar o 
carto de crdito. j no estava envolta na beleza do vestido nem no brilho de excitao do rosto da jovem. 
Estava antes a comear a contar o custo do silncio de Theresa.

- No ias acreditar na aparncia dela - contou ela a Gordon durante a conversa telefnica  noite. - Perfeita. 
juro-te, tens de ver a clivagem dela.

- Tenho? - perguntou ele como se fosse a coisa mais remota que tivesse em mente. Estava satisfeito por ter 
adoptado o tom certo de interesse fingido. Parecia inocente at mesmo de um pensamento de lascvia.

- Bem, no, no tens. Mas receio que vs ver e quando vires vais-te perguntar qual dos meus antepassados foi 
atropelado por um cilindro. Ao lado da Theresa, eu sou um objecto bidimensional.

  143

Ests a brincar - mentiu ele.

Sabes do que ela precisa? - continuou Ellie. - De uma prola num fio, de platina. Algo absolutamente 
simples e elegante.

- Foi o que ela sugeriu?

Oh no. Ela no pediu nada - respondeu Ellie. - E no estou com vontade de gastar nem mais um tosto. S 
estava a comentar de um ponto de vista de moda.

- Soa-me que j gastaste mais do que o suficiente - disse Gordon. E depois perguntou, - Alguma ideia sobre 
quem pode ter escrito ao teu orientador?

- Nada ao certo. Enquanto estvamos no carro, tive quase a certeza que foi ela. A forma como colocou as 
coisas pareceu-me um pouco ameaadora. Mas na loja pareceu realmente envergonhada por eu estar 
a comprar-lhe uma coisa. Agiu como se tivesse ficado grata por um vestido simples.

Ento talvez no seja ela - disse Gordon como se apoiar a inocncia de Theresa provasse de alguma forma 
a sua. - Detesto andar desconfiado dela.

- Mas, no entanto, estou quase certa de que ela encontrou algum quando esteve em Providence.

- Quem? - gritou quase ele para o telefone.

- No sei bem, mas quando lhe perguntei ela entrou em pnico. Depois disfarou com uma histria 
sobre um aluno licenciado na biblioteca que a tentou engatar.

- Pode ser verdade. Os jovens garanhes do clube tentaram todos engat-la. Decidiram que andavam 
desconfiados demais e concordaram que, se ela tivesse que prestar declaraes  direco da faculdade, 
diria o que Ellie quisesse. Pareceram estar ambos  vontade com a situao. Mas, assim que desligaram, 
Gordon voltou s suas deliberaes sobre onde  que Theresa podia ter escondido a cassete, Ellie 
regressou ao trabalho na tese e recusou instantaneamente a oferta de Theresa para a ajudar a 
dactilografar.



CAPTULO VINTE E SEIS

Gordon acordou com o zumbido irritante da campainha da frente, murmurou um "v-se embora" e voltou a 
enterrar a cara na almofada. Quando ouviu de novo o som, disse blasfmias, levantou-se 
e arrancou o roupo de banho do roupeiro. Antes que conseguisse apertar o cinto, a campainha 
soou de novo.

- Est bem! - gritou ele desde a sala de estar at ao hall de 
entrada, Espero que seja um bombeiro a dizer-me que o edifcio est a arder!

Espreitou pelo buraco da porta e viu a imagem distorcida do rosto de um homem. Reconheceu a compleio 
plida e o cabelo branco e fino, mas no se conseguiu lembrar de nenhum nome que lhe 
assentasse.

- Sim?! - disse ele atravs da porta.

- Sargento Wasciewcz. Polcia de Fall River... Nada parecia encaixar.

- Ainda no me levantei - respondeu ele. Estava a virar costas quando se 
lembrou do polcia que estivera a investigar o roubo de um semicondutor. Porque  que isso havia de ser 
importante para ele?

O zumbido soou de novo. Gordon descerrou o trinco e abriu a porta.

- O caso do seinicondutor - disse ele sonolento, mas acordou rapdamente quando viu a autoridade nos 
olhos do homem. - Entre. - Desviou-se para o lado quando Wasciewicz entrou, 
sussurrando uma desculpa pouco sincera para o ter acordado. - Sente-
se. Vou pr caf a fazer, Como  que vai a sua investigao? - perguntou Gordon em voz alta desde a 
cozinha. Wasciewcz foi at ao lado do balco que ficava na sala de jantar, onde 
podia observar Gordon a colocar colheres de caf no cesto.

- Lenta - disse ele. - Mas h coisas que comeam a encaixar-se, Como o tipo que 
estava a pr as componentes no exterior juntamente com o lixo. Apareceu numa lixeira 
enfiado num frigorfico velho,



145

Meu Deus! Um golpe de gang? Wasciewicz sorriu.

- Provavelmente no. Estamos a chegar  concluso que se tratava de um aldrabo de pouca 
importncia que seria um estorvo para um gangster profissional. Embora tenha que admitir que fez 
um belo trabalho a encobrir o seu rasto. As pessoas dizem que  ele, mas no h nenhuma prova concreta. 
Gordon ajustou os controlos da mquina do caf.

- Em que posso ento ser-lhe til?

- A sua ama, a rapariga que trabalhava na fbrica. Lembra-se que ela era um dos nomes que figurava na lista dos 
operadores de computador?

- Sim!  muito boa em informtica,

- Bem, tambm consta de uma lista de pessoas que conhecia esse tipo que pensamos estar por detrs de tudo.

- A Theresa? - Gordon olhou de soslaio em descrena. -  um pouco jovem para ser mulher de um 
gangster

- Este gangster em questo s tem 20 anos. E no h dvida de que ele e a mida Santiago 
eram muito ntimos.

- A Theresa? - Gordon continuava a no acreditar,

- Ele foi busc-la ao trabalho em vrias ocasies, tudo enquanto decorriam os roubos. O carro dele tem chamas 
pintadas nos flancos e cerca de meia dzia de sadas de escape, por isso foi fcil para as testemunhas 
lembrarem-se. No  grande coisa, mas ela  a nica pessoa da Digital Electronics que conhecia o suspeito e 
tem acesso ao computador.

Gordon assobiou em voz baixa.

- A pequena Theresa - disse ele mais para si prprio do que para o sargento.

- De qualquer forma, queria saber se no se importava de ver algumas fotografias de assaltantes. - Enquanto 
falava retirava as fotografias do bolso. Espalhou-as em cima do balco voltadas para Gordon, trs fotografias do 
mesmo homem tiradas de ngulos diferentes, uma com uma barba e bigode bem aparados. Tinha feies 
escuras, sendo mais obviamente hispnico do que Theresa. Tinha olhos selvagens de raiva.

- No  um aclito tpico, no senhor - concordou Gordon.

- Alguma vez o viu? Perto da sua casa no Cape? Ou algures prximo da menina Santiago?

Gordon abanou a cabea.

- De certeza que no e  um rosto de que me lembraria. - Depois divagou em voz alta. - Tem a certeza disto?  
que a Theresa  uma jovem muito simPtica.

146                         

Com ar cansado, o polcia reuniu as fotografias.

- Bem, aqui o nosso amigo  um homem do mundo. As raparigas parecem ach-lo o mximo e 
provavelmente tem mais dinheiro do que qualquer uma delas pode esperar vir a ganhar. Talvez ela o 
tenha visto como uma oportunidade.

Gordon tirou duas chvenas de caf do armrio e encheu-as, dirigindo-se depois ao frigorfico para ir 
buscar natas. Sim, pensou ele, ela pode muito bem v-lo como uma oportunidade. Parecia ser 
essa a forma como olhou para os Acton.

Falou sobre ela com grande entusiasmo enquanto tomavam o caf. Era inteligente e no parecia ser fcil 
de se deixar levar por um ladro de falinhas mansas. Era ptima com as crianas, paciente e compreensiva. 
No havia nada a dizer sobre ela que pudesse justificar as suspeitas do polcia. Concluiu com um desafio.

- Porque  que no a interroga? Pode aparecer em minha casa e dar um passeio pela praia. 
Se ela conhecer o tipo, diz-lhe. E mesmo que o conhea, quase que aposto que no sabe nada sobre as 
alteraes no programa de inventrio. Aposto que vai ficar to espantada com o roubo quanto eu.

Wasciewicz agradeceu o convite a Gordon, mas disse que no estava pronto para confrontar Theresa. 
No queria avisar ningum de que estabelecera a relao entre a rapariga e o principal suspeito.

- Mas penso que este tipo vai tentar contact-la. Vai querer certificar-se de que ela nunca se ir voltar 
contra ele. Caso contrrio...

Gordon compreendeu. Lembrou-se do que aconteceu ao homem enterrado no frigorfico.

- Penso que  bom que ela esteja consigo e com a sua famlia. Isso d-lhe uma boa medida de segurana. 
Mas se ela decidir fazer uma viagem sozinha ou se comear a receber telefonemas invulgares, gostava 
que me comunicasse.

- Claro - concordou Gordon. - Mas pensa mesmo que ela corre perigo? Wasciewicz usou um guardanapo 
de papel para limpar os lbios.

- No enquanto no fizermos dela uma testemunha potencial.

CAPTULO VINTE E SETE

O churrasco de marisco, sempre marcado para o ltimo fim-de-semana de Julho, era o 
acontecimento principal da temporada social anual do clube. A
altura era escolhida para acomodar membros que estivessem a alugar as suas casas e a viajar pelo estrangeiro 
durante Agosto e para tirar proveito do bom tempo. S uma vez na memria dos membros mais 
antigos do clube  que o churrasco fora cancelado por causa da chuva.

 As festividades comeavam na sexta  noite quando os oficiais do sexo masculino viajavam at  faixa de areia 
para supervisionar a escavao de um buraco para o churrasco nas dunas. A escavao era feita pelos jovens 
rapazes da cabana, . empregados e outros funcionrios do clube, que tinham total acesso ao barril de cerveja e 
que eram depois profusamente gratificados pelos pares mais velhos inchados de cerveja. H vrios anos atrs, 
um dos oficiais que voltava despistara-Se com mais trs oficiais como passageiros, O carro fora apanhado pela 
areia mole e o grupo passara a noite a ver a mar encher e depois cobrir um jaguar.

Desde ento, alugava-se um autocarro escolar para o transporte de ida e volta, No sbado de manh, era 
descarregado no buraco um camio repleto de madeira flutuante e posta a arder. Depois camadas de lagostas, 
mexilhes e peixes inteiros eram dispostos por cima com camadas intermdias de madeira seca e algas marinhas 
frescas at todo o buraco ficar cheio com um ligeiro fumo e vapor a assobiar, Os membros comeavam a chegar 
ao incio da tarde com mantas, mesas desdobrveis e arcas frigorficas para refrescar gin, rum e vodca. Banhos 
de mar e de sol e corridas de sacos preenchiam a tarde e, ao pr do Sol, havia um torneio de vlei de praia. 
Nessa altura a maioria dos membros estava cheia, queimada do sol, deslocada e tonta do gn. Os feridos iam para 
casa quando quisessem enquanto os mais aventureiros descobriam alguma ligao amorosa em cima de uma 
manta de praia nas dunas dominantes.

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O domingo de manh caracterizava-se por uma corrida de 
pequenos botes partindo do clube, em torno da ponta meridional de South Beach Island e subindo a costa 
atlntica at ao local das festividades do dia anterior. os funcionrios do 
clube e muitos dos membros mais pequenos prendiam motores de popa demasiado grandes a botes 
demasiado pequenos fazendo com que barcos de corrida fulgurantemente rpidos e geralmente 
instveis competissem por um trofu de vidro fragmentado. O verdadeiro objectivo da corrida era levar 
uma equipa de limpeza at  praia antes do parque abrir ao pblico.

A tarde de domingo era preenchida com uma festa cocktail na zona porturia. Por tradio, 
todos os membros com barco ancorado preparavam aperitivos e bebidas. Os barcos eram depois 
abertos a todos os membros. As visitas ao longo da doca eram tumultuosas e, ao fim de algumas horas de 
cocktails, perigosas, Todos os anos, pelo menos um dos membros saa pelo lado 
errado de um barco ou caa no espao entre dois iates ancorados.

O final do fim-de-semana era o Baile do Churrasco no domingo  noite. A 
etiqueta ditava vestidos de cocktail e smoking branco. O 
comportamento desleixado era desencorajado para que os libertinos mais 
dedicados se endireitassem antes de regressarem s suas 
profisses dignas de gestores monetriios, mdicos e directores da 
administrao.

Ellie passou uma boa parte da semana a encontrar-se com as senhoras 
dos vrios comits. Estava a escolher as flores para o baile, encarregue dos cartes dos lugares e a 
coordenar o programa na impressora. As conversas variavam consoante o grupo. As mulheres mais 
velhas que dominavam o comit de flores mostravam-se extremamente solcitas  opinio dela e 
simpatizantes com as suas dificuldades. Ellie partiu do princpio de que compreendiam que a tese e as 
necessidades polticas do marido a estavam a esticar at ao limite.

- Estou bem - respondia ela a perguntas de preocupao, e - adoro trabalhar com flores - assegurava-lhes 
no se importar com as tarefas atribudas pelo comit. Nunca desconfiou que 
estavam a par do rumor sobre o marido e a ama. Ellie nem sequer sabia que tal rumor existia.

Os cartes dos lugares eram difceis porque as preferncias mudavam constantemente, As 
pessoas que estavam sentadas junto dos Brown de repente queriam estar 
sentadas junto dos Smith, o que deixava uma mesa com cadeiras vazias enquanto outra ficava 
sobrelotada, Mudar a disposio das mesas era apenas uma soluo 
parcial que deixava alguns pedidos por honrar e causava arfres de ultraje em mulheres a quem se 
dizia para ficarem quietas. A raiva sincera, 
pensava ela, devia-se tanto a ressentimentos por causa de Theresa quanto  incapacidade dela de 
resolver um problema de lugares sentados.

  149

Os preparativos para o programa demonstraram que todas as jovens do
Clube eram ases da arte, Os membros do comit que deviam trazer simplesmente uma publicidade das empresas 
dos maridos tinham decidido subitamente que eram designers grficas. Estavam a ser feitas alteraes sem o 
comentrio de Ellie, como se soubessem que era especialmente imune e daltnica. Ficou aborrecida porque as 
pessoas agiam como se a sua opinio no contasse, sem saber que era considerada uma tonta por entregar de 
bandeja o marido  ama.
- 
Sabes, Gordon - disse ela numa conversa telefnica, - No tenho a certeza se gosto dos nossos 
amigos do clube. Talvez no prximo Vero pudssemos experimentar umas frias diferentes.

Ele concordara, mas quando regressou na sexta-feira  noite, j tarde, subiu para o autocarro escolar amarelo e 
juntou-se aos outros membros na tarefa de supervisionar a escavao do buraco. Durante a maior parte da 
noite, manteve-se junto da multido a guardar o barril no cimo da duna de areia, tentando no ser excludo por  
Cecil Mapleton ou Jack OConnel], Mas as insinuaes da sua relao com a babystter tinham 
aparentemente encontrado um pblico muito mais vasto. Vrios homens que apareceram para voltarem a encher 
o copo fizeram observaes que aludiam ao suposto caso amoroso,

 Phil Stucky perguntou por Ellie de forma indiferente, mas revelou toda a sua prtese dentria quando 
perguntou pela rapariguinha que lhe tem andado a fazer uns servios. Corrigiu-se imediatamente:
- Queria dizer a servi-lo, claro. - Mas depois deu uma gargalhada para os homens que 
estavam de p em seu redor.

Harvey Smedler, um urologista de Boston que passava fins-de-semana de quatro dias a bordo do seu 
cruzeiro de 12 metros, lembrou ao grupo que Don  McNeary ia acompanhar Theresa ao baile.

 duro competir com estes jovens garanhes - disse ele a Gordon com sinceridade profissional e depois riu-se 
de forma to vigorosa que entornou a cerveja pela camisa abaixo, - Talvez fosse melhor ir l ao consultrio 
para um implante - urrou ele no meio das suas gargalhadas que o deixavam sem flego.

- Talvez no devesse beber mais do que  capaz de aguentar - disse Gordon. Tirou o copo da mo de Harvey 
e esvaziou o pouco que restava.

- Oh, no me toques! - cacarejou Phil Stucky, encorajando Harvey Smedler a esticar a mo e a atirar a cerveja 
de Gordon  cara deste. Como reflexo, Gordon desviou a mo de Harvey para o lado, que foi a nica coisa de 
que o mdico Precisava para perder o equilbrio no cimo da duna. Esbracejou como louco

" durante um instante tentando agarrar-se ao ar e depois tropeou pelo declive de areia abaixo.

Pelo amor de Deus, Gordon, ele s estava a brincar - protestou Stucky. 

150                       

- O meu brao - gritou Harvey Smedler quando parou de rolar, - Parti o brao. - Tentou sentar-se mas s conseguiu perder de novo o equilbrio. 
Gritou de dor enquanto rolava ainda mais pelo declive abaixo.

Stucky conduziu o grupo de salvamento pela duna abaixo, deixando Gordon na companhia de dois membros 
totalmente bbedos no topo. Puseram Smedler de p e depois olharam para Gordon, gritando e agitando punhos cerrados, 
como a plebe por baixo do muro de um palcio.

- No era preciso bater-lhe! - algum clamou.
- Chamem a polcia - exigiu outra voz.

- Vai pagar por isto - ameaou Smedler. - O meu advogado vai contact-
lo! Gordon voltou a encher o copo de papel e desceu pelo outro lado da duna, Apanhou o autocarro seguinte para o clube para 
no ter que voltar a encarar Stucky nem Smedler,

Em casa, explicou o regresso mais cedo e a camisa molhada a Ellie como resultado de brincadeiras de 
boa natureza., No queria ser especfico sobre o assunto da galhofa nem que seria 
provavelmente acusado de agresso antes do fim-de-semana chegar ao fim. 
Mas referiu-se aos outros membros como "uma cambada de idiotas," e repetiu o seu apoio a umas 
frias de Vero diferentes no ano seguinte.

Na cama, ficaram deitados em silncio, lado a lado, olhando fixamente para os reflexos que se 
moviam no tecto, lanados pela luz da Lua sobre a baa, Ellie pensava nos danos que um 
escndalo acadmico podia causar a ambas as carreiras. Gordon 
ensaiava para o momento em que Ellie se apercebesse das conversas maliciosas sobre ele e Theresa. Calculou que seria no dia seguinte quando 
os pormenores da sua contenda de sapatadas com Harvey Smedler se tornasse a notcia do dia. Decidira reconhecer que 
reagira de forma excessiva aos comentrios de Harvey, que certamente nunca eram para ser 
levados a srio, Mas, diria ele, estava apenas a proteger os sentimentos da rapariga. Theresa, explicaria 
ele, no compreenderia o tipo de piadas que se contavam entre os membros e podia pensar que 
estava realmente a ser acusada de alguma coisa.

Mas o momento difcil nunca se materializou no dia seguinte quando chegaram  praia com o aparato de piquenique, crianas e 
ama. A maioria dos membros cumprimentou-os com um aceno de mo e um "ol" 
gritado e os que o no fizeram estavam totalmente envolvidos em preparar as suas mesas e mantas de piquenique, As crianas 
correram imediatamente para a praia com Theresa logo no seu encalo. Ellie foi arrastada, para longe por uma mulher que simplesmente no 
se podia sentar com as pessoas que tinham calhado na mesa dela e exigia uma ltima mudana nos lugares 
sentados. Gordon ficou sozinho, sentindo-se como se tivesse sido trancado no tronco da era 
puritana e estivesse

  151

a ser observado por todos da comunidade. Ao olhar em redor, reparou que Tom Cameron olhava tambm na 
sua direco, o que parecia confirmar as suas suspeitas. Cameron dirigiu-se at ele, aceitou  a cerveja oferecida 
e deixou-se cair numa das cadeiras de praia de Gordon.

Creio que deve ter ouvido falar da noite passada - disse Gordon, indo directamente ao inevitvel.

o Comodoro Cameron acenou com a cabea.

-Ouvi sim. O Smedler fez um comentrio perfeitamente inocente que pretendia ser humorstico. Voc perdeu as 
estribeiras, deu-lhe um safano quando ele no estava a olhar e mandou-o a rebolar pelo declive abaixo, 
magoando-o gravemente no ombro e cotovelo direitos.

- Pensei que tivesse partido o brao.

- No! Como mdico, ele percebeu que no estava partido, mas realou que tores graves e danos nos 
ligamentos podem levar muito mais tempo a curar do que um simples osso partido.

- Ele mencionou que me ia processar?
 - Mencionou e acrescentou depois que tambm ia processar o clube, sugerindo que retiraria a aco judicial 
apenas se a direco concordasse em expuls-lo a si, do nosso meio.

 como se j o tivesse feito - disse Gordon. - Vou desistir do lugar de efectivo no fim da temporada. Gostava de 
ficar durante o resto deste ano s porque provavelmente  tarde demais para arranjar um ancoradouro 
decente.

Cameron abanava a cabea enquanto Gordon falava.

- No, senhor. A primeira regra sobre dirigir um clube superior diz que  melhor perder um urologista do que 
perder um congressista dos Estados Unidos.

- Disse-lhe que, se insistisse em processar-nos, teria de pedir a desistncia dele. Por isso, decidiu que 
process-lo a si j seria suficientemente justo.

Gordon murmurou algumas palavras de gratido. Tom Cameron encontrava mormalmente uma forma de ir ao 
cerne da questo, razo pela qual era continuamente eleito comodoro do clube.

- Diga-me s o que  mais fcil para si, Tom - acrescentou ele. - Posso estar sempre ocupado demais para 
surgir numa das funes do clube.

- No, eu no iria to longe. Resista apenas  necessidade de matar o Dr. Smedler. E tente ignorar as 
observaes de alguns dos membros. A sua babysitter est a criar uma grande sensao e os 
rapazes precisam de espao para lhe reagirem.

- Tom, ela no tem que...

A mo do comodoro estava no ar exigindo silncio.

152                          

- No tem de me dizer a mim que no est a ter nada 
com a jovem. S a ideia j  horrvel. Mas quando reage de forma excessiva a umas piadas, s est 
a dar crdito aos rumores.

- Sou uma figura pblica - respondeu Gordon. - Podem dizer o que quiserem que eu 
no posso fazer absolutamente nada.

- Vou pr cobro a isso sempre que possvel - assegurou-lhe Cameron, empurrando 
os braos da cadeira para se pr de p. - E voc limite-se a 
ignorar. Gordon acenou com a cabea.

- Vou fazer o possvel.

- D-me um dia ou dois - acrescentou Cameron - que eu digo 
ao Smedler que um processo ia prejudicar a reputao do clube. Vou pedir-lhe que se d por 
satisfeito com um pedido de desculpa.

- Parece que ando a pedir desculpa a toda a gente. Tom 
Cameron fez uma pausa.

- Provavelmente no foi a melhor ideia trazer uma rapariga como aquela 
para um clube destes. Se ela andasse com um dos porto-riquenhos da cozinha, toda 
a gente acharia provavelmente engraado. Mas quando comea a afastar os 
namorados das filhas, deixa de ter graa.

- Meu Deus, Tom. No pedi ao jovem McNeary que a levasse ao baile.

- No, mas colocou-a  frente dele. Ningum lhe est a perdoar por isso. 
Ellie e Gordon passaram o dia com os filhos e at fizeram parceria com eles na 
corrida de sacos e no concurso de atirar ovos.

Fizeram viagens repetidas ao buraco Para encherem os pratos com 
lagostas e mexilhes e estavam ambos com um brilho de satisfao quando 
comeou o jogo de softball.

Gordon ficou como apanhador. Quando Harvey chegou junto dele para dar A 
tacada na bola, ele aproveitou a ocasio para se desculpar.

- V-se lixar - foi a resposta e enquanto olhava para o lanador, Smedler acrescentou: - 
Pode dizer isso ao meu advogado.

- Bem, pelo menos fico contente que o seu brao esteja curado - disse Gordon arrancando um urro de riso 
ao rbitro.

A maior parte, dos outros atormentadores eram completamente polidos. As mulheres cumprimentaram Ellie 
pelo programa, elogiaram o comportamento dos filhos dela e ficaram boquiabertas quando souberam que 
ela acabara a dissertao. At ficaram admiradas com o elogio que fez a Theresa.

- Ela foi uma ptima assistente de pesquisa - disse, realando a palavra assistente.

-  espantoso o que elas so capazes de fazer - cumprimentou uma mulher, falando de Theresa como se 
fosse uma oficial das tropas especiais.

  153

Os homens pareciam ter-se apercebido que talvez tivessem ido um pouco longe demais.

-     pena aquilo do seu desentendimento com o Smedler - disse Jack Uconnell quando estavam ambos na 
posio de segunda base. - Mas, pelo que ouvi dizer, foi ele que provocou. - A nfase no ek era sinal de que 
Jack no admitia qalquer responsabilidade na sua altercao com Gordon. At Cecil Mapleton pareceu ter-se 
desviado do caminho habitual para o cumprimentar assim que se viu longe do alcance do ouvido da mulher. 
Depois do jogo, Theresa levou as crianas para casa para as deitar. Ellie e Gordon reuniram-se em redor dos 
ties em brasa com outros casais, bebericaram vinho e viram o Sol formar-se numa bola de fogo ao cair para a 
baa atrs deles. A escurido chegou rapidamente e os ltimos pontos de luz desapareceram do fundo do 
buraco. Lentamente, os casais juntaram as suas coisas e comearam a lev-las de volta para os carros.

Na sua anterior busca de isolamento, Ellie e Gordon tinham feito o acampamento mais baixo na praia. Agora, 
enquanto levavam a ltima arca frigorfica para a carrinha, perceberam que estavam quase sozinhos. O 
Range Rover estava
num lugar vazio e a longa fila de faris traseiros estava j em movimento ao longe.

- Estamos com pressa? - perguntou Gordon em tom sugestivo.
 Ellie sorriu.

- No tenho de estar em lugar nenhum.

H muito tempo que no tomamos banho sem roupa - disse ele. Ela pestanejou.

No sei se alguma vez gostei. gua fria e depois tentar vestir roupa interior sobre uma pele molhada e com 
areia. - Estremeceu de forma exagerada. A mo dele estava a deslizar at ao traseiro dela.

- Disseste que gostavas,

- Menti. O que gostava realmente era do que vinha depois.
 - Depois de vestires as cuecas com areia?

- No, depois do banho, antes de nos vestirmos. Essa era a minha parte preferida.

- A minha tambm - disse Gordon. - Ento porque  que no saltamos o banho e vamos directamente s nossas 
partes preferidas? - Comeou a afast-la do parque de estacionamento em direco s dunas altas.

- E se encontramos algum? - perguntou Ellie com ar travesso.

- Olhamos para o outro lado e esperamos que tenham o bom senso de nos seguirem o exemplo.

Comearam a subir a primeira colina at  relva alta. Ellie disse:

154                          

- Apanhado a fazer sexo na praia depois de um churrasco bem bebido!
O que  que isso faria  tua carreira poltica?

- Seria um smbolo de virtude assim que se espalhasse que estava com a minha mulher. As pessoas de 
Washington ficariam pasmadas.

Pararam abruptamente quando ouviram algum movimentar-se 
na relva directamente  frente deles.

- Quem est a? - disse a voz de uma mulher que foi instantaneamente abafada pelo "Shhh!" de um homem.

Elie deu uma pequena gargalhada.

- Estamos aqui - respondeu Gordon, - Quem est a?

Ouviu movimentos apressados. Entre vozes amortecidas havia sons de pernas a deslizar por calas e 
blusas a passarem por cabelo.

- Ei, no se apressem por nossa causa - disse Gordon. - Encontraremos 
lugar para ns. - Mas as duas figuras saltaram pondo-se quase de gatas e tentaram fugir subindo a prxima 
colina. Os ps da rapariga falharam na areia macia e ela comeou a deslizar para 
trs, O homem voltou-se para lhe apanhar 2a mo.

- Don - deixou Ellie escapar, vislumbrando o rosto dele  luz plida da Lua. 
O homem parou de tentar subir at ao topo e voltou-se completamente para o seu acusador. - Eh, ol, 
senhora Acton - disse Don McNeary.

Trish Mapleton levantou-se ao lado dele, endireitando 
entretanto a blusa.
- Ol, senhora Acton... senhor Acton.

- Os Acton no esto c - disse Gordon. - Na verdade, ningum est c.
- Pegou na mo de Ellie e puxou-a na direco do parque de estacionamento. Mas a cara 
de pasmo dela manteve-se voltada para trs na direco dos 
dois jovens.

- Boa noite... - conseguu Ellie dizer. Trish acenou debilmente com a mo.

- Boa noite...

- Pois, at logo! - acrescentou Don. Gordon foi-se a rir no caminho at ao carro.

- Bem, foi por pouco, Se tivssemos comeado dez minutos antes, teriam 
sido eles a tropear em ns.

- Isso  terrvel - disse Ellie. Ele riu-se ainda mais alto.

- Ouve, est bem? Disseste que essa era a tua parte preferida.
-  horrvel!

Gordon ainda no se apercebera da preocupao dela.

- Quem me dera que o Cecil Mapleton soubesse que eu sei o que sei. Seria o fim desta treta toda 
sobre a Theresa no ser adequada ao clube. "No  do

  155

mesmo padro" - disse ele, imitando a voz reservada de Cecil. - "No  da mesma educao." - Mal 
conseguia conter a alegria. - Pelos vistos quem tem a educao correcta anda a rebolar-se junto  fogueira!

 - A Theresa vai ficar arrasada - disse Ellie interrompendo os devaneios do marido.

- No vai descobrir, Quem lhe vai contar? No vai ser nenhum deles!

Estavam a contornar a baa j no carro quando Ellie disse subitamente: Meu Deus, aposto que so eles.

- Eles o qu?

- Os que me denunciaram. A Theresa anda a contar ao Don o quanto fez no meu trabalho 
e o Don anda a contar  Trish.
- No estou a perceber.

Ellie voltou-se no assento para se inclinar para o rosto de Gordon.

-  to simples! Desconfimos da Theresa porque ela era a nica que podia saber quanto fizera do meu 
trabalho. Mas custou-nos a acreditar porque a Theresa no tinha qualquer razo para me prejudicar. Mas 
podia estar a contar ao Dom para marcar pontos com um homem da faculdade. E o Don anda a contar  
Trsh debaixo de uma manta de praia. Assim, a pequena Trish sabe tudo o que se passa e odeia-me 
porque contratei uma rapariga latina para o emprego dela. Ele comprimiu os lbios durante um momento e 
depois decidiu:

 bastante forado. E no explica a cassete de vdeo desaparecida.
 -  A Theresa no ia fazer um vdeo das minhas notas. No tem qualquer inteno de me denunciar. 
E a Trsh no precisava de cassete. S vai escrever cartas annimas venenosas.

Gordon fingiu estar a pesar o problema, mas estava realmente a pensar no seu. Theresa dissera-lhe o 
dinheiro de que precisava nem sequer trinta segundos antes de mencionar que gravara tudo 
em vdeo, Coincidncia, talvez. Mas  certo

que fizera um vdeo dos midos e depois fizera uma cpia. Por isso havia uma cassete que 
estava desaparecida.

- Achas que tenho razo? - interrompeu Ellie.

-
 possvel - concedeu ele. A Theresa podia ter-se exibido para o Don, mostrando-lhe at talvez algumas 
das notas para provar que estava a fazer um trabalho de nvel universitrio. E quando o Don estava com a 
Trish podia muito bem ter ridicularizado a Theresa. - Grande parva, pensa que  suficientemente esperta 
para a faculdade. - Mas todo aquele cenrio era um pouco forado. Don provavelmente no precisava de 
fingir estar interessado nos conhecimentos da Theresa para a engatar. E certamente que no precisava de 
comprometer a Theresa para fazer com que Trish tirasse a roupa interior. Era um garanho grande e 
bonito. As raparigas caam-lhe nos braos.

156                         

- Ou talvez - considerou Ellie - estejam a trabalhar juntos. Talvez o Don s ande 
 volta da Theresa para obter informaes para a sua parceira de cama. -Agora isso j me est a 
soar a parania - interrompeu-a ele, levando a mulher a voltar-se abruptamente e a olhar furiosa para a janela.

Parania o tanas, pensou Ellie. A Trish ficou furiosa 
quando eu trouxe a Theresa para a cena e 
perfeitamente razovelque apequena cabra se 
quisesse vingar de mim. E o que tem de parania 
achar que o Don McNeary tiraria informaes de Theresa para marcar pontos junto do seu engate 
preferido?

As provas no podiam ser mais claras para Ellie. McNeary fizera-se  grande a 
Theresa, convidando-a para o grande acontecimento, E agora, na noite anterior a ter de mostrar 
supostamente o seu afecto por Theresa, est nas dunas com a Trish. De que mais provas 
precisava Gordon?

Gordon estava ainda agarrado  cassete e o seu maior medo era que Theresa a pudesse ter dado a Don, 
Ests a ser mais paranico do que a Ellie, repreendeu-
se ele a si mesmo. E, no entanto, conseguia imaginar um cenrio em que Theresa ostentaria 
a McNeary que fora mulher para o futuro congressista e McNeary diria que era 
tudo garganta.
 "Ai sim?", diria Theresa, "mas posso prov-lo. Tenho tudo 
gravado em vdeo!"

Ser que McNeary estava mesmo a enganar Theresa? Ser que ele e Trish andavam a 
contar aos amigos sobre o senhor Acton e a ama? Seria por isso que tantos membros do 
clube estavam a insinuar que ele andava a dormir com a jovem?

Mas no tinha sido o McNeary nem a Trish Mapleton a sugerir que podiam usar um pequeno apoio 
financeiro. Isso fora Theresa e associara o comentrio a um lembrete de que tinha todas 
as experincias de Vero em vdeo.

As possibilidades eram infindveis e nenhuma delas era boa. Ou seria apenas o 
seu sentimento de culpa a tortur-lo com imagens da sua desgraa? Ouviram Theresa tocar flauta, 
assim que passaram a porta do alpendre.

A melodia era simples e triste, muito mais emocional do que as peas intrincadas de 
Mozart que normalmente tocava e Ellie e Gordon fizeram uma pausa junto  porta de entrada at ela acabar. 
Quando entraram, encontraram Theresa sentada de pernas cruzadas no centro da sala de 
estar, com a cabea em baixo e a flauta cada no regao. No havia pauta musical  vista, a 
pea fora tocada de cor.

Theresa levantou a cabea quando sentiu a presena deles, mas no pareceu nada espantada.

- Foi uma coisa que escrevi - disse ela.
- Lindo! - elogiou Gordon sinceramente.

- Estou quase a chorar - acrescentou Ellie. -  to triste... to emocional,
- Pensei em ensin-la  Molly, Ela diz que adora.

4                  157 

- Ela nunca vai conseguir tocar assim - respondeu Ellie.

- Acho que vai. No no incio, mas  uma pea que ela vai gostar de praticar porque a consegue sentir. A maior 
parte da msica que me ensinaram era apenas notas. Por isso, quando estou aborrecida ou desencorajada deito 
tudo para trs das costas e toco isto. Serve para me lembrar do que consegui fazer quando me decidi.

Gordon percebeu que as ltimas palavras foram directamente para ele. Por um instante imaginou estar a 
ouvir um aviso.
Theresa descruzou as pernas e levantou-se com a flauta.

- Estava a pensar - perguntou ela - se me podem dispensar por alguns minutos amanh? Mesmo cedo, tipo cinco 
horas?

- Acho que sim - permitiu Ellie.

- Devo voltar antes do pequeno-almoo, por isso poderei dar de comer aos midos.

- Ainda nos lembramos de como  dar-lhes de comer - brincou Gordon.
 - S queria desejar boa sorte ao Don na corrida de botes. Comea ao amanhecer.
 Gordon olhou de relance para a mulher. Se Ellie achava que devia contar a Theresa quem tinham encontrado 
nas dunas, estava na altura de o fazer. Ficou aliviado quando ela respondeu:

- No h problema, Theresa. E fique o tempo que quiser. Ns damos o pequeno-almoo aos midos,

Theresa borbulhou de gratido e desapareceu a correr como se tivesse acabado de ver o Coelho da Pscoa.

Quando Ellie ouviu a porta dela fechar-se disse a Gordon.

- Se o Don McNeary est a usar aquela rapariga, juro por Deus que... Abanou a cabea ao pensar nos castigos 
demasiado terrveis para serem mencionados.

- Pensei que era a Trish que querias matar!

- Pelo que vimos esta noite, uma bala apanhava os dois.

CAPTULO VINTE E OITO

Os botes tinham sido alinhados na noite anterior com as proas em cima da areia e os motores 
dentro de gua. Perfaziam uma coleco pouco uniforme de barcos, alguns esquifes a remos 
habituados a irem at aos ancoradouros, alguns botes  vela com os mastros agora em baixo 
e arrumados e vrios insuflveis de borracha. Ficavam todos reduzidos pelos motores de 
tamanho exagerado. Costumavam ser bastante rpidos nos motores de dois a cinco cavalos 
de potncia especificados pelo seu design. Mas nesta prova, eram permitidos 
motores de at
50 cavalos de potncia. A ideia era usar potncia suficiente para levantar o casco minsculo 
quase por completo da gua. As velocidades eram espectaculares e reconhecidamente 
perigosas.

Os concorrentes, um homem e uma mulher por cada barco, ficavam junto  linha da costa de 
colete salva-vidas por cima dos fatos-de-banho. Ficavam todos voltados para Este, onde o 
cu estava rosa por cima da linha de dunas da extenso de areia. O canho do alpendre do 
clube disparava o sinal de partida no segundo em que o Sol espreitasse acima da borda 
longnqua do oceano.

Os espectadores reuniam-se no alpendre: pais e amigos dos jovens participantes, manacos 
da boa forma fsica que tinham planeado ver a partida como parte da corrida da manh e os 
membros socialmente mais interessados que tratavam ressacas da noite anterior com 
BloodyMarys dessa manh. O comodoro Cameron e os presidentes do 
comit de planeamento do fim-de-semana estavam agrupados em torno do canho de 
cerimonial. Cameron colocou o pavio incandescente no orifcio da plvora assim que surgiu 
a forma vermelho-cereja e o estrondo estava ainda a ecoar pela baa quando foi submerso 
pelo bramido dos motores.

Tal como os outros membros da tripulao, Trish agarrara-se  proa do insuflvel de 
borracha de Don e tirara-o da areia em direco  gua. Estava a saltar

  159

para bordo quando Don empurrou o barco para mais longe e saltou sobre o motor. O motor rosnou para a 
vida  primeira puxada da corda e gritou  potncia mxima, ao fim de dois ou trs segundos. Por toda a 
praia, os concorrentes causaram rastos encrespados que se transformaram em ondas. Num instante, a 
frota de 12 participantes, transportando 24 voluntrios para a limpeza da manh, gritava em linha para 
dentro da baa.
Um dos barcos perdeu-se ao fim de segundos. Ficou ligeiramente para trs dos barcos de ambos os lados, 
oscilou com a agitao dos seus rastos, fez um arco no ar e aterrou de lado. O capito e a tripulao 
deslizaram pela gua e vieram  tona a rir. O bote de salvamento, que largou do ancoradouro do clube, 
acelerou para os salvar.

O grupo comeou a dispersar-se. Alguns dos capites seguiam mais prximos da extenso de areia na 
esperana de ganharem velocidade a sotavento de o mar era mais calmo. Outros tendiam a seguir pelo 
lado continental da Baa, tentando apanhar uma corrente que geralmente flua em direco ao alto.
Mas os barcos que tinham tido as partidas mais rpidas iam em linha recta em direco ao marcador de 
viragem, no final de South Beach Island. O barco de McNeary liderava esse grupo, travando um duelo 
com um bote de fibra de vidro de dois metros e meio. Don calculou que com os barcos tanto no ar como 
na gua as condies do mar e das correntes no compensariam uma rota mais  longa. A vlvula de 
reduo do motor de 30 cavalos estava  vista e ele planeava levant-lo a uma velocidade mxima.

Trish ia sentada na tbua de madeira, com os joelhos presos por baixo do assento de borracha de remador 
para evitar saltar borda fora. Basicamente, ela  era o lastro, posicionado logo  frente do centro para 
contrariar o peso de Don  e o motor na popa. O maior peso na parte de trs assegurava que o barco no 
nterrasse o focinho e fosse lanado ao ar, Mas era necessrio algum peso  A frente para manter o 
insuflvel relativamente baixo Para que pudesse deslizar pelas cristas das ondas.

McNeary estava constantemente a reposicion-la com ordens furiosas ditadas em voz alta.

- Para a frente, bolas! Pe o rabo debaixo do assento. Se deixas a proa levantar, damos uma volta para trs,

Cala-te, Don. No me posso chegar mais  frente.

Ento inclina-te por cima do assento. Coloca o peso para a frente!

Ele estava inclinado para a frente e encostado s costas dela, com o brao esticado para trs para a cana do 
leme do motor.

- Deixa-te cair para debaixo do assento - gritou ele.
 - No caibo. O espao  demasiado pequeno.


160                           

- Pe a cabea para trs, bolas! - Puxou-lhe o cabelo com fora para trs entre os 
joelhos dele. -Agora desliza para a frente. - Empurrou-lhe 
os ombros, fazendo-a deslizar para a frente ao longo da coberta at o colete salva-
vidas dela ficar preso debaixo do assento.

- No me consigo mexer - gritou Trish.

- No te mexas! - berrou-lhe ele. - Est bom assim. Estamos a deslizar, Ela continuou a avanar lentamente 
para a frente, tentando tirar os ombros e a cabea debaixo do assento.

- Pelo amor de Deus, fica quieta! - ordenou Don.

- Estes saltos esto a dar cabo de mim. Tenho de me sentar!
- Fica quieta. Vamos muito bem.

Iam a saltar num baloio contnuo, aos saltos de crista de onda em 
crista de onda e afastando-se do bote de fibra de vidro. McNIeary curvou-se ainda mais 
at mal conseguir ver a proa do barco de borracha insuflvel. Ao cortar a resistncia ao vento, 
afirmou mais ainda a sua liderana.

Trish continuava a movimentar-se num crculo, esforando-se por tirar a cabea debaixo 
do banco para se poder sentar no outro lado. Conseguiria ento esticar as 
pernas para a retaguarda, usando ainda o banco de remador para evitar ir pelos 
ares,

Estavam a aproximar-se do ponto de viragem, um marcador a pouca 
profundidade no extremo mais afastado da faixa de areia de South Beach Island. 
Um dos oficiais do clube fora de barco a motor at ao marcador antes do nascer do Sol e estava na lngua 
de areia para se certificar de que nenhum dos concorrentes virava antes do tempo. Don 
planeava reduzir a potncia quando chegassem ao marcador e 
fazer com que ele e Trsh se inclinassem para a parte de dentro da curva. Sabia que ia 
perder parte do avano para o bote que vinha no seu encalo. Mas se se mantivesse 
direito, o insuflvel deslizaria para os lados, aumentando o risco 
de saltar pelo ar. O bote, que tinha um casco arredondado com a 
sugesto de uma quilha, podia facilmente ultrapass-lo na curva.

Chegaram ao marcador, com o bote logo  frente do rasto deles. Don notou que um dos insuflveis que 
optara pelo sotavento perto da extenso de areia estava a convergir para o ponto de viragem.

- Inclina-te para dentro! - gritou ele para o rosto de Trish, apontando para o lado do marcador. Virou a 
vlvula para trs. O barco enterrou-se no mar e adernou para 
bombordo, levando-o a dar uma curva apertada ao marcador. O bote apareceu 
vrios centmetros atrs. E nesse momento o outro barco insuflvel veio 
a deslizar de lado na direco do marcador, perdeu o controlo 
nos rastos duplos e embateu no bote. Ambos os barcos giraram e saram do seu curso, o 
bote

  161

ia enterrar a popa e a encher-se de gua enquanto o insuflvel saltou e lanou a tripulao, a agua.

Don olhou para trs para ver o barco da organizao largar da lngua de areia e dirigir-se para as quatro 
pessoas que davam vontade de rir a acenar nas ondas. - Yahoo! - gritou ele, acenando com o punho 
em sinal de vitria.
 - Ganhmos isto por uma milha de avano. - Voltou a vlvula para cima.

- Yahoo! - ecoou Trish, por um instante apreciando realmente acorrida. Nesse momento, o bordo 
livre do lado de bombordo rebentou numa exploso a que se seguiu o assobio de ar a evadir-se. O barco 
voltou-se categoricamente para a praia, arrancando o controlo de velocidade e a cana do leme da mo de 
Don. A potncia aumentou a velocidade a que o barco girava, lanando a ambos borda fora. Depois o barco 
comeou a girar como um cata-vento at o motor se soltar e afundar na gua. O barco ficou inclinado para o lado 
que no estava insuflado at s o casco de estibordo ficar acima da gua.

De volta ao marcador de viragem, o resto da frota abrandou para se certificar que as duas tripulaes da coliso 
estavam a salvo junto do barco do Comit. Depois aceleraram na arremetida final para o local do churrasco e 
para a faixa de segundo lugar. Todos partiram do princpio de que o barco de McNeary 
mantivera o avano considervel e vencera facilmente o trofu de primeiro lugar.

Havia meia hora que todas as tripulaes estavam na praia a trabalhar na limpeza quando algum reparou que 
Don e Trish tinham desaparecido. Passou-se mais dez minutos a especular sobre o que  que o capito e a 
tripulao podiam estar a fazer em vez de ajudar na limpeza e outros dez  procura nas dunas. S 
ento  que algum contou os barcos abicados na praia e se deu conta de que o insuflvel de McNeary no 
terminara a corrida.

- Aposto que o filho da me deu a volta no extremo norte da ilha e foi directamente para o clube - algum 
sugeriu.

- Pois, por isso  que no o vimos  nossa frente - acrescentou outro jovem.

Mas, mesmo quando estavam a chegar a um consenso quanto ao que acontecera, outras vozes no podiam 
acreditar que Don renunciasse ao trofu de vencedor.

- No com a Trish a bordo - concordaram eles,

O primeiro telefonema da esquadra de ranges chegou quando os proprietrios dos iates ancorados 
estavam a preparar os barcos para os convidados da tarde.
- Os midos esto aqui a perguntar se o Don McNeary e a Trish Mapleton

voltaram ao clube? - perguntou o ranger. - O barco deles no chegou c  praia,

162                         

A sensao de alarme misturou-se com algum cepticismo. Ellie e Gordon tinham quase a certeza onde 
estariam provavelmente os dois jovens. Outros membros, que no sabiam o que os Acton tinham 
interrompido nas dunas, calcularam que estariam talvez a pregar alguma partida.

- Algum lhes devia dar uma sova - aconselhou Jack OConnell. - No se brinca quando se trata de 
segurana num barco.

O comodoro Cameron no se podia dar ao luxo de ser cnico. Ordenou ao barco do comit que desse 
meia volta e percorresse de novo a rota da corrida. Depois requisitou trs barcos para fazer uma busca  
linha da costa da extenso de areia e  ilha.

- Est a perder tempo - disseram-lhe alguns membros das tripulaes. Esto a gozar consigo.

- V-se que no so seus filhos - respondeu Cameron ao partir. Mas apenas alguns momentos depois, todos 
os cpticos estavam a largar amarras e a fazer-se ao mar. Os rangeis do parque tinham 
encontrado os destroos do insuflvel desaparecido, sem ningum por perto nem a bordo.

Ellie e Gordon tinham os lbios cerrados ao percorrerem a baa, com os utenslios de cocktail 
ainda dispostos no cockpit. Viraram na ponta norte de South Beach Island e dirigiram-se para 
sul, o mais prximo da costa que ousavam. Ao fim de alguns minutos, ficaram acompanhados pelo resto da 
frota, dispostos como uma armada na costa Este onde o insuflvel fora encontrado. Os barcos 
atravessavam-se  frente uns dos outros e passavam pelo meio de duas outras embarcaes ao conduzirem 
uma busca desorganizada, ameaando colises que colocassem mais sobreviventes dentro de gua. 
Gordon afastou-se, decidindo procurar mais para o lado do mar.

- O que  que achas que lhes aconteceu? - perguntou Ellie finalmente. Ele abanou a cabea.

- Talvez se tenham envolvido na coliso que afundou os outros dois barcos. Talvez, na confuso... - 
Encolheu os ombros, indicando que realmente no fazia a mnima ideia.

- Esperava ver-me livre da Trish Mapleton - confessou Elie. - Mas no desta forma.

Gordon concordou:

- No, no desta forma. - Mas se Theresa andara a partilhar as suas conquistas sexuais, ento 
no se importava de se livrar de ambos e talvez de Theresa tambm. Sabia que nunca mais se 
sentiria  vontade com todo o seu futuro nas mos de um grupo de midos maliciosos. E 
destaforma no era mau de todo. Um belo acidente pblico no mar onde um inqurito 
seria aberto e encerrado em cerca de dez minutos. "De que  que estamos 
 procura.?", diria um investigador. "Todos sabemos o que aconteceu."

  163 - Oh, meu Deus! Encontraram qualquer coisa na praia. - Ellie tinha os ns dos dedos a 
fazerem presso contra os dentes. Gordon olhou na direco da costa e viu todos os barcos a 
convergirem para um determinado ponto.

- Parece que sim - concordou ele, fazendo inclinar a proa junto  praia e abrindo a vlvula.

No os quero mesmo mortos, disse Ellie a si mesma. 
Porfavor, Deus, no me deixes pensar nsso. 
Tinha de os querer vivos independentemente das consequncias para ela mesma. S 
um monstro poria as credenciais do curso  frente das vidas de dois jovens. Tinha de haver 
outra maneira para que tudo ficasse em segredo. Qualquer coisa menos drstica do que ter duas 
pessoas afogadas. Gordon espreitava ansioso por cima da proa. Vrios dos barcos a motor tinham abicado 
na praia. Os veleiros de design fundo estavam apenas a uma curta distncia.

- No me parece coisa boa - disse ele. - H muitos braos a acenar. Theresa jurara que nunca diria a 
ningum. Por isso o seu segredo estava provavelmente seguro com ela, particularmente se lhe 
patrocinasse os custos da faculdade. Mas Don e Trish no podiam ser comprados com tacto. Se Theresa 
lhes tinha contado alguma coisa ou mostrado a cassete de vdeo, ento aqueles dois eram o fim do seu 
casamento e, mais doloroso ainda, o fim da sua carreira poltica. Tinha sentimentos mistos sobre a actividade 
que decorria na praia.

- Encontraram-nos? - perguntou ele em voz alta para outro veleiro que se estava a afastar da costa.

Sim, encontraram-nos.
- Esto bem?

- No estavam se fossem meus filhos. Ellie abanou lentamente a cabea. Graas a Deus...

Gordon fez uma manobra aproximando-se de outro barco  vela.
- Onde  que eles estavam? - gritou ele.

- Do lado da baa. Disseram que o barco rebentou. Quando a corrida passou e ningum deu pela falta 
deles, foram at ao lado da baa onde calcularam que as pessoas os veriam. O mido McNeary diz que 
esto ali h uma hora.

Ambos os capites abanaram a cabea em descrena.

- No viram todos os barcos a dirigirem-se para este lado? - perguntou-se Gordon em voz alta.

- Viram, por isso  que voltaram e atravessaram a ilha. Mas isso no explica porque  que levaram meia 
hora a percorrer algumas centenas de metros. Gordon pensou na noite anterior.

- O que  que os poderia ter atrasado? - perguntou ele.


164                         

- Tenho-me estado a perguntar a mesma coisa - disse o outro capito com ar de riso.

Afastaram-se da confuso e Gordon serviu dois Bloody Marys que tinham preparado 
para os convidados. Ellie esgueirou-se para a parte de trs do cockpit e instalou-se ao lado dele.

- Fico contente Por estarem a salvo - disse ela, tentando convencer-se a si mesma e ao marido.

- Claro que ests. - Gordon achou que tambm estava contente, embora perdidos no 
mar se estivessem aliviar-lhe-ia a ansiedade. Estava a ficar desesperado para saber ao certo quem 
sabia o qu, se havia ou no uma cassete de vdeo e quando iam jogar a cartada deles. At era capaz de 
receber de bom grado um bilhete de chantagem para acabar com o suspence. Um 
afogamento talvez tivesse sido ainda mais bem-vindo.

Ancoraram de popa e abriram o cockpit aos convidados que comeavam a recuperar o esprito 
de festa. Jack OConnell instalou-se e informou toda a gente da zona que o incidente do barco perdido 
fora uma partida.

- Midos a esconderem-se na relva alta enquanto ns andvamos  procura deles! Acho que deviam levar 
um pontap no traseiro.

Os Mapleton estavam furiosos por pensarem que a filha deles fizera parte de uma partida.

- Os midos fizeram bem em atravessar a ilha para o lado da baa. Possibilitou-lhes fazerem sinal a pedir 
socorro - resmungou Cyril.

- A nica deciso sensata que algum tomou durante o dia. Priscilla acrescentou que teria feito o mesmo no 
lugar deles.

Os Stucky achavam que os midos tinham sorte por estarem vivos.

- Aqueles barcos de motores envenenados so demasiado perigosos disse Phil, - Temos de cancelar este 
evento ou mud-lo para uma corrida de barcos  vela.

Ao incio da tarde, o movimento do bar no barco dos Acton abrandou o suficiente para que Ellie e Gordon 
pudessem visitar alguns dos vizinhos. Iam a percorrer cuidadosamente um ancoradouro flutuante quando 
Tom Cameron os apanhou por trs.

- Importa-se que lhe roube o marido por alguns minutos? - Ellie protestou que no gostava de beber 
sozinha. - Pea um refrigerante - respondeu Cameron. - Trago-o de volta em dois minutos.

Gordon viu o comportamento srio do comodoro.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou ele.

- Espero que no. Mas acho que  voc que me vai dizer se se passa alguma coisa de muito errado.

  165

- Eu?

- Sabe alguma coisa sobre aqueles insuflveis que a sua empresa fabrica?
- Claro, Mas no foi um dos meus barcos.

Cameron acenou com a cabea e continuou a andar, conduzindo Gordon  volta da casa do clube at  oficina 
onde os motores eram afinados e os aparelhos reparados. O barco de Don McNeary, vazio e encarquilhado 
como uma ameixa seca, estava pendurado ao longo de trs cavaletes de serrar madeira. o tecido fora esticado 
no casco de bombordo para mostrar um rasgo denteado.

-Jesus - exclamou Gordon ofegante. -  um milagre no terem morrido. Esta coisa deve ter dado vrios mortais.

- O que acha do rasgo?

Gordon pegou no tecido pesado e dobrou a parte afastada do buraco escancarado. Notou pequenos cortes em 
cada uma das extremidades do rasgo e cortes profundos por cima e por baixo.

- Pois, estou a ver o que quer dizer, Passa-se qualquer coisa de muito errado. No se tratou de acidente.

- Tem a certeza?  perguntou Cameron,

- Bem, a certeza absoluta, no. Mas estas coisas nunca falham no centro do material, Se rebenta,  sempre numa 
costura ou num encaixe. E pode ver marcas de cortes na tela e at  borracha. Parece que algum usou aqui 
uma faca. Uma faca muito afiada.

- No pode ter sido um rochedo ou talvez conchas de mexilho? - O comodoro estava a dar a Gordon todas as 
oportunidades para mudar de opinio.

- Duvido. A nica coisa natural que podia ter feito isto era um coral e no creio que tenhamos recifes de coral 
ao largo de Cape Cod.

Tom Cameron respirou fundo.

- Bem, est a confirmar o que a Guarda Costeira me disse. Parece que algum o cortou para que empolasse e 
explodisse. Podiam apenas ter feito um furo e deix-lo esvaziar na praia. Mas parece que queriam que falhasse 
durante a corrida.

- Doentio - ofereceu Gordon como nica explicao possvel.

- Ou insensatez da parte de um dos competidores. Lembra-se h alguns anos atrs quando algum drenou um 
dos motores de dois ciclos e substituiu o combustvel por gasolina pura?

Gordon sorriu. Lembrava-se do motor a arrancar e do barco a morrer to depressa que meteu gua pela proa.

- Sim. Foi bastante engraado at todos percebermos que o motor podia ter sobreaquecido e explodido. - 
Passou outro minuto a examinar o tecido. -

166                         

Doentio ou estpido - concluiu ele, - Presumo que queira que isto se mantenha em segredo.

Cameron acenou com a cabea.

- Por enquanto, embora tenha de fazer perguntas s pessoas, por isso penso que a 
notcia se vai espalhar rapidamente.

Gordon afastou-se dos destroos.
- Bem, eu no digo a ningum.

Cameron falou enquanto o seguia para fora do abrigo.

- Voc  uma das pessoas a quem tenho de fazer uma pergunta disse ele, apanhando Gordon 
de surpresa. - Sabe que a sua rapariga esteve c em baixo de manh cedo? O 
nosso vigia viu que ela andava  volta dos barcos.

Ele recuou face  implicao.

- A Theresa? Oh, por amor de Deus. Ela veio c desejar boa sorte ao McNeary. Ele vai lev-la ao baile 
hoje  noite.

Agora foi Tom a mostrar surpresa,

- isso  interessante, Ele tambm vai levar a mida Mapleton.
- O qu? No pode ser,

- Bem, talvez eu esteja errado. Mas no interessa. Ela veio at  
praia hoje cedo, antes mesmo dos concorrentes. Esteve sozinha com os barcos durante meia hora.

- Tom, creio que ela no tem fora suficiente para cortar aquele tecido. E nunca viu um nsuflvel na vida. 
No fazia ideia de como cortar um para que formasse uma bolha de ar sob 
presso.

- Com uma lmina ou um x-acto no precisava assim de tanta fora. A calma de 
Gordon estava a comear a aquecer.

- Ela no tem uma lmina nem um x-acto. E, se tivesse, no saberia o que fazer com eles. 
Cristo, Tom, tem de ser um dos tipos da corrida que queria que o McNeary perdesse.

-  muito provvel - concordou Cameron. - Mas tenho de verificar tudo. Talvez lhe pudesse perguntar se 
viu mais algum por aqui hoje de manh cedo. Ou se ela se lembra quem foram as primeiras 
pessoas a aparecer.

- Eu pergunto-lhe - prometeu Gordon. - Mas faa-me um favor: no mencione nada 
sobre a Theresa. Ela j tem problemas que cheguem com alguns dos membros.

Cameron concordou.

- Pois , acho que h algumas pessoas que gostavam de a culpar.

Gordon estava sombriamente calado quando regressou  festa junto  doca, Mal acenou 
com a cabea para mostrar estar a ouvir conversas e nunca voltou

  167

a encher o seu copo quase vazio. Ainda era cedo quando puxou Ellie para o lado lhe disse que deviam ir 
andando.

- Sabia que se passava qualquer coisa de errado - disse ela assim que entraram para o carro. - Quando voltaste 
do passeio com o Tom Cameron parecia que estavas doente.

- E estava. Muito doente!

O que  que o Cameron te disse?

--- - Que a nossa babysitter tentou matar duas pessoas.

Ellie respirou de forma ofegante e tentou formar palavras. O melhor que conseguiu foi um perplexo "o qu?".

Ele contou-lhe do buraco no barco insuflvel, entrando em pormenor sobre a forma como a tela e a borracha 
tinham sido cortadas. Ele no achava que se pudesse tratar de um acidente. Ellie compreendeu a anlise do 
marido e ela prpria sentiu raiva por algum conseguir fazer uma coisa to obviamente perigosa. Ecoou a 
reaco inicial de Gordon.

- Filho da me doentio! - Mas depois ps-se  defesa, - A Theresa no pode estar envolvida numa coisa destas. 
No saberia como faz-lo. E, alm disso, porque  que haveria de querer magoar o Don McNeary  louca 
por ele. Vai ao baile com ele.

Gordon contou-lhe que Theresa fora vista a rondar os barcos de manh cedo.
 - Ela disse-nos que ia at  praia ver o Don - lembrou ele  mulher. O Don provavelmente ainda nem tinha 
sado da cama sequer.

Ellie adoptou uma perspectiva legal.

Pronto, teve a oportunidade. Mas no tem a capacidade para o fazer e cer tamente que no tem qualquer 
motivo.

Foi o que pensei - concordou Gordon. Mas depois contou-lhe o que Cameron dissera sobre o Don levar a 
Trish ao baile como seu par.

- Oh, Jesus, ele no era capaz, Ningum pode ser assim to sacana.

- Talvez no. Mas se algum lanou o rumor e se a Theresa o ouviu, ento tinha certamente um motivo. Que 
inferno, se o tivesse ouvido, eu prprio teria provavelmente tentado matar aqueles dois.

Ela ficou sentada em silncio at estacionarem  entrada de casa.

- Acho que estou a comear a acreditar nisso - anunciou ela calmamente. Gordon no se mexeu para sair do 
carro depois de desligar o motor.

- Eu prprio achei ridculo. Mas depois vi-o como que correspondente a um padro. - Ellie, que esticara a mo 
para a porta, recuou no seu gesto e deu-lhe a sua total ateno. - Lembras-te que a primeira coisa que ela fez foi 
mentir-nos? Irmos e irms esfomeados para cuidar. Aliment-los, vesti-los e lev-los  igreja todos os domingos. 
Nada disso era verdade.

168                          

Ellie no precisava que lhe lembrassem.  verdade, houvera factores mitigantes e ela pusera a entrevista 
inicial para trs das costas. Mas, vendo bem as coisas, a rapariga brincara bastante com a verdade.

- No sabia nadar - continuou Gordon, - mas encontraste uma fotografia dela a nadar com um grupo de 
amigos. E no sabia como se vestir, mas escolheu fatos-de-banho que faziam saltar os olhos dos homens.

Ellie estava a acenar com a cabea.
- Tudo verdade - concordou ela.

- Depois parece ser um gnio da informtica. Nunca nos disse que percebia de computadores, mas 
descobrimos que consegue entrar em metade das bases de dados do pas. Por isso, no mnimo, sabemos 
que a Theresa  desonesta e talvez uma mentirosa descarada.

Instintivamente, Ellie saltou em defesa dela.

- No vou to longe. Acho que cometeu muitos erros ao tentar pertencer ao meio. Fez-se de humilde e 
oprimida, pensando que era isso que se esperava dela. Penso que teve medo de se mostrar demasiado 
forte.

Gordon, sabia que Theresa no tinha problemas em mostrar-se forte, mas no podia argumentar nesse 
ponto. As provas dele estavam debaixo dos lenis.
- Mas, francamente, esta histria do barco est a incomodar-me - continuou Ellie.

- Se ela tomou conhecimento que o Don a esteve sempre a enganar, esperava que ela se sentisse 
subjugada, desapontada, embaraada e muito zangada. No esperava que fizesse algo de violento.

- Talvez tenha descoberto quando foi at aos barcos e ficado furiosa! Discorreu Gordon em voz alta.

- No - contradisse Ellie. - Se o fez, ento levou a lmina ou o x-acto, ou o que quer que fosse, com ela. 
Um dos midos do churrasco pode ter-lhe contado que o Don e a Trish se tinham dirigido para as dunas. 
Talvez algum lhe tenha contado que o Don lhe ia dar uma tampa no baile. Quando chegmos a casa, ela 
j tinha planos de ir at  praia logo de manh cedo.

Gordon acenou com a cabea, desconfiando que a mulher tinha razo.

- Ento acho que no a quero perto dos meus filhos - concluiu Ellie. Creio que tenho de lhe dizer que o 
Vero acabou.

Gordon sentiu um pnico imediato. Expuls-la e ela iria falar com a imprensa ao fim de algumas horas. Se a 
Theresa tentara magoar o Don McNeary, no teria certamente problemas em mago-lo a ele.

- No nos precipitemos - aconselhou ele. - Lembra-te que ainda te pode dificultar muito as coisas junto do 
comit da faculdade.

Ellie suspirou.

  169

- Eu sei. Mas sejam quais forem os problemas que me pode causar, no se comparam ao que pode fazer  
Molly e ao Timmy. Os midos ficaro em segurana com uma babysitter hoje  noite 
enquanto a Theresa estiver connosco no baile. E amanh no vou tirar os olhos deles.

- Talvez seja melhor pensarmos mais sobre o assunto. Ela pode no ter tido nada a ver com aquele barco.

- Eu sei, mas s o facto de pensarmos que ela o pode ter feito mostra que realmente no confiamos nela. E, 
nesse caso, porque  que estamos a deix-la com os nossos filhos?

Ento quando  que queres dizer-lho? Ellie pensou.
- Amanh, ou tera-feira, o mais tardar. Quero dizer-lhe quando estivermos preparados para a mandar 
logo embora. No a quero a viver c nem mais um dia depois de lhe dizermos que se vai embora. Essa 
seria a altura em que estaria mais apta para fazer qualquer coisa para se vingar de ns.

- O que ela ir fazer - sugeriu Gordon -  dirigir-se directamente para o telefone para falar com o 
orientador da tua tese.

Ela acenou com a cabea.

Acho que tens razo. Mas isso no  o que realmente importa.

Gordon abriu a porta do carro e conduziu a mulher silenciosamente at  parte da frente da casa e pelos 
degraus do alpendre acima. Pelo caminho, pensava numa forma de dissuadir Ellie de despedir Theresa. 
Desconfiava que o primeiro telefonema dela no seria para a faculdade de Ellie mas antes para os jornais 
locais. Talvez a tese de Ellie no fosse um assunto importante, mas a 
reputao dele certamente que era. Se Ellie mandasse Theresa para a rua, ento a sua carreira poltica 
estava acabada, para no falar do seu casamento e modo de vida. Antes que Ellie fizesse alguma coisa, ele 
tinha de descobrir se Theresa gravara um vdeo no quarto. E, se o tivesse feito, ele tinha de o encontrar e 
destruir.

CAPTULO VINTE E NOVE

O telefonema de Don chegou ao fim da tarde quando Theresa estava na praia com as 
crianas. Ellie sabia que devia simplesmente receber a mensagem e manter-se longe da 
piada dolorosa que ele e Trish estavam a planear. j decidira que queria Theresa fora da sua 
vida familiar e essa no era a altura para comear a sentir pena dela. Mas nada disso 
ultrapassava a repugnncia que sentia por pessoas capazes de serem intencionalmente 
cruis.

- A que horas  que a vem buscar? - perguntou ela ao jovem. Ouviu-o engolir em seco.

- Ahh... era sobre isso que queria falar com ela.

- Diga-me a mim. Farei com que ela esteja pronta a horas. - Ellie no ia deix-lo fugir 
facilmente do anzol.

- Bem, tenho um pequeno problema. Preciso de saber a opinio dela.

-  A opinio dela sobre qu? - insistiu Ellie. Sabia que estava a passar dos limites. Ele tinha 
direito a uma conversa privada. Mas se ia dar uma tampa a Theresa, queria que ele soubesse 
que os membros mais jovens no se iam ficar a rir  socapa. Ela e Gordon saberiam e ele 
podia partir do princpio de que todos os outros pais e membros tambm saberiam.

- Ahh... bem... o Jack Brewer teve uma rotura de ligamentos durante o acidente de barco 
hoje... e... ele ia levar a Trish Mapleton.

- Que pena para os dois - disse Ellie, denotando compaixo fingida.
- Pois ! Bem, o Jack no pode guiar por isso eu vou buscar a Triish.
- E depois  que vem para c?

- No. O meu carro  de dois lugares. Por isso vou a casa dojack trocar o meu carro pelo 
dele. Depois levo a Trish e o Jack at sua casa e vou buscar a Theresa.
- Oh... - A hostilidade de Ellie arrefeceu imediatamente. -  muito atencioso da sua parte.

  171

- Mas vou chegar atrasado para ir buscar a Theresa e queria avis-la.

Ellie ficou maravilhada porque Don s ia chegar atrasado.

- Eu digo-lhe assim que ela chegar da praia.

- Obrigado. E pode explicar-lhe porque  que vamos todos lev-la ao baile e no apenas eu?

- Eu digo-lhe exactamente o que me disse a mim. - Perguntou pelos pais dele, despediu-se e depois desligou. E, 
de repente, ficou desnorteada. O acidente acontecera nessa manh, por isso Theresa no podia ter sabido 
de nenhuma mudana de planos na noite anterior. E o Don ia lev-la  mesma. Por isso, no havia motivo para 
ter feito um buraco no barco que o Don e a Trish iam levar na corrida. Ento exactamente porque  que ia 
despedirlheresa, em especial se talvez ainda precisasse da colaborao da rapariga para a sua 
sobrevivncia acadmica?

Gordon ficou aliviado quando ela lhe transmitiu o contedo da conversa.
 - Sabes, estava a achar que estvamos a ser demasiado duros com ela - disse ele. - Vou dizer ao Tom Cameron 
para entregar aquele barco ao laboratrio da empresa para que os nossos tipos o possam examinar. Talvez tudo 
no tenha passado de um acidente. - O medo sussurrante que o acompanhara durante toda a tarde 
calou-se subitamente. Ainda tinha tempo para encontrar uma cassete de vdeo escondida.

A coberta do clube fora transformada numa das praias de Bali. As mesas estavam amontoadas sob palmeiras 
envasadas e uma luz azul ondulava pela pista de dana como o luar no fundo de uma lagoa. Os 
smokings brancos faziam com que todos os homens parecessem plantadores franceses dos mares do 
sul e todas as mulheres podiam ser as enfermeiras da marinha que se tinham apaixonado irremediavelmente. Os 
criados e criadas tinham fatos de marinheiros e os pratos que serviam eram de caril e frutas directamente da 
cozinha de um Trader Vics. Era melodramtico, mas eficaz.

Ellie e Gordon estavam numa mesa com Emily e Phil Stucky e Noah e Mary Singleton. Noah, que afirmava 
descender do Mayflower, tinha a rvore genealgica europeia mais longa do Cape e passava a maior parte do 
tempo desesperado com as mudanas que tinham ocorrido desde o virar do sculo. Mary pedia as bebidas para 
ele, levava-lhe comida e acenava em concordncia face a qualquer coisa que ele dissesse.

Por insistncia de Phil, Gordon estava a discutir os problemas de concorrer a um cargo poltico e, em particular, 
a necessidade de um grande investimento para uma boa campanha publicitria,

1 Trader Vics: cadeia internacional de restaurantes conhecida pela sua variedade de produtos polinsios.

172                         

- Tudo gira em torno de dinheiro hoje em dia - lamentava Noah. - Antigamente, bastava subir para cima de 
uma caixa de sabo e dizer aos outros o que se pensava.

No desde que eu nasci, pensou Gordon. Mas no fazia sentido discordar 
de Noah, que iria simplesmente recordar aos ouvintes a sua herana como prova da sua posio.

- No h nenhuma hiptese de vocperder esta eleio - garantiu Phil ao grupo. - Por isso 
para que precisa de tanta campanha?

Gordon explicou a necessidade de reunir um vasto apoio se esperava conseguir fazer alguma coisa.

- Oh, tretas - escarneceu Stucky. - Todos os polticos pegam no dinheiro e lixam os internos.

- Um lugar no Congresso costumava significar alguma coisa por aqui disse Noah.

Ellie estava a explicar a essncia da sua dissertao de doutoramento a Emily e Mary, documentando o 
desempenho superior na sala de aula dos filhos de professores.

- Mas para qu? - perguntou Emily e Ellie explicou a sua ideia de usar os recursos da escola para ensinar 
aos pais como ensinar.

- Multiplica a eficcia de fundos limitados. Mary Singleton escarneceu.

- Acho que temos de voltar ao castigo corporal.

Mas, enquanto conversavam socialmente, Ellie e Gordon tinham a ateno fixa num aglomerado de mesas 
do outro lado da pista de dana. O grupo mais jovem, todas as crianas e amigos de membros, faziam a festa 
em voz alta praticando a grosseria bria que constitua o seu patrimnio hereditrio. Theresa estava 
sentada ao lado de Don, ficando assim no centro da hilaridade. Mas o seu sorriso fingido e riso forado 
mostravam que estava realmente na periferia. As referncias a escolas preparatrias, festas e viagens pelo 
estrangeiro eram uma linguagem estranha para ela. Estava a tentar apreciar piadas que, no fundo, no 
compreendia.

- Achas que ela se est a divertir? - murmurou Gordon a Ellie.

- Est a encaixar. No pode ser fcil para ela, mas, pelo menos, parece ser aceite.

- No creio que tenha sabotado o barco do Don.
- Eu tambm no.

Ele estava a ouvir o que queria, mas tinha de ter a certeza.

- Por isso vamos esquecer o assunto de a mandar para casa. Vamos mant-la aqui durante o Vero.

 173

Ellie estava a sorrir de uma coisa que uma mulher que passava ia a dizer. Quando teve oportunidade, 
murmurou:
- Falamos sobre isso mais tarde. Gordon esperou at ter a ateno dela.~

- Porqu mais tarde? Ainda tens algum receio?

Ela acenou com a cabea enquanto fingia ouvir Mary Singleton.
- Que receio?

- No me sinto totalmente  vontade de a deixar com os midos. Tal como disseste, houve um padro. Se 
acreditmos, nem que tenha sido por um minuto, que queria magoar algum, ento penso que podemos 
passar sem ela. - Comeou imediatamente a comentar o ponto de vista de Mary como se a mulher mais 
velha tivesse a sua total ateno.

Gordon, levantou-se e vagueou at  casa de banho dos homens. No regresso, fez uma pausa no bar para 
uma bebida refrescante e depois pediu outro spitzer de vinho para a mulher.

- Grande festa, senhor Acton! - Era Don McNeary a caminho da casa de banho dos homens.

- Parece que vocs se esto a divertir - disse Gordon. E enquanto Don continuava a passar por ele 
perguntou-lhe em voz alta: -como  que a Theresa est?

McNeary parou, confundido com a pergunta. A sua expresso parecia perguntar porque  que no 
haveria de estar ptima como todos ns. Ele recuou at ao bar.

- No teve qualquer problema por eu ter transformado isto num encontro duplo, se  isso que quer dizer.

- No - garantiu Gordon. - No queria dizer nada em particular.  s porque ela  nova aqui e tento 
certificar-me de que se sente feliz.

- Oh, quanto a isso no h problema. Ela adora o stio e gosta mesmo de viver consigo e com a senhora 
Acton. Na verdade, tem um vdeo que est sempre a prometer mostrar-me. Todo o tipo de coisas que tem 
feito durante o Vero.

O spitzer de vinho tremeu na mo de Gordon e espirrou para o smoking branco.
 - Mostrar-lhe? - perguntou ele respirando com dificuldade.

- Sim, talvez a possa lembrar para no se esquecer, - Don estava a sorrir abertamente quando se voltou na 
direco da casa de banho dos homens. Gordon pousou ambas as bebidas no bar e limpou o casaco com 
um leno.

Tinha de ver aquela cassete. Ou, pelo menos, precisava de ter uma longa e franca conversa com Theresa. 
Precisava de a fazer compreender que havia muita coisa que podia fazer por ela. Ajuda nas mensalidades. 
Empregos de Vero.

174                          

Conhecimentos. Mas no podia fazer nada disso se fosse expulso de Rbode Island debaixo de 
insultos.

- Obrigada - disse Ellie quando ele lhe entregou a bebida.

- Ouve! Precisamos de algum tempo antes de nos livrarmos da Theresa. Ellie 
franziu o sobrolho.

- Agora no, Gordon. Porque  que no vamos danar? No danmos durante a noite 
inteira.

Na pista de dana ele abraou-a bem junto a si e cantou entredentes a melodia que a banda tocava, mas 
a sua mente andava em rodopios. Ela contara a Don acerca do vdeo. Porqu? Porque  que ela 
achava que ele havia de querer ver filmes caseiros dos meus filhos? Ser que ela lhe contara o que 
filmara? Seria por isso que o McNeary exibira aquele esgar estpido quando mencionou que estava 
ansioso por ver a cassete? Meu Deus, ser que a Theresa lhe disse para falar do 
vdeo? Seria esse o passo seguinte na extorso?

- Acho que temos de pensar nisso durante alguns dias - deixou ele escapar de repente.

Ellie afastou-se abruptamente.

-  nisso que ests a pensar enquanto danas comigo? Na Theresa e no que ela vai significar para a tua 
campanha?

Ele viu a raiva nos olhos dela e puxou-a de novo para si com mais fora 
do que pretendia.

- No  nada disso. Estou a pensar em ti e numa forma de passares por essa audio antes de 
transformarmos a rapariga numa inimiga.

- Eu dou conta do recado - insistiu ela.

- Acho que eu tambm. Mas seria muito mais fcil trabalhar a imprensa se no fosse 
interrogado a respeito da fraude da minha mulher.

Ellie afastou-se.

- Tudo comea e acaba contigo, no ? O teu nico interesse no meu doutoramento  
como  que isso te afecta a carreira.

Olhares vizinhos centraram-se na direco deles. Ele pegou na mo de Ellie.
- Vamos passear at  doca,

- Claro - respondeu ela. - Se prometeres falar de outra coisa qualquer. Saram da pista, 
acenando educadamente com a cabea aos amigos, e desceram os degraus at aos 
ancoradouros dos barcos. Gordon comeou a falar de mars baixas e dos problemas que causavam aos 
barcos em docas fixas. Comentou os benefcios do ancoradouro flutuante onde tinham o 
barco ancorado, mas tambm concordou que podiam ficar um pouco mais vulnerveis a uma mar 
muito cheia. Falou sobre tudo aquilo de que se lembrou excepto de 
Theresa para dar tempo  raiva de Ellie arrefecer.

  175

- Olha - interrompeu-o ela finalmente de forma a voltar ao tpico que

sabia que ele tinha em mente. - No vamos fazer nada amanh, Na segunda-feira, vou telefonar ao meu 
orientador e ver como param as coisas, Depois saberemos se precisamos que a Theresa me apoie numa 
audio.

- Por mim tudo bem - disse Gordon como se essa fosse a coisa mais afastada da sua mente. - Penso que  
uma abordagem sensata. - Puxou-a para junto de si para que pudessem partilhar um beijo, que ambos 
apreciaram.

- Gostavas de vir comigo para debaixo do passeio de tbuas? - desafiou-a ele. A areia da praia coberta pela 
ponta da coberta da casa do clube constitua um local escuro e privado que 
assistira  consumao de muitos romances de Vero. Ellie deu uma pequena risada face  sugesto.

- , estou a falar a srio. Podamos dar uma escapadela entre duas danas.
- Areia molhada  tudo o que o meu vestido precisa - dsse-lhe ela.

- Oh,  isso que pensas quando estou a tentar seduzir-te? Na reputao do teu costureiro?

- Touch - admitiu Ellie.

Nesse momento, duas figuras emergiram debaixo da coberta, parando para limpar a areia da roupa. A 
rapariga estava a ver-se aflita por causa do vestido preto e o homem estava a limpar as pernas das calas.

- Vamos - sugeriu Gordon. - antes que nos tornemos testemunhas do escndalo deste ano.

Ellie voltou-se lentamente.

- So eles! - murmurou ela.

- Quem? - perguntou ele enquanto a conduzia de volta ao longo da coberta, para longe dos recm-
chegados.

- A Trish Mapleton e o Don McNeary.
- Oh, merda! - suspirou Gordon.

- O nosso motivo voltou - disse Ellie.

AGOSTO

CAPTULO TRINTA

Acordaram lentamente com a boca seca e o sabor da bebida da noite anterior ainda na garganta. Ellie levantou a 
cabea para o relgio e viu que eram quase dez horas. Tocou em Gordon, na esperana de que ele pudesse ir 
fazer o pequeno-almoo e voltou depois a deitar-se na almofada.

De repente ficou bem desperta. As crianas j deviam estar a p e, no entanto, a casa estava completamente em 
silncio. Levantou-se de um salto, enfiou-se nas calas de ganga e enfiou pela cabea uma camisola sem mangas 
enquanto saa do quarto. Ambas as portas no extremo oposto do hall estavam abertas e no havia ningum em 
nenhum dos quartos.

- Gordon! - Havia uma urgncia na voz dela que o fez ficar imediatamente sbrio.

O que ? -j estava levantado e  procura da roupa interior.
- Foram-se embora. Ela tem os midos.

- Embora para onde? - Estava a saltar para dentro dos sapatos.

- No sei. No est ningum em casa - gritou ela do topo das escadas
e depois desceu-as rapidamente.
Gordon seguiu-lhe o exemplo, vestido apenas com calas e sapatos.

- Provavelmente levou-os at  praia para que pudssemos dormir mais. Ellie olhou para a cozinha e depois 
passou pela porta de rede que dava para o alpendre vazio.

- No esto na praia - disse ela. Gordon passou por ela.

- Vou ver na garagem. - Voltaram a encontrar-se  entrada de casa. - Ela levou o Range Rover. 
No deixou nenhum recado? - Gordon subiu as escadas a correr at casa.

Ellie tentou acompanh-lo.

180                          

- No vi nenhum recado.

Tinham acabado de chegar ao alpendre quando ouviram um 
carro aproximar-se. Ficaram ambos imveis. O carro fez 
levantar gravilha solta e travou derrapando algures atrs da 
casa. Portas abriram-se e o ar encheu-se imediatamente de vozes. Ouviram Molly a 
anunciar exactamente quem ficaria com que donut, enquanto Tmmy estava sempre a repetir 
que queria o de chocolate. A seguir ouviram passos nas escadas exteriores.

- Onde estiveram? - exigiu Ellie.

Molly empurrou a porta de rede e dirigiu-se para a cozinha.
- Fomos at  aldeia. Comprmos donuts.

- Quero o de chocolate - disse Timmy, logo no encalo da irm.

Theresa chegou atrs deles, subindo os degraus com muito menos energia.
- Eles acordaram cedo. Pensei em tir-los de casa para que pudessem dormir mais um pouco.

- Devia ter-nos avisado - respondeu Ellie. - Estvamos preocupados,
- Deixei um recado debaixo da cafeteira. Pensei que fosse o lugar ideal. E deve ter calculado que estavam 
comigo.

- Mesmo assim... - comeou Ellie, mas Gordon interrompeu-a com um toque no cotovelo.

- Vamos l pr o caf a fazer - disse ele.

Mantiveram-se a observar Theresa em busca de sinais de perturbao e raiva. Ser que sabia 
que o par dela estivera debaixo do passeio da praia com outra rapariga? Ser que sabia que havia 
sempre outra? Estaria a planear uma vingana diablica? Mas no havia 
nada. Ela ps os pratos, serviu o leite e limpou o chocolate do rosto 
de Timmy sempre que ele dava uma dentada. No meio dessas tarefas ia 
comendo uma rosca.

- Divertiu-se ontem  noite? - aventurou-se Ellie.

- Muito - respondeu ela com entusiasmo sincero. - As raparigas foram todas muito simpticas e os rapazes 
eram muito divertidos. Alguns at danaram comigo. E quero agradecer aos dois 
por me terem deixado ir. Quero dizer, terem arranjado outra 
babysitter e comprado o meu vestido e isso tudo...

Gordon acenou com a mo dispensando a expresso de agradecimento.
- Gostamos de a ter connosco - murmurou ele por entre uma boca cheia de dinamarqus.

- O Don foi..: atencioso? - perguntou Ellie, sabendo que a pergunta parecia ridcula. 
Mas no podia perguntar se ele a levara para debaixo do passeio da praia.

- Sim, mas nada de especial. Todos foram atenciosos com toda a gente. Nenhum 
de ns tinha realmente um par.

  181

Caramba, perdeste o que se estava a passar, pensou Gordon. O Don e a Trish tinham sido um par no 
verdadeiro sentido da palavra. Observou-a em silncio enquanto Theresa limpava o que as crianas tinham 
sujado e as levava para cima at aos quartos para as preparar para a praia.

Ela no faz a mnima ideia - disse Gordon. - Provavelmente pensa que os nadadores-salvadores tm sempre 
areia nos fatos.

- Ou ento  ptima a esconder os sentimentos - acrescentou Ellie. Assim que Theresa e as crianas partiram 
para a praia, Ellie regressou  dissertao. Tinha resultado em mais de 150 folhas impressas, que levou at ao 
alpendre com a segunda chvena de caf. Laboriosamente, continuou as correces a lpis. planeara    pedir a 
Theresa que efectuasse as alteraes porque a rapariga era muito mais hbil no computador. Mas agora era ela 
quem ia fazer as alteraes. Queria erguer um muro guarda-fogo entre a rapariga e os documentos.

Gordon vestiu calas de ganga, uma t-shrt e um velho par de alpargatas. Ia at ao sto fazer uma 
busca  bagagem guardada e a outras pilhas e caixas onde a cassete podia estar escondida. Se isso no desse 
resultado, planeava uma busca

muito mais completa  garagem e depois uma viagem aos espaos de difcil acesso debaixo do alpendre da 
frente. Algures no meio de tudo isso planeava sugerir a Ellie que fizessem outra vistoria ao quarto da jovem.

Tentou adoptar um ar casual ainda que a sua ansiedade se estivesse a transformar 
em terror. Ela contara a Don qualquer coisa sobre a cassete de vdeo. Provavelmente no 
tencionava mostrar-lhe as cenas de quarto porque assim que o caso se tornasse pblico perderia o poder que 
detinha sobre a famlia Acton. Mas,  dissera-lhe o suficiente para que ele mencionasse a existncia do vdeo. Era 
uma forma de lembrar Gordon de que a sua destruio total levaria pouco mais do que alguns segundos.

Onde diabo estaria?, torturou-se ele quando comeou a procurar entre a bagagem guardada. Ela nunca a 
confiaria a Don nem a nenhum dos outros
jovens. "Guarda-me este segredo" era praticamente garantir que seria o filme 
em exibio na prxima festa entediante. Se a tivesse levado para casa e se a tivesse enviado pelo correio para 
a famlia adoptiva, havia todas as probabilidades de a visualizarem s para verem como  que ela estava a passar 
o Vero. No ia querer isso. Assim, tinha de estar aqui, dentro de casa, Ou na garagem. E ele tinha de encontr-
la e apagar as cenas condenatrias.

Passavam apenas alguns minutos do meio-dia quando o telefone tocou.


- Podes atender? - pediu Gordon do topo das escadas do sto.
 Ellie levantou-se lentamente, lendo em andamento, com o lpis preso nos dentes.
- Est l? - murmurou ela sem deixar cair o lpis. Soube que o telefonema era ameaador assim que ouviu o 
primeiro som da voz.

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- Diga ao filho da puta do seu marido que anda a enganar a mida errada.
O lpis caiu assim que o maxilar dela cedeu.

- O qu?

- Sabe que o Gordie tem andado a comer por fora, no sabe? Ellie quase que se 
riu.

- Quem fala?

- Diga ao seu marido que o segrednho dele j era e que o que tem estado a fazer est para l do 
desprezo,

Havia um tom de ultraje na voz dela. Quem quer que fosse, no estava a fingir. Ellie sentiu a 
boca secar e depois o primeiro sinal de nusea no estmago.

- Quem fala? Se no disser desligo o telefone.

- Pergunte ao Gordie quem fala. Ele h-de arranjar um nome.

Ellie desligou o telefone com estrondo e depois sentiu as mos 
comearem a tremer-lhe. A rapariga estava verdadeiramente 
perturbada com qualquer coisa que o Gordon andava a fazer, qualquer coisa indescritvel. E estava a 
tremer descontroladamente porque sabia que era verdade.

- Quem era? - perguntou Gordon do topo das escadas.

Ellie voltou a cabea na direco dele mas nem sequer conseguiu levantar os olhos.

- Ellie! Quem era ao telefone?

Ela olhou de novo para o telefone e as mos recuaram como se estivesse demasiado 
quente. Se o levantasse, as acusaes ainda estariam l.

Ouviu passos nas escadas.
- Ellie, ests bem?

O maxilar dela voltou ao lugar e os olhos estavam bem abertos para combater as lgrimas. 
Gordon atravessou a sala de estar at junto dela,

- Ellie? - Sentiu a mo dele no ombro e instintivamente afastou-se.

- O que foi? - Gordon, deu a volta para ficar em frente a ela. - Por amor de Deus, quem era ao 
telefone?

- Algum que diz que o teu segredo j era. Que tens andado metido com a rapariga 
errada.

Pela primeira vez desde que o conhecia, Ellie viu o rosto de Gordon ficar branco de 
terror. No tinha necessidade de dizer nada. A expresso dele disse-lhe que fora 
apanhado.

- Quem? - conseguiu ele dizer.

- Porque  que no me contas tu? Ou tens andado com mais do que uma?
- Ellie... - No havia luta na voz dele, nem mesmo um indcio de negao. Estava a evaporar-se  frente 
dela. - Ellie, juro por Deus que no quis que acontecesse.

  183

Ela armou-me uma cilada... para me poder chantagear. Tal como te est a chantagear a ti.

Por uma fraco de segundo, Ellie ficou desnorteada, mas no precisava de analisar quem  que a podia estar a 
chantagear. Num relmpago de claridade viu o marido com a sua jovem ama.

Oh, no. - Foi um gemido de agonia. - Meu Deus, era a Theresa. Pobre Theresa.

Ellie, ests a ver como  estpido. Como ... vergonhoso. Ela apanhou-me e no h nada que eu possa fazer a 
esse respeito.

- A Theresa? Tiveste relaes com a Theresa? Onde?

- Eu estava no alpendre. Foi no dia... - Ia contar-lhe acerca do dia em que... o clube inteiro se virara 
contra ele e de como bebera demasiado. Mas ela interrompeu-o com um grito.

- Aqui! Na nossa casa? Deitaste-te com ela na nossa casa? - E depois estava todo a vir ao de cima: 
as bebidas da noite anterior, o pequeno-almoo dessa manh, at mesmo o ginger ale que 
beberricara enquanto editava a dissertao. -, Rmpurrou-o e passou por ele a correr em direco  casa de 
banho. Caiu de joelhos e enfiou o rosto na sanita.

Gordon seguiu-a de imediato, mas parou  porta quando ouviu o esforo dela para vomitar. Vomitou, gemeu e 
voltou a vomitar. Gordon entrou lentamente na casa de banho e caiu de joelhos ao lado dela. Ps o brao  
volta dela, para a segurar enquanto ela continuava enjoada.

Ellie empurrou-lhe o brao.

- No me toques. Deixa-me em paz.
- Ellie, por favor...

- Podes deixar-me em paz...

- No posso deixar-te. Eu amo-te.
 Ela voltou-se e bateu com os punhos contra o peito dele. Gordon no fez qualquer tentativa para se defender, 
o que s fez com que Ellie se sentisse muito mais impotente, Dobrou os braos  volta do aro da sanita salpicada, 
enterrou

o rosto e comeou a chorar de forma descontrolada. Gordon manteve o brao  volta dela, sentindo os seus 
tremores ao soluar.

Passaram-se minutos antes que ela conseguisse parar e mais minutos ainda antes que se sentisse suficientemente 
forte para se pr de p.

- Podes deixar-me sozinha por alguns minutos? - pediu ela com ar cansado. - Preciso de me limpar.
Ele acenou com a cabea, recuou at  porta e fechou-a atrs de si.


Ellie limpou o aro da sanita e despejou vrias vezes o autoclismo. Depois limpou uma mancha que deixara na 
frente da camisola, Passou a boca por gua, i

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gargarejou e penteou-se com um pente. Pegou 
na maquilhagem raramente usada para poder 
disfarar a palidez das faces e as manchas negras que tinham 
ocupado o espao por baixo dos olhos. Estava quase apresentvel quando foi at ao alpendre e se deixou 
cair numa cadeira em frente ao marido. Durante vrios segundos ficaram ambos sentados em silncio.

Gordon sabia que tinha de ser o primeiro.

- Tenho-me sentido miservel desde que isto aconteceu. Miservel e doente de vergonha.

Ela continuou a olhar fixamente atravs da porta de rede para a baa.

- Mas, de certa forma, estou satisfeito que saibas. Porque nunca teria conseguido contar-te e manter isso 
em segredo estava a dar cabo de mim.

- Devo ter feito figura de parva - disse Ellie mais para si mesma do que para Gordon. - Fao de mam para 
a rapariga e ela faz de mulher para ti. Sei que se deve ter andado a rir de mim. E tu? Achavas-me assim to 
chata?

- Deus, no. No me andava a rir. Sabia que te tinha magoado. E estava a sentar-me  mesa com a rapariga 
que me ajudara a fazer-te isso.

Ela ps-se de p num salto e inclinou-se sobre ele. Parecia que, se tivesse um machado na mo, estaria a 
cortar-lhe o crnio aos bocados.

- Ento porque  que a querias manter por c? Porque  que, todas as vezes que eu dizia que temos de 
nos livrar dela, saltavas em sua defesa? Porque  que me estavas sempre a dizer que no devamos ser to 
precipitados? Que lhe devamos dar outra oportunidade?

Ele ps-se de p e agarrou-lhe nos pulsos.

- Porque ela iria falar com reprteres dez segundos depois de chegar a casa. Porque veramos imagens ao 
vivo minhas a fazer sexo com ela no noticirio da noite. Eu disse-te! Ela atraiu-me para a cama e depois fez 
um vdeo de ns... juntos. - A voz dele assumira um tom mais baixo emjuntos. Foi a forma mais 
gentil de descrever o sexo escaldante e ofegante que ela provavelmente captara na cassete. - E agora est 
a chantagear-me.

Ellie riu-se de modo irrisrio.

- - A chantagear-te! Poupa-me, Gordon.

- Est, bolas! No por essas palavras. No com notas a exigir pagamento em notas no marcadas. Mas diz-
me de quanto dinheiro vai precisar e se no tiro a carteira para fora depressa menciona casualmente um 
ptimo filme de vdeo, que tem de ns.  a mesma coisa que te est a fazer a ti. "Preciso de um vestido 
novo para o baile. Preciso de acessrios e sapatos. E, j agora, o que  que quer que eu diga exactamente 
 sua direco acadmica?", Esta rapariga e esperta demais para pedir directamente ou para pr as coisas 
por escrito. Mas tem-nos a ambos de rdea curta e s est  espera que calculemos o custo de sermos 
postos em liberdade.

  185

Deixou cair as mos e Ellie voltou-se para as janelas de rede sobranceiras  baa. Ficou calada por um instante e depois riu-se baixinho.

- Fui uma perfeita idiota. Quando estvamos a revistar o quarto dela e quando tu no desistias e resolveste procurar pela casa toda, pensei que 
estavas preocupado em salvar o meu doutoramento. Senti-me muito sortuda por estar casada com algum que gostava o suficiente de mim para 
me ajudar a reparar os meus erros.

- E estava - dsse-lhe Gordon. - Estava preocupado com o teu doutoramento.

Ellie voltou-se para ele.

- Mentira! Estavas era preocupado em salvar a tua pele. A tua carreira poltica permite tudo, no ?

- So a mesma coisa - gritou-lhe Gordon, mas depois arrependeu-se imediatamente de ter levantado a voz. - Por favor, Ellie. No vs que ela nos 
tem a ambos na mo? Se um de ns se vai abaixo, vamos os dois. Se sou acusado de molestar crianas, em que tipo de posio ficas 
para falares de educao? E, se s uma fraude, no posso ser eleito sequer como inspector de pontes. Por isso  que no queria que a mandasses 
embora. Precisamos de tempo para que ela responda s perguntas que levantarem na audio. Precisamos de tempo para encontrar a maldita 
cassete.

Ellie ouvia e compreendia, mas estava muito longe de acreditar. No tinha dificuldade em concordar que Theresa era falsa, desonesta e at 
talvez perigosa. Mas a acusao de Gordon de que ela armara uma cilada aos dois e que ia cobrar um preo pelo seu silncio era dar demasiado 
crdito  rapariga. Tinha de ser uma espcie de gnio doentio para os ter estado a manobrar durante o Vero.

- D-lhe s alguns dias - pediu Gordon. - Uma semana, no mximo. Est a ficar sem tempo se pensa aceitar aquela bolsa. Dentro de uma semana 
h-de encontrar uma maneira de nos dizer o que nos vai custar. juro-te! Foi uma cilada! Ela vai prov-lo por mim.

Ela acenou com a cabea, no em concordncia, mas simplesmente para indicar que ouvira.

- Vou at ao clube para ver os meus filhos. - Pegou nas chaves do carro de cima da mesa junto  porta da frente e depois pensou em pegar nos 
culos de sol para esconder os olhos vermelhos.

- Vou contigo - ofereceu-se Gordon.

- No. Quero estar algum tempo sozinha. Vou pelo caminho mais longo.
- Passou por ele e comeou a descer as escadas.

- Ellie, por favor tem cuidado. Se te sentires mal, encosta.

Ela parou o tempo suficiente para lhe lanar um olhar de desprezo. Depois desceu as escadas e desapareceu de vista.

CAPTULO TRINTA E UM

Ellie ligou o carro com a ideia de ir at ao Clube, mas passou a estrada de 
acesso e continuou para norte at um caminho de areia sinuoso que levava at  beira de gua. 
Saiu do carro e foi a p at um afloramento rochoso de onde se conseguia ver o clube ao longe. Mais 
para sul ficavam as formas das grandes casas onde estava tambm a sua. 
Sentou-se e combateu a vontade de chorar; precisava de pensar.

A vista ajudava. Era como se estivesse a ter uma experincia fora do corpo, 
olhando para a paisagem onde os actos recentes da sua vida tinham decorrido. Os filhos estavam no clube 
e teriam de vir em primeiro lugar em qualquer deciso que tomasse. Gordon estava em 
casa, a agonizar em relao ao futuro. Ela amara verdadeiramente o marido e, mesmo quando comeara a 
compreender que ficaria sempre em segundo lugar nas ambies dele, nunca pusera em questo o 
compromisso de passar o resto da vida com ele. Quando ele precisava de espao, ela encontrava um 
pouco de espao para si prpria.

Desconfiara que ele tinha outras mulheres, mas optara por no procurar provas. Se examinasse a roupa 
suja em busca de vestgios de bton e lhe revistasse os bolsos em busca de 
recibos de hotel, havia sempre a possibilidade de encontrar o que procurava. E isso levaria 
ao detective particular que, mais cedo ou mais tarde, a confrontaria com as imagens chocantes que 
simplesmente no podiam ser ignoradas. Optara por no saber nada que levaria 
forosamente ao fim do casamento. Porqu? Porque  que no queria saber?

Ellie deu por si a lanar seixos atravs da gua desde o seu poleiro. Porqu? Porque 
era cobarde e no suportava a possibilidade de um confronto? Talvez, mas confrontara frequentemente 
Gordon a respeito de outros assuntos. Ou seria por causa dos filhos? Ela e Gordon tinham tido sempre 
cuidado para que os filhos nunca assistissem aos momentos difceis do casamento. Talvez tivesse

 187

receio de que as discusses acesas pudessem pr em perigo o sentido de segurana dos seus filhos. No havia 
dvida de que faria quase tudo para que no perdessem o pai.

Mas havia mais. Apreciava um sentido de segurana irresistvel. Como mulher de Gordon, tinha fcil acesso a 
tudo o que queria e a todos os recursos necessrios para seguir a carreira que tanto apreciava. O seu estatuto 
seria drasticamente alterado por um divrcio. No sabia se era suficientemente forte para comear de novo, 
mesmo com um rendimento muito generoso.

Mas agora o confronto parecia inevitvel. Talvez conseguisse ignorar o egosmo humilhante dele - a sua total 
devoo apenas aos seus projectos, pelo menos durante as semanas que faltavam at  eleio. At podia ser 
capaz de manter uma relao no sincera com outra mulher que estava ao lado dele

num momento de grande necessidade. Mas a seduo de uma jovem praticamente com metade da idade dele. 
Algum mais prximo da filha do que ela dele.
Isso parecia mudar tudo. Como  que suportaria um homem capaz de tal coisa? Ou amar algum que fizera uma 
coisa to obscena? No prometera a Theresa, proteco quando a levara para casa dele? E depois violara 
grosseiramente essa confiana? Apertou os olhos num esforo intil de fechar a imaginao. No queria ver 
os dois juntos com Gordon como parte forte e demasiado poderoso e Theresa uma criana assustada que sabia 
que tinha de agradar ao patro. Como  que podia continuar a viver com um homem assim?

Lembrou-se da busca incansvel dele ao vdeo, Ela pode ter copiado as 
notas ou ter-sefotografado a si prpria no 
computador, avisara-a Gordon. A preocupao dele por ela fora uma mentira descarada. Ele 
sabia o que ela copiara e sabia exactamente o que diria sobre ele. O sacana! Tudo o que queria era destruir a 
prova do seu pecado.

Ser que alguma vez lhe teria dito? Duvidava. No era um caso com uma mulher razovel que ele podia 
esperar que a sua mulher compreendesse e perdoasse, Tratava-se do abuso de uma criana e isso era 
imperdovel, Era um acto puro de luxria e no havia forma de ele o poder explicar.

Ela no queria explicaes, Queria a rapariga fora de casa agora e no ao fim de uma semana. E queria o 
marido na outra ponta da casa onde no pudesse esticar a mo para lhe tocar, Depois podia deixar que os 
acontecimentos seguissem o seu rumo. Se Theresa mostrasse uma cassete que destrusse Gordon, no era mais 
do que ele merecia. E se reivindicasse co-autoria na tese, ento a cara direco de doutoramentos teria de 
distinguir os casos. O seu ponto forte era que poucas universidades se dariam ao trabalho de embaraar a 
mulher de um congressista. Mas, pela mesma lgica, nenhuma universidade se sentiria forada

188                           

a salvar a reputao da mulher de um molestador de 
crianas. Por isso, decidiriam provavelmente que atribura demasiado trabalho a uma assistente. E, nesse 
caso, Ellie teria simplesmente de se habituar  ideia.

Mas ser que conseguia afastar-se de toda a estrutura de apoio da sua vida? Conseguiria 
deixar para trs a herana colonial para encontrar uma escola numa cidade qualquer de vaqueiros? 
Ser que conseguia desistir da casa de Newpon, do seu lugar no Cape? Conseguiria 
ser feliz com um homem que no tivesse nascido em bero de ouro e no fosse uma 
estrela em ascenso na vida pblica? Ellie sabia que toda a sua vida, fora privilegiada. 
Ser que conseguiria sobreviver apenas com o normal do dia-a-dia?

Tinha de ser, que raios! Algumas coisas eram imperdoveis. E dormir com a babystter na 
casa que partilhava com a mulher e com os filhos atingia certamente esse nvel. Ela 
seduziu-me! Ela armou-me uma cilada! Desculpas 
fracas para um homem que estava habituado a tomar decises. Desculpas patticas de algum que sempre 
soube como assumir o comando da situao.

Theresa, no era nenhuma criana desesperada, isso ela conceda-lhe. A mida era esperta e no apenas 
na escola. Tinha as manhas da rua para manobrar as pessoas e dispor os acontecimentos de 
forma a conseguir o que queria, E tinha o equipamento. No se podia negar que fosse 
atraente. A Mata Hari teria dado tudo por um corpo como o de Theresa.

Depois havia a cassete: era uma espada de dois gumes. Provava que Gordon estivera na cama com a 
rapariga, mas a sua prpria existncia provava que o acontecimento srdido fora 
ideia de Theresa. Se Gordon lhe tivesse arrancado a roupa, no fazia sentido que um dos 
dois tivesse parado para ligar uma cmara de vdeo. A cassete era realmente a melhor 
defesa de Gordon. Se  que existia uma cassete!

Tinha todas as provas de que precisava para uma raiva assassina, mas 
havia tambm algumas circunstncias que, a serem verdade, seriam claramente 
mitigantes. Ellie pesou ambos os lados do caso na sua cabea 
ao voltar para o carro e enquanto se dirigia para sul na direco do clube.

Theresa estava a tirar os midos da gua, de volta para as torres e corredores do castelo de 
areia que tinham estado a construir. Os midos correram na direco do castelo. 
Theresa acenou a Ellie e foi na sua direco.

- Sente-se melhor, senhora Acton?
- Acho que sim - respondeu Ellie.

- Ia mant-los aqui por mais meia hora. Mas, se quiser, podemos arrumar j as coisas.

- No - respondeu Ellie, - Vou-me sentar aqui a observ-los. - Sentou-se e comeou a empurrar 
areia para cima dos dedos dos ps.

Theresa parecia preocupada.

  189

- Tem a certeza de que est tudo bem?

- Sim, est. Est tudo bem.

Theresa recuou alguns passos e depois foi a correr at Molly e Timmy. Ps-se imediatamente de joelhos 
com eles, tirando ps de areia molhada para o projecto de construo.

Porque  que o Gordon no havia de se sentir atrado por ela?, pensou Ellie enquanto espreitava por cima 
dos culos de sol. Ela  inteligente, enrgica e bela. Ele s precisaria de um pouco de encorajamento e 
Theresa devia certamente saber como ser encorajadora.

Mas tinha apenas 19 anos, legalmente um adulto mas ainda prxima da nfncia. Ellie observou-a a rir e a 
brincar enquanto fazia buracos na areia com Molly e Timmy, Parecia to  vontade no mundo deles e to 
desajeitada em torno dos adultos. Independentemente do que estava a acontecer, Gordon devia ter sido 
capaz de lidar com a situao.

Em casa, continuou a usar culos de sol ainda que o Sol j se tivesse posto e a iluminao do alpendre 
fosse fraca. Estava claramente trancada dentro de si prpria, sentada em silncio junto das conversas e 
oferecendo apenas respostas monossilbicas. Esperaria at os midos se deitarem. Chamaria ento Gordon 
e Theresa  sala de estar e esclareceria tudo. Dir-lhes-ia que sabia o que se passara. Depois sugeriria a 
Theresa que fizesse as malas para que pudesse partir com Gordon quando ele voltasse para a cidade. 
Quando ficasse a ss com o marido, pedir-lhe-ia para ficar no apartamento at resolver o seu prximo 
passo, Gostava da ideia de os mandar embora juntos no mesmo carro. Era provocador, como que a dizer-
lhes que fizessem o que quisessem um com o outro porque isso j no lhe dizia respeito a ela.

Theresa levou os midos para cima para tomarem duche. Gordon estava extremamente solcito em ajud-la 
com a loia.

- Sentes-te melhor? - perguntou-lhe ele a certa altura.

- Excelente - respondeu Ellie, cortando qualquer esperana de conversa. Depois ouviu a flauta e ficou 
imvel a ouvir. Gordon saiu da cozinha para ficar mais prximo das escadas. Era a mesma melodia triste 
que Theresa tocara algumas noites atrs. Mas agora estava menos fluida. A sua emoo parecia muito mais 
superficial.

 a Molly. - anunciou Gordon. No,  a Theresa.

Ouviram juntos durante vrios segundos e depois Ellie concordou de repente:

-  a Molly. - Saiu da secretria e ficou de p junto s escadas, ao lado de Gordon. -  inacreditvel. A 
Molly sabe mesmo tocar.

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Houve uma nota mal tocada, A pea parou e houve a repetio da parte transgredida, desta vez acertada.

- Aprenderam tanto com ela - disse Ellie a respeito da rapariga que tencionava expulsar de casa. Na sua 
mente, os argumentos comearam novamente a misturar-se. O que diria s crianas quando 
mandasse a professora deles embora de repente? O que lhes diria quando 
no voltassem a ver o pai?

Theresa no desceu as escadas. Adormeceu simplesmente com as crianas e Ellie recebeu de bom grado a 
suspenso momentnea do terrvel confronto,
- Vou-me deitar - anunciou ela sem preliminares e comeou a subir as escadas.

- Tenho muita coisa para fazer - disse-lhe Gordon. - Vou ficar c em baixo.

- obrigada - respondeu Ellie num tom que no parecia nada grato.

De manh, ficou satisfeita por ver que o marido no se juntara a ela, mas tambm ansiosa por a contenda 
entre ambos no se ter tomado imediatamente bvia. No queria alertar Theresa de que o seu caso com 
Gordon fora descoberto nem queria criar qualquer ansiedade junto das crianas, Por isso vestiu-se 
rapidamente, maquilhou-se e arranjou o cabelo. Mas estava atrasada, pois na cozinha encontrou 
Gordon j a servir o pequeno-almoo a Moily e Timmy e Theresa a preparar-lhes as coisas para mais um 
dia de passeio. Gordon, amarrotado e com a barba por fazer, era 
um anncio da descoberta que Theresa no podia ter deixado de notar, mesmo que ele no lhe tivesse 
sussurrado ao ouvido. E as crianas estavam invulgarmente caladas, sentindo provavelmente que havia 
algo de ominoso no ar.

Ellie praticamente nem acenou com a cabea aos hons-dias do marido e da ama. Foi directa  cafeteira, 
encheu uma chvena e anunciou que ia tomar o caf no alpendre. A campainha do 
telefone deteve-a no meio da sala de estar.

- Eu atendo - disse Gordon, satisfeito por ter alguma coisa para lhe dizer.
- No, eu atendo - disse Filie rapidamente num tom que lhe dizia para no se atrever a pegar no telefone. 
Calculou que a pessoa que telefonara no dia anterior podia estar a voltar com mais informao sobre os 
namoricos do marido. Queria as notcias em primeira mo.

- Senhora Acton?

- Sim.

- Ellie?

- Sim. Quem fala, por favor?
- Dr. Drury, da universidade.

O modo dela mudou no instante em que ouviu o nome do orientador.
- Oh, Dr. Drury- Desculpe por no o reconhecer. Estava... distrada.

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- No faz mal. Provavelmente  da hora. Mas queria apanh-la antes de comear um dia atarefado.

- Sim, claro. - Aqui vem, pensou ela. No est a telefonar s oito da manh para discutir um ponto de anlise.

Gostava que nos encontrssemos durante os prximos dias. Penso que devamos estudar a... ch... alegao de 
que usou o trabalho de outra pessoa. Uma forma educada e acadmica de dizer as acusaes 
de que  uma fraude, sabia Ellie.

- Sim claro. A qualquer hora. Estou livre toda a semana.

- Maravilhoso - disse ele. - Receio que tenha havido outro telefonema, pelo que o comit de credenciais no se 
pode limitar a ignorar o assunto. Se pudermos falar sobre isso, poderei relatar que no h nada de anormal 
quando a direco se reunir no final do ms.

- Estou ansiosa por esclarecer tudo e pelo nosso encontro. - Na verdade, estava cheia de medo, mas sabia que 
era inevitvel.

- E ser que  possvel trazer consigo todas as notas de rascunho? - acrescentou o Doutor Drury, quase como 
qualquer coisa de que se ia esquecendo. Apenas para demonstrar a sua origem. Claro.

Sentou-se no alpendre com a chvena de caf a tremer-lhe na mo, no de medo mas de raiva. Teria de levar 
Theresa consigo. O que podia fazer? Aparecer na audio e dizer que a assistente em questo no estaria 
presente porque fora despedida? Como iria explicar isso? "Sim, Dr. Drury, decidi 
deix-la ir-se embora depois de receber o seu 
telefonema." Iria parecer que estava a encobrir qualquer coisa. Tambm lhe podia dizer que 
as suas notas tinham cado acidentalmente na mquina de cortar papel.

Assim, no podia haver confronto. Gordon voltaria para a cidade sem levar todas as coisas com ele. E Theresa 
continuaria a tomar conta dos midos. Estava ultrajada mas, de certa forma, aliviada porque a deciso fora 
tomada por ela. Durante pelo menos uma semana estaria fora das suas mos.

Talvez devesse passar algum tempo a procurar de forma intensiva a cassete de vdeo. Talvez devesse revistar 
o quarto de Theresa seco por seco para ter a certeza de que nada lhe escapava. E talvez, como Gordon 
sugerira, Theresa arranjasse uma forma de lhe dizer exactamente quanto  que a sua colaborao lhe ia custar.

CAPTULO TRINTA E DOIS

Na quarta-feira ela soube o preo. Ellie passara a manh a revistar cuidadosamente os armrios dos filhos. 
Nunca fizera qualquer tentativa para os endireitar e nenhum dos filhos procuraria por entre o lixo que 
tinha, nem mesmo para encontrar um brinquedo. Eram esconderijos perfeitos para algum que tinha 
acesso sem restries a eles.

A busca de hoje, tal como a do dia anterior, resultara em mos a abanar. No dia anterior o problema fora 
deixar a prateleira dos livros de Theresa na mesma ordem em que a encontrara. O problema de hoje era 
deixar os armrios dos midos num caos total embora sentisse uma enorme vontade de ordenar e empilhar.

Fora interrompida apenas uma vez, por um telefonema de Gordon, que despachara com o mnimo de 
respostas monosilbicas. Ele fora terrivelmente solcito, determinado a demonstrar o seu afecto, mas ela 
no queria saber de nada disso. Ao desligar, percebera que as coisas nunca poderiam voltar  normalidade 
entre ambos e esse pensamento fortalecera a sua resoluo de mandar Theresa embora assim que 
terminasse o encontro com Dr. Drury, provavelmente algures no fim-de-semana seguinte.

Estava sentada  secretria quando as crianas entraram apressadamente pela porta seguidas de perto por 
Theresa. Quando Ellie se lhes juntou na cozinha, j estavam a barrar manteiga de amendoim no po 
enquanto Theresa punha os pratos e servia o leite. Depois os midos levaram o almoo para o alpendre, 
deixando as duas mulheres juntas na cozinha.

- Theresa, lembra-se de eu lhe contar o problema que estava a ter com a minha dissertao? - Com aquele 
comeo, Ellie revestiu a ideia absurda de que fora Theresa quem escrevera o documento e explicava 
porque  que planeava encontrar-se com o orientador. - Sera til se l estivesse para responder a alguma 
pergunta que possa surgir - disse ela da forma mais casual que conseguiu.

  193

Claro - respondeu Theresa ainda mais casualmente.

- E pensei que o devamos fazer logo que possvel, antes que voc comece os preparativos para ir para a 
faculdade.

- Oh, no vou.

- Bem, mesmo que fique numa escola local - aconselhou Ellie. - Tem montes de coisas para fazer em 
poucas semanas.

- No vou para nenhuma faculdade - disse Theresa. - Mesmo com a bolsa, o dinheiro  muito pouco. 
Acho que quando j no precisar de mim,
tenho de arranjar um emprego a tempo inteiro. Talvez possa poupar qualquer coisa e daqui a um ano 
voltar a estudar  noite. Ellie no conseguiu esconder a sua surpresa.

- A no ser que saiba onde posso encontrar vinte mil dlares por a. A surpresa transformou-se em 
suspeita.

Vinte mil? - perguntou ela com cepticismo. - No pode ser assim tanto. Theresa suspirou.

- Bem, fica l perto. No apenas para a escola mas para toda a minha situao familiar.

Ellie manteve-se muito atenta. Sabia que Theresa no precisava de ser convencida a explicar onde fora 
buscar aquele valor.

- Costumava enviar dinheiro todas as semanas para o casal com quem vivi. No era muito, mas ao fim do 
ano chegava a cerca de dois mil e quinhentos. Eles no me pediram para continuar a mandar, mas sei que 
contavam com o dinheiro. Depois tenho de contar com as minhas despesas pessoais. Comida e roupa. No 
 muito quando estou a trabalhar, mas se for para a escola vou comer num bar.
E tenho de ter algumas mudas para vestir.

Ellie acenou com a cabea. os amigos dela com filhos na faculdade tinham-se todos lamentado dos custos 
infindveis. At a, Theresa parecia bastante realista.
- 
Depois h as propinas. Provavelmente no so to elevadas numa escola local, mas em Yale chegam a 
outros dois mil. E tambm tenho de pagar o seguro de sade porque no sou coberta pela minha famlia. -
Ellie sabia quanto  que isso era.

- Depois h os livros. Alguns dos manuais custam 60 dlares. E nem sequer se podem pedir emprestados 
porque mudam todos os anos. So outros mil. E ainda nem cheguei s mensalidades.

E a sua bolsa? Theresa riu-se da ironia.

-  do clube de alunos de Yale local.  de apenas cinco mil e s  vlida em Yale. Praticamente s cobre o 
alojamento. Por isso, independentemente de

194                       

para onde v, vou precisar de pagar crditos. Preciso de 24 por ano e so 50 a 100 dlares o crdito 
consoante o local para onde v.

Na sua cabea, Ellie estava j a chegar ao valor de vinte mil. Mais, se aceitasse a bolsa de Yale, menos se 
ficasse a tempo inteiro numa faculdade local. Mas, de qualquer das formas, Theresa fizera os trabalhos de 
casa. Ia custar-lhe tanto a ida para a faculdade quanto ia custar aos Mapleton manter Trish na faculdade. 
Com excepo de que Theresa no tinha ningum que a sustentasse,

- A no ser que acontea qualquer coisa maluca, no vou para lado nenhum - concluiu Theresa. - Por isso, 
posso ir consigo em qualquer altura. S preciso de saber o que devo dizer e o que no devo dizer na sua 
reunio.

Na profundeza das suas entranhas, Ellie compreendia agora exactamente o que Gordon lhe contara. 
Num minuto est afalar do dinheiro queprecisa 
e no minuto seguinte est a lembrar-me que 
tem vdeos de tudo. Era evidente. Por vinte mil, Theresa diria tudo o que Ellie 
quisesse, Gordon estava certo, ela pregara uma rasteira aos dois. Por vinte mil dlares por ano podiam ter 
a vida deles de volta.

No foi to abrupta quando Gordon voltou a telefonar mais tarde nesse dia.
- Acho melhor pensares em vir at ao Cape amanh. Temos de conversar sobre uma coisa.

- Ellie, espero que penses bem antes de tomares qualquer deciso. Tem de haver uma forma de te 
compensar.

- No  sobre isso. - A voz dela assumiu o tom de murmrio embora Theresa no estivesse  vista. - 
Lembras-te que estvamos ambos no mesmo problema e que dentro em breve eu ficaria a saber o preo?

- Sim. - No tinha a certeza onde ela queria chegar.

- Bem, descobri hoje. E acho que no o quero pagar. Pode afectar-te a ti por isso calculo que devamos 
discutir o assunto.

- Est bem - disse Gordon rapidamente, na verdade entusiasmado por ter alguma coisa que conversar com 
Ellie. - Estou num jantar hoje  noite, por isso vou dormir c e parto para a logo de manh cedo. Chego 
para um pequeno-almoo tardio. -

Fez melhor do que isso, Gordon virou para o caminho da entrada de casa um pouco depois das oito da 
manh, a tempo de fazer panquecas para os filhos. Manteve-se desocupado at Theresa partir para o 
clube com Molly e Timmy a reboque e depois levou caf at ao alpendre, onde se sentou perto da mulher.
- Vinte mil - disse Ellie sem preliminares.

- Em dinheiro?

- Em despesas escolares. Disse-me que no tinha dinheiro para a faculdade e descreveu-me um oramento 
muito pormenorizado, exibindo um total de vinte

 195

mil dlares. "A no ser que o dinheiro aparea como que por magia", disse ela. E no momento seguinte 
perguntou: "Ento o que  que quer que eu diga ao seu professor?"

- Simplifica muito as coisas - comentou Gordon. - Contou-me praticamente o mesmo. "No tenho dinheiro 
para ir para Yale. Sabe onde posso arranj-lo? E a propsito, tenho vdeos de tudo o que aconteceu 
este Vero."  tudo bastante directo. Podemos passar vrias noites a p a espera que Theresa lance uma 
bomba em cima de ns ou podemos pagar-lhe as contas e mand-la para a faculdade.

O rosto de Ellie afundou-se nas mos. - Que confuso! Que horrvel confuso!

Gordon arriscou pegar-lhe na mo e ficou em xtase quando ela no a afastou.

- No  assim to mau. Tenho dinheiro para isso - disse-lhe ele.

- Eu sei que tens, Gordon. Mas acho que no quero fazer parte disso.  pura chantagem. E vai continuar 
ano aps ano, o que  uma coisa que provavelmente eu no posso pagar.

Pestanejou face  declarao dela. Estava a dizer que ia pagar as suas prprias contas no prximo ano. 
Bem, ele podia lidar com o prximo ano. Mas no podia deixar acontecer nada at depois da eleio.

- Tens razo - disse ele. -  extorso. Ela  a criminosa, no ns. E vamos dar um passo de cada vez. No 
intervalo das aulas dela a meio do ano tu ters o teu doutoramento e a minha eleio estar decidida. No 
haver tanta coisa pendente. Daqui a um ano, qualquer coisa que aconteceu este Vero ser passado. 
Penso que, se conseguirmos aguentar os prximos seis meses, estaremos numa posio muito melhor. 
Acho que lhe devemos dizer que a vamos mandar para a faculdade.

- Saber exactamente porque  que o estamos a fazer - protestou Ellie.
- E ns sabemos exactamente o que ela est a fazer. No interessa. A Theresa sugeriu muito abertamente 
que lhe compremos o silncio. E vamos dizer-lhe, muito abertamente, que concordamos com o preo.

-  tudo desprezvel. Quem te ouvir at parece que no h certo e errado, Como se a nica coisa que 
contasse fosse o fluxo do dinheiro.

Gordon beberricou o caf.

-  desprezvel.  chantagem pura. Mas ns somos as vtimas e s estamos a tentar pr fim ao crime. Temos 
de aguentar os prximos meses, s isso. Mas prometo-te uma coisa. No vamos ser vtimas para sempre. 
Ns... tu e eu - corrigiu ele, no querendo desafiar a implicao de poderem no estar juntos no vamos 
ficar a pagar para sempre.

196                           

- Acho que no sou capaz de lhe dizer simplesmente que lhe vamos pagar o silncio - disse Ellie.

- No tens de lhe dizer nada. Eu trato do assunto. Limita-te a ficar a para que ela saiba que estou a falar 
pelos dois.

Ellie sabia que devia protestar. Mas limitou-se a acenar com a cabea.

Ele esperou que Theresa desse banho aos midos e lhes vestisse os pijamas.
- Quando terminar - disse Gordon - pode juntar-se a ns no alpendre? Queremos dizer-lhe uma coisa. - 
Sentaram-se pacientemente durante a lio de flauta de Molly e as exigncias interminveis de Timmy por 
um copo de gua.

Gordon tinha outra coisa em mente. Podia comprar Theresa, mas no tinha a certeza da posio que 
ocupava junto de Ellie. Cuidadosamente, experimentou a gua.

- Sei que no  desculpa - ofereceu ele  mulher - mas fui realmente atrado por ela. Escolheu a altura 
perfeita e sabia exactamente como conseguir o que queria.

- Isso fica para a prxima - disse Ellie.

- Est bem! Mas podes ver como  que ela te apanhou sem que suspeitasses de nada. Espero que tenhas 
um pouco de compreenso para a forma como ela me apanhou a mim.

- No ests a dizer que o que eu fiz  parecido com o que tu fizeste?

- S estou a dizer que ela sabia como te apanhar e sabia como me apanhar a mim. Espero que acredites 
que no era uma coisa que eu queria que acontecesse. Theresa foi at ao alpendre com um 
refrigerante.

- A dormir profundamente - anunciou ela alegremente, referindo-se as duas crianas. Ellie e Gordon 
trocaram olhares. O aceno de cabea de Ellie disse-lhe que estava pronta para que ele fizesse a oferta,

- Theresa, soube atravs da senhora Acton que mudou de ideias a respeito da faculdade. Ela disse-me que 
vai adiar os planos.

Theresa acenou com a cabea.

- No  o que gostaria, mas penso que  a nica coisa que posso fazer.
- Quando fomos andar de barco - continuou Gordon - disse-me que no tinha dinheiro para Yale. Mas 
pensei que planeava tentar uma faculdade local.

Ela encolheu os ombros.

- Pensei nisso at somar todos os custos.

- Temos estado a discutir o assunto - disse ele com um olhar na direco de Ellie. - E somos ambos da 
opinio de que est a cometer um erro. A bolsa para Yale  uma verdadeira porta que se abre para si.  
uma oportunidade nica na vida.

 197

Theresa olhou confusa primeiro para Ellie e depois para Gordon.

- Eu sei, mas por vezes as coisas no funcionam.

- Queremos que v para Yale. A senhora Acton e eu suportaremos a diferena. Pagaremos as despesas da 
escola e abriremos uma conta para cobrir as suas outras necessidades.

Theresa deixou-se cair para a cadeira,
- No podem... no est certo.

Podemos - disse Gordon. - Tivemos muita sorte e o seu xito  muito importante para ns. V para a 
faculdade. Ns preocupamo-nos com as contas. Theresa olhava de um lado para o outro. Com os olhos 
esbugalhados de espanto.

- No os posso deixar fazer isso. No foi por isso que vos contei. Quero dizer, vocs so como se 
fossem da famlia e por isso podia contar-vos o que se passava pois compreenderiam. A minha famlia e os 
meus amigos no 
compreenderiam do que estava a falar. Vinte mil dlares  mais do que algum na famlia alguma vez teve. 
Mas eu no estava a sugerir.. nem a pedir? No posso , aceitar esse dinheiro todo.

I, Ellie estava quase convencida de que a oferta apanhara a rapariga completamente de surpresa. Gordon 
estava a enfurecer-se por estar a ser testemunha de uma cena emocional fingida.

- Queremos pagar os custos. Disse vinte mil e ns pagaremos vinte mil. Por isso faa o que tem de fazer 
para se preparar para Yale.

A rapariga devia ter ficado elegantemente satisfeita. Acabara de bater os seus patres financeiros no 
court de tnis deles. Ou, se continuasse a desempenhar o seu papel, devia talvez ter ficado 
com os olhos rasos de gua de gratido. No entanto, ficou antes com ar de embarao, como se a oferta de 
vinte mil dlares fosse um insulto cruel.

- Pensei que nos podamos encontrar com o meu conselheiro na sexta-feira. O senhor Acton pode ficar c 
a tomar conta dos midos. - Gordon no sabia o seu programa para sexta-feira, mas sabia que o ia cancelar.

Theresa acenou com a cabea.
- Est bem...

- E eu gostava de ver aquele vdeo, que ia mostrar ao Donald - acrescentou Gordon com o seu melhor 
sorriso poltico. - Deve ter muito orgulho dele. Ela voltou a acenar com a cabea.

- Ento est tudo decidido - anunciou Ellie.

Gordon levantou-se para indicar que a reunio terminara. Theresa ergueu-se lentamente.

- Acho que vou dar uma volta at  praia, se no houver problema.

198                          

- Claro - disse-lhe Ellie.

- Talvez me demore um pouco. Tenho muito em que pensar. Por isso, se no voltar, deixem a porta da 
frente aberta, por favor. - Empurrou a porta de rede, mas depois voltou-se para trs. - Nunca me 
aconteceu nada assim. No sei se o posso aceitar. O dinheiro, quero eu dizer. Mas nunca esquecerei que 
mo ofereceram.

Ficaram ambos a sorrir como pais encantados at ela desaparecer na escurido. Depois Gordon abanou 
lentamente a cabea.

- Ela  boa. Tenho que admiti-lo.

- Meu Deus, sinto-me corrompida - acrescentou Ellie. - Ela no era a nica a representar. Mal comeou e j 
estamos a viver uma mentira.

- Trata-se apenas de um acordo de negcios - disse ele na defensiva. Ela vai aceitar o dinheiro e dizer 
depois ao teu orientador que  analfabeta.  apenas o pagamento por um servio.

o olhar de Ellie era gelado e ele lembrou-se qual era o servio que estava a pagar.

- Importas-te que no esteja presente quando ela te mostrar a cassete? disse Ellie, voltando-lhe as costas.

Esperaram ambos que Theresa voltasse de ponderar o futuro. Os olhos dela estavam brilhantes, de um 
azul-transparente que contrastava com o sorriso de um branco puro.

- Estou to excitada - disse ela. - Sei que nunca vou ser capaz de vos agradecer o suficiente. Mas vou 
fazer o mximo para que tenham orgulho do que me deram. Vou mesmo.

Ellie apeteceu-lhe lanar os braos em torno da rapariga, mas desconfiava que o entusiasmo juvenil fora 
to cuidadosamente ensaiado quanto a gratido estonteante. Gordon no conseguia parar de pensar que 
ela era a artista vigarista com mais talento que j encontrara.

- Tem aquele vdeo? - perguntou ele, sem esquecer o acordo de negcios.
- Oh, claro. Vou busc-lo. Vo ambos divertir-se imenso,

Subiu as escadas a correr deixando Ellie e Gordon emudecidos e voltou num instante, de cmara de vdeo 
na mo.

- A cassete de oito milmetros ainda est na cmara, por isso podemos lig-la  televiso - E comeou a ligar 
os fios.

- E a cpia que fez? - perguntou Ellie em voz alta.

- Oh, mandei-a para os meus pais adoptivos. Gostam de saber o que ando a fazer. Sabiam que eles 
costumavam ir a todos os meus concertos?

Ps a cassete para que Ellie e Gordon vissem, disse boa noite e desapareceu pelas escadas acima. Cenas 
das crianas a brincar comearam a encher o ecr,

  199

seguidas de fotografias das actividades no clube, dos jogos e das crianas em casa. Havia sequncias 
panormicas do clube, mostrando as suas instalaes e depois longas sequncias da casa filmadas da praia. Pelo 
meio havia imagens em que a cmara ficava simplesmente ligada, apanhando todas as crianas a brincar.

Numa dessas imagens, Theresa saiu da gua, caminhando na direco da cmara, de biquini branco. A garganta 
de Gordon ficou mais apertada. Fora assim que ela caminhara at ele momentos antes de o levar at ao quarto.
As imagens pararam e a televiso exibiu o rudo electrnico de fita vazia a passar por cima das cabeas do 
vdeo. Ficaram a observar as marcas indistintas durante um minuto inteiro embora ambos soubessem que a 
pndega dela com Gordon no estaria l. Porque  que ia querer embara-los agora que tinham concordado 
em pagar-lhe o dinheiro? As provas estariam na cpia que enviara para casa em segurana.

Gordon mencionou o dia atarefado que tinha pela frente e perguntou-se em voz alta se devia passar a noite l 
ou voltar para a cidade. Ellie sugeriu que voltasse para a cidade. Vira a imagem de Theresa de biquini e a 
simpatia pela situao do marido voltara a incendiar a raiva e o ressentimento. Ele estava muito longe de ser 
recebido de novo nos seus braos.

CAPTULO TRINTA E TRS

O Dr. Drury estava claramente embaraado por estar a interrogar uma aluna com a formao e credenciais de 
Ellie. Aludiu vagamente a um telefonema e mostrou timidamente registos de biblioteca que o seu gabinete 
pedira a Harvard e Brown.

- Tommos isto apenas como uma tentativa de lanar veneno. Com o seu marido a candidatar-se ao Congresso, 
suponho que manchas deste tipo sejam lamentavelmente de esperar.

Ellie sorriu abertamente para mostrar que compreendia e que no estava de nenhuma forma ofendida com o 
inqurito.

- Mas quando a pessoa ao telefone sugeriu que verificssemos os registos de biblioteca para ver quem estava 
realmente a fazer o trabalho, tivemos mesmo que investigar. E depois veio-se a ver que outra pessoa 
qualquer fizera grande parte da investigao. - Empurrou as respostas da biblioteca atravs da secretria macia 
para que Ellie as inspeccionasse. Ela viu cpias do seu carto com a assinatura de Theresa.

- Parece - continuou Drury - que o trabalho que cita foi, na verdade, pesquisado por uma menina Santiago.

Ellie acenou rapidamente com a cabea.

- Sim, claro. Theresa Santiago  a minha assistente. Ela est l fora no hall pronta para responder s 
perguntas que quiser colocar.

- Sua assistente? - Fez a pergunta como se a ideia fosse um pouco estranha.

- Sim. Reparei que muitos professores aqui enumeram numerosos assistentes de investigao no seu trabalho.

Drury sorriu. H anos que no investigava ficheiros para os seus documentos. Tinha um fornecimento 
constante de alunos licenciados ansiosos que lho

  201

faziam como parte do plano de educao. At pagavam uma mensalidade pelo privilgio.

- Sim,  verdade, e suponho que no haja nada de errado no facto de uma candidata a um doutoramento ter uma 
assistente.  apenas muito invulgar.

- Na realidade, Theresa  a minha ama. Mas  muito mais rpida do que eu no computador e passou assim 
para uma disquete muitas das minhas referncias. E fez-me alguns recados de biblioteca para obter material que 
no conseguamos encontrar atravs do computador.

- Uma ama? - Drury estava divertido.

- Est a tirar um bacharelato e espera arranjar dinheiro para a faculdade. Tendo em conta o meio de onde veio, 
conseguiu um grande feito. - Depois Ellie contou ao professor a falta de vida familiar de Theresa e as suas 
faanhas surpreendentes em informtica e msica. Colocou a tnica no meio hispnico e na pobre qualidade das 
escolas pblicas da zona dela, transmitindo a impresso de algum que, embora tivesse superado as 
expectativas, nunca conseguiria lidar com trabalho de nvel superior. E evitou mencionar uma bolsa para Yale 
precisamente porque a honra indicaria que no se tratava de uma rapariga qualquer de liceu.

- Ento estava, na verdade, a poupar-lhe o trabalho de ir at Boston e Providence - concluiu Drury.

- Sim - concordou Ellie. - Isso e a poupar s bibliotecas uma destruio que os meus filhos causariam se os 
levasse comigo enquanto andasse a investigar nas prateleiras.

Ele olhou resumidamente para as notas e esboos que Ellie levara.
- E isto est tudo na sua letra - disse ele a respeito das notas.

Ellie esmerou-se, pedindo desculpa em alguns casos pelos gatafunhos. Pusera cuidadosamente de parte a 
maioria das notas escritas com a letra muito mais legvel de Theresa, deixando apenas as que no transmitiam 
uma verdadeira anlise.

- Bem, gostava de conhecer esta jovem - disse Drury fazendo com que o seu pedido parecesse mais social do 
que profissional.

Quando Theresa entrou na sala, Ellie percebeu pela primeira vez o cuidado que ela tivera a vestir-se para a 
ocasio. Uma camisola, por cima de calas de ganga amarrotadas, e alpargatas, no faziam dela uma jovem mas 
sim quase uma criana. E a sua entrada quase que provocou vontade de rir. Entrou com um ar espantado por 
Drury ter um gabinete to grande, deslumbrada pelos leos originais que pendiam da parede e com receio de 
pisar a carpete oriental que rodeava a secretria dele. Quando se sentou na cadeira a ela destinada, exibiu um 
sorriso ensaiado e depois concentrou-se nos dedos para evitar estabelecer contacto visual com o acadmico 
austero.

202                         

No exageres, pensou Ellie para si mesma.

Drury elogiou Teresa por ser uma ajuda to grande para a senhora Acton e perguntou-lhe se, no 
processo, aprendera alguma coisa sobre investigao.
- Acho que sim - respondeu Theresa estupidamente, como se quisesse ficar por a.

Drury pediu pormenores e Theresa decidiu que aprendera aquilo que se pode encontrar na Internet. A 
senhora Acton mostrara-lhe como colocar questes nos motores de busca. A biblioteca era bastante 
semelhante  que tinha no liceu, s que muito maior e mais confusa. Felizmente, a senhora Acton dissera-
lhe exactamente o que precisava e os bibliotecrios tinham sido muito prestveis. No fundo, fez soar como 
se no tivesse feito nada que Molly no tivesse feito se alunas do 1 Ciclo do Ensino Bsico tivessem carta 
de conduo. Ellie esperava quase que o professor fosse  secretria e oferecesse um chupa-chupa  
rapariga.

- Bem,  tudo - disse Drury levantando-se para assinalar o fim da reunio.
- Cumpri o meu dever para com o tesouro sagrado que guardo - anunciou ele sarcasticamente. - E espero 
que com o mnimo de inconvenientes para si.

- Ento posso continuar com o meu esboo final e entreg-lo no prazo combinado?

- Certamente - respondeu ele, dando a volta  secretria. -  bastante bvio que se tratou de uma calnia 
eleitoral e que esta jovem no  uma escritora fantasma. Vou poder dizer  direco que investiguei as 
acusaes e as considerei no s infundadas como tambm ridculas. - Depois murmurou para Ellie: - 
Dizer-lhes que a sua assistente de investigao , na verdade, a sua 
babystter deve colocar todo o assunto no devido lugar.

Ellie nem conseguiu olhar para Theresa enquanto se dirigiam para o carro. Sabiam ambas que a reunio 
fora uma pardia do papel importante que a rapariga desempenhara na sua dissertao. Mais ainda, Ellie 
sabia que o papel de garota de rua muito limitada fora embaraoso para Theresa. Mas concluiu tratar-se do 
mesmo tipo de representao que Theresa usara para se enfiar dentro de sua casa. E por vinte mil dlares 
estava certamente a sair-se melhor do que actores profissionais.

Quando chegaram a casa, Gordon estava com Molly e Tinimy na praia privada. Theresa trocou de roupa e 
foi at l abaixo alivi-lo e depois ele juntou-se a Ellie no alpendre para um cocktail de fim de 
tarde. Ellie contou-lhe a reunio com Drury. A descrio que fez de Theresa levou Gordon a abanar a 
cabea.

- Acho que quando se tem que mentir por necessidade se fica muito bom nisso,

Ellie concordou.

- Ela  boa. Provavelmente a melhor!

  203

- Bem, estamos a pagar para termos o melhor - lamentou-se Gordon. Enviei o cheque de depsito para Yale. 
Cinco mil adiantados e o resto em quatro prestaes. Mas h benefcios adicionais.

Ellie mostrou toda a sua ateno.

- Tudo pode ser deduzido. O advogado da empresa est a fazer com que tudo parea uma doao para 
caridade. Acreditas que a Theresa vai ter uma fundao com o nome dela?

- Isso  legal? Ele riu-se.

Provavelmente no, mas para isso  que temos um departamento legal. E o outro benefcio chega no dia das 
eleies. O Henry diz que estou prestes a ganhar toda a vizinhana do distrito. Estou muito perto at da zona 
de Theresa e o Henry pensa que a notcia da bolsa faz de mim um heri da vizinhana. Defensor dos oprimidos 
e assim por diante.

- Parabns - disse Ellie com mais sarcasmo do que elogio. Podia estar a trabalhar em conjunto com Gordon para 
salvar as carreiras de ambos, mas estava ainda muito longe de o perdoar, Ele percebeu a mensagem e pousou 
a bebida para indicar que se ia embora.

- Tenho s que analisar uns documentos com ela, O currculo que ela tem que entregar. A sua preferncia no 
que diz respeito a alojamento. E alguns documentos legais relacionados com o fundo. Depois volto para a 
cidade.

- Porque  que no te encontras com ela no alpendre? Escuso de vos ver juntos.

Ele trocou de roupa, reuniu os papis e encontrou Theresa no topo das escadas. Fez a melhor imitao de um 
funcionrio pblico enquanto lhe indicava o que tinha de ler e assinar e referia as datas de entrega de certos 
impressos, Durante todo o processo, nunca a olhou nos olhos.

De repente, deu-se conta de que a mo dela estava a tocar na sua. Quase se afastou de um salto,

Ela sabe, no sabe? - anunciou Theresa. Gordon olhou para trs vagamente.

- Ontem, no gabinete do professor, vi dio nos olhos dela. Odiava-me por que precisava da minha ajuda, E 
agora o senhor odeia-me porque ela o est a culpar.

Ele ergueu o livro de cheques no ar.

- Isto parece-lhe que algum de ns a odeia?
 -  por isso que o esto a fazer, no ? Esto a mandar-me para a faculdade para no ser um embarao para 
vocs, - Apontou para o cheque. - Trata-se, na verdade, de um pagamento, no ?

204                            

- No seja ridcula. Porque  que...

- Porque eu nunca causaria problemas a nenhum de vocs. Foram ambos muito bons para mim. A ela estou-lhe grata e... estou apaixonada por si. 
Gordon contorceu-se de frustrao. Parte de si queria estrangul-la por se ter apoderado das suas vidas; outra parte queria abra-la. E outra 
parte ainda precisava de lhe explicar porque  que no podia estar apaixonada por ele. No meio de tudo isso:

- Por favor, Theresa. No diga essas coisas - Foi tudo o que conseguiu dizer. Reuniu os documentos assinados e enfiou-os no bolso. Depois foi para 
dentro e beijou a filha.

Ellie estava  secretria quando ele voltou pela sala de estar.

- Vou-me embora - disse ele e hesitou para ver se havia alguma reaco.
- Faz boa viagem - murmurou ela sem levantar os olhos do trabalho. Era algo que diria a um moo de entregas.

Estava de volta ao apartamento na baixa da cidade a estudar o itinerrio e a dar-se conta de que no estava comprometido com um nico 
acontecimento social ou poltico durante todo o fim-de-semana. De facto, j tinham acabado as preliminares. S voltaria a estar envolvido a tempo 
inteiro na corrida para o Congresso no Dia do Trabalhador.

Seria uma altura perfeita, pensou ele. Ellie estava a acabar a tese, Theresa estaria a caminho da escola. Teriam um ms inteiro para se 
dedicar um ao outro e aos filhos.

Talvez fosse assim que devia apresentar as coisas a Ellie. Podia passar alguns dias a limpar a secretria na empresa. Depois poderia dedicar todo 
o tempo a ela como um pedido de desculpa pelas suas transgresses.

- Pelo menos d-nos uma chance - dir-lhe-ia ele. - No quero que o nosso casamento termine com rancor. E no quero que nenhum de ns o 
abandone. Passemos o resto do Vero a apaixonarmo-nos um pelo outro de novo.

No fundo, sentia que Ellie queria realmente perdoar-lhe. Ela prpria j tivera experincia com Theresa e, no mnimo, tinha de saber que o lapso 
momentneo dele no fora totalmente culpa sua. Mas ela no podia limitar-se a dizer "Est bem", porque no podia tornar trivial o que 
acontecera na sua prpria casa. Precisava de uma razo, de um acontecimento que a ajudasse a vencer a dificuldade. Alguma coisa tinha de 
tornar possvel ela dizer: "Eu perdoo-te, Gordon. A srio,", e um pouco depois disso seria capaz de dizer: "Amo-te."

Talvez uma viagem, pensou ele. Trs semanas num lugar qualquer que ela adorasse. Seria muito mais especial do que ele ir simplesmente para a 
casa do Cape. E podia especificar quartos com camas duplas. Isso permitr-lhe-ia pelo menos voltar a entrar no quarto.

  205

Ou uma prenda, Podia comprar-lhe outro anel de noivado para oferecer

com um carto que dissesse simplesmente: <Desculpa.>, Isso facilitar-lhe-ia a ela a tarefa de dizer: "Vamos 
tentar de novo,", e a ele a promessa de que, desta vez, no ra cometer erros.

Na sua concentrao foi-se apercebendo gradualmente de que o telefone 
estava a tocar. Levantou o auscultador de forma ausente,

Est l? - E depois sentou-se muito direito quando ouviu a voz dela. Sou eu - disse Theresa.

- Theresa. O que foi? Aconteceu alguma coisa? No, precisava apenas de falar consigo.

ii Ele levou a mo  cabea.

Theresa, no pode telefonar-me pessoalmente. A senhora Acton nunca compreenderia.

Ela no vai ficar a saber.

Ela recebe a conta do telefone e vai lembrar-se de que no estava a falar ", comigo, nesta altura.

No estou em sua casa. Disse-lhe que tinha de comprar umas coisas para poder telefonar do 
supermercado. No h problema. Sei o que estou a fazer.

o telefonema era perigoso no melhor dos casos. No pior, podia ser uma tentativa de o envolver ainda mais.

No posso falar consigo, Theresa. No assim.

Ento como? Porque preciso de falar consigo. A ss! As palavras dela assumiram um 
tom ominoso.

- Porqu? O que  que temos para falar?

- No posso ir para a faculdade. No agora! Ele escutou de boca aberta.

- Acho que estou grvida - disse ela.
- Oh, Jesus...

- E preciso de saber o que fazer.

CAPTULO TRINTA E QUATRO

Ele sabia que era verdade. E depois, dez minutos mais tarde enquanto percorria o apartamento de um lado 
a outro, teve a certeza de que ela estava a mentir. Estava apenas a subir a parada, a dar-lhe um motivo para 
gastar mais dez ou vinte mil com ela.

- Preciso de saber o que fazer - disse ela e essa era uma mentira descarada. Theresa sabia exactamente o 
que fazer e provavelmente j o fizera uma ou duas vezes. Ele no fora o seu primeiro amante. Talvez no 
fosse a primeira vez que ela se metia em sarilhos ou, pelo menos, que pensava que se metera. 
Havia apenas duas opes.

O que ela estava a dizer realmente era:

- No sei o que vais fazer. - E, independentemente do que ele decidisse, isso iria custar-lhe 
dinheiro. Muito dinheiro.

Razo pela qual estava bastante certo de que no era verdade. A sugesto apenas j o obrigaria a 
entregar o dinheiro e provavelmente  vista. Ela sabia que ele nunca iria passar um cheque para uma 
clnica de abortos. Nem sequer ia querer o nome dela no registo dos 
pacientes. E certamente que no a podia financiar ao longo de toda a gravidez at ao 
parto. Isso envolveria preparativos que Ellie descobriria e deixaria uma pista de documentos de 
que os seus adversrios polticos se aproveitariam. Sabia como seria a conversa. Se no 
quer o seu filho, preciso de quinze mil para tratar de tudo.,, Ela teria provavelmente uma lista de coisas 
como o oramento educativo que apresentara a Ellie.

Reparou num vestgio de luz no cu a leste e apercebeu-se que estivera a andar de um lado para o outro 
de forma agitada durante grande parte da noite. E no havia um fim  vista.

Como podia ter a certeza de que era o pai? Ela passara algum tempo com Don MeNeary e provavelmente 
com outros jovens do grupo. Mesmo que estivesse

  207

grvida, no era impossvel que fosse de outra pessoa qualquer. Mas Theresa no se ia esquecer do facto 
de que ficaria muito melhor de vida se o filho fosse dele. E o que  que ele podia fazer? Exigir anlises de 
sangue? Fazer um teste de ADN? Isso faria com que se tornasse obviamente do conhecimento do 
pblico e, no final, no teria a certeza do que mostravam os resultados.

No, tinha de confiar nela e pagar. E s Deus sabia quanto e durante quanto tempo. Se ela quisesse ficar 
com o beb, ele podia acabar a financiar outra famlia. Se houvesse um beb!

Ao amanhecer, cara atravessado na cama com a colcha ainda posta e a roupa vestida. Tinha os olhos 
fechados e respirava fundo. Mas estava ainda suficientemente acordado para percorrer as dzias de 
cenrios que desenvolvera durante a noite. A nica coisa de que tinha a certeza era de que aquele 
pesadelo nunca iria acabar. Theresa apanhara-o e podia esprem-lo para o resto da vida. A Action Boats 
tinha uma nova accionista que esperava ansiosamente pelos seus dividendos.

No havia nenhuma sada. E, independentemente do que fizesse, s iria piorar a situao. Se lhe dissesse 
no, ela podia lev-lo a tribunal. Fosse qual fosse o veredicto, ele sairia como perdedor. Os jornais 
publicariam edies especiais. Ellie no teria outra escolha seno abandon-lo. Se lhe pagasse o dinheiro, 
podia aguentar-se durante algum tempo. Mas era certo que Theresa voltaria em busca de mais e era 
provvel que, mais cedo ou mais tarde, Ellie descobrisse tudo.

Por duas vezes pusera a mo sobre o telefone para telefonar a Henry Browning. O homem que pagara a 
algum para engatar a sua amante para romper com uma relao politicamente prejudicial talvez pudesse 
arranjar uma forma de deter Theresa. Mas Henry saberia que a jovem e o beb eram uma bomba-relgio 
capaz de destruir Gordon Acton em qualquer altura do futuro. Ficaria junto de Gordon at  eleio, mas 
depois encontraria provavelmente outro candidato cujo futuro fosse mais seguro.

O que faria Henry? Talvez arranjar um casamento para Theresa com algum da idade dela. At podia 
entrar com a noiva na igreja e pagar a boda. Ou podia abreviar o problema e contratar um assassino para 
apagar Theresa do mapa. Mas depois seriam, claro, chantageados pelo assassino.

Foi durante essa parte da agonia que ele pensara em mat-la. No a srio, porque assassnio no estava no 
seu perfil, mas de forma prtica, Em termos prticos, livrar-se dela era a nica resposta. Mas como  que 
podia ser feito sem envolver ningum de fora? O seu crebro febril imaginara vrios cenrios.

Podia dar-lhe um carro para levar para a faculdade e sabotar a direco, Havia camies suficientes na 1-95 
para assegurar a destruio de um carro descontrolado.

208                         

Mas no fazia ideia de como cortar a direco e se ela ficasse apenas 
ferida a situao dele podia agravar-se anda mais. 
De facto, mesmo que morresse, haveria provavelmente uma autpsia que descobriria a gravidez. Isso 
garantiria por certo uma investigao policial.

Esse cenrio deu lugar a outros, O que quer que fizesse, 
tinha de se certificar de que o corpo no podia ser examinado. Talvez um ncndio! Un inferno 
que destrusse todas as provas. Com excepo de que havia sempre provas. 
Examinadores mdicos sabiam dizer se algum estava morto ou vivo antes do deflagrar de, um 
incndio. Os investigadores conseguiam normalmente saber se um incndio fora intencionalmente provocado. 
E, alm disso, a Gordon j lhe bastava acender a grelha a carvo.

Um acidente de barco. Isso seria perfeito. Lev-la a dar um passeio 
e empurr-la borda fora. Claro que tinha de lev-la bem para o mar alto para que o corpo no desse  costa. E 
ser que as pessoas no se perguntariam o que  que um homem casado estava a fazer ao largo da costa 
sozinho com a ama? Os palermas do clube j os tinham associado romanticamente 
s por ela estar a viver l em casa, independentemente do facto da mulher e dos filhos 
tambm l estarem a viver com eles. Para ser mais seguro, toda a famlia teria de estar a bordo e nem 
pensar em levar os filhos para a cena do crime.

Quando estava no duche, tinha rejeitado a hiptese de assassinar a rapariga, mas no por 
questes morais. O ataque de Theresa no tivera qualquer 
princpio moral e ele s estava a combater o fogo com fogo, A verdade era que dispensara a ideia 
de assassnio simplesmente porque no via possibilidades de sair da 
situao sem prejuzo para si.

Teria de pagar.

Agora uma nova pergunta comeava a tortur-lo. Contava a Elie? Podia s fazer um 
pagamento a Theresa. Mas Ellie sabia ler os relatrios financeiros da empresa e vigiava de perto as 
finanas da casa. No lhe passariam despercebidas uma srie de transaces considerveis de 
dinheiro institudas pelo marido.

Talvez s desta vez, decidiu ele. Pagar-lhe e tir-la das nossas vidas a seguir  
eleio. Havia sempre a possibilidade dela no voltar em busca de mais. E se voltasse - na 
verdade, quando voltasse - ento falaria com Ellie. Podia argumentaf que pagara apenas 
para a poupar de mais embarao e dor. Mas j lhe parecia estar a ouvir Ellie perguntar se no 
achava que ela tinha o direito de saber que fora pai de outra criana. Podia perdoar a transgresso 
momentnea. Nunca lhe perdoaria uma mentira planeada e vitalcia. Tinha de lhe contar. Ela tinha de fazer 
parte de qualquer deciso que tomasse, fosse enfrentar a chantagista ou os custos.

  209

Esperou at ao fim da manh, altura em que Theresa estaria na praia ou no clube com os seus filhos. Depois 
telefonou para casa. Ellie atendeu ao segundo toque, provavelmente porque estava a trabalhar  
secretria.

- Est l? - disse ela de forma agradvel. Sou eu.

- Oh! - respondeu ela, ainda de forma educada mas vrios graus mais fria do que na saudao inicial.

- Temos de falar. A ss. Sem a Theresa e os midos.

- ptimo - disse ela sem emoo. - Hoje eles devem estar todos no clube entre as duas e as quatro.

- No quero que a Theresa saiba que voltei ao Cape. No podes arranjar maneira de vir at  cidade?

- Claro que no. - respondeu Ellie prontamente. - No ia deix-los sozinhos o dia inteiro.

Ele pensou durante uma longa pausa.

Que tal numa igreja, amanh de manh? Igreja?

Deixa-os em casa enquanto vais  igreja, Encontro-me contigo l e podemos falar depois da missa. S preciso de 
uma hora.

- Est bem - concordou ela. - E para que eu v preparada, podes dizer-me o que  que  to urgente?

-  a Theresa - respondeu Gordon com pesar, - Parece estar a subir a parada.

- Oh, meu Deus - deixou Ellie escapar.

Ficaram ambos em silncio durante um momento e depois Gordon disse:
- At amanh de manh.

Agora foi Ellie quem passou a noite inteira a lutar com todas as possibilidades, O primeiro instinto foi evitar o 
problema por completo. Pegar nos filhos e ir para a casa de Newport. O Gordon que arranjasse maneira de 
escapar s consequncias do seu prprio pecado. Se lhe pagasse e a mantivesse 
calada, ptimo. Mas se o caso dele chegasse  praa pblica, ento ela pediria o divrcio. Provavelmente sairia 
como a mulher ofendida, especialmente com o tipo de acordo a que tinha direito, O problema com essa 
abordagem era ainda no se ter convencido de uma vida sem Gordon, Por estranho que parecesse, a sua raiva 
no matara o afecto. Pelo contrrio, os seus sentimentos pelo marido inflamavam-lhe a ira. E tambm no queria 
simplesmente pr-se de parte. Era o estatuto de Gordon que lhe dava estatuto a si.

A opo seguinte era apoiar Gordon. nas dificuldades. Ele podia chegar a um acordo financeiro com Theresa 
que fosse justo e final. Depois ela e Gordon

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podiam ficar juntos, ele como um homem que fizera a coisa honrada e ela como a 
mulher leal e capaz de perdoar. Mas o acordo justo para um homem rico que se aproveita de 
uma pobre jovem seria provavelmente astronmico. E o Pblico talvez no visse nada de honroso em 
comprar a rapariga prejudicada.

Ento o que se seguia? Talvez devessem adiantar-se a Theresa e ir a pblico. Gordon 
podia convocar uma conferncia de imprensa e anunciar que uma 
jovem que o apanhara desprevenido estava a chantage-lo. 
Podia admitir a indiscrio mas publicamente recusar 
comprometer-se. Haveria um perodo muito difcil, mas 
Theresa teria pouca simpatia da parte do pblico assim que se 
conhecesse a sua chantagem. Gordon ainda podia vencer a eleio. No pior dos casos, seria forado a 
retirar-se da poltica, o que deixaria a famlia dela intacta,

De tempos a tempos durante a noite, Ellie desejara simplesmente que Theresa 
morresse. Essa seria a soluo mais simples e 
permanente. Lembrava-se do que sentira quando o barco de Don 
McNeary desaparecera e houvera a possibilidade deprimente de Don e Trish terem desaparecido. 
Embora tivesse lutado contra isso com toda a sua fora, no conseguira conter o pensamento feliz de 
que todos os seus problemas tinham acabado. Se eram eles a fazer 
telefonemas maliciosos para a faculdade, as chamadas 
acabariam e no haveria ningum para depor contra ela. Teve a 
mesma sensao de salvamento quando pensou na morte de Theresa, 
Se Theresa tivesse feito parte da tripulao de Don e tivesse cado borda fora no acidente, ela 
provavelmente nem saberia da infidelidade de Gordon. E, mesmo que soubesse, no teria j as mesmas 
consequncias assustadoras.

Mas afastou-se dos pensamentos sobre a morte de Theresa, 
Primeiro, no ia desejar a morte da jovem. Segundo, 
desejar a morte dela levava-a a pensar em provocar-lhe a morte 
e no podia aceitar-se como uma assassina,

O seu ltimo pensamento fora que se tratava realmente de um problema de Gordon. Ele que lidasse com 
ele como pudesse. Ficaria com ele desde que a sua desgraa no prejudicasse os filhos nem 
tornasse a vida dela insuportvel. No era uma coisa com que se tinha agora de preocupar.

Mas as suas piores suposies no a tinham preparado para a notcia que Gordon lhe deu ao 
pequeno-almoo.

- Grvida? - A boca dela ficou aberta em redor do aro da chvena. - H um filho!

Ele fez um gesto para que ela baixasse o tom de voz. Estavam numa 
mesa de canto, mas o popular local de pequenos-almoos de Hyannis estava repleto de 
gente. Os casais annimos das mesas vizinhas estavam 
apenas a alguns centmetros de distncia. E com todas as suas actividades de 
campanha, Gordon no era certamente annimo.

  211

- Jesus, no acredito nisto - disse Ellie, baixando apenas ligeiramente a voz.

- Eu tambm no - murmurou ele. - Acho que  uma mentira. -Sabes se no  verdade? Tens a certeza?

Ele deixou cair os olhos e abanou a cabea. Levantou as mos num gesto de impotncia.

- No tinha feito planos com antecedncia para... aconteceu to depressa...
- Bem, no tens de descobrir?

- Oh, claro - disse ele sarcasticamente. - Arranjo uma ordem do tribunal a exigir que ela faa anlises. E depois 
ofereo-me para estudos de ADN Achas que os jornais vo esperar pelos resultados antes de decidirem o que 
fazer com a histria?

- Ento tens de aceitar o caso como est...

- Tenho de aceitar que h uma probabilidade de ser verdade. E, se quero que se mantenha em segredo, tenho 
de agir como se fosse verdade.

- Ento vais pagar por um aborto. - Ela disse a palavra com nojo,

- Acho que sim, embora no v haver nenhum aborto porque provavelmente no h nenhum beb. Limito-me a 
entregar o dinheiro da mesma forma que enviei o depsito das propinas.

Ellie tinha os olhos baixos.

- E se ela decidir ter esse beb fantasma... Ele ergueu as mos em desespero.

- Se houver algum beb, no h forma de poder evitar que seja descoberto. Creio que ficarei a pagar uma 
penso de alimentos para sempre.

Uma cabea na mesa ao lado voltou-se lentamente na direco deles. Gordon escondeu o rosto atrs da mo.

- No sei o que te diga - disse Ellie. Ele riu-se com escrnio.

- O que vais dizer a ti mesma? Sabes que ela pode esperar at seres ministra da educao ou coisa assim e 
depois aparecer-te  porta com as notas completas sobre a tua dissertao.

Ellie pousou a chvena com estrondo e os olhos bem abertos.

-  a mesma coisa - explicou Gordon. - Ela pode arruinar cada um de ns quando quiser.

A empregada avanou at  mesa e colocou um crepe de fruta em frente a Ellie e waffles 
em. frente a Gordon.

- Mais caf? - perguntou ela. Nenhum dos dois respondeu. Ela encheu as chvenas, sem comentrios e retirou-
se apressadamente.

Gordon recomeou a conversa.

212                             DIANA DIAMOND

- Sabes, ontem  noite... provavelmente hoje de manh cedo... pensei em maneiras de matar aquela cabra.

O rosto de Ellie ganhou uma cor ligeira.

- Eu no estava a fazer isso, mas desejei que ela morresse. Pensei no afundamento do barco de Don e nos 
momentos em que pensei que o Don e a Trish tinham desaparecdo. Houve um instante em que esperei 
que tivessem mesmo morrido. Ontem  noite pensei que podia ter sido o Don e a 
Theresa.

Ele comeOU a comer a ponta da waffle e depois pousou o garfo e a faca.
- Se ela est mesmo grvida, a corrida de barcos no teria sido uma grande ajuda.

Ellie ficou confusa.

- Encontrariam o corpo e na autpsia saberiam que estava grvida. Adivinha quem seria o principal 
suspeito na esplanada do clube.

- No passaria de bisbilhotice podre e difamatria - disse ela.

- Os jornais publicam bisbilhotices! - Ele passou alguns segundos a olhar para a comida. - No, teria de 
acontecer em alto mar, onde no encontrassem nenhum corpo.

Ellie pousou o garfo e a faca. Gordon sentiu o interesse dela.

- E teria de haver testemunhas. Testemunhas rrepreensveis capazes de jurar que foi um acidente e que 
fiz tudo ao meu alcance para a salvar.

os olhos dela ficaram mais pequenos.
- Estiveste mesmo a pensar nisso.

- Acho que sim. Cristo, estou a tentar salvar as nossas vidas e a ficar um pouco desesperado.

- Quem seriam as testemunhas? - perguntou Ellie desconfiada. Ele olhou-a directamente nos olhos.

- Tu. Tu e os midos.

Ellie encostou-se para trs estupefacta.
- No podes estar a falar a srio. Eu...

Gordon inclinou-se para ela, com o rosto quase no centro da mesa.

- Imagina que a levo de barco sozinho. S ns os dois. E quando regresso anuncio que, infelizmente, a 
Theresa caiu borda fora. Quantas pessoas vo acreditar em mim? No iam todos pensar o que  que um 
homem casado estava a fazer de barco com outra mulher? No ficariam todos com ideias sobre porque  
que ele teve de se livrar dela?

- Acho que sim - admitiu Ellie.

- Mas imagina que vamos todos andar de barco. Tu, os midos, a nossa babysitter e eu 
num passeio at ao Maine. E depois ligo o rdio e telefono

  213

 Guarda Costeira, frentico porque perdemos algum borda fora,  trgico.  de quebrar o corao. Mas 
 perfeitamente inocente.

Ellie estava a olhar fixamente para ele, demasiado chocada para responder. por um momento, os olhos de 
ambos entrechocaram-se. Depois Gordon olhou repentinamente para baixo e pegou no garfo.

- De qualquer forma, era assim que podia ser feito.
- Em frente aos teus filhos?

Ele comeu um bocado de wafle e olhou para as mesas circundantes enquanto mastigava. Ningum 
parecia estar a prestar-lhes ateno, Depois voltou a ateno de novo para a mulher.

- No, claro que no. Esperaria at ao anoitecer quando os midos estivessem a dormir nos beliches. Tu 
ias para baixo. Talvez para ver se estavam bem ou para usar a casa de banho. isso deixar-nos-
ia sozinhos no cockpit e eu pedir-lhe-ia para desembaraar uma corda ou coisa assim. Ela 
estaria na borda do cockpit e eu empurrava-a. Ela cairia  gua antes que voltasses para cima. 
Tudo estaria terninado num instante.

Viu que a ateno dela estava cravada nele e continuou com o cenrio,

- Continuaramos no barco durante algumas horas, Talvez at depois da meia-noite. E 
depois eu ligava o rdio com uma emergncia. Daria a posio em que nos encontrvamos e no aquela 
em que ela cara. E depois esperaramos que aparecessem e fizessem as buscas.

- E se a encontrassem? - conseguiu Ellie finalmente perguntar.

- Onde? O corpo dela estaria a 50 milhas do local das buscas. Ter-se-ia afundado horas antes.

De novo perceberam que estavam a olhar fixamente um para o outro. Desta vez, Ellie desviou o olhar e 
remexeu no crepe.

A empregada voltou para lhes encher de novo as chvenas. Deixou a conta como sugesto de que 
estavam a ocupar a mesa h muito tempo.

Ellie acabou com o silncio.

- Sabes que estamos aqui sentados h uma hora a seguir  missa a discutir o assassnio de uma rapariga de 
19 anos.

- S estamos a conversar sobre como podia ser feito sem ninguem ser apanhado.

- Ser apanhado? Isso seria a menor das nossas preocupaes. Pensa nos midos. Ficariam traumatizados; 
marcados para toda a vida!

- Proteg-los-amos da terrvel verdade tal como qualquer pai faria. "A Theresa teve de nos deixar. Volta 
depois de acabar as aulas." Quando fossem mais velhos, explicaramos o terrvel acidente de barco.

- E eu? - exigiu Ellie. - Achas que conseguia ficar ali a assistir?

214                          

- No era preciso assistires a nada. Ias para baixo, esperavas dez minutos e voltavas para cima.

Os olhos dela estavam fixos e o maxilar frouxo.

- Ests a falar a srio, no ests? Queres que concorde com isso?

- No, no estou - respondeu Gordon, Pegou na conta e comeou  procura da carteira. - S estou a fantasiar 
maneiras de acabar com todos os nossos problemas. Mas no estou prestes a matar ningum. Preferia 
ficar a pagar para o resto da vida. E esperar pela altura em que ela fosse a pblico e nos destrusse aos dois.

Estavam a atravessar o parque de estacionamento quando Ellie perguntou de repente:

- E se ela deixou provas com algum? Imagina que a tua cassete est num envelope que  enviado pelo correio 
 polcia se alguma coisa lhe acontecer.
- Ou as cpias que fez de todas as notas para a tua tese - acrescentou Gordon.

- Pronto, isso tambm. Como  que sabes que no est tudo embalado, selado e pronto para ser posto na caixa 
do correio? Pode ter feito isso para se proteger.

- Como  que isso a protege se no nos falou da sua existncia? Se a Theresa pensasse que estava em perigo, 
teria de se certificar de que sabamos que livrar-nos dela no nos traria nada de bom.

Ellie parou, pensou por um momento e depois acenou com a cabea. Fazia sentido. Para lhe valer de alguma 
coisa, Theresa teria de lhes dizer o que aconteceria caso tivesse um acidente.

- Agora quem  que est a falar a srio? - lembrou-lhe Gordon. Ela estremeceu.

- No. Talvez pudesse ser feito, mas no por mim. No conseguiria participar nisso. Matar uma jovem inocente...

- Ela no  inocente.  uma chantagista fria e calculista que j nos extorquiu vinte mil e que est agora a pedir 
mais dez mil. E, alm disso, no participarias nisso.

- No quero falar sobre isso - decidiu Ellie e dirigiu-se apressadamente para o carro. Gordon seguiu logo no 
seu encalo.

- Ento limito-me a pagar-lhe. E depois esperamos para ver o que acontece.  isso que queres fazer?

- No quero fazer nada - respondeu ela. Destrancou a porta e subiu para o Land Rover - 
Foi a ti que ela apanhou, no a mim! - Os olhos dela estavam rasos de gua de frustrao e raiva quando fechou 
a porta e ps o carro a trabalhar. Gordon viu-a fazer marcha atrs e depois ficou a observar o carro at 
desaparecer por cima de uma colina.

CAPTULO TRINTA E CINCO

Theresa e as crianas, estavam reunidas em torno de um jogo de tabuleiro sobre o cho do 
alpendre da frente, mas s Timmy se levantou de um salto para a cumprimentar.

Podemos ir tomar banho? - perguntou ele,

- Assim que acabarmos este jogo - disse Molly, respondendo pela me. Theresa sorriu e encolheu os 
ombros.

Parece que temos uma diferena de opinies. Eles j almoaram?

Theresa disse que sim e explicou o que lhes dera.
 Ellie decidiu vestir a roupa de praia e levar Timmy at  praia privada. Theresa podia levar Molly assim 
que terminassem o jogo.

Estava no quarto, a vestir o fato-de-banho, quando percebeu completamente o que acabara de ter lugar. 
Acabara de ter uma conversa amigvel e produtiva com uma jovem sobre quem, nem meia hora atrs, 
discutira o assassnio. A recordao da conversa do pequeno-almoo causou-lhe um arrepio. Tinha falado 
sobre como podiam despachar Theresa como se ela fosse um animal de estimao que tivesse 
de ser abatido. E depois encontrara-a, uma jovem a tornar-se mulher, de joelhos a brincar a um jogo com 
uma criana. O que estava a acontecer-lhe a ela e a Gordon?

Era Gordon, decidiu ela, a desmoronar-se face  presso da relao com Theresa, Gordon era um 
homem decente, cuja fraqueza era a prpria ambio. Theresa estava a ameaar derrub-lo e agora ele 
estava a lutar pelo que pensava ser a sua vida. Seria o seu futuro como funcionrio pblico 
suficientemente importante para o levar a empurrar uma rapariga borda fora? Pensaria realmente que teria 
a mulher de volta envolvendo-a no assassinato da rival?

Mas era mais do que isso. Tinha de admitir para si mesma que ouvira com ateno e usara as perguntas 
para testar a validade do plano. se tivesse ficado ultrajada, teria gritado, ter-lhe-ia atirado com o caf e 
corrido para o exterior Para apanhar ar fresco. Mas no ficara ultrajada. Ficara interessada. Intrigada 
pelOs

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pontos subtis que o marido estava a expor sobre como se comportariam para proteger os filhos. At mesmo 
excitada porque o plano prometia pr fim a todos os seus problemas.

Estavam ambos a desmoronar-se, tinha de admitir. Estava to ameaada pelo que Theresa podia fazer s suas 
ambies de carreira quanto Gordon pela ameaa de exposio pblica por parte de Theresa. Estava to 
ansiosa quanto ele por encontrar uma sada. Ficara extremamente tentada pelo facto de ser Gordon a fazer o... 
trabalho. Tudo o que tinha a fazer era descer durante alguns minutos e depois corroborar a histria que o 
marido contasse.

Depois viu Theresa, ainda ajoelhada no cho ao lado de Molly, e ficou cheia de nojo de si prpria. Como  que 
se permitia sequer pensar naquelas coisas? Tinha de haver uma resposta. Uma espcie de entendimento a que 
chegassem que fosse justo para a rapariga e razovel para eles. Ao pegar na mo de Timmy, a ideia de 
prejudicar qualquer criana, at uma to adulta quanto Theresa, f-la sentir dio de si mesma.

Na praia, tentou dedicar toda a sua ateno a Timmy. Mas a sua mente estava sempre a fugir para o que se 
passara nessa manh. Tinha dado toda a ateno  ideia de Gordon. Tinha ficado entusiasmada 
quando ele tivera resposta para todas as objeces por si colocadas. E sabia porqu. Theresa era uma ameaa 
no s para Gordon e para ela, mas para os filhos e para toda a vida que estavam a construir para a famlia. Ellie 
sabia que estava a reagir como qualquer outra me, sem se poupar a esforos para proteger o lar e os filhos. 
Estava a ser atacada e estava a ripostar. Mas tinha de haver outra sada. Um acordo! Um preo! Qualquer coisa 
que lhes permitisse retomar as suas vidas sem a ameaa de destruio a pairar sobre as suas camas todas as 
manhs.

Molly desceu os degraus com Theresa logo atrs e imediatamente ps os ps na gua junto  ondulao ligeira. 
Theresa juntou-se a ela e Ellie pegou na mo de Timmy e ajudou-o a saltar por cima das ondas.

Estavam juntas com a gua pelos joelhos, a observar as crianas. A Ellie parecia-lhe que, se conseguiam 
trabalhar to bem juntas, tinham de ser capazes de resolver os problemas.

- Theresa - comeou ela - acho que nunca lhe agradeci realmente. Trabalhou em detrimento de si ao fingir que 
foi pouca a ajuda que me deu.

- No foi nada comparado com o que a senhora e o senhor Acton esto a fazer por mim - respondeu ela.

- Bem, queremos ter a certeza que esclarecemos tudo entre ns.

- Oh, eu sei o trabalho que fiz - respondeu a rapariga. - Tenho cpias de todos os stes da web 
e de todas as referncias bibliotecrias. Carreguei-as para o seu computador para que tivesse acesso a elas 
quando fizer a bibliografia.

  217

Ellie estava espantada.

- Tem tudo documentado?

- Captulo e verso - respondeu Theresa. - E agora a senhora tambm o tem. Quando tiver oportunidade, diga-
me o que acha.

Uma onda quase passou por cima de Timmy. Ellie esquecera-se de o levantar por cima da crista.

Nessa noite, fingiu estar absorvida pelas tarefas domsticas de preparar o jantar e depois de ajudar a deitar as 
crianas. Mas mal conseguia tirar os olhos do computador. Tenho cpias de tudo, 
avisara-a Theresa. E carregara tudo para o computador para que Ellie visse os danos que podia causar.

Ellie saltou para o computador assim que Theresa levara os midos para cima, investigando rapidamente os 
ficheiros. Dissertao; Notas de Theresa. Abriu-o e examinou-o 
rapidamente lendo a sequncia de citaes. Os ttulos de todos os documentos de computador tinham sido 
enviados para um endereo em nome de Theresa. Os dados eram-lhe entregues no computador de Ellie. A 
partir da correspondncia da Internet, ningum diria que Ellie fizera alguma investigao.

Livros de bibliotecas estavam marcados com data e horas, o que levaria qualquer investigador ao nome e 
assinatura de Theresa nos recibos assinados. O autor da dissertao no acedera a uma nica pgina.

Depois havia as notas. junto de cada item havia um memorando do local onde encaixaria melhor na discusso e 
lembretes de Theresa para Ellie de outra pesquisa sugerida. As mos de Ellie comearam a tremer ao passar as 
pginas. Fechou o ficheiro e desligou o computador.

- Vou dar uma volta - gritou ela para o andar de cima.
 - Est bem - respondeu a voz de Theresa. - Estamos a comear a lio de flauta.
Ellie teve de se agarrar ao corrimo ao descer os degraus at  praia. A sua mente estava a andar  roda de 
afronta, confuso e medo. As notas de Theresa penetravam todos os cantos do seu trabalho. Na reunio com o 
orientador, Theresa no reivindicara qualquer crdito, apresentando-se como incapaz de um pensamento 
original. Agora as notas dela amealhavam todo o crdito. No havia praticamente nada que no tivesse 
investigado, avaliado e organizado para Ellie. Havia longas passagens que estavam at nas palavras dela.

Sentou-se no ltimo degrau, olhando para a baa iluminada pelo luar. Como  que podia fazer aquilo? Ellie 
estava sempre a perguntar-se. Porqu? A nica resposta era a que Gordon sugerira. Ela 
apanhou-nos aos dois. Pode afundar-nos assim 
que lhe apetecer.

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-  o meu trabalho - disse Ellie a si mesma. 
Depois comeou uma reviso linha a linha de 
toda a informao de que se lembrava a partir 
das notas que acabara de ler. Explicara a tese a 
Theresa e delineara a estratgia para provar o 
seu ponto de vista. Dera  rapariga os pontos de 
partida para cada rea de explorao e a orientao necessria que a impedira de 
cair em becos sem sada. E seleccionara os pontos relevantes a partir dos volumosos ficheiros de informao. 
Era isso que faltava nas notas de Theresa, a percia que Ellie conferira ao projecto.

Mas porque  que Theresa havia de mencionar isso? S 
estava a organizar o material das fontes para referncia de Ellie. E era certamente verdade que 
Theresa fizera a maior parte do trabalho aborrecido de pesquisa. Por isso  que o seu nome 
aparecia em quase todos os ttulos. Gravados no computador para 
uso futuro de Ellie, os documentos seriam de grande ajuda. Mas, entregues a um investigador de fora 
corroborariam a concluso de que Theresa era a autora do documento. Ou, no 
mnimo, que era uma contribuinte importante de informao e anlise, que devia ter sido trabalho da 
autora. Essa era a parte condenvel dos ficheiros. Eram 
incrivelmente teis ou terrivelmente prejudiciais consoante a pessoa que os estivesse 
a ler e o que o leitor tentasse provar, A pergunta no parava de girar em crculos. O que  que Theresa 
tentava provar?

Ellie deu-se conta dos acordes da flauta que vinham da casa atrs de si. A msica era suave e sentimental, quase 
uma banda sonora para a beleza da noite. Quem conseguia encontrar uma msica assim dentro 
de si? Uma mentirosa conspiradora e chantagista? Parecia impossvel; demasiado ridculo para merecer mais 
um minuto da sua ateno. E, porm, havia a bvia ligao a dinheiro, 
Concordara em encontrar-se com o Dr. Drury quase no mesmo momento em que aludira aos vinte mil 
dlares. Associara o vdeo de Gordon ao custo das propinas da 
faculdade. E depois ameaara Gordon ainda com mais custos. E agora isto: um registo bem organizado do 
seu trabalho na escrita da tese de Ellie.

O que se seguiria? Que novo preo iria ela sugerir para guardar para si a cpia dos ficheiros?

Subiu as escadas num ritmo cansado, parando duas vezes para ouvir Molly 
tocar uma das melodias que decorara. Era certamente uma criana a esforar-se por imitar a 
professora. Mas havia algo da professora no tom e no ritmo. Algo belo, Como  que podia ser a mesma pessoa 
que lhe seduzira o marido e comprometera a integridade? Como  que 
podia ser a mesma mulher que ameaava arruin-los a todos?

Ellie foi at  cozinha e serviu-se de um copo de vinho do jarro do frigorfico. Estava a 
dirigir-se para o alpendre quando Theresa desceu as 
escadas.

- Pensei em levar os midos s compras comigo amanh - anunciou ela. Ellie concentrou-se lentamente.

  219

- s compras?

A rapariga borbulhava de entusiasmo.

Poupei algum dinheiro e pensei em comear a comprar o guarda-roupa para a faculdade, A Molly quer 
ajudar-me a escolher e penso que conseguimos manter o Timiny entretido durante uma hora, A no ser 
que tambm queira vir?
A Sra o mximo e dou realmente valor s suas sugestes. A no ser que... o entusiasmo diluiu-se. - A no 
ser que tenha planeado alguma coisa?

- No, no! Por mim est ptimo,
- Pode vir connosco?

- Posso sim. Gostava bastante.

- ptimo! - Theresa quase gritou. - E no faz mal se for at  praia? O Don disse que talvez passasse por c 
e...

- Claro - disse Ellie. - Estou aqui se o Timmy acordar. Leve o tempo que quiser.

Theresa saiu a correr pela porta e desceu a danar o longo lance de escadas que Ellie acabara de subir.

O guarda-roupa para a faculdade! Ellie no teve problemas em visualizar o esquema. Theresa visitaria 
todas as alas e montras, acariciando e olhando de soslaio tudo desde vesturio desportivo a vestidos de 
cocktail, desde saltos altos a alpargatas, Molly incit-la-ia a comprar tudo e Theresa protestaria 
que estava tudo para alm do seu modesto oramento. O seu rosto ficaria pesado de desiluso quando 
pegasse nos sapatos robustos e calas de ganga para todas as ocasies. E os vendedores ficariam a olhar 
para Ellie  espera que pegasse na carteira e sacasse dos cartes de crdito.

No seria muito. Certamente nada que no pudesse pagar com facilidade e provavelmente no mais do 
que teria gasto de boa vontade para mandar a babysitter para a faculdade. Mas era 
apenas o princpio. As suas oportunidades de sustentar Theresa viriam uma a seguir  outra, como vages 
de um comboio, E cada ocasio traria consigo uma recordao subtil da actuao que fizera no gabinete do 
Dr. Drury e das notas da tese que estavam dentro do computador.

Gordon tinha razo. Nunca ia ter fim.

CAPTULO TRINTA E SEIS

Gordon passou sem parar pelos dispositivos electrnicos de navegao que estavam na frente da loja e 
seguiu directamente para a seco de cartas martimas na parte de trs. Na parede 
estava um mapa enorme da costa de Nova Inglaterra, com todas as suas componentes delineadas 
e numeradas. Tomou nota dos nmeros das cartas martimas de Cape Ann e do Golfo de 
Maine e das cartas dos portos de Boothbay Harbor. Localizou-as nos ficheiros e levou-as para a 
caixa.

- A planear umas frias, senhor Acton? - O gerente dirigia a loja h anos e vendera a Gordon a 
maior parte do seu equipamento e dispositivos.

- Pequenas, Harry. Tenho de passear um pouco de barco antes que o Vero acabe.

Harry olhou de relance para as cartas martimas enquanto as enrolava.
- Maine, eli? Quando  que vai?

- No fim-de-semana, se o tempo o permitir.
- Ao longo da costa ou logo para o mar alto?

- Logo para o mar alto, se houver vento e se o mar estiver calmo. Ao longo da costa se estiver encrespado. 
No tenho nenhum destino fixo, mas vou partir no sbado e gostava de entrar em 
Bcothbay no domingo de manh. Se for directamente para norte, poupar-me- quatro ou cinco horas.

Voltou ao apartamento e espalhou as cartas martimas em cima da mesa. Se desse a volta ao Cape e se 
subisse a costa leste, deixaria de avistar terra 25 milhas nuticas depois de se fazer  vela, Quatro a seis 
horas consoante o vento. Depois ficaria a olhar para 120 milhas de mar aberto at avistar Monhegan. Isso 
seria mais 15 a 20 horas. Um pouco menos se tivesse bons ventos. No muito mais porque 
usaria o motor se o vento morresse. Atingiria o ponto central da viagem s primeiras horas da manh. 
Nessa altura, estaria a cerca de 50 milhas nuticas da extenso de terra mais prxima, Fizera a viagem 
vrios anos antes e as cartas

 221

confirmavam o itinerrio de que se lembrava. Se deixasse o clube ao raiar do dia, estaria o mais longe de 
terra no momento de mxima escurido.

o plano vago que andara a flutuar para dentro e fora da sua mente adoptava agora dimenses firmes. 
Theresa cairia  gua bem  noitinha, a cerca de 50 milhas para leste da pequena linha costeira de New 
Hampshire. Ele andaria durante mais quatro horas at estar a leste de Kennebunkport. Isso deixaria a 
rapariga a cerca de 25 milhas atrs do rasto do barco. Depois enviaria uma mensagem de emergncia para 
a Guarda Costeira e daria incio a um padro de busca. Faltariam algumas horas para o romper do dia, o 
tempo suficiente para convencer toda a gente de que o corpo provavelmente se perdera. A Guarda 
Costeira levaria a cabo uma busca superficial, mas estariam  procura na rea errada. Theresa teria 
desaparecido sem qualquer hiptese de voltar a ser encontrada. As ameaas e a chantagem chegariam ao 
fim.

Um plano perfeito, disse Gordon a si mesmo. E depois comeou a enumerar as razes pelas quais nunca 
daria resultado.

Primeiro, Ellie nunca participaria nele. Nunca poria os ps num barco destinado a um assassinato, muito 
menos levando os filhos a bordo. Isso deix-lo-ia no barco com Theresa, o que o tornaria imediatamente 
suspeito ou, pelo menos, alvo de rumores. Se Ellie no participasse, nunca poderia acontecer.

outro problema era o facto de Theresa talvez no ir. Era uma mida esperta que podia muito bem 
desconfiar de um convite sbito para um passeio escuro por um mar vazio por parte das duas pessoas que 
estava a chantagear. S tinha de protestar que o barco a fazia enjoar.

E depois havia o pr prio acto, Era fcil fantasiar o momento em que iria bater com um pau na chantagista e 
lan-la borda fora. Mas seria muito diferente esmagar o crnio de uma jovem com um espigo ou uma 
chave inglesa. No havia nada na sua histria que o pudesse preparar para tal momento. Nem para as 
longas horas em que estaria a navegar para longe do corpo dela que se afundava.

Por fim, haveria o inqurito inevitvel. Ser que conseguia manter uma mentira coerente atravs de vrias 
sesses de interrogatrio intensivo? Ellie conseguiria? Ser que no comeariam a meter as mos pelos 
ps?

Que provas surgiriam? Haveria pistas do crime ainda a bordo do barco? Gordon no se conseguiu lembrar 
de nenhuma. Mas havia pistas em que no se tinha pensado sempre que um assassino era condenado. o 
que o levava a pensar que era uma excepo?

Quem avanaria como testemunha? Ser que a me adoptiva surgiria com a cassete de vdeo mostrando a 
verdadeira natureza do relacionamento dele com a rapariga? Ser que Don McNeary juraria que Theresa 
lhe contara estar grvida de Gordon? Ou talvez fosse Trish Mapleton a fazer telefonemas sobre a 
dissertao

222                            

de Ellie e a infidelidade dele, No iria ela adorar dar com a lngua nos dentes ao investigador e  
imprensa?

Um plano perfeito, pensou ele, Com excepo de que havia vrias razes para 
que no desse resultado. Sair-se-a muito melhor se se limitasse a passar o 
cheque e a arriscar a sorte. No entanto, isso talvez tambm no resultasse. Exigiria mais e mais 
at ele se ver obrigado a ir a pblico para a deter,

Atendeu o telefone que tocava e ficou espantado ao ouvir a voz de Ellie.
- Podemos encontrar-nos em algum lugar esta noite?

Ele ficou entusiasmado,

- Claro! Em qualquer lado! Posso ir a a casa.

- Acho que isso no dava.  sobre a Theresa e ela pode c estar.

- Diz-lhe que eu vou a casa e que pode fazer planos para a noite. Ou diz-lhe para 
tomar conta dos midos enquanto vamos jantar fora.

Ellie fez um som de hesitao para o telefone.
- Acho que isso serve - decidiu ela.

- Vou j sair! - Depois acrescentou: - Est tudo bem?
- No - respondeu Ellie. - Est tudo terrivelmente mal.

Theresa pareceu ficar preocupada quando ele apareceu em casa. Olhou-o com desconfiana, como se 
calculasse que havia uma razo sinistra para a sua visita inesperada, Ele conversou 
de forma trivial at Ellie estar fora do alcance na casa de banho do andar de cima.

- Estou a tentar arranjar alguma coisa - disse ele confidencialmente. Por isso  que vim a casa, para ver 
se arranjvamos algum tempo para conversarMos.

Os olhos dela iluminaram-se.
- Quando?

- Talvez durante o fim-de-semana, A Ellie tem amigos no Maine que gosta de visitar. Se 
formos at l de barco, voc e eu podemos passar um dia no barco para esclarecer tudo.

Ela acenou com a cabea. Mas depois disse:

- Eu podia arranjar um motivo para ir at Providence. Podamos encontrar-nos durante algum tempo.

- No,  muito arriscado. Se conseguir convencer a Ellie a fazer a viagem, tudo ser perfeito.

Theresa encolheu os ombros e no instante seguinte Ellie estava a descer as escadas, Deu a 
Theresa o nmero de telefone de um pequeno restaurante voltado para a gua 
onde poderiam ser contactados. Depois ela e Gordon 
desceram os degraus at onde o carro dele estava estacionado. Ele fechou a 
porta a Ellie e, quando deu a volta at  porta do 
condutor, ela estava a chorar de forma histrica,

  223

- Ellie, o que se passa? O que foi?

Ela estava a chorar demasiado para responder, Fez um gesto em direco  estrada, indicando que devia pr o 
carro a andar. Gordon passara duas vezes pelo restaurante antes que Ellie estivesse suficientemente composta 
para falar.
 - Passei o dia inteiro a pagar-lhe - disse ela. Depois, enquanto reaplicava  a maquilhagem no espelho do carro, 
contou-lhe o dia passado nas compras. Foi de loja em loja, lembrando todos os artigos em que Theresa pegava e 
os seus olhares tristes quando voltava a pr cada pea no lugar, Contou-lhe o entusiasmo de Molly, 
insistindo que Theresa comprasse tudo aquilo de que gostava. E admitu que pagara e voltara a pagar.

- Seiscentos dlares - concluiu Ellie. - Aposto que os Mapleton no gastam tanto com a Trish, Eu sabia 
exactamente o que ela estava a fazer e no consegui impedi-la. Essa foi a pior parte, Tive medo de bater com o 
p no cho e dizer "No.", Tive mesmo medo que, se a desiludisse, ela me destrusse.

Ele entregou o carro ao guarda do parque junto ao restaurante, sentou a mulher junto a uma janela e pediu o 
martini que ela raramente bebia, Nessa noite, ela segurou-o entre ambas as mos e bebeu-o impulsivamente.

Gordon, no podemos arranjar um advogado ou ir  polcia ou fazer alguma coisa? Temos de ter medo dela 
para sempre?

- Se formos  polcia h um registo - respondeu ele. - Se arranjarmos um advogado, assim que ele entrar no 
tribunal h um registo. Depois vamos ambos para as primeiras pginas, tu com uma tese falsa e eu com um beb 
falso. Ingeriram a comida sem prazer, pegando nela e examinando-a e finalmente

pousando os talheres com frustrao. Gordon serviu o ltimo copo de vinho e esperou que Ellie levantasse os 
olhos do prato.

- Comprei as cartas martimas. De Provincetown directamente at Boothbay.
- Por favor - disse Ellie, acenando para que a informao desaparecesse. Gordon insistiu.

- Estamos o mais ao largo da costa possvel no meio da noite. Ningum ver nada. Nunca se descobrir nada. 
Tudo ficar terminado,

- Gordon, no podemos...

- Ento continuamos a pagar-lhe, porque no vejo outra alternativa. Estou sempre a passar cheques generosos e 
sempre que ela acena a cabea tu saltas e tiras o carto de crdito para fora.

Ficaram em silncio enquanto o empregado levantou a mesa e trouxe dois cafs. Ellie passou o tempo a 
recordar como se sentira intil e usada durante o dia.
- O que  que tenho de fazer? - perguntou ela finalmente. - Eu no conseguiria... matar algum... por 
muito mal que me estejam a fazer.

224                             DIANA DIAMOND

- Nada - respondeu Gordon. - Absolutamente nada. S tens de l estar.
- Mas haver perguntas. A Guarda Costeira... a polcia...

- S tens de lhes dizer exactamente o que ouviste e o que viste. Estavas na parte de baixo. Ouviste-me gritar. 
Subiste e eu andava s voltas a berrar que a Theresa cara  gua. Eu liguei a frequncia de emergncia. Tu 
seguraste na lanterna. Procurmos em todas as direces at ao amanhecer quando o barco da Guarda Costeira 
chegou e o helicptero estava sobre as nossas cabeas.

- S isso?

- S isso. Qualquer que fosse o problema do aparelho que ele estava a tentar resolver j estava solucionado 
quando vieste para cima. No sabes de mais nada.
- O que  que ela estava a fazer no cockpit no meio da noite? - desafiou Ellie.

- Estvamos todos no cockpit a apreciar o passeio sob as estrelas. Foste l abaixo para... ires  casa de 
banho? Ou talvez porque te pareceu ouvires um dos midos. Ou talvez estivesses a p como vigia e, quando te 
cansaste, desceste, mandaste-a para cima como vigia e foste deitar-te.

Ellie dedicou toda a ateno ao caf que estava a beber. Gordon olhou fixamente para ela, tentando adivinhar-
lhe o que lhe ia pela cabea.

Sentia repulsa pela ideia. Theresa no passava praticamente de uma criana
- maquinadora, mentirosa - mas uma criana. Tinha de haver alguma coisa que pudessem fazer 
para a endireitar. Tinha um talento notvel que simplesmente tinha de aproveitar para os objectivos correctos. 
Precisava de ajuda, no que a matassem.

E, no entanto, era tarde de mais. O marido j fora seduzido. A sua integridade acadmica j fora comprometida. 
j tinham comeado a pagar a chantagem em despesas escolares, vestidos formais e agora num guarda-
roupa para a faculdade. Ela j os tinha na mo. O que  que podiam fazer? Dizer-lhe que o que estava a fazer 
era errado? Quem eram eles para darem lies de moral depois de a terem comprometido daquela forma? Ou 
talvez oferecer-lhe um acordo. Concordarem em sustentar-lhe o filho e pagar-lhe esse ano na faculdade mas, 
depois disso, ficava por conta prpria? Porque  que Theresa havia de aceitar isso? Deixariam de pagar 
quando Theresa decidisse que o deviam fazer. Era ela que controlava; eles no tinham qualquer poder de 
regateio.

Tratava-se realmente de escolher quem ia ser destrudo. Ela e a famlia dela porque era a que 
o cenrio da chantagem iria acabar inevitavelmente. Ou Theresa, que fora a instigadora de todos os problemas. 
Com excepo, tinha ela de admitir, de que partilhava a responsabilidade pela situao em que se encontravam. 
Gordon no precisava de ter ido para a cama com Theresa e ela no precisava de deixar a rapariga fazer tanto 
trabalho na dissertao.

  225

- Gordon, no fundo a culpa  nossa, no ? - disse Ellie finalmente, quase como que anunciando a sua 
deciso.

- Ellie, planeaste mesmo ter uma mida como escritora fantasma da tua tese?

Ela ficou chocada.

- Claro que no. Mas o maior dos nossos problemas, Gordon,  que tu realmente a levaste para a cama.

Os olhos dele caram em aparente derrota. Mas, ao fim de um momento, ele esticou a mo atravs da mesa 
e pegou na de Ellie.

- No te queria contar isto porque pensei que pudesses no acreditar em mim. Mas tenho de te contar para 
que possas perceber aquilo que estamos a enfrentar. - inclinou-se em tom confidencial para o centro da 
mesa para que os rostos de ambos ficassem apenas a alguns centmetros de distncia.

- Quando a mandaste a Brown procurar algumas das referncias...
- Eu no a mandei - interrompeu Ellie. - Ela  que insistiu em ir.

- Claro - concordou ele - porque tinha outro assunto em mente. Foi at ao apartamento e entrou com uma 
chave que tirara do teu porta-chaves do carro. A respirao de Ellie tinha o som de choque.

- Cheguei a casa vindo de um encontro poltico - continuou Gordon e ela estava sentada no sof, 
encostada para trs, sem sapatos, como se estivesse em casa, Fiquei pasmado, Disse-lhe que no podia ir 
at ao meu apartamento, que no havia nada entre ns e que o que tnhamos feito no Cape fora terrvel e 
nunca mais podia acontecer.

Fez uma pausa. Como o interesse de Ellie era bvio, ele contou-lhe:

- Ela levantou-se e entrou no nosso quarto, deixando cair as roupas pelo caminho. Fiquei atnito. 
Absolutamente atnito. Aquela no era a nossa pequena ama. Era uma mulher que se sentia  vontade no 
apartamento de um homem, atraindo o tipo para a cama. Era uma prostituta profissional. Uma mulher da 
vida. E pensou que era dona de mim. Tal como disseste a respeito da ida s compras. Olhou e deixou cair 
as calas de ganga e era suposto que eu tropeasse sobre mim prprio na pressa de lhe saltar para cima.

Ellie olhou fixamente para ele durante uma eternidade. A histria no podia ficar por ali.

- E depois tu... - incentivou-o ela.

- Dsse-lhe para se ir embora! - mentiu ele. - Mas ela no tinha para onde ir. Era tarde e teria sido pior ainda 
se descesse as escadas e dormisse no trio de entrada. Por isso deixei-a ficar no quarto e eu sentei-me na 
sala de estar. Sentei-me! Tinha medo de adormecer. Mas, por fim, de manh cedo, devo ter passado pelas 
brasas. Quando acordei de repente, a Theresa desaparecera.

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Ellie estava a olhar fixamente para ele, sem acreditar completamente mas no ainda pronta para lhe 
chamar mentiroso. Apressou-se a continuar antes que ela o questionasse.

- Lavei-me e fui directamente para a biblioteca de Brown. E l estava ela, a trabalhar nas tuas notas. 
Cumprimentou-me como se no nos vssemos h vrias semanas. Por isso levei-a para o exterior e 
encontrmos um banco no campus. Disse-lhe que no havia nada entre ns. Cometera um erro 
horrvel mas no ia repeti-lo. E ela disse-me que eu ia fazer o que ela quisesse.  bom que te habitues, 
disse ela, porque j ests na cadeia. Uma vez  o quanto basta.

Ellie estava de boca aberta.

-  a mesma coisa dela te deixar lev-la s compras,  bom que te habitues, porque vais fazer isso durante 
muito tempo.

Era a mesma coisa, tal como Gordon explicara. Esse era exactamente o sentimento que 
experimentara ao observar um funcionrio de uma loja usar o seu carto de crdito. Era bom que se 
habituasse, porque no podia fazer nada a esse respeito.

- Ela est a destruir-nos, Ellie. Temos de proteger o nosso casamento e os nossos filhos.

Ellie no disse nada enquanto ele pagou a conta e foi buscar o carro. Estavam a meio caminho de casa 
quando disse:

- S tenho de ir contigo. S isso?
- S isso - respondeu ele.

- Quando?

- Este fim-de-semana.

A expresso dela foi de choque.

- Esperar  perigoso - disse-lhe Gordon. - Alm disso, vi como ia estar o tempo. H uma alta presso 
atravs de Nova Inglaterra. No fim-de-semana deve estar calor e cu limpo.

CAPTULO TRINTA E SETE

Theresa pareceu ficar maravilhosamente surpreendida quando Gordon anunciou a viagem de dois dias at 
Boothhay. Duvidara que Ellie a quisesse na viagem, particularmente se sabia da relao dela com o marido, 
Claro que no ia querer deix-los juntos no barco durante um longo perodo de tempo.

Mas Elle parecia ter aceite bem a ideia, juntando-se a Gordon numa demonstrao de feliz antecipao.

- Vai ser to divertido - prometeu ela a Molly, cuja reaco imediata fora um franzir de sobrolho. Evocou 
imagens de uma viagem aventureira em que Molly podia ficar ao leme, de nadar a partir da parte de trs do 
barco quando chegassem ao porto e das lojas fantsticas que iriam visitar. Para Timmy, havia a promessa de 
dormir a bordo do barco, que no se comparava nada a ter de ir para a cama, e a certeza de que podia viver de 
sanduches e refrigerantes.

Ellie iniciou os preparativos mecanicamente, comprando comida que fosse fcil de armazenar e de preparar. 
Envolveu Theresa na escolha das roupas das crianas - chapus e camisas de manga comprida para o sol, 
impermeveis caso chovesse, camisolas caso estivesse frio - e coisas desportivas que pudessem usar a bordo, 
Fez vrias viagens ao barco para verificar a roupa de cama, o fornecimento da casa de banho e todas 
as outras coisas domsticas que Gordon. certamente ignorava. Intencionalmente, mantinha-se 
ocupada com preparativos para a viagem durante o dia e trabalhava na tese at noite cerrada. A nica coisa que 
no fazia era pensar no que podia acontecer na viagem.

Ellie no aderira completamente  conspirao de assassnio. Na sua mente, ainda no concordara com nada. 
Estava apenas comprometida em preparar o barco e a famlia para o passeio e no tinha planos 
para tomar medidas de aco contra Theresa. Tudo o que estava a fazer, convenceu-se, era a considerar 
como  que ela e Gordon podiam escapar  rede que os apanhara. E estava a dirigir-se

228                           

para uma soluo possvel para estar pronta caso fosse o que decidissem fazer. Talvez 
surgisse outra coisa e cancelassem a viagem por completo.

Havia momentos em que, apesar do seus esforos, a verdade entrava  
fora. Apercebeu-se de que no tinha agendado nada para a visita a Boothbay porque sabia que nunca l 
chegariam. Quando estava a trabalhar na dissertao, sabia que o trabalho no seria 
desafiado porque Theresa iria passar  histria. Mas punha de parte esse tipo de 
pensamentos. Ia andar de barco, s isso. Parte do tempo 
estaria em baixo, o que era perfeitamente normal. Gordon provavelmente no faria nada e, se 
fizesse, a culpa no seria dela. No podia fazer nada para planear os acontecimentos. Limitar-se-ia a lidar 
com as eventualidades, quaisquer que fossem.

Gordon estava ocupado com o barco e com todos os pormenores da viagem. Levou o mecnico a bordo 
para verificar e afinar o motor e testar o gerador e o sistema elctrico. Voltou a calibrar o equipamento 
electrnico de navegao. Ao calor seco do meio-dia, esticou e voltou a 
enrolar as velas extra e at subiu ao mastro para verificar o cordame,

- Para onde  que vai, para a Austrlia? - perguntou Tom Cameron ao 
observar Gordon da doca. - No precisa de fazer tudo isso. 
Cristo, consegue chegar a Boothbay de barco a remos.

- Vou levar a famlia - respondeu Gordon enquanto lubrificava moites ao longo do convs. - No quero 
problemas.

- Mantenha-se perto da costa - aconselhou Tom,

- C em baixo  o melhor - disse Gordon. - Mas l em cima no Maine a 
linha da costa  muito mais perigosa do que o mar alto. E, se apanhar mau tempo, vou 
para um porto seguro,

Jack OConnel], cujo barco parecia permanentemente fixo ao cais, estava repleto de conselhos 
sobre a arte de navegar, Chamou a ateno para tudo a no ser para icebergues. Phil 
Stucky ofereceu-se para emprestar o seu grande escaler. Era grande demais para Gordon levar a bordo e 
no queria lev-lo a reboque com medo de perder velocidade. Stucky 
argumentou que nunca o abrandara a ele,

Um a um, Gordon envolveu os membros do clube nos seus planos de uma viagem a Boothbay. 
Queria muitas testemunhas capazes de testemunhar a 
perfeio dos planos e a sua obsesso pela segurana. Tambm 
pensou em provas que mostrassem que tencionava realmente passar alguns dias em Boothbay 
Harbor. Pediu ao gerente do clube que telefonasse com antecedncia para se certificar de 
que haveria um ancoradouro pronto para ser usado quando chegasse. Telefonou a 
verificar se o servio de lanamento de lanchas estava disponvel  noitinha.

 229

Na sexta-feira  tarde, telefonou para o escritrio e deu instrues de comunicao por rdio caso 
precisassem de o contactar enquanto estivesse sem rede para o telemvel. Depois deu-lhes um itinerrio 
que o demoraria em Boothbay at tera-feira de manh. Prometeu estar de volta  secretria na quinta-
feira. Telefonou tambm a Henry Browning, que aprovou a viagem como preparao para a difcil 
campanha que tinha pela frente. Henry ficou em xtase quando Gordon mencionou que Theresa tambm 
ia.

- Faremos bom uso das fotografias que a mostrem como parte da sua famlia - prometeu ele.

Na sexta-feira  noite, depois de um jantar mais cedo, a famlia foi at  doca e entrou a bordo do 
Lifeboat. Gordon deu espectculo a verificar todos os coletes salva-vidas enquanto os 
membros observavam do convs de iates vizinhos. Deitaram em seguida as crianas nos beliches em V 
encaixados na curva da proa e prepararam a cama por cima do banco de refeies na cabina principal para 
Theresa. Ellie e Gordon tomaram uma bebida com os vizinhos antes de irem para a cama dupla na cabina 
do capito.

Ele fez juz  frase de partir cedo. Antes que os outros acordassem, Gordon largou as amarras, ligou o 
motor e saiu do ancoradouro. Apanhou o nascer do Sol por detrs da lngua de areia ao iar a vela grande 
do barco e saiu como um fantasma do porto com o ar ligeiro da manh. Quando Ellie subiu com o caf, 
estava a virar a ponta a sul da praia de norte e a seguir um curso setentrional ao longo da costa vertical do 
Cape. Os ventos mantinham-se ligeiros, mas vinham de oeste dando-lhe um bom impulso. O barco 
navegava a mais de seis ns.

Theresa ps a cabea de fora para anunciar que as crianas estavam a gostar da novidade do beliche 
voltado para a frente.

- Querem ficar a brincar l mais um pouco, por isso pensei em subir para ver a vista. - 
Sentou-se junto ao corrimo voltado para o vento, com as pernas pendentes para o lado de fora, e olhou 
pensativamente para a linha da costa que se afastava para trs,

- Isto  lindo - disse ela a certa altura. E depois minutos mais tarde. Acho que nunca fui to feliz.

As crianas foram at ao princpio da escada e Theresa desceu para as vestir. Ellie desceu para fazer o 
pequeno-almoo e ajudar Molly e Timmy a levarem a tigela de cereais at cima. Depois levou os enchidos 
e as torradas que arranjara para os adultos, O vento tornou-se mais vigoroso, aumentando a velocidade e o 
entusiasmo. Enquanto todos observavam, a linha da costa comeou a recuar para oeste. A rota estava a 
afast-los de Cape Cod em direco ao alto mar.

A brisa tornou-se mais suave com o calor do meio-dia, mas manteve o Lifeboat com um bom 
impulso. A velocidade diminuiu, mas apenas um pouco, e o

230                         

mar cho manteve a navegao agradvel. Timmy estava ocupado com uma linha cada que flutuava desde a 
popa. Gordon estava sempre a dizer-lhe que ia apanhar um peixe de certeza, embora duvidasse que o 
chourio que usara como isco atrasse alguma coisa que nadasse no oceano. Molly estava sentada com Theresa 
no convs voltado para o vento, ouvindo uma histria sobre uma baleia que cantava pera. Gordon segurava 
no leme para que a bssola se mantivesse na rota. De meia em meia hora, utilizava informao de satlite que 
lhe possibilitava ajustar-se  corrente.

Ellie estava l em baixo na cozinha, a cortar fruta para a salada que planeara para o almoo. Fazia tudo ao seu 
alcance para se manter ocupada e afastar a mente da rapariga que lia com a filha. Era uma viagem perfeita, com 
ventos decentes e mar cho e todo o sol que a sua pele clara conseguia suportar. Olhara por cima do ombro 
de Gordon enquanto ele marcava a posio atravs de satlite e vira que estavam dentro da rota e 
provavelmente meia hora adiantados. Ficaria encarregue da vigia da noite para que Gordon pudesse dormir 
algumas horas no cockpit. Depois iria para a cama e, quando acordasse de manh, estaria a olhar 
para Boothbay Harbor. Era esse o cenrio que no se cansava de repetir mentalmente como a melodia 
de uma cano preferida. No ia deixar que a sua mente pensasse nas intenes sinistras de Gordon nem em 
nenhuma das conversas que fizessem dela uma conspiradora.

Quando levou o almoo para cima, Gordon estava a usar os binculos por cima da proa a estibordo. Viu outro 
barco  vela  frente deles, numa rota convergente que os aproximaria bastante  noite.

- De onde  que ele vem? - perguntou ela.

- Do mar alto. Bermudas, talvez, ou at da Europa - respondeu ele, ainda a franzir o sobrolho para os binculos. 
Tratava-se de uma grande corveta com um mastro altaneiro, um barco suficientemente capaz de atravessar o 
oceano com uma dzia de pessoas. Mas mais do que no tamanho, Gordon estava interessado na rota. No 
queria outro barco por perto quando chegasse o momento de se livrar de Theresa.

Theresa levou as crianas para baixo para uma sesta induzida pelo sol quente e pela oscilao constante do 
mar. Assim que adormeceram, ela foi at ao cockpit e disse a Ellie que tambm ia dormir um 
pouco, Quando o vento da tarde aumentou, Ellie e Gordon. estavam sozinhos no convs.

Gordon marcou uma nova posio, que os colocou 35 milhas para norte--nordeste do Cape e a quase 45 milhas a 
leste de Cape Ann. Ia muito mais adiantado do que pensara e atingiria o ponto mais afastado de terra 
antes do pr do Sol. Tinha de perder uma hora, talvez mais ainda para contar com ventos mais fortes  noite. 
Afrouxou a vela grande, deixando-a perder um pouco de ar.

  231

Era uma forma menos correcta de navegar, mas o barco endireitou-se e perdeu velocidade.

- Vamos continuar no mesmo ritmo - disse Ellie quando percebeu o que ele estava a fazer. - Vamos directos a 
Boothbay, tal como planemos.

Ele olhou para ela com curiosidade, sem querer perceber que Ellie podia estar a perder a coragem.

-  para l que nos dirigimos - respondeu.
- Quero dizer.. todos ns - disse-lhe ela.

Ellie, no posso viver desta maneira. Sabes disso.

- E no sei se vou conseguir viver depois de acontecer alguma coisa. Estamos quase livres - disse ele.

Ela respondeu imediatamente.

- Nunca seremos livres. No se fizermos isto. Ento qual  a resposta? - insistiu Gordon.

Ela baixou os olhos e abanou lentamente a cabea.

- No sei a resposta. Mas penso que no quero participar... nisto... Ele pegou-lhe na mo.

No vais participar, Ellie. Prometo. Nunca te pedirei para fazeres uma coisa de que no s capaz.

Mas deixou a vela como estava a adejar no topo e a deixar escapar ar. E navegava cada vez mais para o mar 
alto, onde podia atravessar  popa do barco  vela que seguia logo  frente.

Ao longe, barcos de pesca atravessavam a sua rota entrando e saindo de Gloucester. Teria de se manter bem 
longe daqueles tambm. Responderiam ao seu pedido de ajuda em segundos e com mecanismos electrnicos de 
navegao podiam estar na cena do crime minutos depois. Tinha de se certificar de que a lanava borda fora 
depois de escurecer, onde no haveria hiptese de o verem. E depois tinha de contar com o tempo que levaria 
a percorrer mais 30 milhas para poder estar bem longe do corpo quando os pescadores viessem em seu auxlio.
Imaginara que tinha alguma margem de manobra porque levaria horas  Guarda

Costeira para levar um barco at  cena e s ao romper do dia  que poriam um helicptero no ar. Agora estava 
a trabalhar com margens muito mais estreitas. Atravs dos binculos avistou ao longe um barco de pesca 
comercial, uma grande embarcao preparada para o oceano com metros de rede enrolada na cauda em leque. 
Conseguiu ver os membros da tripulao a correr apressadamente, provavelmente a lanar gelo sobre a 
pescaria. O rasto disse-lhe que o barco ia  velocidade mxima. Olhou para trs, na direco da popa do barco, 
e uma vez mais reparou na enorme espiral de rede. Nesse momento sentiu-se gelar e deixou cair os binculos  
volta do pescoo.

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- Jesus - disse ele num murmrio.

- O que foi?

Hesitou por um instante. Depois explicou.

- Aquelas coisas mexem-se que se farta. Aposto que vai a 20 ns.

Ellie estudou o barco por um instante e depois voltou a olhar  toa para

o mar.

Redes de pesca, pensou Gordon num pnico sbito. O erro fatal no seu plano perfeito. Barcos de pesca 
arrastavam redes at aqui. Qualquer uma delas podia encontrar o corpo, que o investigador reclamaria para 
prova judicial.

Tentou acalmar-se. Uma grande sorte, pensou ele. 
Uma sorte incrvel. Quais eram as hipteses de algum lanar uma rede em torno 
daquele local um dia ou mais depois dela cair  gua? Porque depois disso no haveria corpo nenhum. Os 
peixes tratariam do assunto,

Mas podia acontecer. Podia ser essa a coisa inesperada que no planeara, o tipo de acontecimento fortuito que 
parecia sempre furar os planos perfeitos. E se algum encontrasse o corpo a 50 milhas de onde ele 
disse que cara, isso certamente levantaria suspeitas.

E se as redes j tivessem sido lanadas? Os barcos de pesca lanavam redes durante um dia inteiro e 
s as iavam em crculo no dia seguinte. Se esperasse pela escurido da 
noite, podia estar a lanar Theresa numa das 
redes. Talvez tivesse que ser feito quando ainda houvesse alguma luz no cu para ter a certeza de 
que no estava no meio de um barco de pesca.

A mo dele foi automaticamente para a alavanca e comeou a iar a vela grande, esticando bem a enorme vela 
contra o vento. o Lifeboat inclinou-se lentamente para estibordo, Gordon sentiu a velocidade 
aumentar instantaneamente.

Ellie reparou no que ele fizera. Levantou-se do banco onde estava e olhou por cima da popa para onde a 
enorme embarcao continuava a convergir para a rota deles.

- Vamos passar junto a ele - disse. - Vamos poder v-lo bem.

Gordon acenou com a cabea, mas no porque partilhava do entusiasmo dela. Ela acabara de resumir 
claramente o seu problema. Queria agora atingir o ponto mais afastado de terra antes do 
anoitecer. Mas, nessa altura, a outra embarcao estaria perto deles. De repente, 
parecia que todos os barcos de Nova Inglaterra se movimentavam para a rea e milhares de binculos estavam 
focados nele. No ia dar resultado! O seu plano perfeito era impossvel,

Vieram borrifos de gua por cima da proa e choveu para o 
cockpit. O vento, ainda vindo de oeste, soprava mais forte e provocava ondas no que tinha sido 
um mar cho. Gordon calculou que iam a oito ou nove ns, 
o que era rpido para o casco amplo do barco e para a sua nica vela. Olhou para o Sol, agora

  233

claramente no cu do lado oeste. Mais trs horas at ao pr do Sol, Os acontecimentos comeavam a precipitar-
se na sua direco.

Ellie ouviu a voz de Timmy e desceu atravs da escotilha at  cabina principal. Theresa estava um passo  
frente dela. j descera da cabina do piloto e comeara a avanar em frente.

Timmy saltou ansiosamente para os braos de Theresa, que o embalou afectuosamente para lhe acalmar os 
soluos. Molly anunciou que no se estava a sentir bem. Ellie calculou que fosse a inclinao do barco que os 
estivesse a perturbar e decidiu que se sentiriam melhor l em cima a apanhar ar. Ajudou Theresa a vestir-lhes 
os coletes salva-vidas e sugeriu  rapariga que vestisse o dela tambm. Theresa levou as crianas para cima 
enquanto Ellie comeou a procurar comida na arca congeladora para o jantar.

Nunca daria resultado, decidiu Gordon resignado. Os midos tinham feito uma sesta e estariam a p 
no cockpit at bem para l do pr do Sol. Theresa tinha o colete salva-vidas, o que, se casse  gua, 
lhe permitiria ser encontrada rapidamente. E haveria pblico a bordo da embarcao que atravessara o oceano 
e que estava prxima e cada vez mais perto.

No podia fazer nada at ficar bem escuro e estaria ento numa jogada de sorte com os barcos de pesca.

Viu que Theresa estava a olhar directamente para ele, admirando o seu olhar sobre a bssola e a mo sobre o 
leme.

- Parece mesmo que est no comando - riu-se ela. - Como se tivesse tudo sob controlo. Devia tirar-lhe uma 
fotografia para a campanha,

Molly achou uma ideia maravilhosa e desceu rapidamente para ir buscar a mquina fotogrfica. Gordon olhou 
para Theresa.

- No comando - repetiu ele num tom de escrnio. - Tudo sob controlo. Theresa pediu-lhe para posar com os 
dois filhos, um de cada lado. Depois pediu a cada criana que pusesse a mo no leme, com Gordon atrs deles 
com ar de orgulho. Ellie subiu com um tabuleiro de fruta cortada em pedaos e fatias de quiche que serviria de 
jantar no cockpt e Theresa colocou-a na sesso de fotos. Apanhada na diverso de posar com os filhos, Ellie 
desatou-se a rir, um som que causou uma expresso de choque no rosto de Gordon.

- Sorria, senhor Acton - disse Theresa por detrs da mquina e Gordon fez um esgar forado.

- Agora voc - insistiu Ellie, trocando de lugar com Theresa. Colocou Timmy em cima do joelho de Gordon, 
esticando a mo para o leme. Theresa sentou-se ao lado de Gordon com um brao em redor de Molly, 
chegando-a para si. Timmy deu uma grande gargalhada e, por um instante, Ellie sentiu desaparecer a tenso 
negra que pairara sobre o barco.

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- Trouxemos a cmara de filmar? - perguntou Theresa de repente.
- Sim - disse Ellie sem entusiasmo.

Theresa levantou-se e dirigiu-se para a escotilha.
- Posso ir busc-la?

Ellie baixou os olhos.

- Depois de comermos - voluntariou-se Gordon. - Gostava de filmar aquela corveta.

Seguiram o olhar dele e viram que o barco enorme estava claramente visvel, para alm da proa a 
estibordo e ainda numa rota capaz de cruzar logo  frente deles. Viram vrias figuras a 
movimentar-se no cockpit central aberto. Gordon sabia que passariam por ele junto  
popa um pouco antes do pr do Sol.

As crianas estavam contentes, brincando a um jogo de encontrar formas 
nas nuvens. Fora Theresa quem comeara, encontrando uma 
nuvem que parecia um coelho. Molly encontrou um cavalo e depois Timmy confundiu-as 
apontando para um cone de gelado de baunilha, Ellie observava com curiosidade. Como  
que a rapariga podia ser to infantil e inocente num momento e uma maquinadora mentirosa um momento 
depois. Esta era a rapariga que enganara facilmente um professor de faculdade, 
enviara uma carta ameaadora a Ellie sob a forma de um ficheiro de computador e 
depois a extorquira para um novo guarda-roupa sem sequer perder o sorriso. 
E agora estava apertada contra um dos cantos do cockpit com os midos, 
completamente envolvida num jogo de crianas,

Reparou no maxilar de Gordon e na linha rija e fina dos seus lbios. S a referncia  cmara de 
filmar deixara-o gelado, lembrando-lhe que Theresa tinha tudo gravado.

Ficaram  popa da chalupa, a no menos de 300 metros de distncia. De acordo com os clculos 
de Gordon, estavam a 60 milhas a leste de Kittery, o ponto em que 
planeara livrar-se de Theresa. Em vez disso, estava a acenar para uma multido de pessoas 
bonitas que tinham os copos erguidos num brinde. Calculou que, a julgar pela 
rota deles, se dirigiam para Portland, o que significava que estariam 
bem  vista at  noite.

Para oeste, o Sol comeava a derramar a sua cor vermelho-sangue pelo mar. 
Uma linha carmim resplandecente estendia-se pela superfcie at ao barco deles.
O cu estava a incendiar-se. Gordon olhou para norte e viu a forma de outro barco. Atravs dos 
binculos, identificou outro barco de pesca que se movimentava lentamente numa 
curva ampla. A apanhar as redes, pensou ele, ou talvez a estend-las. Nem imaginava 
quantos mais estariam para trs, de um lado para o outro a atravessar a sua rota.

Os midos ficaram a ver o Sol desaparecer e depois comearam a descobrir novas formas nas nuvens 
incandescentes. S gradualmente  que o cu passou

  235

de vermelho a rosa e depois a uma tonalidade final de lavanda. Molly bocejou e Tmmy fechou os 
olhos. Theresa levou-os para baixo.

- Devias dormir um pouco - disse Ellie a Gordon, - Foi um longo dia. Ela tinha razo e normalmente ele teria 
descido e deixado Ellie de vigia  noite. Era uma boa marinheira e uma capit cautelosa. Mas estava 
preocupado com os barcos de pesca e com a possibilidade das redes lhe boicotarem os planos.
- Vou dormir aqui em cima - decidiu ele e comeou a enrolar um colete salva-vidas para servir de almofada, - O 
vento vai-se manter constante, por isso no vais precisar de virar de bordo. Mantm a rota e acorda-me se vires 
luzes em movimento ou marcadores de redes. - Procurou uma posio confortvel no banco voltado para 
sotavento e adormeceu num instante.

Ellie instalou-se atrs do leme e comeou a sentir-se terrivelmente sozinha. Theresa criara um abismo entre ela 
e o marido que era muito mais vasto do que simplesmente a infidelidade dele. Retirara a confiana embutida 
nele e descobrira o podre na madeira subjacente. Antes, fora um lder de negcios que geria assuntos 
corporativos e aumentava a prosperidade da empresa. Fora um lder governamental emplumado que aspirava a 
fazer mais pela sua comunidade. Talvez um dia candidato a presidente. Fora um pai determinado a servir de 
inspirao aos filhos. Agora era um homem assustado, que se lamentava de ter sido comprometido e enganado, a 
conspirar assassnio para salvar as suas expectativas e imagem.

E no era s Gordon. Theresa tambm aumentara os fracassos de Ellie. Ela julgara-se uma mulher 
totalmente liberal, que geria o lar e a profisso com igual destreza. Agora sentia-se paralisada,  deriva nos seus 
prprios medos, dependente do marido para encontrar uma sada para os problemas. Fora uma inovadora em 
educao, que esperava conduzir a revitalizao da educao pblica.

Theresa transformara-a numa fraude. Fora corajosa ao promover as suas ideias, arriscando-se a censura e 
lutando pelas suas crenas. Agora era uma cobarde, incapaz de se defender de qualquer contra-ataque contra 
si mesma, com medo de adoptar uma posio firme contra Gordon e chocada s de pensar em trabalhar com ele.

Estavam ambos expostos como pouco mais do que animais educados, bem treinados nas delicadezas da vida 
profissional e de sociedade, mas ainda bestas perigosas. E, embora outrora tivessem sido capazes de esconder 
as verdades um do outro, agora a verdade estava nua e crua para que todos a pudessem ver. Como  que se 
podiam amar um ao outro? Como  que se podiam amar a si mesmos? Esse era o crime mais repreensvel de 
Theresa. No era o facto de lhe ter seduzido o marido nem de lhe ter comprometido o trabalho. Nem mesmo de 
ter exortado uma chantagem subtil como preo de lhes deixar a reputao e a imagem

236

pblica intactas. o seu acto mais detestvel fora faz-los verem-se a si mesmos pelo que eram. Agora nem 
ela nem Gordon se podiam confrontar a si mesmos nem um ao outro. Deixara-os 
sozinhos, assustados e desesperados.

Ellie ainda conseguia ver as luzes da cabina da corveta que se dirigia para oeste. Parecia viva em 
contraste com o silncio mortfero a bordo do Lifeboat. L  frente s havia escurido e 
navegava em direco a ela com o vento por trs, Reparou nas luzes que se moviam de um 
barco que se aproximava, provavelmente uma embarcao de pesca. 
Estava dentro da rota e dirigia-se mais, para terra, no havendo assim necessidade de acordar Gordon.

Theresa subiu vinda da cabina e ficou surpreendida ao ver Gordon a dormir e Ellie 
no leme.

- No sabia que era capit - disse ela num murmrio,

- Nada disso - respondeu Ellie em voz baixa. - S estou a manter-nos na mesma direco.

Theresa subiu para o cockpit, via que Ellie no tinha o colete salva-vidas vestido e tirou o que 
tinha,

- No faz mal?

- No! No podia estar melhor tempo para navegar. Mas tenha-o  mo porque nunca se 
sabe.

Sentou-se perto de Ellie onde podia ver a carta martima e a bssola e comeou a fazer perguntas sobre a 
viagem. Como se escolhia uma rota? Como  que se sabe onde estamos? Importa saber de que lado sopra 
o vento? Ellie respondia com frases simples que transmitiam apenas o bsico. Estava sempre a desculpar-se 
por no ser nenhuma perita e acenava na direco de Gordon que dormia como prova de 
que no podia assumir sozinha o comando. Ficaram em silncio, sentadas juntas e admirando a noite 
estrelada.

Ellie estava abalada pelo dilema que Theresa representava. Ali estava ela sentada como 
uma melhor amiga ou mesmo uma filha. Porm, roubara o 
marido de Ellie e deixara-lhe a vida em runas. Seria assim to cega que no conseguia ver os danos que 
causava? Seria assim to cnica ao ponto de agarraras oportunidades independentemente de quem 
tivesse que empurrar? Porqu? No sabia que se tornara parte da familia 
deles? Provavelmente ter-lhe-iam dado de graa tudo aquilo que extorquira. Mas lembrava-se de uma fase 
inicial do relacionamento de ambas em que acusara Theresa de mentir e depois dissera que compreenda 
o que a rapariga estava a passar.

- No faz a mnima ideia. - dissera-lhe Theresa, numa voz que parecia espantada por Ellie poder ser to 
estpida. Provavelmente era essa a resposta. Embora se estivessem a aproximar cada vez mais uma 
da outra, Ellie no fazia ideia realmente do que levara Theresa ao ponto de saquear os seus benfeitores

  237

para lhes passar  frente. Passara o Vero com a rapariga e, porm, no 
fazia a mnima ideia.

Theresa - disse ela. - Penso que voc e eu devamos fazer outra visita ao deo Drury. - Era mais do que uma 
sugesto. Era uma ordem de algum que estava no comando. - Quero levar todo o seu ficheiro de computador 
connosco quero que o examinemos com ele, pgina a pgina, linha a linha,

Theresa pestanejou distrada, apanhada completamente desprevenida,

- Pensei que... Quero dizer, ele pareceu compreender. At disse que o assunto estava encerrado---

- Voc assumiu muito pouco crdito por todo o trabalho que fez. Quero que ele veja como foi importante para o 
projecto. Depois pode avaliar de forma justa se se trata de um trabalho meu ou seu,

Os olhos de Gordon pestanejaram e abriram-se. Mas ficou imvel e manteve o padro rtmico da 
respirao. Ficou  escuta, comeando a recear aquilo que estava a ouvir.

- No vai estar a... tipo a... causar problemas a si prpria? - perguntou a rapariga.

- j causei problemas a mim prpria, Comprometi a minha integridade e coloquei todo o meu futuro em risco. 
Quero esclarecer tudo. Entre o professor e eu, mas mais importante, entre voc e eu.

Theresa acenou com a cabea como se estivesse a compreender.
- Est bem--- como quiser. S pensei que a estava a ajudar...

- E agora sou eu que a estou a ajudar a si - disse Ellie. - Se inventarmos uma mentira juntas, nunca nenhuma de 
ns ser livre.

- Ns no mentimos...

- No dissemos a verdade, pois no? Lentamente, a rapariga abanou a cabea.

- Acho que no.

- Ento  isso que vamos fazer. Assim que regressarmos.
 Gordon mexeu-se e sentou-se abruptamente.

- Mesma direco, mesma velocidade e mais nenhum barco por perto relatou Ellie. - Porque no voltas a 
adormecer?

- No, j descansei. - Ligou a unidade de navegao por satlite e pediu uma posio. A resposta, que piscou no 
ecr, colocou-os a 60 milhas a leste de Kennebunkport, Mane. O ponto de terra mais prximo era a cerca de 50 
milhas  frente. Ele marcou na carta.

- Ests dispensada do teu turno - disse ele a Ellie.

ptimo. Mas acho que vou ficar a p no cockpt. Est uma noite to bonita.

238                          

Ele compreendeu o que ela queria dizer. Acabara de se comprometer com a verdade. j no tinha medo do que 
Theresa lhe podia fazer e pretendia ficar na parte de cima toda a noite para se certificar de que 
nada acontecia  ama.

A rapariga ps-se de p, olhou para um e para outro e comeou a descer para o seu beliche. Gordon 
pedu-lhe em voz alta;

- Pode fazer caf?

- Est bem - respondeu Theresa. - Levo-o a acima quando estiver pronto.

- Pode ir descansar - disse-lhe Ellie. - Um de ns vai l buscar, At amanh.

Ouviram a gua a correr e o som da cafeteira a raspar nos ferros do fogo. Depois a luz da 
cabina apagou-se, seguida de um silncio que fez com que ambos se apercebessem do 
som do vento na vela,

- Parece que tomaste uma deciso - disse Gordon. Ellie sabia exactamente o que ele queria dizer.

- Acho que sim, embora se trate de uma constatao de que nunca tomei 
qualquer deciso para a magoar.

- Mas.--- ajudaste a plane-ar a viagem.

- Enquanto estava confusa e com medo. Ainda estou com medo, 
mas no estou confusa. Sei o que tenho de fazer e penso que  o mesmo que tens de fazer. Dizer-
lhe que cometeste um erro mas que no se vai repetir Depois tu e eu 
podemos sentar-nos e resolver o nosso futuro.

- E se ela telefonar a algum reprter ou canal de televiso? Ellie pensou durante 
um momento e depois disse.

- No h nada que a imprensa me possa contar que eu j no saiba. Ser embaraoso, mas hei-de 
sobreviver.

Ele olhou para dentro do cockpit, com a cabea a abanar lentamente.
- Eu nunca sobreviveria a isso.---

- As tuas ambies polticas talvez no, mas penso que s suficientemente forte. E ajudar-te-ei em tudo o que for 
preciso.

Ele ficou calado, sentado sem se mover enquanto pesava todas as incertezas do futuro. Depois ps-se de p 
num salto e foi at  escotilha.

- Fica mais um minuto ao leme. Tenho de ir  casa de banho e depois trago o caf 
para cima.

Ela ficou sentada, sozinha, a estudar o que dissera e a tentar 
imaginar a reaco dele. Calculou que ele sabia que ela estava a falar a srio. Esperava que ele 
compreendesse o que lhe estava a dizer, A Theresa fica 
livre e tu e eu arriscamos a nossa sorte, juntos. 
Era um bom negcio para ele. Melhor do que merecia.

 239

Gordon estava de p na casa de banho, agarrado por causa da inclinao do barco, e revistou o armrio 
de medicamentos. Encontrou os comprimidos para dormir - comprimidos ligeiros de venda livre bons para 
dormir quando o resto da tripulao estava em festa. Tirou dois para a palma da mo e depois decidiu-se 
por mais dois. Quando estava a guardar o frasco, reconsiderou e voltou a duplicar a dose. Depois ps o 
frasco vazio no bolso,

Subiu a escotilha com duas chvenas fumegantes e entregou uma a Ellie enquanto se esgueirou para trs 
do leme, Foi bebendo o caf enquanto ela esperava sentada por alguma resposta  sugesto que fizera.

- No lhe vou dizer agora - anunciou ele finalmente. - Mas dgo-lhe logo a seguir  eleio. Acho que 
quero ganhar um pouco mais de tempo No estou pronto para o que um escndalo destes me pode fazer.

Agora foi Ellie quem ponderou sobre o futuro antes de responder.

- Acho que isso serve. Mas quero ir falar com o deo Drury agora. No quero arriscar que tudo se torne 
pblico na cerimnia de doutoramento.

- Podias esperar at te entregarem o grau - sugeriu ele.

- No posso, no! - No ia permitir qualquer evaso ao problema. Ellie bebeu o caf, sem nunca tirar os 
olhos das estrelas.

- Sabes, sinto-me mesmo bem. Melhor do que me sentia desde que tudo isto comeou.

Gordon limitou-se a olhar para ela.

Os comprimidos levaram dez minutos a fazer efeito. Comeou a pestanejar enquanto tentava manter os 
olhos abertos e depois a cabecear de sono quando apanhava o queixo a cair,

- Foi um dia difcil, - disse ela ao marido como forma de se desculpar e, alguns segundos 
depois, admitiu: - Creio que preciso mesmo de dormir um pouco.

- Eu trato disto - disse Gordon referndo-se ao barco. - Desce e deita-te. Ela acenou com a cabea.

- Est bem. - E depois repetiu: - Preciso mesmo de dormir um pouco. Gordon ficou  escuta enquanto ela 
descia a escada. Ouviu embater numa antepara e um segundo depois fechar a porta da cabina, A luz da 
cabina acendeu-se e reflectiu-se sobre a gua. E depois, ao fim de apenas um minuto, ficou escuro.

Esperou vrios minutos, dando-lhe bastante tempo para se afundar no colcho. Depois examinou o 
horizonte cuidadosamente para se certificar de que no havia mais nenhum barco  vista. Afrouxou a vela 
grande para que a vela gigantesca oscilasse livremente. Depois travou o leme e desceu.

Gordon acorreu ansiosamente at ao beliche piloto em que Theresa dormia. Depois verificou os beliches 
em V para ter a certeza de que os filhos estavam

240                             DIANA DIAMOND

a dormir. Movimentou-se lentamente, usando a luz das estrelas que entrava ligeiramente atravs da 
escotilha do convs e das portinholas. Quando se encostou  porta da sua prpria cabina, ouviu a 
respirao ritmada e pesada de Ellie. Voltou  cabina principal e abanou Theresa, levando depois um dedo 
aos lbios dela para que ficasse em silncio.

- Venha para cima - murmurou ele. - Temos o cockpit para ns.

Ela ficou bem acordada num instante, passando com as pernas por cima da cama. Agora o dedo foi para os 
lbios dele, para lhe lembrar de que no podia fazer barulho. Deixou-a para que se vestisse em privado e 
foi para cima, para dentro do cockpt.

CAPTULO TRINTA E OITO

Gordon respirou fundo, apercebendo-se de 
repente de que tinha o corao aos pulos. 
Levantou-se do banco em que estava sentado, 
apoiando-se ao lado oposto da inclinao do 
barco. Observou com ateno para oeste. No 
havia sinal da grande chalupa. Estaria  popa 
dela e provavelmente no veria nenhuma das 
suas luzes em movimento. Talvez conseguissem 
distinguir a sua vigia e as luzes do mastro do 
barco dele, mas nada mais do que isso. 
Calculou que devia haver vrias milhas entre 
ambos.  frente, havia apenas escurido. A luz 
das estrelas dava-lhe reflexos das cristas das 
ondas e mal conseguia ver a mudana de cor 
que indicava o horizonte. No havia luzes.

Levantou um ba de armazenagem por baixo da 
almofada do assento a estibordo e tacteou l 
dentro em busca da caixa de ferramentas. 
Sentiu um martelo e vrias chaves de 
parafusos antes de encontrar o que procurava. 
Silenciosamente, tirou uma grande chave 
inglesa - uma ferramenta pesada e automtica 
com uma abertura de cinco centmetros numa 
das extremidades, dois centmetros e meio e 
trs quartos na outra. Fechou a tampa, voltou 
a pr a almofada do banco no lugar e pousou a 
chave inglesa ao seu lado. Depois voltou a pr 
o barco no rumo certo, instalou-se atrs do 
leme e esperou.

o medo apoderou-se dele quando Theresa subiu 
para o cockpit e apercebeu-se de que tinha as mos a tremer. O pouco que planeara 
para este momento de repente abandonou-o, deixando-o a gaguejar quando ela lhe entregou uma 
chvena de caf.
- Simples, no ?

- O qu?

- O caf! Gosta dele simples.
- Sim, sim. Est perfeito.

Entornou o caf, queimando a mo. Teve medo de tentar levar a chvena  boca.

242                        

- Isso  frio? Parece estar a tremer.

- No, no, no  nada. Sente-se. Ponha-se  vontade. Theresa sorriu.

- Vou s buscar o meu ch, est bem?
- Claro! ptimo. Fico aqui  espera.

Controla-te, repreendeu-se Gordon, Pensa! No lhe digas para se pr  vontade. Acaba logo com isso. 
Sabes o que tens de fazer. F-lo!

Tentou lembrar-se do que se vira a si mesmo fazer vezes sem conta durante os ltimos trs dias. Distrai-a, 
Faz com que se vire de costas. E depois...

Ela voltou para cima lentamente, embalando uma chvena entre as mos, e foi para o banco alto voltado 
para o vento.

- No, a no - disse Gordon rapidamente como se ela estivesse a pr o barco em perigo. - Aqui, deste 
lado. - Apontou com o caf para o banco a sotavento, mais prximo da gua por causa da inclinao do 
barco.

Theresa pareceu ficar confusa por um instante e depois atravessou  frente dele na direco do banco 
indicado. Sentou-se com cuidado e depois olhou para cima para os agrupamentos de estrelas que 
abrangiam cada vez mais o espao.
- Que bela noite!

- No ?! - respondeu Gordon sem olhar para cima. O seu crebro andava  procura de uma maneira de a 
fazer levantar-se em cima do banco, inclinar-se para fora, onde cairia  gua e no para dentro do 
cockpit. Tentou beber o caf mas o tremor piorou. Sabia que ia entorn-lo pelo 
queixo abaixo.

Sentiu os olhos dela sobre ele, quase como se estivessem a lanar raios de luz. Quando voltou para l o 
olhar, ela estava a sorrir-lhe angelicamente. To jovem e to bela! Como  que podia pensar em fazer-lhe 
mal? Gordon respondeu com um sorriso rpido e depois voltou a ateno para a bssola.

-  difcil mant-lo na rota certa? - perguntou Theresa.
- No. Quando se est habituado, no.

- Posso experimentar?
- Sim, claro...

Ela pousou a chvena entre duas almofadas e colocou-se entre Gordon e o leme. Ele ps os braos  
volta dela enquanto navegaram juntos por um segundo. Apercebeu-se de que estava a encostar-se a ela e 
afastou-se abruptamente.

A agulha da bssola comeou a mover-se lentamente para longe do indicador de rota. Theresa cometeu o 
erro de novato de tentar repor a bssola no curso certo e comeou a girar o leme na direco errada. As 
mos de Gordon vieram por cima e pararam o leme.

- No, no, movimente o marcador para a rota. Lembre-se que a bssola nunca se move.  o barco que se 
move em torno da bssola.

 243

Comeou a ajud-la a virar para o lado oposto e ela riu-se quando viu o movimento parar e depois o marcador 
voltar  rota correcta.

Gordon sentiu-a encostada a si e lembrou-se de como ela era excitante. Assm que o barco ficou de novo no 
rumo certo, deixou cair de novo as mos e ficou a observar por cima do ombro dela.

- Tente antecipar - aconselhou ele, - o barco vira lentamente mas, assim que a proa comear a girar,  difcil de 
parar. Rode o leme para trs antes de entrar na rota. Isso! Isso mesmo! Est a ver, deixou-o ir um pouco para 
l da rota, depois ajustou-o.

Ela encurtou a oscilao da proa de dez graus para cinco e depois para dois conforme o lado da rota. Gordon 
seguiu o processo, mas no sentiu prazer pelo xito dela. Faz com que se incline para fora, estava sempre a 
ordenar a si mesmo, Agora! F-lo agora!

Por baixo do convs, Ellie virou-se na cama. No seu sonho, estava a fugir de Gordon - uma caricatura grosseira 
e diablica de Gordon - que vinha na sua direco com um machado levantado acima da cabea. Ele estava a 
gritar-lhe mas a sua voz era muda. Ela s conseguia ouvir rajadas de riso de Theresa. Ia a correr mas tinha os 
ps colados ao cho, No havia fuga possvel. E depois estavam em cima dela, Gordon de 
fato de jantar e Theresa com o vestido plido que usara no churrasco de marisco. Tinham as mos por cima do 
rosto dela, deixando-lhe cair p para os olhos. Uma flauta tocava o adgio triste que Theresa ensinara a 
Molly. Por isso, devia ser Molly a tocar, mas Ellie no a via em lado nenhum.

- Est a sair-se muito bem - disse Gordon  sua aluna. - Parece ter mesmo jeito para isso. - Tinha a mente 
dissociada das palavras. S conseguia imaginar a chave inglesa a descer-lhe sobre a cabea. O 
tremor piorou e a resoluo abandonara-o, F-lo, continuava a ordenar a si mesmo, ainda que 
soubesse que o momento em que o podia ter feito j passara.

Theresa encostou-se para trs afastando-se do leme e beijou-o na face. Gordon recuou com um salto e ficou a 
olhar para ela como se o tivesse infectado.
- O que  que me queria dizer? - perguntou ela.

- No devia fazer isso - disse ele num murmrio.

- Apeteceu-me - respondeu Theresa como se se tratasse de uma explicao adequada. Depois acrescentou: - 
Amo-o. Sabe disso, no sabe?

- Que raio, no diga isso! - O seu tom foi brutal e ela encolheu-se como se tIvesse levado uma estalada. Gordon 
foi para o leme.

- Beba o ch - ordenou ele. Theresa recuou.

- Desculpe. No se zangue comigo!

244                          

O maxilar dele ficou firme e os olhos incandescentes. Theresa pegou na chvena com uma mo e segurou-
se agarrando-se  vela grande entesada. Inclinou-se para fora para poder ver por baixo da vela e olhar 
em frente. Gordon colocou cuidadosamente o caf no receptculo dos binculos. A mo deslizou sobre a 
almofada at encontrar a chave inglesa. Ergueu-a silenciosamente com o punho cerrado e os ns dos 
dedos brancos.

-  a noite mais bonita da minha vida - disse Theresa em direco aos pontos de luz que danavam sobre 
a gua. A mo de Gordon saiu do leme. Deu um passo na direco de Theresa sem que ela desse conta. 
Num instante, estava mesmo atrs dela, suficientemente perto para esticar as mos e abra-la. Talvez ela 
soubesse que estava ali. Talvez fosse isso que esperasse ou desejasse. Um gesto afectuoso de desculpas 
por tornla infeliz.

Gordon decidiu-se num instante. Ergueu a chave inglesa no ar.

Theresa sentiu o movimento; virou a cabea e os seus olhos encontraram-no durante um instante. Nunca 
teve tempo de olhar para cima e ver a chave inglesa que iniciava a sua descida. No conseguiu levantar 
uma mo defensiva nem mesmo afastar o rosto do golpe.

A chave inglesa bateu-lhe com um som cortante, como um machado a ferir a casca de uma rvore e 
mergulhando na seiva hmida do interior. Os olhos de Theresa lampejaram como uma lmpada no 
momento em que se funde. O lampejo morreu e transformou-se em chumbo.

Quando o corpo comeou a cair, Gordon empurrou-a com a mo que tinha livre. A forma dela deu uma 
cambalhota sobre a corda de segurana e caiu ao mar que corria apressadamente. Um salpico traseiro 
saltou sobre a amurada e lanou vapor de gua sobre o cockpit. Gordon voltou-se para a popa 
e observou atentamente. S conseguiu ver o rasto do Lifeboat. No havia sinal de Theresa. 
Nem mesmo uma mancha do seu crnio aberto,

Gordon voltou-se de novo para a bssola. Acontecera tudo to depressa que o barco s abrandara alguns 
graus, Agarrou no leme e ficou espantado ao ouvir o rudo da chave inglesa contra o acabamento cromado 
do leme. Quando olhou para baixo, viu a arma atravs do brilho vermelho da bitcula. Toda a chave 
inglesa parecia carmim vista  luz da bssola. O sangue na extremidade da ferramenta parecia preto 
azeviche. Ps o brao de fora, arremessando a arma horrorosa para fora da sua mo. Bateu na corda de 
segurana e voltou para trs, caindo dentro do cockpit. Gordon deu a volta ao leme a correr, 
pegou na chave inglesa que estava no convs e lanou-a borda fora. Viu uma pequena bolsa de gua 
quando ela mergulhou e depois, tal como Theresa, desapareceu,

Manteve a proa constante e depois foi at  caixa de ferramentas e tirou um pano. Com cuidado, limpou as 
gotas de sangue coagulado que tinham salpicado

  245

ao longo da amurada. Dobrou o pano e usou uma superfcie limpa para tirar a mancha da chave inglesa da 
almofada onde aterrara e as ndoas do convs onde cara ruidosamente. Esticou a mo para o interruptor 
de luz do cockpit mas afastou instintivamente os dedos. Se acendesse a luz do cockpit, ainda 
podia ser visto da alta corveta. Qualquer barco de pesca no horizonte podia ver o fluxo de luz brilhante. 
Tinha de se contentar com o brilho da bssola para se certificar de que tudo estava limpo.

Gordon trabalhou rapidamente, correndo do leme para o canto do cockpit em busca de provas 
que pudesse obliterar. Olhou para a parte de fora e viu marcas de salpicos no exterior do casco. Manchas 
de sangue, pensou ele, e mergulhou o pano no mar que passava para as limpar. Mas quando levantou o 
pano, a mancha era apenas de ch, que vertera da chvena de Theresa quando cara. Procurou na caixa 
de ferramentas por outro objecto pesado e encontrou outra chave inglesa. Atou-a ao pano como lastro e 
atirou o embrulho borda fora.

Ouviu uma batida e olhou rapidamente em volta para descobrir o que estava a bater contra o casco. Levou 
alguns segundos a identificar que se tratava do bater do seu prprio corao. Tinha o peito prestes a 
explodir. Suor abundante escorria-lhe pelo rosto e caa em gotas. Sentia a camisa toda encharcada. Gordon 
resolveu respirar vrias vezes fundo e lentamente. A cabea comeou a espairecer mas, no silncio 
mortal, o batimento cardaco parecia soar mais alto. Foi at ao banco e sentou-se sem se mover, 
perguntando-se se iria viver ou morrer. Levou quase meia hora a decidir.

As horas? Quando  que ela cara? Gordon apercebeu-se de que no pensara em mais nada a no ser na 
sua sobrevivncia. Planeara tomar nota da hora exacta e depois navegar por mais quatro horas antes de 
lanar pela rdio a sua emergncia. Calculou que devia ter sido 20 minutos antes, o que colocaria o 
momento por volta das onze e meia. Assim, s trs e meia faria o apelo. Podia verificar a sua posio a 
todas as horas para se certificar de que ia, pelo menos, a sete ns. Isso deixaria o corpo a cerca de 30 
milhas do ponto em que a Guarda Costeira comearia as buscas. Estava bem. Tudo correra mais ou menos 
como planeara. S tinha de aguentar o que seriam certamente alguns dias difceis. Depois estaria tudo 
acabado. A chantagem chegaria ao fim e ele e Ellie podiam apanhar os pedaos das suas vidas.

Sentiu-se bem-disposto. O horror que sentira no momento em que desferira o golpe desaparecera. A 
repugnncia que se apoderara dele enquanto limpava as manchas de sangue no passavam de uma 
recordao vaga. O tremor desaparecera-lhe das mos.

Agora, a histria! Como  que ela cara borda fora? Porque  que ela no estava com colete salva-vidas? 
Porque  que no conseguiu bolar durante pelo

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menos os minutos que levaria a baixar a nica vela do barco, ligar o motor e voltar at ela? Tinha de estar 
pronto com respostas e decidira que a melhor resposta era no responder.

Ela estava a olhar para fora, pensou ter visto uma luz e inclinou-se mais para 
examinar por baxo da vela. Apenas a inclinar-se para fora, com o ch na mo e mantendo o equilbririo 
segurando-se  vela grande. No era prprio de marinheiro e ele dissera-
lhe para ter cuidado. Mas ela no corria perigo. O mar 
estava calmo e o barco direito. Claro que estava inclinado, mas apenas a dez ou 15 
graus. Vinte, no mximo. E depois tudo acontecera num instante. 
Ela parecia ter erguido os joelhos do banco para se poder inclinar ainda mais para fora. Gordon estava 
mais preocupado em manter a rota. Avisou-a para no se inclinar para fora, mas tinha de admitir que o aviso 
denotara alguma indiferena. Mais por reflexo do que por qualquer outra 
coisa, como dizera um filho para no correr to depressa.
O tipo de coisa que se diz automaticamente sem se preocupar realmente se 
algo vai correr mal. Calculava que o p dela teria escorregado do banco ou que a 
amofada do assento em que estava assente se podia ter movido. Mas dera 
subitamente uma cambalhota sobre a corda de segurana, rolando sobre a 
mo que estava agarrada  vela grande, Lembrava-se de um barulho 
contra o casco. A mo ou o ombro dela a bater, pensara ele nesse momento. 
Mas, em retrospectiva, deve ter sido a cabea. Deve ter ficado logo inconsciente porque nunca emitiu nenhum 
grito. Nem nunca veio ao de cima. Quando ele olhou rapidamente  sua volta, esperou v-la claramente no rasto 
do barco, provavelmente a no mais do que alguns centmetros atrs do barco, 
mas no viu nada. Nem mesmo uma pequena ondulao onde mergulhara. Nem um 
vestgio.

Fez todas as coisas certas para uma emergncia de homem ao mar. Tirou a 
bia salva-vidas da balustrada e atirou-a para o rasto do barco. Virara contra o vento, colocara 
a vela  bolina e libertara a adria, deixando a vela cair para dentro da verga. O motor 
fora ligado imediatamente.

Gritou para baixo por Ellie e ela surgiu no convs assim que ele estava a passar sobre o rasto que fizera. Havia 
uma lanterna de mo encaixada na antepara da frente. A Elle pegou nela ao subir. Lanou luz sobre a gua de 
imediato. Voltmos a percorrer o nosso rasto que ainda era perfeitamente visvel ao fim de um tempo total de 30 
segundos. Talvez um pouco mais, mas certamente no mais do que um minuto. Espervamos v-la! Tnhamos de 
estar a 15 metros do local em que cara. Tirei o corta-vento e peguei no colete salva-vidas. Tinha a certeza que 
ia saltar para a agarrar e traz-la de volta para o barco. Mas no conseguimos v-la.

A Ellie comeou a chamar pelo nome dela e depois eu estava a chamar pelo nome dela. Continuei por talvez 
mais 50 metros at ter a certeza de que recuara

  247

demais. Virei de forma abrupta e voltamos a percorrer o rasto. Estava preocupado claro. Mas 
no em pnico. No era possvel que desaparecesse to depressa. Ainda esperava v-la ou ouvir-lhe a 
voz.

Depois lembrei-me do barulho. E se tivesse batido com a cabea? Oh, Jesus, podia estar inconsciente. 
Talvez a voz dela fosse fraca demais para a ouvirmos. Desliguei o motor e ficmos parados. No havia 
ondulao digna de nota. Peguei na lanterna e apontei-a a todo o redor do barco. Continuvamos a cham-
la pelo nome e eu continuava  espera de a ouvir responder, Andmos  deriva durante talvez um 
minuto  procura com a luz. E agora estava a ficar frentico. Corria de um lado para o outro,  
espreita e aos gritos, Pensei em lanar uma luz de emergncia. Mas ela no podia estar a mais de 30 metros 
de onde estvamos. Tinha de ver a lanterna e ouvir as nossas vozes.

Liguei a luz do cockpit, que nos dava muito mais luz ambiente para a gua, Olhei fixamente 
para pontos individuais, certo de que ia v-la a flutuar logo  superfcie. E pensei, ainda h tempo. Se a vir, 
posso mergulhar e chegar at ela instantaneamente. Posso levantar-lhe a cabea e dex-la respirar 
enquanto a levo de volta at ao barco. Ns os dois no teremos problema em coloc-la de novo a bordo.

Talvez Ellie dissesse que precisvamos de ajuda. Ou talvez me tenha ocorrido de repente que no a 
amos encontrar, Estvamos a sintonizar a frequncia de emergncia da Guarda Costeira. Peguei no 
microfone e lancei um apelo de emergncia de homem ao mar. A que horas? Jesus, nunca reparei nisso no 
rdio. Mas deve ter um registo de quando eu lancei o apelo. Quanto tempo? Meu Deus, est tudo 
indistinto. Acho que no mais do que cinco minutos depois dela cair. Provavelmente muito menos do que 
cinco minutos. Quando penso no que fizemos, s devemos ter demorado dois ou trs minutos. Mas parecia 
uma eternidade,

Continumos  procura para a frente e para trs sobre o mesmo local. Lancei alguns marcadores de 
tinta para que no perdssemos o local. Ainda estvamos  procura quando...

Gordon no sabia o que aconteceria a seguir. Podia haver um barco por perto que respondesse  
chamada e ele podia disparar uma luz de emergncia para ajudar o barco a localiz-lo. Ou talvez tivesse 
que esperar algumas horas para que aparecesse um cter da costa. Mas o que quer que fosse, encontr-lo-
iam a levar a cabo padres de busca de trs para a frente sobre a mancha de tinta. Depois juntar-se-iam 
todos em busca dela, embora os profissionais da Guarda Costeira soubessem que estava morta. 
Continuariam a busca at Gordon se aperceber de que ela no podia estar viva.

Andava a navegar h uma hora e, no entanto, o nico som que havia era o das ondas contra o barco e um 
chocalho ou assobio ocasionais da vela. Pegou

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no aparelho de satlite e conseguiu perceber que estava a navegar a cerca de sete ns. Estava tudo controlado. 
Quando pedisse ajuda, Theresa estaria a 30 milhas de distncia.

A nova localizao colocou-o a 30 milhas a leste de BidJetord e a 25 milhas a sul de Boothbay Harbor. Ia 
adiantado em relao ao que planeara. andara mais depressa quando decidira antes da escurido total para 
contar com as redes de pesca. Depois fora mais tarde do que planeara quando Theresa subra ao convs. 
Queria navegar por mais trs horas, para longe do ponto em que a empurrara borda 
fora, mas estava apenas, a 20 milhas do ponto mais prximo de terra para norte. Teria  de chegar a um 
compromisso.

Gordon desviou-se (to seu rumo para norte, optando por outro de nordeste, em direco a 
Monhegan Island. isso ps o vento  popa, o que significava que iria perder alguma 
velocidade em relao ao rumo que estivera a seguir. Mas 
permita-lhe manter a distncia da costa, abrindo entretanto mais espao entre o barco e o corpo 
de Theresa. Manteria o rumo durante mais outra hora, possivelmente uma hora e meia, 
consoante a velocidade que conseguisse obter. Quando lanasse a emergncia pelo rdio, 
Theresa estaria pelo menos 15 milhas para trs, talvez at 20, E ele continuaria a 20 milhas ao largo da praia.

 verdade, estaria um pouco para leste da rota lgica entre o Cape e Boothbay Harbor. Mas explicaria isso 
como precauo para evitar aproximar-se da linha de costa antes do romper da aurora.

O barco oscilou com o vento sobre a popa e com o mar que vinha para estibordo. 
Tornou-se mais difcil navegar, mas Gordon considerou a acrescida carga de trabalho uma bno. 
Ajudava-o a manter a mente afastada do facto de que tinha acabado de cometer um 
assassnio a sangue-frio.

Sabia que havia justificao. Estivera a lutar para defender a famlia e Theresa no 
lhe deixara outra alternativa. As exigncias dela teriam aumentado quando visse 
que a sua extorso era segura e fcil. A nica forma que tinha de pr cobro a isso era 
admitir os seus pecados e isso teria sido ainda mais desastroso 
do que os pagamentos. Havia rectido em lutar contra uma chantagista.

No entanto, em homicdio. Destrura-a com o golpe mais pesado que j 
desferira. Era mais obsceno do que os pecados que pretendia esconder. No se podia deixar levar 
pelos factos da culpa. Tinha de aprender a compreender o que fizera em 
termos da proteco da mulher e dos filhos. Tinha de apreciar a liberdade que acabara de 
encontrar em vez de sofrer atravs da recordao da sua depravao.

Pediu outro ponto de localizao por satlite, Embora o barco mal deixasse rasto no seu novo rumo, mantinha 
velocidade. Mais uma hora! Era s isso que bastava.

CAPTULO TRINTA E NOVE

- Ellie! Ellie! Anda c acima! Agora! Anda c acima!

A voz de Gordon interrompeu-lhe o torpor. Ouviu passos frenticos no convs por cima da cabea e, 
quando tentou sair da cama, percebeu que o barco estava a dar uma curva acentuada no mar.

- Ellie! Preciso de ti c em cima!

Ouviu a alavanca do motor e este a ganhar vida. A vibrao chegou at ela atravs do colcho. Estivera a 
dormir em roupa interior tal como sempre fazia quando andavam de barco. Vestiu as calas de ganga, 
levou os ps descalos at aos sapatos de vela e saiu disparada da cabina. Mas a mo fugiu-lhe e agarrou-
se  ombreira da porta. Ficou repentinamente tonta, o espao reduzido por baixo do convs girava  sua 
volta. Equilibrou-se enquanto se encaminhava para as escadas,

- Ellie! Ellie! Vem c acima! A Theresa caiu borda fora. Est na gua. Estava a subir os degraus com as mos 
e os joelhos, abanando a cabea violentamente para ver por entre o nevoeiro. A Theresa no podia estar 
na gua. Estava ao lado de Gordon a deixar cair terra para dentro do tmulo dela. E Molly estava a tocar 
flauta, embora Ellie se apercebesse que j no ouvia a msica. Tudo parecia incoerente. No conseguia 
decidir qual das partes era sonho.

O ar da noite atingiu-a. Sabia que estava viva. Gordon chamava por ela enquanto corria de corrimo para 
corrimo e olhava freneticamente para a gua. Depois, as peas comearam a fazer sentido.

- Onde  que ela est? - gritou Ellie.

- Ali. Logo a seguir  proa. Vai buscar a lanterna. D-me luz sobre a gua.
- Ele segurou no leme a alguma distncia para poder espreitar por cima do lado de bombordo. - Ali, na 
proa de bombordo - gritou ele. - Estou a ver a bia salva-vidas!

Ela procurou desajeitadamente com a lanterna enquanto Gordon mudou o motor para a posio 
neutra. O raio de luz encontrou imediatamente o aro cor de laranja a boiar a apenas um barco de distncia 
 frente deles.

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- Theresa! - gritou Gordon.

Ellie focou a luz em torno da bia salva-vidas.
- O que aconteceu? - exigiu Ellie.

- Ela caiu. - Gordon comeou a afastar-se da bia salva-vidas. - Vai l para cima para a proa!

Ellie saiu do cockpit num salto e sentiu os ps a falharem-lhe. Agarrou-se ao corrimo e avanou 
cuidadosamente em frente. Gordon acendeu a luz do cockpit, lanando um brilho sobre o mar 
a toda a volta. A bia estava  deriva debaixo da proa. Ele mudou para a posio de avanar e deu um bom 
impulso ao leme.
O barco comeou a virar lentamente atravessando o local. Ele correu rapidamente de um lado para o outro 
do cockpit. Ellie olhou para ambos os lados, fazendo lampejar a lanterna, embora soubesse que 
nunca a veria. Lembrou-se do plano que Gordon delineara e apercebeu-se de que Theresa estava vrias 
horas atrs deles.

Era uma pantomna encenada para se convencerem de que o terrvel acidente acabara de acontecer, 
como se o fingimento de angstia pudesse atenuar a lmina afiada do conhecimento de culpa. Na sua 
representao, mentiam a si mesmos e um ao outro. Gordon dizia:

- Vs, no fui eu. Foi mesmo um acidente. E Ellie conseguia dizer:

- Sei que nunca serias capaz de o fazer. E certamente que eu nunca conseguiria participar. - Mas, mesmo 
quando lanava a lanterna de um lado para o outro, Ellie sabia que se tratava de uma charada. Ele atirara 
Theresa borda fora. Ela devia ter ouvido a rapariga gritar, mas simplesmente expulsara isso da mente.

Desligou a lanterna e tropeou at ao cockpit. Gordon viu-a e desistiu do seu prprio 
fingimento. Estendeu os braos.

- Ellie? Vais ficar bem?

Os olhos mortios dela olharam para trs.

- Acabou-se - disse-lhe ele. - No havia outra sada.

Ela acenou lentamente com a cabea, assinalando que aceitara o facto. Mas sabia que havia outra sada. E 
perguntou-se se teria sido to dolorosa quanto a dor que agora sentia. Voltou-se para a frente e desceu 
lentamente para a cabina, avanando depois em silncio para junto dos seus bebs.

- Guarda Costeira, Guarda costeira! Daqui Lifeboat. Tenho um homem ao mar! Homem ao 
mar! Esto-me a ouvir?

A resposta chegou num instante.

- Lifeboat, daqui fala a estao de PortIand. Entendemos homem ao mar. Precisam de 
ajuda?

  251

Afirmativo - disse Gordon. - Um passageiro caiu  gua h um minuto.

Ando  procura, mas ela desapareceu. No h sinal dela. Preciso de ajuda na busca.

- Lfeboat, d-me a sua posio.

Gordon deu as coordenadas de latitude e longitude que obtivera dos satlites. Depois deu rapidamente o 
azimute e distncia de Cape Elizabeth, logo a sul de Portland. O oficial da Guarda Costeira repetiu ambos 
os grupos de coordenadas e Gordon confirmou-as.

- Temos um helicptero a levantar agora - assegurou o oficial. - Enviaremos barcos na sua direco dentro 
de alguns minutos.

Fez-se ouvir uma nova voz.

- Guarda Costeira, daqui fala o iate Cmmandei Estou situado a um, zero, cinco Portiand, 20 milhas. Estou a 
virar para zero, nove, zero. Um motor, estou a cerca de trs horas de distncia do Lifeboat.

O oficial da Guarda Costeira reconheceu-o. Depois perguntou a Gordon se tinha um marcador de tinta a 
bordo e disse-lhe para o lanar  gua para assinalar o local.

- Tem luzes de emergncia a bordo? - Gordon disse que sim. - Prepare-se para as disparar a pedido do 
piloto de helicptero. E a pedido do Commander Mantenha o seu GPS actualizado ao minuto. 
Vamos a caminho.

Ellie regressou pela cabina e viu o caf frio em cima do fogo da cozinha. Tocou na cafeteira fria e 
examinou a mancha no interior do vidro. Depois reparou no saco de ch seco deixado sobre um pires na 
banca. Gordon diria  Guarda Costeira que Theresa acabara de lhe fazer caf e preparara uma chvena 
de ch para ela. Os resqucios  frente dela tinham obviamente vrias horas. Deitou o saco de ch ao lixo e 
encheu a cafeteira de gua. No a laves, disse ela a si mesma. Ningum iria lavar a cafeteira antes de tirar o 
caf. Zombou do seu erro. As mentiras estavam a surgir por todo o lado.

Voltou a subir at ao cockpit, acendeu o candeeiro elctrico e comeou a varr-lo junto a um 
dos lados. Sabia que tinha que estar mergulhada no seu papel quando a equipa de salvamento chegasse ao 
local. A luz incidiu sobre uma mancha vermelha escura e recuou com horror.

- Sangue?

- Tinta - disse-lhe Gordon. - Para marcar o local onde ela caiu, Ellie recuou at  grade.

- Como  que foi? - perguntou ela subitamente. Ele ponderou na resposta.

- Muito rpido - disse ele.
- Ela... gritou?

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- No, nada. Estava inclinada para fora, agarrada  vela, Os ps escorregaram-lhe. Rodopiou sobre a 
grade e bateu na parte lateral do barco. Vi o salpico, mas nunca a vi dentro de gua.

Ellie voltou-se e encarou-o fixamente.
- A verdade - exigiu ela.

- Essa  a verdade - respondeu ele instantaneamente. -  toda a verdade que cada um de ns 
precisa de saber.

- Mas contaste-me. Planeaste para que ela...

- No planemos nada - interrompeu-a Gordon rapidamente. - Levmos uma 
babysitter para dentro de casa. Se planemos alguma coisa de mal, foi us-la para 
obter alguma publicidade. Nunca planemos o que ela nos viria a fazer aos dois. Deus sabe que 
nunca planemos fazer-lhe mal.

O rosto de Ellie contorceu-se enquanto se esforava por conter as lgrimas. Gordon esticou-lhe 
a mo e atraiu-a para os seus braos.

- Fomos vtimas, Ellie, Vtimas de extorso. Vtimas de malcia que nos teria arruinado e destrudo os nossos 
filhos. Agora acabou. No estou feliz por Theresa estar morta, mas fico satisfeito que tenha sado das 
nossas vidas. Tambm devias estar.

Esperaram, abraados, at a voz do piloto de avio aparecer na rdio e pedir uma luz de 
emergncia. Gordon pegou na pistola, carregou-a com um cartucho e disparou-a sobre o mastro. Houve 
uma exploso de luz por cima deles, incendiando o mar com uma chama rosa. Antes do brilho se 
desvanecer na gua, ouviram o som dos rotores de um helicptero distante.

Ellie desceu para junto dos filhos que acordaram assustados com o estrondo do helicptero a pairar sobre 
o barco.

- Onde est a Theresa? - inquiriu Molly.

- Tem de nos deixar - disse Ellie. - Vai partir no helicptero, Molly tentou levantar-se de repente, mas Ellie 
deteve-a.

- Ainda no, querida.  perigoso l em cima. Podes subir e acenar quando o helicptero se estiver a ir 
embora.

Molly gritou.

- Onde  que ela vai?

- Est uma pessoa doente l em casa. Precisam dela. Timmy comeou a chorar.

- Quero ver o helicptero.

O helicptero fez um crculo em redor do marcador de tinta, usando uma poderosa luz de busca para 
manter o mar iluminado. Depois comeou uma busca pormenorizada sobre a linha de rota 
de Gordon, procurando de trs para a frente em arcos cada vez mais abrangentes num padro semelhante 
a uma ventoinha

 253

No estava mais alto do que o mastro do barco e a agitao do rotor alisava o mar. A luz era brilhante e os 
membros da tripulao, de fatos de mergulho, estavam pendurados de ambos os lados prontos para 
mergulharem a qualquer momento. Ainda estavam  procura de forma febril quando o cu comeou a 
clarear para leste,

Surgiu a oeste uma luz no topo de um mastro e depois as luzes de presena de um navio alto que se dirigia 
para eles.  medida que se foi aproximando, havia luz suficiente no cu para que Gordon reconhecesse a 
corveta capaz de atravessar o oceano que tinham encontrado ao pr do Sol. Atravs dos bnculos, 
conseguiu ler o nome Commander na proa e ver os rostos preocupados alinhados ao longo 
da grade. Havia quatro ou cinco casais, juntamente com um membro da tripulao no gurups. O barco 
tinha as velas em baixo, mas ia a velocidade suficiente para deixar um rasto considervel. Tinha potncia 
que chegasse na sala do motor.

O Commander iniciou um padro de busca sob o padro do busca de helicptero e depois 
comeou a afastar-se para sudoeste seguindo a corrente prevalecente. Manteve fluxos de luz ligados nos 
mastros at o brilho ser apagado pelo Sol nascente. Era de manh e estavam todos numa busca furiosa. No 
tinham visto absolutamente nada.

A embarcao da Guarda Costeira chegou ao local. Era um barco pequeno, mais parecido com um barco 
de pesca do que com um navio militar. Mas estava repleto de antenas e tinha um radar de busca  
superfcie. Aproximou-se e um jovem oficial, que trazia um computador porttil, saltou o espao que os 
separava para aterrar no convs do Liffeboat.

- Tenente Myers - disse ele ao subir para o cockpit, oferecendo a mo. Gordon reconheceu a 
voz da conversa de rdio anterior. Sentou-se no banco ao lado de Gordon depois de ordenar ao seu 
barco que se juntasse  busca,

O tenente foi directo ao assunto, escrevendo o nome e o registo do barco num impresso do computador. 
Pediu a aplice do seguro e copiou a informao pertinente, fez o inventrio dos coletes salva-vidas e do 
bote de emergncia
* verificou o kit de primeiros-socorros. Gordon manifestou a sua impacincia, mas
* oficial avanou penosamente em frente, anotando informaes sobre Theresa. A seguir, quis 
informaes pessoais sobre toda a gente a bordo, Quando perguntou a idade de Timmy, Gordon ripostou 
rapidamente:

- Porque  que isso  relevante para alguma coisa?

- No  - admitiu o oficial. - Mas consta do impresso. Tenho de perguntar.

Anotou os pontos de posio na carta do Golfo do Maine, tomou nota sobre o fabrico e modelo dos 
sistemas de navegao e aparelhos de rdio, descreveu

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a disposio do cockpit e s ento voltou para perguntar a Gordon o que acontecera 
exactamente.

Gordon contou a sua histria dispersa. Theresa fora acordada por um dos midos. Assomara  escotilha 
para lhe perguntar se queria caf. Alguns minutos depois fora at ao cockpt com caf e ch.

- Ela no tinha colete salva-vidas vestido? - interrompeu o tenente Myers.
- No. No havia razo - respondeu Gordon. - No parecia haver qualquer perigo. O mar estava 
calmo e o vento constante. - Levantou a cabea com desespero nos olhos cheios de olheiras. - 
Como  que algum podia cair  gua?

Continuou a descrever como  que ela fora at  grade e se segurara  vela grande.

- Pensou ter visto uma luz e inclinou-se apenas um pouco, curvando-se depois para fora do barco para 
que a vela no lhe tapasse a vista. Eu disse, "Tenha cuidado!" mas as palavras mal me tinham sado da boca 
quando ela caiu. Creio que estava a contrabalanar o peso colocado por cima da gua comprimindo a 
perna contra a corda de segurana. Depois o p escorregou-lhe e o peso levou-a a cair. Ficou de pernas 
para o ar como se fosse mergulhar e tentar fazer um mortal.

A seguir Gordon descreveu a sua reaco imediata. Tirara a bia salva-vidas do local onde 
estava presa e atirara-a sobre a popa,

- Quanto tempo demorou?

- Meu Deus, cinco segundos no mximo. Mal a vi cair, fui logo pegar na bia. - O oficial anotou o tempo.

Gordon demonstrou ento como fora rpido a dar a volta. O barco estava concebido para ser manobrado 
por uma pessoa. O mastro ficava bem  frente e havia apenas uma vela.

- Conheo o barco, por isso consegui moviment-lo muito depressa. Baixei a vela e, ao fim de poucos 
segundos, estava a navegar a motor. Dei a volta e estava de regresso ao rasto deixado em no mais do que 
30 segundos. Nem mesmo algum que no soubesse nadar ainda estaria a boiar.

A seguir Gordon ofereceu a nica explicao possvel. Falou do barulho contra a parte lateral do casco 
quando Theresa tropeara e cara, Deve ter batido com a cabea com fora suficiente para desmaiar.

- Mas se ainda estivesse a respirar, no se teria mantido  superfcie? Por algum tempo, pelo menos?

Myers encolheu os ombros.

-  difcil dizer. Sem colete salva-vidas...

Ellie subiu e entrou no cockpit. As crianas tinham ficado restringidas  parte de baixo durante 
vrias horas. Tinha de as levar at ao convs, mas no queria

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que se apercebessem do que acontecera  amiga. O oficial mandou Gordon para baixo enquanto tomava nota 
do depoimento dela.

 Fora acordada pelos gritos do marido, disse Ellie. Subiu de imediato - provavelmente ao fim de poucos 
segundos, mas certamente menos do que um minuto. j estava meia vestida. Quando chegou ao convs, a vela 
estava em baixo e o barco j dera a volta para trs. Pegou na lanterna e avanara para a 
parte da frente, esperando encontrar Theresa na gua. Passara to pouco tempo. Tinham encontrado a bia 
ao fim de um minuto, pelo que Theresa tinha de estar ali a alguns metros do barco. Mas no havia vestgios dela.

- Quanto tempo passou entre o momento em que ouviu o seu marido e a altura em que ele fez o apelo pelo 
rdio?

Ellie pensou em silncio e depois abanou a cabea.

- No sei ao certo. Andmos vrias vezes para a frente e para trs do local. Estvamos sempre a chamar pelo 
nome dela e  escuta, At desligmos o motor para lhe podermos ouvir a voz. Sabamos que tinha de estar por 
perto. Ambos espervamos encontr-la.

 Dez minutos - sugeriu o oficial.

- No sei. Provavelmente mais. Parecia uma eternidade, Talvez 20 minutos.
O tenente Myers sugeriu que Gordon se dirigisse para a costa e atracasse na estao da Guarda Costeira em 
Pordand. Ele manter-se-ia com o grupo de busca at esgotarem todas as hipteses. Entraria em contacto com 
Gordon pelo rdio atravs da sua frequncia administrativa caso descobrissem alguma coisa.

- Pensa que ela est morta, no ? - perguntou Gordon, tentando encerrar de alguma maneira o que era 
provavelmente bvio para todos.

Myers acenou com a cabea.

- Parece que sim. Mas enquanto houver uma hiptese, por mais remota que seja...

CAPTULO QUARENTA

A histria chegou aos servios de telgrafos nessa noite, graas a um jovem reprter de um jornal de Portland 
que achou irnico um passageiro afogar-se de um barco chamado Lifeboat. Associou o iate  
empresa de Gordon Acton e um telefonema completou a informao 
sobre a candidatura de Gordon ao congresso.

O artigo, em que se afirmava que uma jovem desaparecera ao cair do barco 
de Acton, deu incio a um frenesim de rumores que rapidamente chegaramaos canais de televiso. S depois de 
terem publicado reportagens parciais repletas de insinuaes de indecncia e que 
identificaram a mulher como sendo a babysitter das crianas e realaram o facto da 
mulher do candidato estar a bordo. Nesse ponto, a histria tomou-se rotina e 
desapareceu dos media electrnicos. A cobertura por parte dos 
jornais remeteu a histria para as ltimas pginas e depois f-la desaparecer. Excepto em Providence, onde a 
histria tinha ramificaes polticas, e no Cape, onde foi devorada pelo jet-sete.

No seu distrito poltico de Rhode Island, jornais locais pr-democratas 
davam nfase ao facto de Gordon ter contratado Theresa vinda de um meio em desvantagem e 
de j se ter comprometido a pagar-lhe a maior parte dos custos da faculdade. 
jornais hostis notavam que os Acton aparentemente no tinham proporcionado o mesmo nvel de superviso e 
segurana  babysitter como tinham feito aos filhos. Henry Browning fez uma sondagem ao 
eleitorado e descobriu que a reaco negativa original, baseada em grande parte 
nas primeiras reportagens incompletas, tinha-se dissipado quase por completo assim que se 
divulgara toda a histria. Uma sondagem posterior apurou vestgios de simpatia pelo candidato e pela famlia do 
mesmo.

- No deve mudar nada - disse Brownmg a Gordon numa conversa telefnica. - Vi ser na 
mesma maioria absoluta.

  257

No Cape, a histria instalou-se nos jornais da vila, que ningum lia com ateno nem levava a srio. Havia 
fotografias do barco e observaes sobre o clube exclusivo de onde largara. Fotografias da famlia Acton 
surgiam acompanhadas de textos sobre o negcio e histria da famlia. Os editores da sociedade prestavam 
muito mais ateno ao passado de Ellie como descendente do fundador de Rode Island. A cobertura era 
condescendente.

Choque e simpatia foram as reaces socialmente aceites dos membros do clube. Jack OConnell referiu-se  
perda de uma criana, embora tivesse desejado publicamente enfiar-se nas cuecas de Theresa. Priscilla 
Mapleton contou a toda a gente como se tornara prxima da querida rapariga, Trish chorou diante da perda de 
uma verdadeira amiga e abraava outras adolescentes na partilha da mesma mgoa, Theresa, relatava o 
semanrio local, ganhara um lugar no corao de todos eles. O tom era abandonada do 
interior aceite pela nata da sociedade.

No bar e nas docas, onde se reuniam os verdadeiros marinheiros, as opinies sobre Gordon eram de crtica mas 
benevolentes. No devia ter deixado uma marinheira inexperiente no convs sem colete salva-vidas durante 
uma viagem no alto mar, Devia haver uma luz cintilante presa  bia salva-vidas. Ainda mais fundamental, 
porqu planear fazer uma viagem durante a noite? Podia ter seguido facilmente a linha da costa e atracar no 
porto  noite. Qual era a pressa dele? Mas todos concordavam que eram assuntos da discrio do capito, 
Gordon no era certamente um marinheiro negligente e no havia razo para se sentir pessoalmente 
responsvel. O mar, afinal, era uma amante cruel.

Gordon alugara uma limusina para o levar a ele e  famlia de volta para o Cape e contratou uma tripulao para 
trazer o barco de volta, Fez a primeira apario no clube para ir ver o Lifeboat, sendo rodeado na 
doca por pessoas condescendentes que lhe desejavam boa sorte. Verificou as amarras, foi a bordo brevemente 
para ir buscar algumas das peas de roupa deixadas no barco e as garrafas de rum e gin ainda por abrir. 
Agradeceu aos outros as expresses de amizade e depois voltou para casa. Ellie estava 
na praia com os filhos e o vazio da casa era perturbador. Ele abriu a garrafa de gin.

Estava sentado no alpendre com a segunda bebida quando ouviu um carro derrapar nas pedras esmagadas da 
entrada. Foi at  janela e viu um homem que vagamente reconheceu comear a subir os degraus da frente. S 
quando o homem levantou a cabea  que Gordon viu os olhos penetrantes e identificou

o sargento Wasciewicz. Recuou para dentro de casa, enfiou a bebida no frigorfico e esperou na sala 
que o homem batesse  porta.

- Senhor Acton - afirmou o sargento. 

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- Exactamente - respondeu ele atravs da porta de rede. - E o senhor  o sargento que est a trabalhar no caso 
do semicondutor. - Abriu a porta de rede como um convite para entrar.

- Exacto! Sargento Wasciewicz. - Olhou em volta ao entrar na sala de estar e pareceu 
aprovar a decorao modesta.

- Em que posso ajud-lo? - perguntou Gordon, fazendo um gesto ao convidado para que 
estivesse  vontade. - Talvez uma bebida fresca para comear?
- Ice Tea, Ou um refrigerante.

Wasciewicz estava de p junto  lareira a admirar as fotografias de famlia sobre 
a prateleira,

- Midos simpticos. - Pegou numa Coca-cola Diet e 
instalou-se no sof, Gordon sentou-se na ponta de uma cadeira de tecido.

- como vai a sua investigao? Wasciewicz encolheu os ombros.

- Apanhmos o nosso tipo. E creio que nunca saberemos nada da sua jovem. - Abanou a cabea 
lentamente. - Quero expressar-lhe as minhas condolncias. 
Deve ter sido uma provao horrvel,

Gordon acenou solenemente com a cabea.

- Mas preciso de fazer algumas perguntas a si e  sua mulher. 
Talvez me consigam ajudar a enterrar este vagabundo.

- Ela no est - disse Gordon. - E j prestmos ambos depoimentos completos  
Guarda Costeira. No h grande coisa a acrescentar.

- Vou tentar no perguntar a mesma coisa de novo - prometeu Wasciewicz 
enquanto folheava as pginas de um bloco de 
apontamentos. - Mas trata-se de uma jurisdio diferente. Interesses 
diferentes.

Gordon sentou-se em frente a ele, com ar de dor, mas 
resignado.
- Sabia que Theresa Santiago estava grvida?

O rosto de Gordon caiu, Se estivesse  espera da pergunta e tivesse ensaiado a reaco, a sua expresso no 
seria de tanto espanto. O homem acabara de desvendar o seu segredo mais recndito.

- Creio que no sabia - disse o sargento secamente. Gordon olhou fixamente para ele e depois 
respondeu:
- No acredito,

- Pois , os midos hoje em dia! So difceis de acreditar, no so? Mas estava, Foi a 
um mdico em Providence. Uma clnica, na verdade.

- Oh, meu Deus...

- Alguma ideia de quem podia ser... responsvel?

Gordon abanou a cabea. Tentou falar, mas tinha a lngua colada ao cu-da-boca.

  259

- Ela andava com algum que o senhor soubesse?

Por um instante, pensou em mencionar Don McNeary, mas decidiu que estaria a acrescentar outro crime, 
talvez ainda pior do que aquele que j cometera. abanou de novo a cabea e enrugou os lbios,

- Ningum em particular. Conhecia muita gente nova. Os midos daqui parecem andar sempre em grupo.

- No devia ser deste grupo - interrompeu Wasciewicz, - Ela estava grvida de trs meses. Teria de ter 
sido em Providence quando comeou a trabalhar para vocs.

O ar saiu apressadamente do peito de Gordon como se tivesse acabado de levar um murro no 
estmago.

- Trs meses... - A sua mente comeou a andar  volta. H trs meses nem sequer a tinha conhecido. - 
Ento ela estava... de esperanas... a maior parte do tempo que esteve a trabalhar para ns.

Nunca souberam? Nunca desconfiaram?

- No, claro que no! Como  que havia de saber?

- E a senhora Acton?

A voz de Ellie soou clara e controlada.

- O que  que tem a senhora Acton?

Wascewcz ps-se de p, deixando entretanto cair o bloco de apontamentos. Gordon continuou sentado, 
deixando o rosto cair para a mo. O sargento olhou de um para outro,  espera de algum tipo de 
apresentao. Depois deu um passo na direco de Ellie.

- Sou o sargento Wasciewicz. Estou a concluir as notas para o inqurito do investigador... a respeito de 
Theresa Santiago. Estava a fazer algumas perguntas ao seu marido. Informao de rotina.

Ellie no se mexeu do vo da porta.

- O que  que tem a senhora Acton? - repetiu ela, Ele olhou na direco de Gordon em 
busca de ajuda.

-  melhor sentares-te - sugeriu Gordon. Ellie olhou desconfiada de um ", homem para outro e depois 
sentou-se na cadeira mais prxima da porta.

- O sargento informou-me de que Theresa estava grvida. De trs meses, J tinha ido a uma clnica,

A mo de Ellie voou-lhe at  boca e um suspiro suave escapou-lhe dos lbios,

- Creio que tambm no sabia? - concluiu Wasciewicz, Ellie no respondeu, Ele voltou a sentar-se, pegou 
no bloco de notas e virou uma pgina.

- A menina Santiago mencionou alguma vez um tipo chamado Karl Sinder.. ou Cat Sinder?

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Ellie e Gordon olharam um para o outro e Gordon respondeu pelos dois.
- Nunca ouvi tal nome.

Wasciewcz continuou:

- Sabem se ela tinha alguns encontros, fora de casa? Alguma vez se foi encontrar com algum noutra 
cidade?

Gordon ps-se de p.

- Sargento, disse perguntas de rotina sobre o acidente de Theresa. Porque  que nos est a fazer 
perguntas sobre a vida privada dela? Ou da vida dela antes mesmo de a conhecermos?

- Porque pode no ter sido um acidente.

Ellie vacilou. O rosto de Gordon ficou sem cor. Depois recuperou e adoptou um tom de 
raiva.

- Que raio  que isso quer dizer? Se no foi um acidente, o que foi ento?
O sargento respondeu  pergunta com outra pergunta.

- Podia ter sido suicdio?

Agora foi Ellie quem se enfureceu.

- Isso  um ultraje. Uma jovem amorosa a gozar umas frias. 
Porque  que haveria de querer... - Deixou a pergunta inacabada.

Wasciewicz fechou o bloco de notas.

- Desculpem, mas h aqui um passado que cria alguns problemas. A Theresa... a menina 
Santiago,.. era suspeita de estar envolvida num roubo no local onde trabalhou. Foram 
fabricados cdigos e passwords de computador para se poder tirar componentes e 
montagens dispendiosas do inventrio sem que ningum soubesse. j 
se passava h quase um ano, antes dela se despedir e ir trabalhar para 
vocs,

- A Theresa? - Ellie estava chocada. Gordon acenou na direco dela, confirmando o que 
o sargento dissera.

- Karl Sinder  provavelmente o tipo que geria a operao. Tornou-se muito prximo de Theresa. Levou 
a rapariga aos melhores locais e deu-lhe a provar um pouco de boa vida. Talvez seja o pai. A Theresa 
tinha acesso ao softuware de segurana. Pode ter sido ela a criar os cdigos, 
embora muitos outros tambm o pudessem ter feito. Mas Sinder esforou-se muito 
para que a menina Santiago no se despedisse. E, quando a investigao se comeou a centrar nele, 
tinha todas as razes para tentar p-la sob controlo.

- A Theresa - repetiu Ellie em descrena total.

- Assim, se sabia que ia ter um filho, viu-se talvez confrontada com o facto de 
ter de voltar para a sua vida antiga. Ou talvez pensasse que ia ser 
implicada nos roubos e levar o filho para a cadeia.

- Mas ela escorregou - disse Gordon, agora soando muito menos seguro de si.

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Wasciewicz reabriu o bloco de notas e folheou at abrir numa entrada.

-  isso que levanta a questo. Porque o senhor disse  Guarda Costeira que ela caiu borda fora de pernas para 
o ar, Num segundo estava l, no outro, desaparecera. Disse que ela deve ter escorregado. Por isso 
a minha pergunta , tem a certeza de que ela no saltou?

- Ridculo - ripostou Gordon rapidamente.

Os olhos de Ellie comearam a encher-se. Levantou-se abruptamente,

- Desculpe, sargento. Eu no estava l. No tenho como saber se ela escorregou ou se saltou. Tenho de ir ver 
os meus filhos. - Saiu apressadamente, tentando controlar a histeria crescente.

- Ela no saltou. Ainda estava com a chvena de ch na mo. E ainda se agarrou  vela grande para tentar 
segurar-se. Foi isso que a fez dar uma reviravolta para a parte lateral do barco.

- Mas ela no respondeu quando a chamou. No nadou at  superfcie.

Gordon ps-se de p indignado.
- Bateu com a cabea no casco.

- Pois - Wasciewicz continuou - mas aparentemente no com muita fora. A Guarda Costeira diz que no havia 
marcas nenhumas no casco. E normalmente mergulhar na gua fria dessa forma costuma reavivar as pessoas.

- Bem, no a reavivou a ela - disse Gordon.

- Ou, talvez ela no quisesse ser salva. Est a ver onde quero chegar?
O senhor e a sua famlia esto a dar-lhe tudo. Mas ela sabe que no pode ter nada e que vai acabar a viver com 
um ladro barato ou at mesmo na priso. A polcia anda a fazer muitas perguntas. Talvez pense que estamos no 
encalo dela. Que vai ser presa ssim que chegar a terra. Por isso, no quer chegar l. Quer que tudo acabe j, 
enquanto est com a sua nova famlia.

Gordon voltou a sentar-se na cadeira,

- No acredito. Teria havido algum sinal, no era? Ela estava a brincar com os nossos filhos. A tirar fotografias 
connosco. A ltima coisa que fez foi certificar-se de que eu tomava uma chvena de caf. No havia qualquer 
sinal de que tinha um problema, nenhum ar de tristeza, nenhum nervosismo.

Ento tem a certeza de que ela escorregou, bateu com a cabea e caiu desamparada  gua?

Gordon pensou.

No, creio que no tenho a certeza. A posio dela era um pouco negligente, mas no terrivelmente perigosa. 
Creio que conclu que ela escorregou, porque no sabia como  que, de outra forma, podia ter cado. Mas no 
pensei certamente que tivesse saltado. E a forma como se manteve de cabea erguida at ao ltimo segundo, 
no posso acreditar que pensasse em suicidar-se.

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Wasciewicz pareceu ficar satisfeito com a resposta.

- Embora - disse Gordon, Para o impedir de guardar o bloco de notas no possa, muito sinceramente, 
excluir de todo a possibilidade.

O polcia murmurou um obrigado e algumas palavras de simpatia quando saiu. Depois Gordon desceu os 
degraus at  praia onde Ellie se fora juntar aos filhos. Ela estava sentada no ltimo degrau, a observar 
Molly e Timmy que brincavam ao longe, Sentou-se silenciosamente ao lado dela.

- O filho no era teu - disse ela, resumindo aquilo em que estivera a pensar,
- Nunca achei que fosse - respondeu ele.

- Ento porque  que ela era um perigo to grande? No te podia prejudicar,
- Podia sim. Ela sabia que eu nem sequer podia arriscar a que se levantasse a questo. Se o assunto fosse a 
pblico, eu no podia jurar que nunca tinha tido sexo com ela. E isso seria o fim de tudo.

Ellie baixou o rosto e comeou a esburacar a areia com o dedo.

- O que  tudo? A tua carreira poltica? O meu doutoramento? O que era mais importante do que a vida 
dela?

- Ellie, ela ia encarregar-nos do filho de outro homem. E depois ia us-lo para nos sangrar at  morte. No 
tnhamos alternativa.

- Achas que fizemos bem? Gordon pesou a resposta.

- O melhor que conseguimos dadas as circunstncias. Ellie olhou para a baa.

- Ento porque  que sinto que morri com ela?

Gordon ps o brao  volta dela para a chegar a si, mas Ellie manteve a distncia.

- No tiveste nada a ver com aquilo. Nem sequer estavas l.

- Se tivesse ficado a p, tal como planeara. Sabia que se me mantivesse no convs nada lhe aconteceria. 
Que tu no...

- Estavas cansada. No te podes culpar por isso. Estavas a p desde o nascer do Sol sem 
descansar.

- Penso que sei o que aconteceria. E, no entanto, desci. Fui para a cabina e pus uma almofada por cima da 
cabea. Isso no faz de mim culpada? No quer dizer que realmente queria livrar-me dela?

Ele levantou-se.

- Pra com isso, Ellie. Nada faz de ns culpados. A culpada era ela.

SETEMBRO

CAPTULO QUARENTA E UM

A missa foi numa velha igreja catlica construda por imigrantes e depois, entregue a uma nova gerao de 
imigrantes. Os portugueses tinham-na construdo, prometendo donativos de pescarias que ainda nem 
sequer tinham nascido no mar. Os seus nomes estavam nas janelas dos vitrais e na maior parte dos bancos 
da frente. A seguir vieram os italianos, que se demoraram apenas o tempo suficiente para aprenderem. 
ingls e colocarem os filhos na escola paroquial. E agora era hispnica, juntando porto-riquenhos, 
dominicanos, salvadorenhos e nicaraguenses.

A missa foi em espanhol, com um padre a presidir que no parecia ter mais de 20 anos. Ellie e Gordon no 
perceberam uma nica palavra. Mas calcularam, a partir das reaces de quem rezava, que estava a 
representar Theresa no abrao da Virgem. As mulheres na igreja meia cheia esfregavam os olhos e os 
homens estavam sentados direitos, de braos dobrados e rostos fixos como pedra. Theresa impressionara 
obviamente a comunidade e a sua perda era partilhada por muitos.

Tinham sabido da missa apenas na noite anterior, quando Henry Browning telefonara a Gordon a sugerir 
que ele comparecesse.

Gordon compreendeu; era um exerccio no controlo dos danos. Havia pouco a ganhar por comparecer, 
mas muito em risco se no fosse.

Ellie sentiu-se hipcrita ao pensar em juntar-se aos que lamentavam a perda de Theresa. No o dissera por 
tantas palavras, nem mesmo a si mesma, mas tinham desejado a morte da rapariga e sentia-se maculada 
perante a ideia de fingir estar cheia de mgoa. Tinham percorrido uma vizinhana devastada  procura de 
lugar para estacionar e depois visto todos os olhares virarem-se na sua direco quando entraram na 
igreja. Tinham percorrido metade da nave lateral, parando bem atrs dos principais lamentadores que 
estavam agrupados nos bancos

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da frente. Tentavam mostrar que, embora no sendo realmente famlia, gostavam da 
rapariga como de uma filha. Por duas vezes durante a homilia do padre tinham notado que havia olhos 
na direco deles. As expresses no continham qualquer hostilidade, Aparentemente, 
o interesse deles por Theresa estava a ser reconhecido e elogiado.

E depois a missa formal terminou, As pessoas da 
congregao estavam alinhadas para tirar um cravo de um cesto e coloc-lo 
sobre o altar. Ellie e Gordon juntaram-se-lhes, subiram lentamente os degraus e 
pararam por um instante com recordaes fingidas da rapariga. Na 
verdade, sentiram-se mal, deslocados e estavam apenas a 
pantomimar o que outros tinham feito antes deles.

Esperaram at que o padre descesse a nave lateral em procisso e at 
que os lamentadores da fila da frente o seguissem. 
Mudaram-se ento para a nave central e esperaram pela sua vez para 
agradecerem ao celebrante. Estavam nos degraus exteriores, a tentar lembrar-se da direco do carro, 
quando um casal de idosos subiu os degraus at junto deles.

- Senhor Acton - disse a mulher. - Sou a senhora Hernandez. - 
Gesticulou para incluir o mardo mas nunca o apresentou. - 
ramos pais da Theresa. Ela viveu em nossa casa.

- Ellie ps-se  frente de Gordon e abraou a mulher com sinceridade.
- Ela falava de vocs todos os dias - disse ela. - Eram a famlia dela.

A mulher sorriu. O marido mudou desajeitadamente de um p para outro. Gordon estendeu a mo ao 
homem.

- Fico contente por conhec-los finalmente - disse ele, reunindo uma combinao de tristeza e alegria. - A 
Theresa falava constantemente de vocs.
- S - disse o homem, sorrindo de forma agradvel. No falava ingls e no 
fazia a mnima ideia do que Ellie e Gordon, estavam a dizer.

- Era uma rapariga adorvel - disse Ellie  me adoptiva. A mulher encolheu os ombros.

- Era jovem. Ou se lhe batia ou se abraava. Por vezes era feliz.
- Ela amava-vos - disse Ellie.

A me adoptiva no estava extremamente impressionada.

- A Theresa no queria ser como ns. Tinha ideias grandes. Acho que queria ser como vocs.

Ellie esforou-se por fazer um comentrio. Preparou-se para outro 
abrao amistoso.

A mulher recuou, abriu a mala e tirou uma cassete de vdeo, ainda envolta em Papel.

- Ela mandou-me isto. Disse que mostrava onde estava a viver e que eu ia 
adorar as crianas de quem estava a tomar conta.

 267

Os olhos de Gordon ficaram fixos na cassete. Havia outra cpia. Ela enviara-a para casa e agora mais 
algum conhecia o seu segredo.

- Pensmos que talvez a quisessem - disse a mulher. Gordon respondeu imediatamente.

- Certamente que gostvamos de ficar com ela. Quanto  que devemos por ela?

Ela pressionou a cassete contra as mos de Ellie,

- Nada de pagar! No temos gravador de vdeo. S televiso. Mas ela disse que eram boas 
pessoas e que adorava os midos. Por isso acho que tem de ser sobre vocs, - Olhou para 
Gordon. - Vocs tm gravador de vdeo. Podem ver do que a Tberesa gostava.

Gordon agarrou firmemente na cassete enquanto se dirigiam para o carro.
- No tm gravador de vdeo - disse Ellie em tom de descrena. - As provas que nos iam destruir estavam 
junto de pessoas que nem sequer as podiam ver.

-  Ento porque  que lhes enviou a cassete? - perguntou ele num tom de quem j sabia a resposta. - No 
queria que eles a vissem, Queria que a guardassem.

Ele conduziu at ao apartamento e andou de um lado para o outro nervosamente enquanto esperava pelo 
elevador.

- Queres ver isto? - perguntou ele quando atravessaram a porta. Dirigiu-se directamente para o seu centro 
de entretenimento.

- No, acho que no. No quero ver a Theresa com os midos e certamente que no te quero ver a ti com 
a Theresa. - Fechou a porta do quarto atrs dela. Gordon ligou o vdeo e ps-se directamente em frente ao 
ecr. Houve linhas e padres de rudo electrnico, seguidos de um segundo de silncio preto. Depois 
Theresa apareceu no ecr, uma cabea falante a olhar directamente para a cmara.

- Ol Rita! Ol Juan! Espero que estejam ambos bons e que esteja tudo bem.
- Olhou para baixo de relance, provavelmente para algumas notas que escrevera. - Queria que vissem o 
local onde vivo e as pessoas com quem estou.  mesmo no fim de Cape Cod, onde vos mostrei no mapa.

Ellie ouviu a voz de Theresa e no conseguiu resistir. Abriu a porta do quarto e ficou de p encostada a 
ela. Theresa continuou a descrever a praia e o clube e depois as crianas. Molly, disse ela, era 
muito talentosa. Timmy era um amor. Enquanto Gordon olhava para ela, conseguia ver a cama ao 
fundo, A cmara estava assente na prateleira dos livros, onde ele a encontrara. Estava certo ao pensar que 
se a deixasse ligada ela conseguiria filmar todo o movimento do acto de fazer amor.

268                   

A voz dela parou e a sua imagem desapareceu. E depois seguiram-se vdeos caseiros que fizera dos 
midos, da famlia e dos vrios cenrios em que tinham vivido, Era a mesma cassete que ela lhes dera e 
Gordon reconheceu as sequncias. Chegou  parte em que a cmara ficara no alpendre da casa do clube 
e a apanhara a sair da gua.

Ela  linda - disse Ellie, deixando o marido espantado. Rastejara at ele enquanto estava absorvido pela 
imagem. Ele grunhiu em tom de concordncia, sem nunca tirar os olhos do ecr. juntos, assistiram aos 
acontecimentos do Vero; os castelos de areia, cozinhados ao ar livre, jogos de praia, banhos. Havia 
passagens frequentes para Timmy, a dormir enquanto decorriam actividades da famlia ou jogos infantis  
sua volta. E depois acabou, tal como a cpia que j tinham visto acabar.

- Nada - disse Ellie. - Ela nunca teve imagens com que nos tivssemos que preocupar.

- H mais meia hora de cassete - respondeu Gordon.

Theresa reapareceu, uma vez mais em frente  cmara, no quarto dela. Repetiu as coisas simpticas que 
dissera sobre os midos dos Acton e depois prometeu  Rita e ao Juan que as veriam em 
breve. E depois o ecr ficou preto, mostrando nada mais do que marcas de cassete vazia.

Ellie virou costas e voltou para o quarto. Gordon afundou-se no sof, olhando fixamente para o ecr 
crepitante,  espera que surgisse o maldito filme.

Mas no ia aparecer, percebeu Ellie. Theresa no fora desonesta e insensvel. Talvez lhe tivesse 
seduzido o marido ou se tivesse simplesmente submetido de boa vontade aos avanos dele. No era 
inexperiente, tal como tinham ficado a saber a partir do sargento da polcia. E talvez tivesse pensado 
realmente que podia obter alguma coisa em troca. Queria uma vida melhor e os Acton eram provavelmente 
a sua melhor hiptese. Mas no encenara o crime do marido para depois fotografar o desempenho dele 
friamente por forma a armar-lhe uma cilada. E provavelmente era mais a culpa de Gordon do que a 
inteno dela que tinham feito com que as suas esperanas soassem a ameaas. Podia ter sido uma jovem 
sedutora, mas provavelmente no era chantagista.

Ser que a mesma coisa era verdade para ela? Talvez tudo o que Theresa fizera fora tentar ganhar alguns 
pontos ao lembrar a Ellie o trabalho que fizera na dissertao. Talvez a chantagem fosse um, produto do 
prprio sentido de culpa de Ellie.

CAPTULO QUARENTA E DOIS

O investigador, um velho juiz que recebera o seu lugar no Cape como recompensa por lealdade 
partidria, tinha a toga vestida na sala de conferncias e sentou-se  cabeceira da mesa. Ellie e Gordon estavam 
lado a lado alguns lugares mais abaixo. Ellie tinha um vestido preto simples apropriado  solenidade do inqurito 
e como sinal de luto. O tenente Myers da lancha de salvamento da Guarda Costeira estava sentado  esquerda 
do juiz. O sargento Wasciewcz estava directamente em frente a Gordon e havia uma mulher de meia-idade por 
detrs de uma mquina estenogrfica sentada perto do fim aberto da mesa.

Havia trs pessoas nas cadeiras ao longo da parede prxima, apresentadas como reprteres de jornais de 
Providence e do semanrio local. O juiz Gamble fechara o processo aos media electrnicos, mas fora um gesto 
em vo. No havia interesse suficiente para enviar equipas com cmaras para o local.

A apresentao dos factos foi concluda em apenas alguns minutos. Gordon repetiu a sua verso do que 
acontecera a bordo do Lifeboat trs semanas antes. Realou a palavra 
escorregou ao referir-se  queda ao mar de Theresa e afirmou que a sua primeira e ltima 
impresso era que o p dela escorregara. Porm, sob
o interrogatrio por parte do juiz Gamble, repetiu o comentrio de que no tinha a certeza absoluta se ela 
saltara.

Ellie recontou o dia maravilhoso passado a bordo com a famlia que, disse ela, inclua certamente Theresa.

- Para as crianas, ela era uma irm mais velha e para mim uma filha mais velha. - Falou de assumir o comando do 
leme enquanto o marido dormia algumas horas no cockpit. Depois, quando ele estava repousado, ela fora para a 
cama. Levantou-se imediatamente quando Gordon gritara e juntou-se a ele no convs em apenas alguns 
segundos, provavelmente menos de um minuto.
O barco j descera a vela e comeara a dar a volta. Tinham encontrado a bia salva-vidas

270                         

na gua quase de imediato e estavam certos de que Theresa estava prxima. S gradualmente  que 
comeou a perceber que a rapariga desaparecera, Tinha os olhos rasos de gua e ocasionalmente 
limpava-os com um leno,

A sua dor era bvia e genuna, levando o juiz a exprimir algumas palavras brandas de agradecimento pelo 
seu esforo em testemunhar, Mas retomou o semblante grosseiro quando se voltou para o oficial da 
Guarda Costeira.

O tenente leu o relatrio do acidente, entrando numa descrio penosamente pormenorizada do barco, da 
sua burocracia e do seu equipamento. As suas concluses em resumo:

No fora encontrado nenhum corpo no local nem recuperado mais tarde. Os bens da vtima ainda estavam 
a bordo.

O iate estava perfeitamente navegvel e bem equipado.

As aces que o senhor Acton afirmou ter tomado imediatamente a seguir ao incidente eram 
procedimentos correctos em casos de homem ao mar. Era um capito hbil e experiente que agira em 
conformidade com a emergncia. A nica discrepncia era no tempo que levara a contactar por rdio a 
Guarda Costeira. A mensagem original do senhor Acton. dissera que a rapariga cara ao mar 
apenas um minuto antes. A senhora Acton lembrava-se que tinham procurado durante vrios 
minutos antes de lanarem o apelo pelo rdio,

A vtima devia ter um colete salva-vidas e, tanto o testemunho de Gordon como de Ellie, indicavam que ela 
estivera com um vestido algum tempo antes. Sem dvida que ela e o capito o tinham considerado 
desnecessrio porque no ia ficar no convs e porque o mar estava calmo e o barco navegava sem 
inclinao.

- No  ilegal estar no mar alto num barco sem colete salva-vidas? - rugiu o juiz.

- No senhor, nada disso! A lei requer que haja coletes salva-vidas disponveis.  com o capito se os 
passageiros e a tripulao o devem usar ou no.

- Mas o colete salva-vidas t-la-ia salvo?

o oficial pegou no copo de gua e depois respondeu:
- Com toda a probabilidade, sim.

o juiz Gamble olhou para Gordon.

- Ento porque  que no a obrigou a vestir um colete salva-vidas? Gordon acenou na direco do oficial 
da Guarda Costeira.

- Pelas razes que o tenente sugeriu. O tempo no estava ameaador. A Theresa no ia ficar no 
cockpt.

- Porque  que no a manteve afastada da borda do barco?

- Ela pensou ter visto uma luz e inclinou-se para fora para ver melhor. Eu disse-lhe que era perigoso e 
pedi-lhe para voltar para dentro. Ela desapareceu quase antes de eu terminar a frase. Todo o incidente 
durou cerca de cinco segundos.

  271

O juiz parecia descontente mas satisfeito com a resposta. Gordon partiu do princpio que o 
inqurito chegara ao fim at Gamble levantar a cabea e dizer ao Sargento Wasciewicz:

- Pronto, o que e que conseguiu apurar?

Wasciewicz apresentou um depoimento escrito de um mdico de ProviIdence. Theresa estava no fim do 
primeiro trimestre de gestao, Recusara ser remetida para uma clnica de mulheres porque "havia algum com 
quem tinha de falar primeiro.". No havia nada de invulgar nisso. A visita de Theresa tornou-se invulgar 
quando um detective entrou na clnica momentos depois dela sair e disse ao mdico que a rapariga estava sob 
vigilncia policial. Gordon ficou instantaneamente em alerta. Vigilncia. Teria sido seguida 
na noite em que ficara no apartamento dele?

A seguir, apresentou o relatrio de uma investigao em curso do roubo no local de trabalho de Theresa. Karl 
Sinder fora preso e aguardava julgamento. Admitira um relacionamento com Theresa Santiago e usara esse 
relacionamento para a levar a alterar os procedimentos de segurana da empresa. Sinder no sabia que 
Theresa estava grvida e pensava que o beb podia ser de montes de gajoS.

Tanto Ellie como Gordon ficaram estupefactos quando Don MeNeary foi chamado como testemunha. 
Wasciewicz, interrogara todos os jovens do clube que conheciam Theresa e achara o testemunho de McNeary 
particularmente relevante.

- Ela dsse-me que estava grvida - disse ele, centrando toda a sua ateno nas mos dobradas sobre o regao. - 
E estava cheia de medo. No queria dizer ao tipo porque no queria ter mais nada com ele. E os pais adoptivos 
no a podiam ajudar porque no tinham dinheiro. Ela calculava que no ia poder ir para a faculdade nem nada 
disso.

O Don pensara em ajud-la?

- Bolas, no. No precisava de me envolver com o beb de outra pessoa. Tinha oferecido algum conselho a 
Theresa?

- Sim, disse-lhe para ir falar com a senhora Acton. Mas a Theresa disse que no queria que a senhora Acton 
soubesse nada do passado dela. Ento disse-lhe que podia confiar no senhor Acton. Parecia um tipo decente no 
clube e tinha muitos conhecimentos. Ela no disse nada ao certo, mas fiquei com a impresso que talvez pedisse 
ajuda ao senhor Acton.

No, o Don no sabia ao certo se ela contara a mais algum para alm dele. Mas tinha de concordar que ela 
estava cheia de medo.

- Era como se de repente tivesse mais do que alguma vez sonhara. E agora tinha medo de perder tudo.

O juiz olhou directamente para Gordon.
- Alguma vez ela lhe pediu ajuda?

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Gordon pensou bastante antes de responder.

- Perguntou se teramos oportunidade de conversar durante a viagem. Mas no disse sobre qu. Calculei 
que me quisesse perguntar algo sobre os preparativos para a faculdade. E tanto a Ellie como eu estvamos 
ansiosos por ajud-la.

- Ento ela podia estar a tentar resolver os problemas - sugeriu o juiz Gamble.

- Acho que sim - disse Gordon. Esticou a mo e pegou na de Ellie. A senhora Acton e eu t-la-amos 
certamente ajudado. A Theresa era uma jovem notvel.

O juiz olhou de relance para o detective.

- No acho que haja bases suficientes para se pressupor suicdio. Wasciewicz curvou-se em atitude de 
derrota. Esperara ligar a morte de Theresa aos crimes de Cat Sinder. Se o promotor de justia 
conseguisse sugerir que Sinder corrompera uma jovem decente e a levara ao suicdio, o jri estaria mais 
apto a exigir a sentena mxima.

Mas Ellie indignou-se face  sugesto de suicdio. Espalhou o contedo da mala sobre a mesa e pegou num 
envelope de fotografias. Sem dizer nada a ningum, escolheu as fotografias e ps trs ou quatro num 
grupo separado. Empurrou-as na direco do juiz.

- Estas foram tiradas algumas horas antes da Theresa morrer. No compreendo como  que algum podia 
pensar que ela queria pr cobro  vida. Gordon levantou-se um pouco da cadeira para entregar as 
fotografias

a Gamble e o juiz examinou-as vrias vezes.

- No me parece suicida - disse ele, empurrando as fotografias de novo na direco de Ellie. - Ento, o 
inqurito do juiz investigador considera que a causa da morte foi afogamento acidental no mar. - Pegou 
nos seus papis e levantou-se abruptamente, como se estivesse atrasado para um jogo de golfe. Gostaria 
de agradecer a todos. E oferecer a minha simpatia aos Acton. Parece que perderam uma filha.

Saiu pela porta num abrir e fechar de olhos. Wasciewicz reuniu os prprios anotamentos, acenou 
resumidamente na direco de Ellie e Gordon e saiu. Don McNeary pediu desculpa caso tivesse causado 
algum problema aos Acton.

- Recebi uma intimao a dizer que tinha que c estar. - Gordon deu-lhe uma pancadinha no ombro.

Tinha acabado. O veredicto fora dado. Gordon estava aliviado. Mas Ellie estava cada vez mais 
desesperada. Theresa no tivera ningum para quem se virar com o seu problema impossvel. E quando 
se voltara para ela e para Gordon, eles tinham-lhe esmagado o crnio e lanado o corpo borda fora. No 
havia nenhum tribunal  face da terra que a pudesse exonerar.

CAPTULO QUARENTA E TRS

Sentaram-se no Land Rover  porta do tribunal a observar o tenente, o 
sargento e o juiz afastarem-se nos seus automveis. A estengrafa trancou a porta da frente 
quando saiu e nem sequer olhou na direco deles quando saiu do parque de 
estacionamento.

- Acabou! - anunciou Gordon.

Ellie continuou a olhar para as fotografias que entregara ao juiz. Gordon ps-lhe a mo 
sobre o joelho,

- Vais ficar bem? - perguntou ele.

- Ela no te queria chantagear - respondeu ela. - S no sabia para onde mais se voltar em 
busca de ajuda.

- Ellie, no te tortures. O que ela estava a fazer  bvio tinha um filho no ventre e havia dois 
homens que podia dizer serem o pai. Um era um bandido pouco importante a caminho da 
priso. O outro era um milionrio com poder poltico suficiente para a manter longe da 
priso. A Teresa sabia exactamente para onde se virar em busca de ajuda.

- Mas porque  que teria necessidade de te ameaar? - perguntou Ellie numa voz que se 
esforava para no quebrar.

- Porque  que haveria de fazer um telefonema e contar-te que ns tnhamos... estado 
juntos? - disse Gordon. - Ela no queria a nossa ajuda. Queria que tu me pusesses fora de 
casa para que eu ficasse livre para tomar conta dela.
- No acredito! - insistiu Ellie.

- Porque mais haveria de te contar a meu respeito? E, se s queria a nossa ajuda, porque  
que ameaou assumr o crdito pela tua dissertao?

As lgrimas dela comearam a cair, Voltou a enfiar as fotografias na mala.
- No faas dela uma santa, Ellie. A rapariga era uma maquinadora com as manhas da rua. 
Armou um esquema  empresa que lhe pagava e deixou que

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o pobre ladro com quem andava a dormir arcasse com a culpa. Depois manipulou-nos para obter estatuto 
social, propinas para a faculdade e at um guarda-roupa completamente novo. E s estava a comear. 
Encara os factos! Ia enfiar-me o beb do vagabundo e deixar-me pagar todas as despesas do mido para o 
resto da vida. A rapariga era m rs. S no contava era que ns ripostssemos. E foi o que fizemos. Foi s 
o que fizemos.

Ligou o carro e dirigiu-se lentamente para a auto-estrada que os levaria de volta a casa, Gordon grelhou 
um jantar leve, que Molly e Timmy ignoraram. Ainda estavam zangados por Theresa os ter deixado para 
cuidar de outra pessoa qualquer. Ellie levou os filhos atravs dos rituais da hora de deitar e sentou-se junto 
de Timiny at ele adormecer.

Depois saiu e sentou-se melancolicamente nos degraus que davam para a praia, a bebericar vodca com 
gelo e a olhar para os reflexos das estrelas na baa. Estava a ponderar no que tinham passado e a tentar 
definir o seu papel na morte de Theresa. Gordon provavelmente tinha razo. Theresa fizera deles refns 
e o resgate continuaria a subir  medida que se fosse tornando mais ousada. Mas, no entanto, pouco mais 
no era do que uma criana, Uma criana que aprendera a armar esquemas e a roubar tudo aquilo de que 
precisava. No merecia morrer. Tinha o direito  ajuda necessria para ultrapassar o seu passado 
incompreensvel.

"No faz a mnima ideia..." dissera-lhe Theresa. E estava absolutamente correcta. Podia amea-la a ela e a 
Gordon, mas eles tinham todos os recursos necessrios para dar a volta  rapariga. No havia razo para a 
temer. Deviam ter sido capazes de a ajudar. Deus sabe que tinham tudo e que Theresa no tinha nada.

Gordon sentou-se ao lado dela e puxou-a para si. A mo dele afastou-lhe o cabelo dos ombros e inclinou-
se para lhe beijar o pescoo. Ellie tentou aceitar o avano, mas a ideia de se enterrarem um no outro 
deixou-a fria. Existia um crime horrvel entre ambos. No podiam agir como se as suas vidas nunca 
se tivessem alterado.

- Est tarde e tenho de voltar para a cidade de manh - murmurou Gordon. - Vamos para a cama.

Ela tentou dizer que sim, mas no conseguiu.

- Ainda no, Gordon. Tenho de resolver muita coisa antes de conseguir retomar no ponto onde tinha 
ficado. Sinto-me... suja... corrompida.

- No devias sentir-te - disse ele. - Sabes que te amo.

- Acho que sei disso, Gordon. Mas no tenho a certeza se me amo a mim prpria.

Ele deu-lhe um beijo de boas-noites no incio das escadas e tentou encontrar uma posio confortvel no 
sof da sala de estar. De manh cedo, antes do nascer do Sol, vestiu-se, limpou o orvalho do carro e 
voltou para Providence.

CAPTULO QUARENTA E QUATRO

Ela levantou-se cedo e tinha o pequeno-almoo  espera quando os filhos desceram. Delineou o dia que 
planeara. Primeiro, passariam a manh na praia privativa. Castelos de areia, banho, gelado e sumo do saco 
trmico. Depois, almoo em casa e a seguir uma viagem do Cape at Plymouth, onde comprariam roupa 
nova para a escola.

A revolta comeou instantaneamente, Molly queria ir para o clube e juntar-se aos jogos do dia. Timmy no 
queria ir a loja nenhuma. Ellie fez promessas; os midos ficaram de mau humor, Sabia que tinha de fazer 
todo o possvel para que entrassem de novo na rotina. Mas no se achava pronta para enfrentar a simpatia 
e preocupao das senhoras do clube. Para quebrar o impasse, fez a pior coisa possvel. Gritou com os 
filhos e disse-lhes que no se importava com o que eles queriam. Suportou uma hora de raiva at admitir 
que tambm no queria ir s compras de roupa de regresso s aulas.

- Est bem - disse ela finalmente a Molly. - Vamos comear de novo,
O que  que vocs querem fazer?

Deixou-os a brincar na praia e drigiu-se para a esplanada. Mas parou nas 
escadas assim que subira o suficiente para ver os aglomerados de membros nas mesas ao ar livre. Meu 
Deus, no queria enfrent-los. Voltou a descer calmamente as escadas e decidiu dar um longo passeio  
beira de gua. Afastara-se apenas um pouco do clube quando ouviu algum a vir atrs de si.

- Senhora Acton...

Voltou-se e viu Don McNeary a trotar atrs dela,

- Senhora Acton. Ol. Queria falar consigo por um minuto. Pode ser?

276                           

- Claro, Don - disse ela, mas voltou-se para a frente e continuou a 
andar, levando-o a apressar-se para a acompanhar.

- S quero dizer que lamento muito. Pelo que aconteceu e por aparecer no inqurito do investigador. Eu 
no queria ir. Mas o advogado do meu pai disse-me que eles podiam obrigar-me. E dsse que se eu no 
respondesse s perguntas deles podia acabar na cadeia.

- Eu tambm no queria l estar, Don. Ouvi coisas sobre a Theresa que nunca quis ouvir.

- Bem, eu sabia de algumas, porque ela falava muito comigo. O que algum nos diz 
em privado, como amigo, devia ser segredo. Mas o advogado disse que no 
inqurito de um investigador no pode haver segredos. Senti-me um rato ao dizer o que ela me contara.

- No te deves culpar. No tiveste alternativa.

- Pois, eu sei. Mas talvez venha a ouvir outra coisa e quero esclarecer 
tudo. Ellie parou de andar e dedicou toda a sua ateno a McNeary.

- A Theresa nunca disse que estava a fazer o trabalho por si. Isso foi uma coisa que as raparigas 
supuseram.

- As raparigas?

- Sim, aquelas do grupo. A Theresa estava a falar sobre todos os assuntos importantes que estava a 
aprender. Talvez estivesse a exibir-se um pouco sobre uma tese de doutoramento e sobre um professor 
importante que considerava o seu trabalho ptimo. Mas, est a ver, estas raparigas estiveram todas em 
escolas maravilhosas e a maioria delas estuda em faculdades de 
renome, E no suportaram que esta... rapariga... estrangeira fosse to mais esperta... Calcularam que era 
tudo fogo de vista e algum se lembrou de a meter em sarilhos,

- Quem? - perguntou Ellie em voz baixa. - A Trish?

- No me lembro - mentiu Don obviamente. - Todas elas. Iam enviar-lhe uma carta a si a dizer-lhe que a 
Theresa se andava a exibir de escrever a sua tese de doutoramento. Depois algum disse No para a 
senhora Acton. Nunca far nada  Theresa, Por isso enviaram a carta antes ao 
professor. Queriam rebaix-la um pouco, Quando ouvi, disse-lhes que era 
uma parvoce. Seria a si que estariam a prejudicar. Mas j a 
tinham enviado. At estavam a trabalhar noutra, e a planear fazer telefonemas.

Ellie estava de boca aberta, olhos esbugalhados e a ficar plida.

- Foi uma jogada desonesta e sei que no lhe devia estar a contar isto. Mas no 
queria que pensasse que a Theresa o fizera. Sei o quanto a senhora significava para ela e que ela nunca 
faria nada para a prejudicar a si.

Ellie curvou-se e caiu na areia, primeiro de joelhos e depois sobre as ancas. Don s percebeu o 
que estava a acontecer at a ver no cho e depois no sabia se a devia ajudar a 
levantar-se. Ps um joelho no cho ao lado dela.

 277

- Senhora Acton, sente-se bem?

Tinha o maxilar preso e estava a tremer enquanto continha a mgoa que a transbordava por dentro.

- Senhora Acton, posso ajud-la?
- Por favor, deixa-me.

- Onde? Aqui na praia?

- Vai-te embora- Por favor.

- No posso deix-la aqui. Sente-se bem?
- Vou ficar bem. S preciso de ficar sozinha.

Ele levantou-se lentamente e depois recuou alguns passos antes de se voltar para a frente e de se dirigir 
para o clube. Mas estava sempre a abrandar, a voltar-se para trs e a olhar para a retaguarda por cima do 
ombro. Tinha uma expresso preocupada, quase assustada.

Ellie sentou-se sobre os calcanhares. Tinha os punhos fixos  parte lateral do corpo e os ombros rgidos. O 
pescoo inchava-lhe enquanto se esforava por conter um grito. De repente estava a chorar 
descontroladamente. Rolou de lado e enterrou o rosto nos braos.

Don voltou-se e correu para junto dela.

- Jesus, senhora Acton, no queria perturb-la. Por favor, deixe-me ajud-la a voltar para o clube.

Ellie manteve o rosto escondido e limitou-se a abanar a cabea.
- No posso deix-la assim - insistiu Don.

- Deixa-me, por favor. Vou ficar bem,

Ele levantou-se lentamente e afastou-se com relutncia. Ela ainda estava enrolada na areia a chorar 
histericamente.

Minutos depois, ergueu-se lentamente, percorrendo os olhos com o antebrao. Ps-se de p, sacudindo a 
areia da frente da camisa e dos cales. Regressou ao longo da praia at chegar ao local onde os filhos 
brincavam. Depois sentou-se na areia ao lado deles, a observar as pequenas ondas que iam e vinham.

CAPTULO QUARENTA E CINCO

Gordon dormiu at tarde de manh, tomou duche e telefonou a Henry Browning quando ainda estava 
enrolado numa toalha.

- Quais so as notcias? - perguntou ele,

- Bem, a nossa sondagem por telefone  encorajadora. A maioria das pessoas considera que voc  um 
homem bom e extremoso que acabou de sofrer uma perda terrvel. H alguns que pensam que devia ter 
tomado melhor conta dela, mas mesmo esses exprimem simpatia. Mas so s os telefonemas e no  assim 
uma coisa muito certa.

- Quando  que vamos receber o material a srio? - perguntou Gordon.
- Hoje  noite. j devemos ter alguns grficos amanh de manh. Porque  que no jantamos juntos? 
Aproximam-se alguns eventos que preciso de discutir consigo.

Comeram no clube de Henry, um escape para homens muito modesto com comida 
indiferente e pouco interesse por parte do grupo mais jovem. Gordon chamava-lhe o tmulo, mas Henry 
defendia-o como um local onde conseguia comer sem que polticos e advogados se juntassem a ele por um 
minuto apenas, ficando depois a conversar at conseguirem fazer-lhe companhia durante o 
caf.

Estabeleceu uma conversa trivial at o seu peixe ser servido e depois perguntou a Gordon a opinio dele 
sobre o inqurito. Gordon considerou-o mera rotina, com excepo dos pormenores obscenos do passado 
criminal de Theresa.

- Parte disso foi novidade para mim - disse Henry numa das suas raras admisses de falibilidade. - Sabia, 
claro est, da investigao policial no roubo dos semicondutores e j ouvira dizer que ela andava sob 
suspeita. Mas no fazia ideia que eles tinham apertado tanto o cerco. E quanto a ela estar grvida... Abanou 
a cabea em tom de descrena.

- Um choque - concordou Gordon. - Mas nada sobre o seu passado pode mudar a minha opinio a respeito 
dela. Era uma jovem brilhante e carinhosa. Se tivesse sido acusada de um crime, eu teria gasto uma fortuna 
para a defender.

 279

Henry fez uma pausa com o garfo no ar.

- No era uma grande notcia? Gordon Acton a defender uma mida Hispnica culpada de acusaes 
criminais. -Abanou a cabea, movimentou o garfo e mastigou vigorosamente.

- Teria aproveitado isso em grande?

- Quase de certeza. Teria feito tudo para que o julgamento ocorresse antes da eleio. Voc estaria todas 
as noites no noticirio, sentado  mesa com ela. E a Ellie estaria logo atrs de si.

- Suponho que tambm compraria o jri? - perguntou Gordon cinicamente.

- Claro. Teria pago qualquer coisa por um veredicto de culpada. E depois a eleio teria lugar enquanto 
voc estivesse a batalhar por um apelo. Diga-me quantos vizinhos de Theresa teriam votado ento pelo 
seu adversrio liberal? Gordon riu-se.

- Voc  demais, Henry. Mas no ficava preocupado por alguns dos nossos distritos conservadores se 
virarem contra mim? Consideram que quem no  como eles deve estar na priso.

Apreciaram ambos a ironia de um candidato do sistema a defender a causa de uma imigrante. Mas Henry 
voltou ao assunto em questo e previu que excluindo alguma catstrofe imprevisvel - a maioria absoluta de 
Gordon faria imediatamente dele objecto de especulao para a manso do governador ou talvez at um 
lugar no senado,

- Temos ignio - disse Browning. - Agora a nica questo  saber a altura da rbita.

- "Governador" - repetiu Gordon, gostando do som da palavra. - Acha mesmo que  possvel?

- Uma coisa de cada vez - respondeu Henry com cautela. - Embora no veja porque no. Voc  rico. 
Toma banho todos os dias. E no possui causas apaixonantes que constituam uma ameaa para algum. Por 
isso preenche todos os pr-requisitos.

Sentiram-se to bem que pediram sobremesa.

Foi durante o caf que Henry chegou s notcias inquietantes.

- Lembra-se do arranjo que fiz para acabar com a sua... amizade... com a menina Lambert, a sua 
conselheira de Relaes Pblicas?

- Claro - disse Gordon com a melhor das disposies a desvanecer-lhe da expresso. - Tenho de arranjar 
uma maneira de a compensar. Embora no tenha qualquer vontade de lhe contar. Vai ficar furiosa quando 
descobrir que contratmos algum para a engatar.

- Ela descobriu - anunciou Henry sem fanfarra.

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Gordon deixou cair o garfo para a toalha.

- Cristo, no pode ser! Como  que ela descobriu?

- O pretendente apaixonou-se mesmo por ela. Queria um romance a srio e por isso viu-se obrigado a 
confessar a natureza dos seus sentimentos iniciais. Ela bateu-lhe com um suporte para livros e partiu-lhe 
vrios dentes.

- Jesus! - Gordon enterrou o rosto numa das mos.

- No deve haver nenhum problema com ele. Paguei de bom grado todas as despesas mdicas para me 
assegurar de que ficava com o maxilar bem fechado. Mas penso que voc devia marcar uma reunio de 
negcios com a senhora. Na privacidade do escritrio dela, onde no vai desejar fazer figura de tonta. Dei 
a entender que voc no sabia nada da minha pequena fraude. Mas creio que era boa ideia se lho dissesse 
tambm. Como j disse, o inferno no tem fria..

 bvio que Pam no se quis encontrar com ele no escritrio. Procurou vrias desculpas e saiu-se com a 
dos funcionrios de Vero que costumavam usar-lhe o escritrio para as conferncias,

- Esto sempre a entrar e a sair. Posso ir ao teu escritrio?

Gordon no a queria a anunciar o caso de ambos no trio da Action Boats e no lhe podia pedir para 
passar pelo apartamento dele. Sugeriu um pequeno restaurante italiano que ambos concordavam ter a 
melhor massa       a da cidade. Pam resmungou que as mesas eram demasiado prximas, mas 
finalmente cedeu. j estava sentada numa mesa de canto quando Gordon atravessou a porta e se esgueirou 
para a escurido.

Danaram em torno de nada em concreto, falando trivialmente sobre a ementa, decidindo-se por um 
dispendioso Brunello e perguntando depois pela famlia e amigos. Os pratos tinham sido 
servidos e o empregado dispensado quando Gordon sugeriu um tpico de maior peso.

- Pam, temos de conversar sobre uma coisa. E estou cheio de receio de comear porque sei que te vai 
deixar furiosa.

- No te preocupes - respondeu ela suavemente. -j sabia que vinha a. Ele pousou o garfo.

- Sabias que vinha a o qu?

Pam pareceu ficar confusa e depois corou, assumindo um tom vermelho-escuro. Gordon encolheu os 
ombros para assinalar que no fazia ideia do que se passava.

- Que nos ias deixar, retirar a tua conta para outra firma. E no te censuro. A minha nica desculpa  que 
estava com uma amiga e estvamos ambas em baixo. Talvez um pouco pedradas ainda por cima. Mas 
no dia seguinte...

 281

- Pam, por amor de Deus, de que  que ests a falar? Vim aqui para te pedir desculpas.

- vieste?

-jantei com o Henry na noite passada e ele contou-me que te tinha arranjado... 
umpretendente. - A palavra soou de forma ridcula. - O tipo por quem me deixaste.

Ela acenou com a cabea.

- Foi? - O tom dela dizia "Qual  o resto da histria?"

- Bem, o Henry considerou ser uma necessidade poltica e creio que manter-nos afastados foi uma boa 
ideia, Mas quando soube que ele recrutara o tipo para se aproximar de ti, fiquei enraivecido. Estvamos 
num clube e eu fiz uma cena terrvel.

- Foi como eu quando descobri. Pensei ser a coisa pior, mais fraudulenta, que algum j me fizera. Bati-lhe 
com um suporte de livros. Felizmente, atingi-o na boca. Se tivesse sido mais acima, na cabea, 
provavelmente t-lo-ia morto. Depois telefonei a uma amiga em busca de simpatia. Embebedmo-nos e 
depois fummos umas coisas. j no fazia isso h cerca de 15 anos, Mas estvamos mesmo passadas quando 
fiz o telefonema.

- No te censuro nada... - comeou Gordon, mas depois ouviu o que Pam dissera. - Que telefonema?

Ela riu-se ironicamente.

- Bem, estamos mesmo em frequncias diferentes. - Fez uma pausa durante um momento para se recompor. 
Depois disse: - Gordon, peo muita desculpa por ter telefonado  Ellie. Quero dizer, estava cheia de raiva, 
provavelmente ter-te-ia matado se estivesses por perto. Mas nunca teria arrastado a tua mulher para o 
assunto se no estivesse... desgastada. Espero que me conheas o suficiente para acreditar nisso.

- Telefonaste  Ellie? - A expresso dele notava total descrena. - Contaste-lhe que... ns---

- Oh, meu Deus, ela nunca te contou - concluiu Pam. Gordon estava titubeante.

- Eras tu? Contaste-lhe de ns?

Pam olhou para ele num silncio de espanto.

- Eras tu - disse ele mais para si do que para Pam. Algo de inevitvel se estava a compor na cabea dele. - 
Tu... no ela...

- Ela contou-te ento - percebeu Pam. - E pensaste que era outra pessoa? - Os olhos dela tornaram-se mais 
estreitos com uma sugesto de fria a fermentar, - Tenho estado aqui a agonizar por causa do meu 
telefonema estpido e tu nem sequer sabias que era eu.

282                             DIANA DIAMOND

Ele voltou rapidamente aos seus sentidos.

- No, no foi isso. A Ellie falou-me do telefonema e pensmos que era poltico. Algum do outro lado 
estava a tentar arranjar sarilhos. No o levmos a srio - mentiu ele, - A Ellie no me retirou a 
confiana,

Ela estendeu a mo atravs da mesa e agarrou na dele.

- Gordon, nem sabes o alvio que isso constitui para mim. Fiquei doente s de pensar na agonia que 
causara  tua famlia. Fico muito contente que ela no tenha acreditado em mim. - Riu-se ao sentir-se salva e 
sorriu-lhe, esperando que ele explodisse de riso face  dor que causara a si mesma.

Mas no havia humor na expresso dele. Tinha os olhos rasos de gua e o maxilar 
com algum tremor. olhou vagamente na direco dela, ignorando as suas palavras. Parecia estar sob o 
efeito de algum feitio.

- Ests bem? - perguntou Pam preocupada,.

- Sim, claro. Mas acabei de me lembrar de uma coisa. - Olhou para o almoo intacto e para os copos de 
vinho ainda cheios. - Pam, podes pr isto na minha conta? Tenho de fazer uma coisa.

Gordon, levantou-se lentamente e comeou a acelerar  medida que se foi 
aproximando da porta, Nunca olhou para trs na direco de Pam nem retribuiu o cumprimento do 
proprietrio desnorteado. Pam chamou o empregado e pediu a conta.

Comeou a conduzir como um rob, sem se aperceber das curvas que fazia nem do trnsito com que 
estava a lidar. Tinha a mente dormente, misturando as mesmas imagens e expresses, mas incapaz de as 
ordenar para conseguir chegar a uma concluso. Nada acontecera 
como calculara. Nada do que sabia tinha alguma vez 
sido verdade.

Ela no o tinha filmado no quarto. As imagens de vdeo tinham existido apenas na mente dele. E o filho no 
era dele. Theresa nunca dissera que era. Nem nunca tentara destruir-lhe o casamento. Foi ele que 
presumira que o telefonema tinha de ser dela.

E, no entanto, ela ameaara-o. Estava sempre a dizer-lhe de 
quanto dinheiro precisava. Manipulou-o para que 
passasse cheques para as despesas da faculdade. Ameaou 
Ellie e obrigou-a sob coero a dar-lhe um 
guarda-roupa para a escola. Mas no dissera realmente: "Paga seno... Talvez 
esperasse apenas que eles a ajudassem. Talvez tivessem sido eles a exercer coero sobre si mesmos.

Quais foram as palavras? O que  que ela dissera exactamente? Gordon no se conseguia lembrar com 
toda a certeza. S se lembrava de palavras que se adequavam s suas reaces. Ser que ela 
ligara mesmo o dinheiro  cassete de vdeo? Ou ser que a ligao fora 
imaginao sua?

O que  que ela dissera a Ellie? No falara no dinheiro no dia antes de ir com Ellie  
universidade? E no mostrara a Ellie os registos de todos os trabalhos que

  283

fizera numa dissertao minutos antes de mencionar o custo da roupa para a escola? No, espera O que  
que a Ellie disse? A Theresa disse que ia as compras e convidou a Ellie para ir tambm. No era a mesma 
coisa? No sabia que a Ellie ia abrir a carteira? Mas isso no era a mesma coisa que ameaar. Ou exigir 
pagamento! Com excepo de que Ellie pensara que isso era precisamente o que Theresa pretendia. Ser 
que a Ellie se lembrava das palavras?

Uma buzina de carro soou ao lado dele. Ia a virar para uma rampa, atravessando-se  frente de um carro. 
E, por um instante, no teve a certeza de qual era a rampa. Depois reparou que se estava a dirigir para 
Cape Cod, que no era onde pretendia ir. Tinha encontros com apoiantes que Henry marcara. A sua 
secretria no escritrio estava repleta de assuntos que tinham sido adiados por tempo demais. Precisava de 
estar na cidade.

Mas tinha de falar com Ellie. O que  que Theresa dissera exactamente? Queria examinar os ficheiros de 
computador que ela deixara, Havia hiptese de estar l apenas como referncia disponvel para ajudar 
Ellie no trabalho?

Apercebeu-se de repente de que no queria falar com a mulher. No podia deixar que Ellie 
soubesse que o telefonema era de outra mulher ainda. Talvez conseguisse perdoar-lhe o erro com 
Theresa. Afinal, ela prpria fora enganada pela rapariga. Mas ser que perdoaria um hbito de 
namoriscar? Se havia mais duas mulheres, provavelmente haveria muito mais.

Havia uma outra razo por que Ellie no podia descobrir que no fora Theresa a fazer o maldito 
telefonema. Ellie estava perto do ponto de ruptura. A nica coisa que a impedia de limpar o sangue das 
mos enquanto andava era a noo de que no tivera alternativa. Conseguiria aguentar, talvez at agarrar-
se a ideia de autodefesa. Saber que Theresa estava disposta a destru-La a ela e a famlia possibilitava-lhe 
viver com o sentimento de conspirao e culpa. Mas se alguma vez descobrisse que Theresa no estava a 
ameaar nada! Se alguma vez calculasse que a rapariga gostava dela! Gordon sabia que Ellie nunca 
aguentaria a verdade. A sua culpa aumentaria e devor-la-ia.

Com cuidado, agora ciente do que estava a fazer, Gordon virou para a direita e entrou numa rua 
secundria. Depois regressou ao apartamento. Precisava de descansar. Talvez telefonar a Pam com 
alguma desculpa esfarrapada. Depois precisava de ir at  empresa e voltar para a campanha. Quem lhe 
dera retomar a vida onde estava antes de Theresa. Era candidato ao Congresso. A mulher estava prestes a 
fazer o doutoramento. Eram um casal encantador com grandes coisas pela frente. Era a que 
deviam estar. Mas ser que alguma vez conseguiriam l voltar? Ou ser que tinham sido lanados para o 
espao sem qualquer objectivo?

OUTUBRO

CAPTULO QUARENTA E SEIS

O clube ficava aberto at Outubro, recebendo membros e convidados que viajavam pela 
linha da costa de Nova Inglaterra observando os vermelhos e laranjas da vegetao de 
Outono, Mas durante os dias de semana, o edifcio era um casco de barco deserto. A 
maioria dos membros regressava s cidades do continente para o incio do ano lectivo. Os 
rapazes das docas, marinheiros e nadadores-salvadores iam para as faculdades que se 
alongavam desde indiana  Carolina do Norte. O pessoal profissional dirigia-se para as 
estncias de tnis e golfe da Flrida.

Ellie ia at ao Cape aos fins-de-semana, carregando o Range Rover s 
sextas-feiras  tarde e saindo de Newport durante a noite, quando os midos podiam dormir 
e as estradas estavam vazias. Gordon vinha de Providence ao sbado. Depois, no primeiro 
fim-de-semana de Outubro, uma frente fria vinda do Canad ps fim  temporada de Vero. 
Gordon e Herman, o caseiro, fecharam as portadas e desentupiram os canos. Um ex-chefe 
dos tempos da marinha de Newport veio com um amigo marinheiro e juntos levaram o 
barco atravs de Woods Hole at  sua casa de Inverno em Newport. Gordon, ajudou Ellie 
e as crianas a fazerem as malas e depois dirigiu-se para norte de Providence e para o ms 
mais exigente da sua campanha.

- Ela vai juntar-se a ns? - Pressups Henry quando Gordon se desculpou pela 
ausncia de Ellie num jantar de angariao de fundos.

- Espero que sim - respondeu Gordon, sem parecer muito seguro.

- Mais de metade dos trabalhadores da campanha so mulheres - lembrou Henry.

Gordon ripostou.

- Eu sei disso e a Ellie tambm sabe. Mas ainda no ultrapassou o acidente. Agarra-se  
Molly e ao Timmy como se tivesse medo que eles fossem a seguir.

288                           

- Chorar no  a resposta. Ela precisa de voltar ao movimento das coisas,
- Estou certo de que o vai fazer - prometeu Gordon.

Mas no tinha a certeza de nada. Ellie estava agora certa de que todos os perigos que Theresa 
representara tinham sido imaginao deles. Tinham-na morto sem razo nenhuma.

"No a mataste..." disse-lhe vezes sem conta, esperando ver alguma luz nos olhos vazios dela. -Fiz o 
que pensei ter de fazer. Continuo a achar que ela planeava deixar o beb  nossa porta de casa e tirar-nos 
tudo o que consegusse.

"No foi ela que telefonou para a universidade. Porque  que acreditei que tinha de ser ela?" E depois 
Ellie passava em revista todas as provas que tinham reunido e insistia que Theresa no fora responsvel 
por nada daquilo.

Telefonava-lhe todas as tardes e todas as noites, sempre na esperana que ela tivesse sado para fazer 
qualquer coisa ou que lhe contasse efusivamente os pormenores de uma tarde excitante. Mas ela estava 
sempre l, a atender ao primeiro toque, o que lhe dizia que estava no quarto. As conversas eram pouco 
naturais e a voz dela quase montona.

A luz poltica dele comeou a ofuscar-se, Praticamente no se envolvia na campanha, ficando distrado 
quando devia participar. Henry arranjava-lhe desculpas e at tentava suscitar alguma simpatia. Mas sentia o 
entusiasmo dos apoiantes de Gordon desvanecer-se  volta dele.

Sugeriu um psiquiatra.

- Um amigo muito ntimo que ainda acredita na privacidade - disse Henry. - Nunca ningum vir a saber 
que ela o anda a consultar e pode ajud-la a tirar o peso de cima dela.

Gordon evitou uma deciso. Como  que podia dizer a Henry que a ltima coisa que queria era que Ellie 
comeasse a tirar o peso de cima dela? Ela queria desesperadamente confessar-se a algum; contar em 
pormenor exactamente o que acontecera e esperar que a convencessem que no era culpada. Podia 
salvar-lhe a mente a ela, mas ia certamente destruir-lhe o futuro a ele.

Tinha apenas que ser paciente. S faltavam mais algumas semanas at  eleio e, mesmo que a maioria 
estivesse a fugir um pouco, continuava a no haver dvida de que venceria. Depois mud-la-ia para 
Washington, que seria um comear de novo excitante com novos desafios para ela e para os filhos. 
Levaria tempo, mas certamente que uma vida nova ajudaria a salv-la, do naufrgio da vida antiga. No 
precisavam de um psiquiatra, tudo o que precisavam era de tempo,

- Encontraram o corpo de Theresa - disse Browning ao telefone uma manh cedo. Gordon, que esticara a 
mo para o telefone sem abrir os olhos, sentou-se subitamente direito na cama.

  289

- Quando?

- Ontem  tarde. Vai sair no jornal de hoje  noite, desterrada para as pginas do fim. Tm de notici-lo, mas 
certifiquei-me de que no se vo alongar muito.
- Onde? - perguntou Gordon.

Henry suspirou.

- Onde caiu, suponho eu. Um pescador iou-a com uma rede cheia de peixe.
- Tm a certeza de que  a Theresa?

- Ainda no. No restou muito para ser identificado, por isso precisam de examinar o registo dos dentes. 
Mas o sargento Wasciewicz parece achar que o que pode ser identificado condiz com a descrio dela.

- O sargento Wasciewicz? O tipo encarregue dos semicondutores roubados? Porque  que ainda est no 
caso?

Henry assegurou a Gordon que era o mesmo polcia.

- Continua a tentar ligar a morte dela quele bandido. Se conseguir provar que, o cavalheiro a levou ao 
suicdio, pensa que talvez consiga obter uma sentena mais dura por parte do tribunal, Pelo menos, espera 
impedir que ponham o ladro em liberdade condicional.

- Como  que ele espera provar que foi suicdio? Havia alguma coisa de invulgar no corpo?

- Estou certo de que vir no jornal - disse Henry. - Telefonei porque pensei que quisesse estar junto da 
Ellie quando ela souber da notcia. Acho que consegue ir at l abaixo e estar de volta para o jantar de 
hoje  noite.

Saiu disparado em direco a Newport: onde encontrou Ellie sentada no alpendre no exterior do quarto 
de ambos como se fosse uma invlida em recuperao, As crianas estavam com uma 
babysitter que os levara para comprar material para a escola, Sentou-se ao lado dela 
durante algum tempo, admirando os resqucios de cores de Outono ainda visveis ao longo do 
Narragansett. Depois contou-lhe que o corpo de Theresa fora encontrado.

Ellie agiu como se j soubesse. A Theresa, decidira ela, nunca sairia das vidas deles. O facto do cadver 
estar de regresso s confirmava os seus sentimentos.
- O que  que vo encontrar? - perguntou ela.

- Exactamente o que esperavam encontrar. O cadver em avanado estado de decomposio de uma 
rapariga afogada. j sabem que  ela a partir das jias, altura e peso, Vo verificar os registos dentrios 
para terem a certeza.

Ellie limitou-se a acenar com a cabea. Tudo o que ele dissera fazia sentido. Theresa no tinha alternativa. 
Teve de regressar.

Nada disto  culpa tua - voltou Gordon a dizer-lhe. - Mas podemos esperar mais interrogatrios por parte 
da imprensa. Vo querer os nossos comentrios e os nossos pensamentos.  tudo o que lhes podemos dar.

290                            

- Fico contente por terem encontrado o corpo, para que ela possa finalmente repousar em paz - disse Ellie.

Gordon ficou surpreendido:

- ptimo. Exactamente o tipo de coisa que devemos dizer.

- E depois acrescento que isto ajudar a famlia dela e os seus muitos amigos a encontrarem um ponto final.

- Bom... bom. Est ptimo.

- E depois digo ainda que tivemos de a matar porque pensmos que nos estava a chantagear. S que afinal 
no estava. Era tudo imaginao nossa, mas sabamos que estava a fazer planos para ser como ns. Esto a 
ver, a Theresa pensava que ramos uma maravilha. Nunca soube...

Gordon puxou-a para si e premiu os lbios contra a boca dela, No houve reaco. Podia ter sido um 
ltimo beijo a uma pessoa morta.

-  a verdade, no ? - perguntou ela assim que ele recuara. - Tudo o que ela queria era ser como ns. 
Boa educao, boas escolas e uma conta generosa.

- Ellie...

- Porqu, Gordon? Porque  que algum havia de querer ser como ns? Ele embalou-a nos braos ao 
tentar acalm-la. Ainda estava abraado a ela quando a porta da frente se abriu de rompante e as 
crianas entraram para o corredor de entrada gritando por ele. Ellie ficou imediatamente 
alerta e desceu as escadas bem  frente de Gordon. Estava de joelhos, a abraar Molly num brao e 
Timmy no outro, quando ele chegou ao ltimo degrau.

Ele pediu  babysitter para passar l a noite.

- Talvez haja alguns telefonemas para a senhora Acton e penso que  melhor dizer-lhes que ela no est 
em casa. - Ele colocou os comprimidos para dormir em cima da mesa-de-cabeceira antes de voltar para 
Providence.

O sargento Wasciewicz no usava o telefone. Guiou at  porta da frente cedo na manh seguinte, 
momentos depois da babysitter ter levado as crianas para a escola.

- Senhora Acton. Detesto incomod-la to cedo, mas h algumas pontas soltas...

-  o sargento da polcia, no ?

- Sim, sargento Wasciewicz - respondeu ele, segurando na bolsa de couro que continha o distintivo. - 
Conhecemo-nos no Cape.

- E na audincia do juiz investigador - disse Ellie. - E agora est aqui para me dizer que o corpo de 
Theresa foi encontrado.

  291

- j sabe?

- O meu marido contou-me. E as notcias voltaram a assustar-me. Estava a comear a sobreviver e agora 
voltei  estaca zero. - Abriu a porta da frente e afastou-se para o lado. - Ia agora fazer caf. Quer uma 
chvena?

Wasciewicz seguiu-a at  cozinha e foi depois at s portas de correr para poder observar o ptio e ver a 
baa.

- Bem, isto  lindo - disse-lhe ele sem tirar os olhos do panorama de gua e linha costeira.

- Vive em Newport? - perguntou Ellie. Wasciewicz vagueou at  mesa e sentou-se,

- No. Sou de Fall River.  simptico, mas nada como isto.

Ela encostou-se ao balco, com a cafeteira do caf a borbulhar atrs dela, e olhou para o sargento.

- No veio de propsito at aqui para me contar sobre o corpo de Theresa.
- Bem, sim. Mas h algumas incoerncias que tenho andado  espera de esclarecer.

- Em que posso ajudar? - perguntou Ellie. Wasciewicz pediu-lhe para rever, uma vez mais, tudo aquilo de 
que se lembrava sobre a noite em que Theresa cara borda fora.

Ela recuou at ao dia anterior e contou pormenorizadamente, minuto a minuto, todos os acontecimentos at 
ao pr do Sol. Contou como se tinham sentado no cockpt at o Sol se pr atrs da corveta 
que mais tarde soube que se chamava Commander Depois descreveu Gordon a dormir no banco 
enquanto ela mantinha o rumo e mencionou como era fcil devido ao ar ligeiro e ao mar cho. Depois, a 
seguir s onze horas, Gordon acordou e assumiu o comando, Ela desceu e adormeceu logo.

Descreveu de forma grfica a emergncia que a acordara. Conduziu o sargento atravs da busca, da bia 
salva-vidas e da confiana que tinham em encontr-la a qualquer momento. E, depois, a lenta percepo de 
que ela desaparecera. Mesmo quando sabiam j que ela estava morta e depois de chamarem a Guarda 
Costeira, continuaram a busca, s para ver se ela ainda estaria algures, a lutar no mar.

Interrompeu a narrao enquanto servia o caf e tirava natas do frigorfico. Estava a sentar-se em frente a 
ele quando disse:

- Samos do barco e entrmos para a limusina que o Gordon alugara. No voltei a bordo do barco desde 
ento.

Wasciewicz tirara o bloco de notas para fora enquanto ela ainda estava junto do caf e comeou a fazer 
anotaes. Escreveu e folheou de pgina em pgina durante um minuto inteiro depois de ela terminar.

292                            

-  aproximadamente o mesmo que disse no seu depoimento e no inqurito - disse ele por fim, referindo-
se ainda ao bloco de notas.

- O que  que esperava? - perguntou Ellie.

Wasciewicz levantou a cabea e olhou directamente para ela.
- Pensei que talvez me quisesse contar a verdade.

Ela no pareceu chocada. Limitou-se a olhar fixamente para ele, 
perguntando-se em que  que ele no acreditava.

-Algumas coisas que descobrimos no jogam bem com aquilo que me acabou de contar - 
continuou ele. - Como, por exemplo, ser impossvel no terem encontrado o 
corpo porque ele no foi ao fundo durante vrias horas. Ela estaria a flutuar logo junto  bia 
salva-vidas.

- Porqu? - perguntou Ellie, mais curiosa do que assustada.

- Porque ela no se afogou. Estava morta quando caiu  gua. Por isso os pulmes dela ainda tinham muito 
ar.

Ellie pareceu confusa.

- Ela pode ter ficado debaixo do barco devido  fora da queda, mas teria 
vindo logo  superfcie. como no estava a respirar, os pulmes no se encheram,
- Quer dizer que ela estava ali mesmo onde andmos  procura e ningum a viu?

Wasciewicz beberricou o caf.

-  esse o problema. Ela no estava ali onde andaram  procura.
- No estava?

- No. Estava 25 milhas mais atrs, a julgar pelo local onde o barco de pesca iou o corpo preso  
rede.

Ellie levou um momento a assimilar o que o polcia acabara de lhe dizer. Depois disse:

-Acho que no  possvel. Eu ainda estava a p no cockpit 25 milhas antes. Wasciewicz 
encolheu os ombros.

- Foi onde encontraram o corpo.
- Ento deve ter flutuado at l.

- Contra a corrente? - perguntou ele.

- Talvez tenha sido arrastada pela rede de outro pescador.
- Ento porque  que ele no a iou?

Ellie ficou sentada por um momento a olhar fixamente para o outro lado da mesa e depois ps-se de p 
num salto.

- No o posso ajudar com o seu problema, sargento. Sei que ela ainda estava a bordo 
quando fui para dentro e isso no pode ter sido mais do que duas horas antes do meu 
marido dar o alarme. No consigo explicar o seu problema com um corpo flutuante nem 
para que lado  que estava a corrente.

 293

Wasciewicz no fez qualquer movimento para se levantar. Voltou antes a folhear o bloco de notas.

- Disse que a Theresa j se fora deitar antes da senhora descer para dormir. Ellie acenou com a cabea.

- Sim,  disso que me lembro.

- E a prxima coisa de que se lembra  do seu marido a cham-la. Novo aceno de cabea.

- Ento - raciocinou ele, - algum tempo antes, a Theresa levantou-se do seu beliche na cabina principal, vestiu-
se, fez caf e ch, levou-os para cima e a senhora no ouviu nada?

Ellie no acenou com a cabea. Desta vez olhou com curiosidade e deixou-se escorregar lentamente para 
a cadeira,

- E, porm, - continuou Wasciewiez - quando o seu marido a chamou, ouviu-o logo e subiu ao convs 
imediatamente. Como  que  possvel?

- No sei - murmurou Ellie, - Nunca tinha pensado nisso... dessa forma...
- Est a ver o problema. De acordo com o horrio do seu marido, ela caiu assim que chegou ao convs. Isso 
significa que no podiam ter decorrido mais do que alguns segundos entre o momento em que preparou o caf 
e o momento em que caiu. Estava mesmo junto  sua porta enquanto estava na cozinha a fazer barulho e a 
senhora no ouviu nada. Mas o seu marido chama-a do convs e a senhora acorda.

- Ela no deve ter feito barulho nenhum.
- Tem sempre assim um sono to pesado?

- No sei, talvez tenha sido do ar do mar - calculou Ellie.
- Bebeu muito?

- No tinha bebido nada.

- Tomou alguma coisa para a ajudar a dormir?

- No tomo comprimidos para dormir... pelo menos, nessa altura no tomava. Ele fez uma pausa, 
pesando o peso da pergunta. Depois perguntou:

- O seu marido podia ter-lhe dado comprimidos para dormir?

O rosto de Ellie registou reconhecimento e, por um instante, Wasciewicz pensou que ela talvez estivesse 
prestes a contar-lhe alguma coisa. Mas depois voltou  expresso vaga de tdio.

- Sargento, contei-lhe realmente tudo o que sabia. No tenho mais nada a dizer, - Levantou-se e ficou junto  
mesa, fazendo-lhe sinal para se levantar e sair, mas ele no estava a perceber. Estava ainda envolvido em 
folhear as pginas do bloco de notas.

- Tenho um dia muito ocupado - disse Ellie - e gostava de o comear. No h mais nada aqui para si.

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- S mais uns pensamentos - disse ele, apoiando-se numa das entradas do bloco de notas.

- No - insistiu ela, - Se vai haver mais perguntas, quero que o meu advogado me ajude a responder-lhes. 
Quer anotar o nome dele para marcar uma entrevista?

Os olhos dele ergueram-se lentamente, repletos de simpatia e no de raiva.
- Porque  que no se limita a contar-me o que aconteceu no barco, senhora Acton? Acho que quer falar 
sobre isso. Mais cedo ou mais tarde vai ter de contar a algum.

Ela comeou a tremer e depois a culpa irrompeu por entre representao como um pintainho a sair da 
casca. Ela caiu de novo para a cadeira, enterrou a cabea nos braos e comeou a chorar histericamente. 
O corpo dela arqueava-se a cada soluo ofegante.

- A senhora Acton - disse Wasciewicz vrias vezes. Depois estendeu uma mo e pousou-a sobre o ombro 
dela.

Ellie levou vrios minutos a controlar-se e depois ficou imvel com o rosto ainda enterrado nos braos. 
Quando finalmente ergueu os olhos, ele tinha um leno na mo.

- Quer um copo de gua? Ou talvez outra chvena de caf? Ela abanou a cabea.

- Gostava que se fosse embora.

Ele fechou o bloco de notas e enfiou a caneta no bolso do casaco.

- No se vai tornar mais fcil para si, senhora Acton. S vai piorar, Vai ter de falar com algum...

- Por favor - implorou ela.

Wasciewicz deixou cair o carto em cima da mesa.

- Obrigado pelo tempo que me dispensou. E esteja  vontade para me telefonar quando 
estiver pronta.

Ellie esperou que o carro dele desaparecesse. Foi l fora, demorou-se vrios minutos no cimo dos degraus 
que levavam  doca. Depois, quando j no havia sinal de que regressasse, foi a correr at ao 
barco.

Entrou a bordo do Lifeboat cuidadosamente, quase como se pensasse que algum pudesse 
estar a bordo. Olhou para a corda de segurana sobre a qual Theresa cara e depois para o leme 
onde Gordon dissera estar sentado. Depois abriu a escotilha e foi at  cabina.

Dirigiu-se directamente  casa de banho do quarto dela e abriu o armrio de medicamentos. Abriu caminho 
por entre pensos rpidos, anti-spticos e cremes que aliviavam tudo desde queimaduras solares a picadas 
de insectos. Os comprimidos para dormir no estavam l. Ellie fechou o armrio e avanou para

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a casa de banho da tripulao, que ficava no salo. De novo, empurrou os medicamentos  procura dos 
comprimidos para dormir que sabia terem a bordo. Nem sinal deles. Ps-se no centro do cockpt 
a pensar, tentando lembrar-se exactamente do que acontecera naquela noite. Gordon descera e voltara 
depois com caf. Mas demorara algum tempo. Disse que ia  casa de banho e, no entanto, ela no se 
lembrava do autoclismo ruidoso. Se ele fora  procura dos comprimidos para dormir para lhe juntar ao 
caf, o que fizera ao frasco?

Lembrou-se do armrio de medicamentos que ficava logo acima do lavatrio. Esvaziou-o em cima da mesa 
do salo e examinou com ateno todos os pensos rpidos, unguentos, pomadas para queimaduras, fita 
adesiva, iodo e outros contedos tpicos. No havia comprimidos para dormir,

Depois lembrou-se das calas de ganga muito velhas que Gordon gostava de usar quando andava de 
barco. Tivera-as vestidas durante toda a viagem. Foi at  cabina dele e passou os cacifos em revista. Nada! 
Depois dirigiu-se para o cacifo de mau tempo por trs da escada. As calas de ganga estavam enroladas 
numa bola descuidada em cima do convs. Ellie pegou nelas, pendurou-as na porta aberta e comeou a 
revistar os bolsos. No bolso lateral, os seus dedos bateram num frasco de plstico. Tirou para fora o 
recipiente de comprimidos para dormir, abriu a tampa e virou o frasco ao contrrio. Todos os comprimidos 
tinham desaparecido.

O cansao... o sono irresistvel... os sonhos vivos e assustadores. O sacana drogara-a. Precisava dela a 
bordo do barco, mas no a podia deixar interferir nos seus planos assassinos. Por isso, tirara-a do caminho.

E depois no lhe contara. Deixara-a sentir-se cmplice. Ficara a v-la ir-se abaixo e acreditar que optara 
por descer para no ter de testemunhar o crime.

CAPTULO QUARENTA E SETE

- O que  isso? - perguntou Gordon a Ellie.
- Estava  espera que fosses tu a dizer-me.

- Eu sei o que , Ellie.  o teu frasco de comprimidos para dormir. Mas no estou a perceber onde queres 
chegar.

- Este no  um dos que o mdico recomendou. Este  o que estava no nosso 
armrio de medicamentos a bordo do Lifeboat.

Viu um rpido lampejo de reconhecimento no olhar dele, mas depois Gordon voltou ao seu ar de espanto.

- E da?

- No estava no armrio de medicamentos. Estava no bolso das tuas calas de ganga. Das que tinhas vestidas 
quando a Theresa... foi morta. E estava vazio. Ele lanou as mos ao ar num gesto de confuso.

- Drogaste-me. Quando disse que no ia deixar que te livrasses dela, drogaste-me.

Ele abanou a cabea lentamente.

- Ellie, no sei quando  que tomei esses comprimidos, Talvez h um ano, Talvez quando tentei fazer uma 
sesta no convs. Mas drogar-te? Onde foste buscar essa ideia?

- Ao polcia. O detective. O sargento Was... qualquer coisa.
- Wasciewicz? Ele esteve c?

A expresso de Gordon passara de espanto a condescendncia. Agora havia mais 
do que uma sugesto de medo,

- Esteve c esta manh a perguntar como  que eu podia ter estado a dormir enquanto a Theresa se 
levantou e fez caf. Fiquei confusa tambm. E depois lembrei-me dos comprimidos para 
dormir que guardamos a bordo. S que ja no estavam a bordo, pois no Gordon?

  297

- Ellie, o sargento Wasciewicz est numa espcie 
de cruzada pessoal, Anda  procura de agulhas 
em palheiros.

Ela abanou a cabea violentamente.
- Ele sabe!

- Sabe o qu?

Tudo. Que ela foi morta antes de cair  gua, Que caiu na verdade 25 milhas 
antes, Que fizemos com que a Guarda Costeira procurasse no local errado.

- Ellie, se ele tivesse alguma espcie de prova, no se estaria a aproveitar da tua mgoa. Deviam tirar-lhe o 
distintivo.

- Mas ele sabe!

-  Ele pensa que sabe alguma coisa, mas nem sequer tem a certeza do qu. Anda a jogar  sorte.

Ela abanou a cabea.

- Ele vai voltar. No vai desistir.

- Se ele voltar, diz-lhe o que j lhe disseste. j prestaste os teus depoimentos. E no te sentes suficientemente 
bem para aturar interrogatrios policiais infindveis.

No dia seguinte, Gordon voltou para a campanha, mas ficou cada vez mais alarmado durante as conversas 
telefnicas dirias com a mulher. Os sinais de depresso eram claros e comeavam a tornar-se mais bvios a 
cada dia que passava. Ainda no sara de casa, muito menos para se juntar a ele em Providence. Estava a sufocar 
os midos, agarrando-se a eles como se os estivesse a proteger de um tornado ou furaco. O esboo final da 
tese no avanara mais. E depois o maldito polcia evocara imagens de Theresa a flutuar no mar, apontando um 
dedo acusador a Ellie e s crianas. Uma tarde, Ellie pensara ver o corpo de Theresa na gua, logo ao largo do 
alpendre do quarto.

Ele dirigia-se para a casa de Newport quase todos os dias, de manh se tivesse tido uma reunio at tarde ou a 
seguir a um jantar se a manh seguinte estivesse livre. Vezes sem conta, dissera a Ellie que 
ela no fizera nada, Fora ele quem os deixara susceptveis  chantagem e limitara-se a fazer o que era 
necessrio para a proteger a ela e aos filhos.

- Tens de pr tudo isso para trs das costas e andar para a frente. - Estava sempre ele a aconselhar-lhe. - A 
Theresa desapareceu e estamos todos melhor assim.

Foi durante uma das suas curtas visitas a casa que percebeu que no a podia deixar sozinha. Estava a tornar-se 
uma bomba-relgio que ameaava o futuro deles tal como acontecera com Theresa. Theresa t-los-ia destruido 
por malcia. Ellie ia destru-los por culpa. Ali  espera, na casa grande e vazia, s a levava a recordar o ltimo dia 
da viagem de barco. E era sobre isso que ela falava sempre

298                           

que estava com ele. Estava prestes a purgar a sua culpa  governanta ou talvez at a Molly. Se o 
maldito detective fizesse outra visita, nem sabia quanto ela lhe contaria,

Estavam sentados  mesa do pequeno-almoo quando ele disse finalmente:
- Preciso de ti em Providence comigo.

A resposta dela foi um olhar de espanto total.

- Estamos em baixo h duas semanas e penso que a fora me est a escapar.
- Gordon, no consigo...

- Consegues! A senhora Laughton passa c as noites. At pode levar os midos para o apartamento para 
que possam estar connosco ao fim-de-semana.

- No foi isso que quis dizer. No consgo. No  por causa dos midos. No consigo 
enfrentar toda aquela gente,

- Saste-te lindamente na Primavera.

- Na Primavera no me sentia uma assassina.
- No mataste ningum!

- Ento no sentia que estava a viver com um assassino. A respirao dele saltou uma inspirao.

-  isso que pensas? Que sou um assassino? Pelo amor de Deus, Ellie, tive de te proteger a ti e aos midos. 
Estava a lutar pela minha famlia.

- Estavas a proteger a tua preciosa carreira.

Ele ps-se de p num salto, com a mo fechada num punho. Mas caiu em si a tempo de afrouxar a mo e de 
deixar a raiva sbita que tinha no olhar desvanecer-se numa expresso de tristeza.

- No sabes o que dizes, Ellie, Ests toda baralhada. No posso continuar a pensar que podes fazer alguma 
coisa a ti prpria. No te posso deixar sozinha. Por favor, por ns dois, pega em algumas coisas e volta 
comigo para Providence.

Ela sabia que ele tinha razo. Se ficasse sozinha, no havia esperana para ela. Acenou com a cabea em 
sinal de concordncia.

- S me demoro alguns minutos.

Ele deu-lhe um beijo na testa quando ela passou e depois suspirou de alvio. Em Providence, ficaria de 
olho nela. Tinha de ser vigiada at depois das eleies. E depois tinha de ser desactivada.

 CAPTULO QUARENTA E OITO

Dois dias depois, Ellie juntou-se a ele num almoo do Rotary Club, levantando-se para agradecer os 
aplausos quando foi apresentada. Conversou vagamente com as senhoras do comit enquanto o marido 
aderia a polticas para negcios vantajosos junto dos homens. Na limusina, Gordon estava satisfeito com a 
forma como decorrera o encontro.

- Ganhaste os votos deles - assegurou-lhe ela. E depois de a beijar na face, ele disse-lhe.

- Tu ganhaste os votos das mulheres deles.

A tarde decorreu com uma viagem guiada a uma fbrica de processamento de peixe onde ela se deixou 
fotografar com o dedo na boca de um tubaro mortfero. Depois houve um jantar para um hospital infantil 
onde ela disse algumas palavras sobre as crianas serem o nico futuro que qualquer um de ns tem.

O resto da semana seguiu o mesmo padro. Gordon tomava o pequeno-almoo numa sala cheia de fumo, 
Ela juntava-se a ele ao almoo com grupos de veteranos, cmaras de comrcio, auxiliares de igreja e os 
Cavaleiros de Colombo. Depois visitavam uma fbrica, um hospital, um abrigo de cidados idosos. A noite 
era passada num jantar de angariao de fundos ou talvez numa ceia privada com alguns membros de uma 
de entre doze indstrias.

Recebiam rolos de pergaminho que elogiavam os contributos de Gordon para uma coisa ou outra, martelos 
de bronze de associaes legais, diplomas de membro honorrio e chaves de cidades demasiado 
pequenas para aparecerem nos mapas, Ela experimentava chapus tribais de organizaes fraternais, 
vestias klts de uma irmandade irlandesa e provava lulas preparadas pelos descendentes de uma 
cidade porturia do mediterrneo.

Mas era tudo uma representao, tal como Gordon descobria todas as noites quando regressavam ao 
apartamento. Ellie mergulhava imediatamente no seu

300                          

silncio melanclico. E, quando falava com 
Gordon, tudo o que lhe conseguia dizer era 
que a Theresa nunca os ameaara e que a tinham morto sem 
qualquer razo.

Por vezes, era um ns quem tinha morto a rapariga. 
Ellie senta-se conspiradora simplesmente porque concordara em fazer a viagem.

- Eu sabia o que ias fazer - lembrava ela ao marido. - E 
compreendi porque  que precisavas que eu fosse. Eu podia ter dito "no" e as coisas teriam ficado por a. 
Mas fui contigo. Ajudei a mat-la.

Havia outros momentos em que via os pormenores a uma luz mais 
fria.

- Eu decidi ser contra. Disse-te que no queria participar, Por isso drogaste-me para me tirar do caminho e 
depois mataste-a.

Gordon continuava a insistir que nunca lhe dera comprimidos para dormir. Sim, livrara-se de 
Theresa, mas fizera-o por ela e pelos filhos. Salvara-os a 
todos da intimidao, e chantagem de Theresa. Ela iria compreender o que ele fizera se se envolvesse no 
futuro de ambos e parasse de viver nas trevas que Theresa tinha trazido  famlia.

- Confia em mim, Ellie. Tenta confiar e acreditar em mim.

Mas, independentemente de ela vir a confiar nele ou no, Gordon sabia que no podia 
confiar nela. A culpa dela estava a fervilhar no seu interior e em breve transbordaria. Ela teria de contar a 
algum... qualquer pessoa. No podia arriscar-se a afastar-se dela por um 
momento que fosse. Durante a campanha, mantinha-a sob uma trela 
cada vez mais curta. No incio, ela nunca lhe saa de vista. Mas, no fim da primeira semana, 
nunca saa do seu alcance fsico. Ele mantinha-a a seu lado para onde quer que 
fossem no trilho da campanha, At a acompanhava  porta da casa de banho das senhoras e 
esperava no exterior at ela reaparecer. Deu por si a 
interceptar-lhe telefonemas e a abrir-lhe a correspondncia. Enfiava o nariz em todas as 
conversas em que ela participava.

Foi assim que soube do telefonema do sargento Wasciewicz. 
Fora deixado no atendedor de chamadas dela, dando conta do telefonema que Ellie fizera para o seu 
escritrio e perguntando uma hora e um local para o encontro que ela sugerira.

Gordon sentiu-se entrar em pnico. S havia uma coisa sobre a qual Ellie 
podia querer falar  polcia. Isso era admitir o que tinham ambos feito ou descrever o que ele 
fizera. Apagara a mensagem mas sabia que ou Ellie ou 
Wasciewicz voltariam a telefonar um ao outro.

Contou a Henry Browning que Ellie estava doente.

-  aquele maldito polcia que anda a tentar provar que a Theresa era suicda. Anda a telefonar-
lhe e a amea-la. Tem de fazer alguma coisa, Henry. No pode falar com o comandante dele? Tem de 
haver algum no departamento que

 301

d ao filho da me um trabalho diferente, - Henry considerou durante um momento.

- Podamos cortar-lhe as asas, mas pergunto-me se isso no levaria outros a fazer perguntas. A eleio est apenas a alguns dias de distncia.

- Henry, se ele ficar  solta, mando a Ellie para Newport e contrato um segurana armado. Ele j a mergulhou na pior das profundezas da 
depresso.
- No queremos que a Ellie desaparea. Isso s ia suscitar mais dvidas

sobre a sade dela e sobre a sade do vosso casamento. Talvez possa arranjar um encontro entre voc e o Wasciewicz, Se satisfizer a 
curiosidade dele, no ter razo para continuar a perseguir a Ellie.

Gordon, rosnou.

- Se encontrar aquele sacana, sou capaz de o estrangular!

- S faltam alguns dias, Gordon. No  altura para atacar polcias, Deixe-me marcar um encontro entre vocs dois no meu clube. Vou 
certificar-me de que ele se comporta de forma cvica, Pode aliviar-lhe os problemas dele.

- Est bem - concordou Gordon. - Mas tem de ser hoje. Ou amanh de manh, o mais tardar. Tenho de pr cobro a este tormento. Tenho, uma 
mulher que se esconde debaixo da cama.

Encontraram-se na manh seguinte ao pequeno-almoo no clube de Henry, sendo as nicas pessoas numa sala 
composta por uma dzia de mesas postas mas completamente vazias. Os empregados serviram sumo em jarros de vidro com tampa de prata e 
trouxeram  mesa pratos enormes com ovos Benedia no centro, Durante o servio os trs homens permaneceram sentados em 
silncio, com Gordon e o sargento a desviarem o olhar um do outro sempre que os olhos de ambos estabeleciam algum contacto acidental. Henry 
quebrou o silncio assim que os empregados se afastaram.

- Sargento, estou certo de que compreende a aflio em que a senhora Acton se encontra. Penso que todos concordamos que ela passou por uma 
terrvel provao,

Nenhum dos convidados mostrou qualquer sinal de concordar com alguma coisa,

- O senhor Acton considera que foi a sua visita a Newport que reverteu a recuperao dela. Por isso est compreensivelmente determinado a 
mant-lo afastado. Ele no tem qualquer inteno de o deixar falar com ela.

- Penso que a senhora Acton tem um problema de conscincia - respondeu Wasciewicz. - Caso contrrio, porque  que eu a estaria a 
incomodar?

- Porque a acusou de mentir em relao s circunstncias da morte de Theresa Santiago.

- E mentiu. E o senhor tambm - disse Wasciewicz em tom prosaico.

302                           

Gordon comeou a levantar-se da cadeira mas foi detido pelo simples toque da mo de Henry na sua manga. 
Sentou-se lentamente. O polcia nunca mudou de postura nem de expresso. Henry esperou que o 
temperamento de Gordon ficasse de novo sob controlo.

- Sargento, certamente que apreciamos o seu zelo ao prender aquele... bandido...

- Ele j no constitui a minha principal preocupao - disse Wasciewicz.
- Oh? - Reconheceu Henry agradecido. - Ento porqu a insistncia de que se tratou de um suicdio?

- Pensei que tivesse sido um suicdio. Agora sei que foi outra coisa. Henry olhou para 
Gordon, que tinha um olhar gelado cravado no detective. Depois voltou-se de novo para Wasciewicz.

- Espero que nos v dizer que outra coisa  essa.

- No posso - respondeu Wasciewicz. - Podem ter sido vrias coisas. Talvez o senhor Acton nos queira contar.

O maxilar de Gordon estava fixo. Conseguiu dizer:

-j contei no inqurito do juiz investigador tudo o que sei.

- Mas o que contou ao juiz investigador no foi o que realmente aconteceu. Henry entrou na conversa.

- Mas, sargento, especulao sem um objectivo definido...

- No  especulao - interrompeu Wasciewicz. - Factos. No sei exactamente o que aconteceu, mas sei que 
no foi nada parecido com o testemunho dos Acton no inqurito.

Aqui est o primeiro facto. A Theresa Santiago foi morta por um golpe brutal desferido na parte de trs da 
cabea. O mdico que a examinou no conseguiu todos os pormenores da sua morte porque o corpo estava em 
muito mau estado. Mas alguma coisa lhe abriu o crnio como uma avel.

- Talvez a retranca tenha dado a volta - especulou Henry na direco de Gordon.

Wasciewicz abanou a cabea.

- No h nenhuma retranca no barco do senhor Acton. H uma verga e uma vela livre. Mesmo que ela estivesse 
de p em cima do banco, a verga teria passado alguns centmetros acima da cabea dela. Alm disso, um 
marinheiro experiente como o senhor Acton saberia certamente se a vela grande se movia, no era, senhor 
Acton?

- No havia botal para lhe bater - concordou Gordon, ainda a conter a raiva. -j lhe disse, a vela estava iada e 
a lona esticada dos lados. Ela estava agarrada  lona quando caiu. Nada lhe podia ter batido. Mas eu disse-lhe 
que ela batera na parte lateral do barco. Provavelmente foi isso que lhe fracturou o crnio.

  303

-  pouco provvel - respondeu Wasciewcz de imediato, - A parte lateral  composta por uma superfcie 
macia e ligeiramente curvada. Foi um instrumento, pesado e estreito que infligiu o ferimento. Qualquer 
coisa como um p-de-cabra ou um instrumento de ferro.

- H acessrios no convs - realou Gordon. - Ganchos, cadeias, moites... qualquer uma dessas coisas 
podia provocar o ferimento que descreveu.
- Mas ela no caiu no convs. De acordo com o seu testemunho, ela deu uma reviravolta sobre a corda de 
segurana. Ento como  que a cabea dela volta para dentro da corda de segurana e bate num dos 
acessrios? E, se isso aconteceu, como  que ela volta novamente para o exterior?

- Que raio - ripostou Gordon. - j lhe disse que aconteceu tudo num instante. No fao ideia como  que 
ela pode ter batido com a cabea.

- Podia ter sido a hlice? - tentou Henry Browning.

- O motor no estava ligado - disse Wasciewicz - E o Lifeboat tem uma hlice lenta, no  
senhor Acton?

Gordon acenou com a cabea e depois explicou em benefcio de Henry.
- As lminas dobram-se e ficam encostadas  haste quando no esto a girar. Abrem-se com a fora 
centrfuga.

- Bem, ela deve ter batido com a cabea em alguma coisa - concluiu Browning.

Wasciewicz olhou para Gordon.

- O que  que acha, senhor Acton? Alguma ideia? Gordon ficou confuso por alguns momentos.

- A mim pareceu-me ouvir o som da parte lateral do casco.  tudo o que sei. No fao ideia em que forma 
ou em que acessrio  que ela pode ter batido.
- E ficou dentro de gua por vrios dias - disse Henry. - Qualquer coisa

lhe podia ter esmagado o crnio. Um barco ao passar. Destroos naufragados. Creio que nunca saberemos 
ao certo.

- Ela estava morta quando caiu  gua - respondeu o sargento. - o golpe que a matou foi desferido a bordo 
do barco do senhor Acton.

Henry j esgotara as sugestes, Gordon no tinha nenhum comentrio a acrescentar. Permaneceram 
sentados em torno do pequeno-almoo frio, todos eles com ar perplexo. Por fim, Henry tentou avanar 
para o passo seguinte.

- Levou essa informao at ao promotor de justia? Wasciewcz respondeu.

- Ainda no. Ainda h muitas ponta soltas.

- No so pontas soltas - disse Gordon. - So especulaes ridculas que no levam a 
lado nenhum, E so razes muito fracas para perseguir a minha mulher e me chamar mentiroso, A verdade 
 que no faz ideia do que aconteceu

304
 no barco e eu fao. Por isso, digo-lhe pela ltima vez. Independentemente do tamanho e forma do 
ferimento da cabea, no teve lugar a bordo do Lifeboat.

- Bem,  certo que no aconteceu quando e onde o senhor disse no inqurito.

Gordon deu um murro na mesa que deixou o servio de prata a vibrar.

- Uma vez mais, est a chamar-nos, a mim e  minha mulher, mentirosos!
- Olhou para Henry. - No estou para aturar isto. Isto  abuso policial. Henry bateu-lhe no brao.

- Concordo totalmente consigo. - No entanto, perguntou ao detective:
O que  que o faz pensar que aconteceu noutra altura e local?

Wasciewicz comeou a servir-se de mais caf, mas apareceu imediatamente um 
empregado. Ficaram em silncio enquanto lhes enchiam de novo as chvenas.
- Devido ao local onde o corpo dela foi encontrado - disse o sargento

assim que recuperaram a privacidade. - No podia estar no ponto de onde o senhor Acton reportou o seu 
desaparecimento. Falei com os meteorologistas da Guarda Costeira e com os peritos de Woods Hole. 
Qualquer coisa que entre na gua mais do que algumas milhas ao largo do Golfo do Maine movimenta-se 
para a costa empurrado pela Corrente Labrador. O corpo foi encontrado a quase
30 milhas para sudoeste do local em que disse que caiu ao mar. O grupo de Woods 
Hole calcula que ela deve ter cado, pelo menos, 20 milhas para sudoeste. Exactamente na 
rota que marcou nas suas cartas, mas cerca de trs horas antes.

 marinheiro, sargento Wasciewicz? - exigiu Gordon. No, senhor. S pesco um pouco de barco a remos.

Ento deixe-me inform-lo de alguns factos que todos os marinheiros sabem. Primeiro, 
independentemente do que os tipos de Woods Hole lhe contaram, no h maneira de prever como  que 
alguma coisa se vai movimentar no mar. As mars, as correntes, os ventos nunca se combinam exactamente 
da mesma forma. Deixe cair trs objectos em trs dias diferentes e eles aparecem em locais diferentes.

- S que isso no aconteceu - disse Wasciewicz, nada impressionado com o conhecimento superior de 
Gordon acerca do mar. - Pedi  nossa diviso marinha que arranjasse trs fragmentos 
com o mesmo tipo de flutuao e estado de decomposio que um corpo. Lanmo-los ao mar em 
trs dias sucessivos, exactamente onde disse que a Theresa caiu borda fora. Deram todos  costa 
exactamente onde os homens de Woods Hole disseram. Em Pernaquid Point. Isso fica quase a 40 milhas do 
local onde o barco de pesca iou o corpo de Theresa.

Gordon j no estava a dar lies. O sargento Wascewcz assumira o comando da conversa.

  305

- Ser que um pescador no, a podia ter pescado perto da cena do acidente e a arrastado para sul? - tentou 
Henry.

- Claro - respondeu Gordon, - H tantas possibilidades que o local onde os pacotes do sargento deram  costa 
no tem nada a ver com nada. A Theresa caiu onde eu marquei na minha carta e foi encontrada onde quer que 
tenha sido. H centenas de razes para se ter deslocado de um stio para o outro.

- Bem, no foi por ser arrastada numa rede de pesca. Verificmos junto de todos os tipos comerciais desde 
Portland a Gloucester. Ningum fez arrasto entre os dois pontos. Na verdade, quase todos eles iaram as redes 
num crculo, Por isso, no teriam apanhado nada numa extenso de 40 milhas. Teriam voltado a pux-la para o 
centro.

Henry acenou diante da lgica irrefutvel. Depois voltou-se para Gordon.
- Parece-me que o sargento tem um caso muito convincente, - Olhou de novo para Wasciewicz com os olhos 
subitamente incandescentes. - Ento porque  que no entrega esta montanha de informao ao promotor de 
justia?
O gabinete dele que decida se h buracos ou fugas fantsticas  realidade.

- Porque no tenho um motivo - respondeu Wasciewcz de forma agradvel, - E no tenho a arma do crime.

- Ento no tem caso - sugeriu Henry,
- A no ser que algum confesse.

- O que no  muito provvel, considerando que o senhor e a senhora Acton no fazem a mnima ideia do que o 
senhor est a falar.

- A senhora Acton faz - respondeu Wasciewicz. - E ela quer falar sobre isso. Quase me contou  mesa da 
cozinha. Algumas noites atrs, telefonou para o meu gabinete.

O rosto de Gordon ficou vermelho.

-  isso que est a fazer? A tentar coagir uma mulher desesperada a confessar algo que nunca aconteceu?

Wasciewicz encostou-se para trs na cadeira,

- Alguns casos no podem ser resolvidos de mais nenhuma maneira. A probabilidade  que a arma do crime - o 
manpulo de uma alavanca ou uma chave inglesa ou um espigo de pesca - esteja no fundo do golfo. E s duas 
ou trs pessoas conhecem o motivo, estando uma delas morta. Uma jovem foi assassinada, Aconteceu a bordo de 
um barco onde outras duas pessoas estavam Presentes, Por isso, s poderemos encerrar o caso quando um 
deles nos contar o que aconteceu.

- j lhe contei - ripostou Gordon,

- Pois, mas a sua verso est cheia de frechas, Penso que est a proteger a sua mulher.

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- A Ellie? - perguntou Henry ofegante.

- Aconteceu durante a altura em que o senhor Acton estava a dormir. Olhou directamente para 
Gordon. - Talvez a luta o tenha acordado. Ou talvez tenha continuado a dormir, 
acordando depois com um corpo nas mos. Mas penso que teve de proteger a mulher 
e por isso lanou O Corpo e a arma borda fora e limpou o cockpit. E depois navegou at ser de 
manh para que a Guarda Costeira fizesse as buscas no local errado.

Henry assobiou baixinho.

- Bem, devo dizer que isso denota uma grande imaginao. No vai acreditar, sargento, como tudo isso 
parece absolutamente ridculo para algum que conhece a Ellie h muitos, muitos anos. Desde criana, na 
verdade.

Wasciewicz acenou com a cabea, aceitando o testemunho de Henry Browning a favor de Ellie Acton, 
Ergueu os olhos para Gordon.

- Bem, se no foi isso que aconteceu, porque  que no nos conta o que se passou realmente? S havia 
duas pessoas no barco capazes de o fazerem. Gordon ouvira a lgica do caso contra Ellie. 
Abrandara o barco para atrasar a chegada ao ponto mais afastado de terra. A alterao no fora assinalada 
na carta nem registada no dirio de bordo. Por isso, era lgico Wasciewicz concluir que, o que quer que 
tivesse acontecido, ocorrera durante o turno de vigia de Ellie. Estava a jogar com as implicaes e a 
comear a reconhecer o delinear de um libi derradeiro. Mas agora precisava de acabar 
aquele encontro antes que Wasciewicz convencesse Henry de que era ele o assassino. Levantou-se 
lentamente, propositadamente, at ficar dominante em relao ao sargento.

- O que lhe vou dizer, no vou voltar a repetir. A perseguio  minha mulher e a mim vai parar aqui e 
agora. E para me certificar disso, vou entregar ao seu comissrio uma mensagem muito 
simples. Se se voltar a aproximar da Ellie ou de 
mim, ou se alguma vez eu ouvir uma 
repetio desta difamao, o meu 
primeiro acto como congressista ser 
lanar uma investigao federal na 
corrupo do seu departamento. Isso dever chamar a ateno dele 
e p-lo a si a guardar corpos na morgue, - Voltou-se para Browning. - Agora, se me d licena, 
Henry. - Atirou com o guardanapo para cima dos ovos em que no tocara e 
saiu tempestuosamente da sala.

Browning e Wasciewicz ficaram sentados em silncio at bastante tempo depois de ouvirem a campainha 
do elevador. Depois Henry desenrolou o seu primeiro charuto do dia e fez um grande espectculo a 
acend-lo, Expirou uma nuvem prateada e depois sorriu atravs dela.

- Penso que deve levar muito a srio o que o senhor Acton lhe disse disse ele. - Ele agora tem 
conhecimentos suficientes para o pr a guardar jurados

  307

para sempre. E quando for congressista? Bem, suponho que consegue imaginar os favores que 
conseguir pedir ento.

- Eles mataram-na - disse Wasciewicz. - No h outra resposta,

- Talvez no - decidiu Henry. - Mas pergunto-me se  motivo suficiente para desperdiar a sua 
carreira por um caso que nunca vai ganhar, E o motivo por que nunca vai ganhar  precisamente porque 
eles eram as nicas duas pessoas no barco, Est a desafiar a palavra de uma descendente directa de Roger 
Williams e de um homem cuja famlia salvou milhares de marinheiros de navios que se afundavam. Um 
congressista dos Estados Unidos e uma defensora da educao para os pobres. Francamente, as suas 
probabilidades no me agradam.

Henry fez sinal para trazerem a conta e assinou o seu nome, Depois levantou-se e afastou-se da mesa, 
deixando Wasciewicz a segui-lo at ao elevador. Henry foi directamente para o escritrio de Gordon para 
lhe contar o final do encontro.

- Penso que deixou a sua posio muito clara - disse ele a Gordon. Mas, caso o sargento Wasciewicz ainda 
no estivesse convencido, dei-lhe ainda mais razes para desistir desta investigao estpida. Penso que 
no voltaremos a ter notcias dele.

- Espero que no - disse Gordon. - A Ellie no aguenta muito mais, Henry sorriu com ar 
perspicaz.

- Partilho da sua esperana porque no ia querer que as opinies do sargento 
chegassem aos ouvidos do pblico. Ele tem um argumento muito convincente. - Fez uma pausa  espera da 
resposta de Gordon, mas quando esta no chegou Henry perguntou: - Presumo que a rapariga estivesse 
morta antes de cair borda fora?

Gordon estudou o seu mentor. Depois acenou lentamente com a cabea.
- O sargento acertou em cheio? - calculou Browning.

Gordon, suspirou.

- Ela estava a chantagear a Ellie. A mida fizera muitos recados na dissertao da Ellie, mas fez 
com que parecesse que era tudo dela. Subiu ao cockpit e disse a Ellie qual seria o valor do seu 
silncio. A Ellie disse-lhe que no lhe ia pagar nada e que ia entregar Theresa  polcia. A rapariga atacou-
a e Ellie ripostou. Fez girar uma chave inglesa. No fazia ideia dos danos que uma coisa daquelas podia 
causar.

Estava a falar em voz baixa, com os olhos em baixo.

- Meu Deus - deixou Henry escapar. - E voc ajudou-a a encobrir tudo. Gordon acenou com a cabea.

- Que   mais podia fazer? Eu amo-a.

308

- Ter-vos-ia destruido a ambos. Se no tivessem mandado a rapariga  vida, o seu futuro poltico ter-se-ia 
afundado.

- Na altura, isso nunca me ocorreu. Sabia que a Elle nunca iria sobreviver ao escndalo. Agora tenho 
medo que no sobreviva ao segredo. Henry, estou aterrorizado que a Ellie se mate. Por isso  que no a 
deixo fugir de vista. Acho que est determinada a pr fim a tudo.

Gordon aceitou a simpatia de Henry e ouviu o seu conselho sobre procurar tratamento psiquitrico. Tinha 
o brao em redor do homem mais velho quando o acompanhou at  porta.

-  um verdadeiro amigo, Henry. Nunca quis que soubesse disto. Peo-lhe que erga uma muralha em 
redor de tudo isto para que no fique em posio de encobrir um crime. E juro que nunca contarei a 
nngum que o senhor sabe.

Preparara o terreno para o suicdio de Ellie caso essa se tornasse a nica forma de silenciar a conscincia 
perturbada da mulher.

NOVEMBRO

CAPTULO QUARENTA E NOVE

O jantar era no corao do territrio inimigo, nas cidades laborais ao longo da fronteira de Massachusetts. 
Esta parte do distrito, continuamente alimentada por novas vagas de imigrantes, votara no partido 
democrata desde a primeira administrao de Roosevelt. Ningum de Ocean Drive podia esperar mais do 
que algumas dzias de votos.

Mas, segundo as sondagens interminveis de Henry, Gordon podia arrecadar um tero das votaes; uma 
percentagem que viera a aumentar desde que Theresa Santiago se tornara babysitter dos 
Acton. Esta era a terra natal dela, onde os seus feitos se tinham tornado tema comum de conversa e a sua 
imagem universalmente reconhecida. Esta era a comunidade que se reunira para chorar na missa em sua 
memria.

Originalmente, o jantar era para ser um almoo agendado pelo Rotary Club num pequeno restaurante 
italiano. No havia muitos membros do clube e, embora ficassem com a sala s para eles, nunca encheriam 
mais de metade das mesas. Mas agora, devido  notoriedade de Theresa, havia uma tal procura aos 
bilhetes para o almoo que a agenda fora alterada para um jantar no salo do sindicato. Era o ltimo lugar 
na rea onde um republicano esperaria ter lugar na mesa principal, mas, nesta multido, Gordon Acton era 
considerado um republicano. Era o homem que tratara Theresa como filha e planeara sustent-la em Yale.

- Ainda vai acabar por ganhar esta ala - disse Henry a Gordon quando se sentaram lado a lado  cabeceira 
a servir as taas de fruta.

Gordon olhou para a multido, a sala a abarrotar de mesas por toda a parte.
- Custa a crer que esta gente toda conhecesse a Theresa.

- As lendas crescem - disse Henry. - Todos se lembram que a amavam como a uma filha.

312                             

- Embora andasse a roubar o patro? Henry riu-se em silncio.

- Essa foi uma maquinao por parte da polcia racista determinada a manter os imigrantes nos 
seus lugares.

Gordon voltou-se para o outro lado onde Ellie sorria 
para a sua salada.
- Creio que talvez tenhas de dizer umas palavras - avisou ele.

O sorriso dela desapareceu.

- Penso que no  boa ideia. No sei se aguento.

Gordon manteve o sorriso para o pblico enquanto a raiva lhe escorria pelo canto da boca.

- Claro que aguentas, O que  que vais fazer, desprezar 
todos os amigos dela?

- Gordon, no sei o que posso dizer..

- Duas frases, pelo amor de Deus. " um prazer estar aqui a honrar a Theresa e assim 
por diante. Sinto falta dela tanto como vocs." O que h de difcil nisso?

-  difcil porque ajudei a mat-la...
O sorriso fingido dele desapareceu.
- Jesus...

- Mas vou tentar, Gordon. Vou pensar em alguma coisa.

Ele voltou-se para a taa de fruta e descobriu que perdera o sabor.

No ia resultar, Gordon sabia. Ellie no ia melhorar, nem agora, antes da eleio, nem a seguir. 
A culpa dela em relao  morte de Theresa estava a queimar-lhe demasiado fundo a conscincia. Ele 
tinha de fazer qualquer coisa. No podia passar as horas em que estava acordado a 
vigi-la para se certificar de que no falava com ningum. Nem se podia arriscar que uma 
das conversas inocentes dela se transformasse subitamente em confisso.

Pensou num sanatrio. Um daqueles locais privados no campo que cuidavam de bbedos, drogados e 
incendirios das melhores famlias. Publicamente, podia fazer parecer que ela precisava de 
tempo para recuperar do choque de perder a rapariga que amava como uma filha.

- Um curto repouso - anunciaria ele alguns dias depois da eleio, No, nada de grave,  
que foi um ano difcil para a Ellie. Mais difcil do que eu podia imaginar quando 
aceitei a candidatura. E depois, com a perda de flieresa...

Gordon gostava da ideia porque se reflectia bem em ambos. Seria o marido 
preocupado e o nico problema dela seria amor em demasia. No haveria nenhum estigma a 
longo prazo que surgisse na sua prxima campanha poltica, Elli poria gradualmente tudo em 
perspectiva e voltaria a casa curada.


313

Mas no haveria maneira de impedir que falasse dentro do sanatrio. Era o que os psiquiatras e psicoterapeutas 
costumavam fazer, encorajar os pacientes a falar. No incio, as descries dela acerca dos acontecimentos que 
tinham levado  morte de Theresa podiam ser vistos como parte da doena. Mas, ao fim de pouco tempo, as 
descries claras e pormenorizadas seriam reconhecidas pelo que realmente eram. Os mdicos e enfermeiras 
de Ellie compreenderiam rapidamente que ela no sofria de iluses de culpa, carregando antes com o peso, de 
factos reais, E depois? Os mdicos nesses locais optavam pela via da discrio. Mas, algum levaria certamente a 
histria de Ellie s autoridades.

Tinha de haver outra sada. Precisava de se certificar do silncio dela. Pensara que estava a comprar a 
colaborao dela quando a fizera participar no crime. Afinal, ela no o podia destruir sem se destruir a si mesma. 
Nunca imaginara que ela veria a prpria destruio como salvao da culpa.

- Estou pronta - murmurou-lhe subitamente Ellie. - Vou contar-lhes como a Theresa ensinou a Molly a tocar 
flauta.

Ele acenou com a cabea.
- ptima ideia. Perfeita. - Repetiu a observao dela a Henry, que esboou um dos seus sorrisos pouco 
frequentes. Era uma histria inofensiva que nada tinha a ver com a morte de Theresa, mas era perfeitamente 
ilustratva do afecto que ligara a rapariga  sua famlia.

Enquanto os empregados levavam o frango para dentro, o presidente do evento comeou a limpar a 
garganta por detrs do microfone. Apresentou Gordon como um homem com a fora para fazer as 
coisas e a humanidade de saber o que devia ser feito. Os aplausos foram educados, mas cautelosos.

Gordon saiu-se bem com as observaes que preparara, falando sobre o fim de velhas divises e a nova era da 
comunidade.

- Nenhum de ns ter xito se no tivermos todos xito - anunciou ele num tom elevado. - Somos uma famlia, tal 
como Theresa Santiago fez parte da minha famlia.

Os que jantavam ergueram-se numa ovao espontnea, Tinham ido l para ouvir falar de Theresa, no para 
discutir polticas governamentais nem nuances polticas. Gordon ainda nem tinha voltado para a 
cadeira quando comeou o cntico por Ellie. Ningum, calculou a multido, estivera mais prximo de 
Theresa durante os ltimos meses trgicos da sua vida.

Ellie levantou-se com coragem e avanou at ao pdio. Ouviu os aplausos, que eram mais generosos do que a 
saudao que Gordon recebera. Continuou a sorrir ao microfone at a multido se calar e voltar para as suas 
cadeiras.

Recitou as palavras de abertura usuais de gratido a todos os envolvidos no assunto que aprendera com todas 
as anteriores paragens da campanha. Depois

314                        

repetiu o tema de uma famlia s de Gordon, que conduziram directamente a algumas palavras 
sobre o conhecimento ntimo do povo do distrito,

- Tive uma filha que vivia aqui - disse ela. - A quem amei tanto como vocs amaram,

Fez-se um silncio sepulcral, No se ouvia um prato bater nem um cubo de gelo tiritar,

- Posso recordar tantas coisas. Mas vem-me  memria um incidente em particular.

Olhou para o pblico e depois reconheceu um recm-chegado que se juntara a uma mesa  
sua esquerda, O sargento Wasciewicz aproximou-se da mesa, inclinando-se para a frente de 
forma a ouvir-lhe todas as palavras. Num mar de rostos, o dele era o nico que tinha olhos.

Os joelhos vacilaram-lhe e agarrou-se  parte lateral do pdio com tal fora que os ns dos 
dedos das mos ficaram brancos. Desviou o olhar em direco ao 
fundo da sala, mas o rosto de Wasciewicz brilhava como uma chama no canto do 
seu campo de viso. O seu olhar voltou a ele, Ele estava a sorrir-lhe, dando-lhe coragem para dizer a 
verdade.

- A Theresa era muito prxima dos meus filhos. Em particular da minha filha Molly, que a considerava uma 
irm mais velha. - Olhou para o outro lado da sala, mas continuou a ver o 
sargento. -  difcil confiarmos os filhos a algum... a 
algum que no conhecemos bem, A Theresa dsse-me uma vez que eu no fazia a mnima ideia. 
Que no sabia nada da vida dela. E tinha razo. Era fcil desconfiar-se dela.

A sua voz hesitante era o nico som na sala mortalmente silenciosa.

- A Theresa era msica. Escreveu este... tema. Um tema triste que era... bem, talvez a banda 
sonora da sua vida. Deus me ajude, mas ainda a ouo. Por vezes  noite tenho 
de pr as mos nos ouvidos. A Theresa ensinou a Molly a tocar flauta. Por isso talvez seja 
a Molly que ouo  noite. A Molly de certa forma... transformou-se na Theresa, Acho que  por isso 
que tenho tanto medo por ela. Parece tolice, mas penso que as mes vo compreender, Perguntamo-nos 
sempre o que podamos ter feito de diferente.,. e depois 
comeamos a ter medo. Tenho medo que, se a Molly alguma vez 
se tornar uma ameaa para ns... para a nossa posio... que 
tenhamos de nos livrar dela tambm.

No pblico as pessoas comearam a lanar olhares umas para as outras. De que  que a mulher estava a 
falar? Quem  que era uma ameaa para eles? A Theresa?

Gordon ergueu a cabea. Percebeu que Ellie estava perdida a deambular 
para terreno perigoso. Abanou a cabea quando Henry disse:

- Onde raio  que isto vai dar?

  315

Ellie procurou um rosto amigo, mas o nico que reconheceu foi o do sargento Wasciewicz. Percebeu que 
ele sabia, que compreendia. Olhou directamente para ele.

- No  to simples quanto julgam. Pensmos que ela nos estava a ameaar, No estava, mas no confimos 
nela porque no a conhecamos. Tal como ela me disse, no fazamos a mnima ideia.

- Por amor de Deus, cale-a - disse Henry rapidamente ao ouvido de Gordon. Gordon saiu da 
cadeira e comeou a abrir caminho por detrs dos convidados da mesa principal at ao pdio.

Ellie fechou os olhos, em busca das palavras certas para explicar o que realmente acontecera. Podia ouvir-
se a respirao dela atravs dos altifalantes.

- Penso que, em parte, se deveu ao facto de acharmos que ramos melhores do que ela. As nossas vidas 
eram mais valiosas do que a dela. No pensmos no que se podia tornar mas apenas no que nos podia 
impedir de tornar...

Os rostos do pblico continuavam a no compreender. De que raio  que a mulher estava a falar?

- E tnhamos medo. Sabem como  quando se  ameaado? Quando algum nos vai tirar tudo aquilo de que 
precisamos. Mesmo se amarmos a pessoa, temos na mesma que fazer alguma coisa...

Gordon colocou-se ao lado dela, Afastou o microfone torcendo-o e enviando um guincho estridente 
atravs dos amplificadores, mas Ellie pareceu no reparar, Continuou a falar, num tom suficientemente alto 
para se ouvir na mesa principal. Suficientemente alto para se ouvir nas mesas da frente.

- amos simplesmente lev-la para o mar e deix-la para trs. Mas eu no consegui. Quanto mais nos 
aproximvamos do momento, mais sabia que nunca conseguiria mago-la. Tm de acreditar nisso. Eu 
amava-a, mas tinha medo dela. Queria livrar-me dela, mas no conseguia mago-la.---

Gordon envolveu-a com os braos e tirou-a fisicamente do pdio, Henry apressou-se a ajud-lo e o 
encarregado dos brindes levantou-se e tirou Ellie dos braos de Gordon. Vrios dos convidados da mesa 
principal rodearam-na e levaram-na para trs da mesa. Gordon voltou ao pdio e arranjou o microfone.

Ouviu o rudo de vozes enquanto as pessoas de todas as mesas se voltavam umas para as outras. Quando 
ergueu a cabea, viu rostos severos que queriam respostas. Se acreditassem no que tinham ouvido, a 
mulher do candidato acabara de confessar um crime. Estivera a contar-lhes que ela e o marido tinham 
planeado ver-se livres de Theresa. Ela no disse que no tinham inteno de a trazer de volta da 
viagem? E os convidados do jantar sabiam o que tinham visto,
O marido dela calara-a, Gordon Acton tirara-lhe o microfone e arrastara-a para fora do pdio.

316                          

- Meus amigos - tentou Gordon, mas o murmurar de conversas continuou. - Por 
favor, posso ter a vossa ateno por um segundo apenas...

Os rostos olharam para cima e ficaram fixos. Vozes do pblico exigiram calma e silenciaram o silvo de 
sussurros.

- A minha mulher - disse Gordon - no est bem. Como podem ver, sente-se 
terrivelmente culpada pela perda de Theresa Santiago. - s palavras dele 
seguiu-se um silncio de morte, Olhou em redor e viu 
algumas expresses de simpatia. Algumas mulheres tinham a mo sobre as bocas 
abertas.

- Acha que, se no tivssemos planeado a viagem e levado a Theresa, ela ainda estaria viva. Creio 
que  verdade. Vai levar algum tempo para lembrar todas as coisas maravilhosas que fez por Theresa 
e os planos que tinha para ela, A hostilidade no pblico estava a desvanecer-
se.

- Tenho andado terrivelmente preocupado com ela. Implorei-lhe que repousasse, mas ela 
insistiu em estar aqui. Queria estar com os amigos da 
Theresa. Sei que lamenta ter-vos causado ansiedade. Quando estiver melhor, estou certo de que querer 
voltar aqui para vos dizer o quanto amava Tberesa Santiago.

O murmrio recomeou, agora acompanhado pelo arrastar de ps  medida que o pblico se 
voltava para as sadas, Alguns dos convidados 
demoraram-se um pouco e vieram apertar a mo a Gordon.

CAPTULO CINQUENTA

-  tudo muito positivo - relatou Henry Browning de manh. - Ela foi vista como perturbada pelas 
recordaes da rapariga. Os seus comentrios foram inspirados.

Gordon andava em crculos  volta da secretria.

- Pelo amor de Deus, Henry, ela soltou-se. Fez uma confisso pblica de assassnio.

- No foi assim que o pblico a viu. Viram-na desfazer-se em mgoa. A resposta que estamos a receber  
"vejam como ela a amava." Estamos a jogar com o ngulo da perturbada e exausta.

- Foi tudo culpa daquele maldito polcia! Como  que ele conseguiu entrar na lista de convidados?

- A Associao de Benevolncia da Polcia ocupara uma mesa. No havia lista de nomes e ele s apareceu 
quando voc estava a receber a ovao de p,
- E agora est a tentar prend-la. Ser que ningum consegue controlar o filho da me?

- Ele no vai conseguir um mandato e nunca ser capaz de a incriminar explicou calmamente Henry 
Browning. - No h nenhum juiz nem chefe da polcia que queira incorrer na ira do prximo 
congressista do distrito.

- No  o que dizem os jornais. - Fez um gesto para os dirios espalhados no cho junto  secretria. - 
Perguntas inquietantes! Evases perturbadoras!
- recitou Gordon a partir dos ttulos. - Dizem que o inqurito do juiz investigador foi apressado para evitar 
embaraar-me e prejudicar-me a candidatura, Um dos jornais diz que o inqurito no passou de um 
encobrimento.

Henry acenou com a cabea.

- A imprensa vai fazer uma festa. Mas ainda faltam trs dias para a eleio e ns j estamos a pr os 
cordelinhos a funcionar. H dois psiquiatras que vo


318

ao noticiriio da tarde e da noite e que diro que ela  um caso clssico de desnimo com toda a 
culpa e repugnncia por si mesma que apresenta.

- E os jornais? - exigiu Gordon.

- Deixmos escapar cuidadosamente que a vamos levar para casa 
para descansar e pedimos aos jornais que a deixassem em paz. Isso assegura que todos tero 
fotgrafos  espera na porta da frente.

- Mas...

Henry ergueu uma mo para o acalmar.

- E depois voc dir algumas palavras sobre a recuperao dela ser o que interessa.

- E eu fico l, dentro de casa...

- Exactamente - disse Henry, reafirmando o plano. - Isso impedir que a 
imprensa lhe faa perguntas e mostrar que  um homem de famlia primeiro e um poltico depois, 
Acredite que no haver qualquer desvantagem. Quando as urnas de voto abrirem, voc ser um heri. 
Acarretar 90 por cento do voto feminino.

- No devo fazer nenhuma declarao sobre o assunto de Theresa? -Agora no - respondeu Henry. - 
Agora estamos preocupados com o controlo dos danos. No queremos lembrar a ningum o que ela 
disse ao jantar. Assim que for eleito, temos muito tempo 
para por a Ellie de p e para varrer os comentrios que fez sobre a Theresa para debaixo do 
tapete.

- Sinto-me um verdadeiro canalha - disse Gordon. Henry abanou a cabea.

- No me interessa como se sente. Limte-se a 
agir como um marido preocupado, Sempre que a imprensa 
noticiar que abandonou a campanha para estar com a sua mulher, ganhar mais dois pontos.

Gordon levou Ellie para a casa de Newport, adoptou um ar de preocupao ao conduzi-la atravs dos 
fotgrafos esperados e disse as poucas palavras que Henry recomendara. Depois trouxe guardas 
contratados da empresa de segurana da Action Boats. Queria mostrar 
ostensivamente que o necessriio repouso de Ellie no era perturbado.

- No se sabe o que a imprensa sensacionalista pode tentar fazer - explicara ele. - E nunca se sabe o que 
um poltico excntrico pode fazer nos ltimos dias de uma campanha. -Mas, na verdade, 
no tinha medo de reprteres insistentes nem de adversrios 
desiludidos. A fora de segurana era 
simplesmente para assegurar que o sargento Wasciewicz nunca aparecesse  porta de 
casa. Uma segurana feminina dentro de casa vigiava telefonemas para se certificar de que ele nunca 
contactava por telefone.



319

Publicamente, Gordon estava optimista.

- Ela vai ficar boa - assegurava ele aos amigos. - Assim que terminar a eleio, vou lev-la  procura de 
casa na rea de Washington. A mudana de cenrio e as novas responsabilidades sero ptimas para ela. - 
o seu tom minimizava o problema. Estava a sugerir que a mudana poria cobro ao luto. Mas sabia que no 
era s luto. Ellie precisava de confessar os crimes.

- Est sempre a culpar-se pela morte da rapariga - disse-lhe a segurana do interior de casa, - Diz que 
devia ter posto fim a tudo assim que o senhor levantou a ideia. - Depois perguntou, - De que ideia est ela 
a falar?

Gordon pensou durante alguns segundos e explicou que a mulher achava que no devia ter levado a 
rapariga na viagem de barco. Depois retirou a mulher de dentro de casa. Wasciewcz no tentara telefonar 
por isso talvez j no constitusse um problema. No era certamente to imediatamente perigoso quanto a 
possibilidade de Ellie fornecer mais informaes explcitas s pessoas que cuidavam dela.

Wasciewicz desistira da hiptese de Ellie quebrar o silncio e levara as provas e os excertos do discurso 
dela ao juiz Gamble. Agora, no dia anterior  eleio, Henry Brownng soubera que "novas provas tinham 
sido levadas ao juiz investigador, que podem resultar na reabertura do inqurito..." Browning dirigiu-se de 
imediato para o Cape para uma consulta pessoal com o juiz.

- A informao  certamente persuasora - disse o juiz assim que ultrapassaram as expresses de delicadeza 
e foram directos ao assunto. Depois conduziu Henry atravs do problema da fractura no crnio da 
rapariga, do facto dela estar morta antes de cair ao mar, da localizao do corpo que andara contra a 
corrente. Henry escutou com ar grave como se estivesse a ouvir as provas pela primeira vez,

- No tnhamos estas informaes na altura do inqurito - realou Gamble. - Por isso, devemos reabrir o 
caso pelo tempo necessrio para obter algumas respostas.

Henry ops-se s questes legais com uma forte dose de realidade poltica. Gordon Acton era a ligao 
do partido aos benefcios conferidos pelo governo federal. Abrir um inqurito horas antes do dia de 
eleies no era uma coisa muito inteligente. E, Deus queira que no, qualquer vestgio de negligncia 
podia prejudicar os republicanos por toda a Nova Inglaterra.

- Os republicanos criaram este lugar no tribunal s para si, juiz. Mas os democratas devem provavelmente 
querer mud-lo novamente para Boston.

O juiz Gamble ficou veementemente ofendido com a ideia da poltica crassa se infiltrar na jurisprudncia, 
mas Henry insistiu que estava apenas a aconselhar prudncia.

320                           

- Nada disto pode assumir um carcter definitivo devido s incertezas do mar - exortou ele, 
Disse ao juiz Gamble que o ferimento na cabea podia ter sido de bater 
num acessrio do convs. O corpo podia ter sido apanhado numa 
rede de pesca e arrastado para onde fora finalmente descoberto. - Vai expor tudo isto e fica sem 
saber ao certo se os Acton fizeram alguma coisa de mal ou se as mars e correntes apenas nos 
pregaram uma partida. Mas pode ter a certeza que os jornais arranjaro algumas insinuaes muito 
desagradveis. E os nossos adversrios iro explor-las em todo o seu valor.

O juiz Gamble percebeu que os piores medos de Henry se 
podiam concretizar. To importante quanto isso, no se viu a si mesmo a desistir 
dos prazeres pastorais de Cape Cod a favor do tumulto infernal de Boston.

- Estou a perceber o que quer dizer, Henry - concluiu ele. - 
Deixemos isto de parte e fiquemos com o veredicto original.

Nessa noite, Ellie contou a Gordon que ia falar com o juiz Gamble. Tinha de se certificar de que ele 
compreendia que ela decidira no silenciar Theresa, que planeara levar a 
rapariga com ela  direco acadmica. Gordon prometeu-lhe 
que iria com ela "assim que esta maldita eleio ficasse para trs". Concordara que se sentiriam ambos 
melhor se a verdade viesse  tona. Depois ordenou aos seguranas que no deixassem a 
senhora Acton sair de casa sob qualquer circunstncia.

Na manh das eleies estava ao telefone a conversar com Henry sobre os preparativos para a 
celebrao da vitria. Henry calculava que a luta estaria terminada ao meio-dia, com 
o resto do dia apenas a consolidar a vitria evidente. Decidiram que Gordon 
devia voltar para Providence bem cedo para estar por perto aquando da admisso da derrota Por 
parte do adversrio. Gordon concordou alegremente. Parecia estar 
livre de casa!

Quando desligou o telefone, viu que uma das luzes da extenso estava acesa. Ficou 
ofegante quando percebeu que Ellie estava ao telefone, saltou da cadeira e subiu as escadas 
a correr at ao quarto dela,

- Com quem estavas a falar? - exigiu ele furioso.

- No estava a falar com ningum. Ningum telefonou,

- Eu sei que ningum telefonou. Mas tu telefonaste a algum. A quem?
- Tinha de falar, Gordon. No aguento mais isto.

- Ellie, por amor de Deus, quem estava ao telefone? Ela virou-se para a janela.

- No quero falar sobre isso.

- Maldita sejas! - Ele pegou no telefone e carregou no boto de remarcao. Ouviu um nmero 
a ser marcado enquanto observava Ellie a sair para a varanda.

 321

- Detective Sargento Wasciewicz - respondeu uma voz familiar. Gordon tapou o auscultador com a mo. 
Lentamente, baixou o telefone.

- Est, daqui fala o sargento Wasciewicz. Quem fala?

O cabelo de Ellie esvoaava com a brisa que soprava para terra. O queixo dela estava ligeiramente levantado 
quando olhou para o cintilar de Rhode Islnd Sourid.

- Est, est a tentar falar com a polcia? Fala do departamento da polcia.  o sargento Wasciewicz.

Gordon desligou o telefone.

Ela era mais perigosa do que Theresa fora. Theresa sabia que ele era um adltero, Ellie sabia que ele era um 
assassino, Tinha de pr fim s meditaes melanclicas dela. Tinha de se certificar de que nunca se confessaria 
a ningum. No havia outra sada,

Arrancou o fio do telefone da ficha, enrolou-o  volta do auscultador e levou-o com ele quando saiu do quarto. 
Fechou a porta  chave, deixou o telefone em cima da carpete fora do quarto e caminhou depois lentamente 
pela casa.

Estavam sozinhos. Os midos estavam numa das suas actividades com a ama. Os seguranas estavam todos no 
exterior da casa, reunidos junto ao porto no extremo oposto da entrada. Gordon foi de janela em janela para 
ter a certeza de que no havia ningum no terreno do exterior.

Sabia que o tinha de fazer agora, antes de sair para a sede da campanha. Sozinha em casa, encontraria 
certamente uma forma de contactar Wasciiwcz ou o juiz Gamble, ou talvez algum amigo de Theresa. Sabia que 
tinha de acabar depressa com isso antes que algum deles se apercebesse exactamente do que estava a fazer. 
No iria conseguir olhar para ela. Se tivesse tempo para imaginar o terror dela, nunca conseguiria ir para a 
frente com isso. E no podia voltar atrs. Assim que ela percebesse o que pretendia fazer, no hesitaria em 
denunci-lo.

Seria como que um suicdio. Estava enterrada na prpria mgoa. Mostrara a uma sala repleta de gente que 
estava irracional. Exprimira claramente a Henry os seus medos de que ela podia acabar com a prpria vida. At 
contratara seguranas para cuidarem dela.

No importava o que j tinha dito ao sargento Wasciewicz. Ficaria aparente que estava fora de si. Porque razo 
saltaria da varanda para as rochas? Wasciewicz podia criar alguns problemas antes que os seus superiores o 
silenciassem. Mas tudo o que dissesse seria contrariado pelo testemunho de Gordon, pelo veredicto bem 
meditado do juiz investigador e pela bvia instabilidade de Ellie.

Voltou a subir lentamente as escadas, olhou para um lado e para o outro do corredor, embora soubesse que no 
estava l ningum, Deu a volta  chave, abriu a porta e depois mudou a chave para a fechadura interior. Com 
cuidado,

322

voltou a ligar o telefone e verificou se havia linha. Olhou para a varanda onde Ellie, com uma 
camisola vestida por cima das calas de ganga, se encontrava sentada numa 
espreguiadeira. Respirou fundo e avanou para junto dela.

Wasciewicz sabia que ia a conduzir de forma perigosa. O ponteiro da velocidade chegava aos 130 nas 
rectas curtas e os pneus guinchavam quando travava nas curvas. De cada vez que curvava, rezava para 
que no viesse outro carro no sentido contrrio.

Ouvira atentamente a confisso telefnica de Ellie Acton, compreendeu que ela pensara na possibilidade 
de silenciar Theresa Santiago e acreditou nela quando lhe disse que no conseguira ir para a frente com o 
plano. Percebera claramente o significado dela encontrar o frasco de comprimidos para 
dormir vazio nas calas de ganga de Gordon. E depois dissera-lhe que a melhor esperana dela era ir at 
 esquadra prestar um depoimento formal. Escutara o medo verdadeiro na voz dela quando disse que 
Gordon no a deixava falar com ningum e o sargento oferecera-se para enviar um carro 
para a ir buscar. Mas, apesar da culpa e dos medos, Ellie recuara diante da ideia de um 
depoimento formal.

- No seria a mesma coisa que trair o meu marido? - perguntara Ellie. E Wasciewicz 
revelara-lhe que no havia nada de mal em dizer simplesmente a verdade. Ellie prometera pensar no 
assunto e desligara.

Alguns segundos depois o telefone dele voltara a tocar. Havia algum em linha, mas, quem quer que fosse, 
ficou em silncio. O sargento ficara confuso durante um segundo apenas. Mas depois o seu localizador de 
chamadas indicara o mesmo nmero de onde telefonara Ellie Acton e compreendeu o que se estava a 
passar. Algum em casa usara o boto de remarcao para descobrir a quem  que Ellie 
ligara. Quando se identificou, assinara a sentena de morte de Ellie.

Deu ainda mais uma curva e viu a casa directamente em frente. O som do seu motor alertou as pessoas 
junto ao porto e, de repente, havia um exrcito privado a bloquear-lhe a entrada para a propriedade dos 
Acton. Pensou durante um momento em lanar o carro directamente na direco deles, mas 
no ltimo minuto decidiu que precisava de ajuda. O carro deixou um rasto de borracha queimada quando 
travou deixando o pra-choques a apenas alguns centmetros do porto.

-  lindo aqui em cima - disse Gordon. - A baa parece de prata.
- Gordon, quero explicar aquele telefonema...

  323

- No te preocupes - interrompeu ele. - Penso que sempre soube que acabaramos por fazer uma visita ao 
sargento. Creio que  a coisa acertada a fazer.

- Ento no ests zangado?

- Gostava que me tivesses avisado. Foi uma surpresa um pouco desagradvel. Mas tens razo. Temos de 
contar a algum como ela nos estava a ameaar e porque  que fizemos o que fizemos. Sei que no me 
sinto culpado por te proteger a ti e aos midos.

O olhar dela recaiu para as mos.

- Mas tinha de haver uma sada melhor. Sinto-me completamente culpada por... t-la levado naquela 
viagem. Podia t-la salvo... podia ter-nos salvo...

Ele estendeu-lhe a mo.

- Anda aqui para cima para te poder abraar. As ondas a bater nas rochas so realmente espectaculares.

Ela levantou-se confiante e avanou at junto do balastre onde ele estava.

- Algum vai ser morto ali! - gritou Wasciewicz para os seguranas. Tirou o distintivo e mostrou-o atravs 
da janela aberta. - Acabmos de receber um telefonema de emergncia. No h tempo a perder.

Os guardas olharam uns para os outros.

- Abram o raio do porto! - gritou Wasciewicz. - j!

Um guarda respondeu que deviam telefonar ao senhor Acton a pedir permisso.

- O senhor Acton pode j estar morto - mentiu Wasciewicz. - Abram o porto, seno atiro ao cadeado. - Era 
um desafio. o seu revlver de pequeno calibre provavelmente nem faria um arranho na 
tinta do porto. E os seguranas dos Acton brandiam armas automticas.

- Tenho de ir consigo - insistiu o porta-voz dos guardas.
- ptimo! Entre j para aqui e abram o porto!

Ellie estava encostada  balustrada da varanda, junto de Gordon e satisfeita com a segurana do brao dele 
em seu redor. Sentia-se completamente aliviada. No haveria mais mentiras, nem mais encobrimentos. 
Gordon e ela colocariam tudo nas mos do juiz Gamble e esperariam que ele percebesse a intimidao 
que estavam a sofrer e a presso sentida. Talvez Gordon no conseguisse chegar ao Congresso. E  certo 
que ela nunca encontraria uma posio de prestgio na educao. Mas, pelo menos, podiam reassumir as 
suas vidas sem se preocuparem com o que podia vir a saber-se amanh.

324

O brao dele fez presso em torno dos ombros dela. Estava a aproxim-la de si 
como que para a prender no seu abrao e beij-la. Ela voltou-se para ele, voltando as costas para a 
grade alta de ferro. De repente a grade estava encostada s costas dela. Estava a ser inclinada para trs. Sentiu 
os sapatos de lona arrastarem-se pelo convs.

O guarda experimentou um aro de chaves e, por fim, abriu a fechadura da porta da frente. Wasciewcz 
empurrou-o e entrou apressadamente para o hall, Depois ouviu o grito de Ellie que vinha do quarto 
no cimo das escadas. Correu  frente, subindo dois degraus de cada vez.

Ellie estava a vacilar no cimo da balustrada, agarrando-se  camisa de Gordon com uma mo e a bater nele com a 
outra. Gordon estava a empurr-la lentamente por cima da balustrada enquanto tentava arrancar-lhe os dedos 
da camisa. Os olhos dele estavam ligeiramente fechados para no ver o que estava a fazer, Nem sequer sentia 
os golpes fracos que Ellie lhe desferia na cabea e nas costas.

- Gordon, por favor! Jesus!

Ele no respondia. Odiava o que estava a fazer. Mas, tal como com Theresa, no tinha alternativa. Ellie podia 
arruin-lo e no havia nenhuma forma segura de impedi-la. Tinha de a obrigar a suicidar-se.

A camisa dele comeou a rasgar-se. Os golpes pararam quando ela se agarrou freneticamente  balustrada. 
Gordon senta-a escorregar.

Um homem passou por ele a correr, lanando-se na direco de Ellie e apanhando-lhe um brao, No momento 
em que ela se soltou, as mos impediram-na de cair. Gordon olhou para o sargento Wasciewicz e depois 
para a mulher que estava pendurada por uma mo e a esticar a outra. Ela conseguiu agarrar-se  
balustrada e depois Wasciewicz inclinou-se mais, agarrando-lhe no brao com a outra mo.

Gordon esticou a mo para baixo e comeou a tirar os dedos de Ellie da balustrada. Percebeu que Wasciewicz 
no ia conseguir i-la. Se continuasse naquela posio, o peso de Ellie provavelmente levaria o sargento 
atrs.

Sentiu uma mo na parte de trs do pescoo. Foi arrastado para trs e depois lanado como uma boneca de 
trapos para o canto do alpendre. Ao cair ao cho, viu um dos guardas fardados agarrar na outra 
mo de Ellie. juntos, os dois homens conseguiram levantar o rosto dela acima do topo da balustrada e depois 
agarr-la pela cintura. Um segundo depois, ela estava estendida ao comprido ao longo do topo da 
grade, rolando em seguida para os braos deles.

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Gordon comeou a pensar.

- Ela ia saltar. Eu segurei-a mas no consegui pux-la para trs,

- Mentira! Eu vi o que estava a fazer - ripostou Wasciewicz. Estava agarrado a Ellie enquanto a acompanhava 
at ao quarto.

- Ela ia a saltar - apelou Gordon para o segurana.

- V-se lixar! - gritou o guarda. Seguiu Ellie e Wasciewicz para fora da varanda, deixando Gordon 
agachado no cho no extremo oposto.

Ellie parecia espantada.
- Ele ia matar-me...

- Ele tentou tudo o resto - disse Wasciewicz. - Mentiu-lhe, drogou-a, culpou-a e planeou o seu suicdio. - 
Manteve um brao  volta dela enquanto a conduzia pelas escadas abaixo e atravs da porta da frente de casa.

Gordon viu que o guarda estava a falar ao telefone. O homem estava sentado na cama de Ellie com a pistola 
apontada, bloqueando o nico caminho de fuga e, sem dvida, a falar com a polcia. Gordon ouviu as 
palavras

- Tentou mat-la... Mais um segundo e ela teria morrido... Sim, ele est com a senhora, mas preciso de um carro 
para levar o canalha... No, no tocaremos em nada...

Olhou por cima da grade e viu o mar a esmagar-se contra as rochas l em baixo. Tinha de agir j. Se pensasse, 
provavelmente no seria capaz de seguir adiante. E no havia alternativa. Sabia que nunca conseguiria 
sobreviver  desgraa.

CAPTULO CINQUENTA E UM

- Gordie! Gorde! Gordie!

A multido no salo de baile do hotel estava histrica de alegria. Os resultados das eleies tnham-se tornado 
evidentes duas horas depois das urnas abrirem. Era Gordon Acton por maioria absoluta.

Estava a vencer ao abastado republicano conservador por uma relao de dez para um. Os liberais da 
universidade e da faculdade apoiavam-no em trs para um. E, mais surpreendente ainda, estava a ganhar as 
vizinhanas da classe trabalhadora por quase dois para um. A talha actualizada em palco dizia que 
tinha 82 pof cento dos votos contados e projectava a margem de vitria final como sendo de 79 por cento.

Henry Browning percorria a pista de dana aceitando felicitaes de todos os lados,

-Jesus, Henry, isto  maravilhoso - dizia um juiz de sucesses. - Ele conseguiu o bilhete inteiro. Xerifes, 
funcionrios de tribunal, comissriios. Toda a gente 
ganhou.

- Henry! Henry! Que belo trabalho que fez - disse um juiz da paz. -
O nico gabinete que no ganharam foi o dos mandries.

- Olhe que no sei - riu-se Henry. - Ainda  muito cedo para saber.

O governador passou pelo hotel ao incio da tarde como parte da sua viagem pelos distritos eleitorais.

- Henry, est de parabns. H seis meses, pensei que talvez 
perdssemos este.

Browning sorriu modestamente.

- No ia desapont-lo, governador. Agora  dono de todo o 
estado.
- Onde est o novo congressista?

Henry olhou de relance para o relgio.

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- Est atrasado! Falmos esta manh e concordamos que ele estaria aqui ao meio-dia. Vou telefonar para o 
quarto a avis-lo de que o senhor est aqui.

o governador aceitou um copo de ponche de fruta de uma das senhoras do comit e ergueu-o num brinde 
aos trabalhadores da campanha.

- Governador! - Algum gritou e depois um novo grito de locomotiva comeou a evocar o nome dele. Ele 
ergueu os braos e abraou o aplauso.

No meio da euforia, um capito da polcia abriu caminho por entre a multido e pegou no brao do 
governador.

Acabei de ouvir na rdio. Gordon Acton atirou-se da varanda para a gua.
O qu?

H cerca de uma hora. A polcia foi chamada a casa dele, mas estava morto quando l chegaram.

A boca do governador ficou aberta, com os olhos perfeitamente redondos.
- No pode ser. Tem a certeza?

- Telefonei para a esquadra a confirmar. Eu prprio no queria acreditar. -Jesus, porqu? Porque  que 
faria uma coisa dessas?

- Qualquer coisa a respeito da mulher. Estavam ambos na varanda... Henry Browning reapareceu junto  
multido e abriu caminho por entre ela. A sua expresso era de espanto e a cor desaparecera-lhe, O 
governador no precisava de lhe perguntar se j soubera da notcia.

- Ele saltou - disse Henry, como se estivesse a tentar acreditar no que dizia.

O governador acenou com a cabea.

- Disseram na rdio. Mas como? Porqu?

- No sei - disse Browning, confirmando a perplexidade que lhe estava escrita no rosto. - Tinha ido l 
abaixo porque tinha medo que a mulher fizesse alguma tolice.

- Ser que caiu? - perguntou-se o governador.

- Disseram-me que estava a tentar fugir  priso. A polcia fora chamada para o prender.

- Oh, meu Deus! Como  que vamos lidar com isto, Henry? O homem acabou de ser eleito para o 
Congresso.

- Vou dizer qualquer coisa. Entretanto,  melhor pensar em quem vai nomear. Precisamos de um substituto 
at prepararmos uma eleio     especial.

-  melhor sair daqui. No quero saber disto at decidir o que hei-de dizer.
De repente, ouviu-se um grito atravs da sala. Mais algum acabara de saber da morte de Gordon. E 
depois a notcia espalhara-se    como um rastilho de plvora, alterando as expresses de rosto aps rosto. A 
celebrao acabou ao fim de

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segundos, deixando os trabalhadores da campanha a olhar vagamente para as filas de cartazes de Gordon 
Acton, Cada um deles mostrava-o em aco com uma citao atribuda do seu 
programa partidrio em letras de realce.

Henry avanou lentamente para o palco. O caminho estava bloqueado 
por pessoas que queriam informao. Era verdade? Estava morto? Como? Quando? Acenou com a mo 
para os mandar embora encolhendo os ombros e com um olhar vago que dizia 
que estava to surpreendido quanto qualquer um deles.

Quando chegou ao microfone, o salo ficou em silncio.

- Tal como ouviram, acabmos de ser informados de que o congressista eleito Gordon Acton morreu num 
acidente domstico algures esta manh. Creio que caiu da varanda de sua casa.

Houve um nico grito de desespero e depois vozes individuais deram 
vazo  mgoa.

- No tenho mais pormenores - disse Henry, - O governador 
esteve aqui quando a notcia foi recebida e est neste momento a dirigir-se para a casa dos Acton 
para oferecer as suas condolncias a Ellie, mulher de Gordon e a...

Parou a meio da frase. Ellie, pensou ele. A me que chorava uma filha adoptiva. A esposa 
forte, que conduzia os filhos atravs da morte trgica do pai.

Viu que o pblico estava ainda  espera das suas palavras.

- ... para ajudar aos preparativos adequados. Sei que 
teremos notcias do governador assim que chegar ao local. Mas pode levar 
vrias horas, pelo que no h mais nada que eu possa acrescentar esta tarde.

Tirou um leno do bolso e limpou os olhos.

-  uma terrvel tragdia - disse ele, afastando-se do 
microfone.

Os seus pensamentos regressaram a Ellie. Ela no 
teria que fazer nada. S teria que emprestar o nome.

Henry chegou  esquadra da polcia de Newport uma hora depois, O capito da polcia 
que acompanhara o governador j mostrara a patente por toda a esquadra e 
apoderara-se de um dos gabinetes privados.

- Est uma grande confuso - murmurou ele para Henry. - No sei se vou conseguir encobrir isto, H aqui 
um detective que diz que estava prestes a prender Gordon por assassnio e tentativa de homicdio.

- Ridculo - insistiu Henry.

- Sim? Bem, h um segurana privado que diz que Gordon estava 
quase a atirar a mulher da varanda.

- Onde est ele?

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- A escolher o trabalho que quer na administrao do estado. Se ele se lembrar que Gordon caiu quando 
estava a tentar salvar a mulher, ser um inspector de pontes a ganhar 70 mil dlares por ano.

-  assim que est a pensar em pr o caso? Que a Ellie ia saltar?
- Era essa a ideia. Mas o detective local no vai na cantiga.

- Local? Quer dizer o sargento Wasciewicz?

- Sim. Tm-no na esquadra, mas no o podem manter ca para sempre. E h reprteres por todo o lado. 
Creio que deve ter reparado nos camies com satlites l fora.

Henry abriu caminho at  sala e sentou-se numa cadeira em frente  mesa onde o sargento Wascewcz 
escrevia o seu relatrio. O sargento reconheceu-o imediatamente e pousou a esferogrfica.

- Est aqui para sugerir o que devo ter visto? - perguntou ele. Henry sorriu.

- No. S aquilo que pode querer escrever nesse relatrio.
- Quer que salve a reputao do Congressista Gordon Acton.

- No - disse Henry. - O Gordon Acton morreu. j no  preocupao minha, Mas pensei que 
quisesse fazer um favor  senhora Acton. A no ser que ainda acredite que foi ela quem matou a Theresa 
Santiago,

Wasciewicz riu-se.

- Nunca pensei que tivesse magoado algum. S esperei que, ao acusar a mulher, o pudesse obrigar a ele 
a confessar. Mas ele t-la-ia enfiado na cmara de gs se fosse preciso. Cristo, quando cheguei l a casa, 
estava a tentar atir-la da varanda.

Henry acenou com a cabea.

- Nunca pensei que ela pudesse ter feito mal a algum. E, embora precisasse de Gordon como candidato, 
no tinha grande estima por ele como pessoa.
- Ento estamos de acordo. Por isso, diga-me, senhor Browning, porque  que est aqui?

- Pensei que quisesse fazer alguma coisa pela senhora Acton. Ressuscitar-lhe a carreira 
e, se apreciar um pouco de cinismo, ajud-la a ser a ltima a rir. Wasciewcz queria realmente 
fazer alguma coisa pela senhora Acton, Inclinou-se para a frente e a sua ateno era bvia.

- Sou todo ouvidos - disse ele a Henry.

Uma hora depois, Henry Browning pde assegur-ar ao governador que todos os seus problemas polticos 
tinham chegado ao fim.

- O sargento Wasciewicz decidiu que a queda de Gordon foi provavelmente um acidente,

O governador estava espantado.

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- Cristo, Henry, o que  que teve de lhe prometer? j estamos cheios de inspectores de pontes.

- O sargento Wasciewicz  aquele raro homem honesto que no quer nada para ele. Mas gostava que 
fizssemos alguma coisa pela Ellie.

- Claro. O que  que ele quer?

- Quer que o senhor a nomeie para preencher o mandato do marido permanentemente ou, pelo menos, at 
arranjarmos uma eleio especial.

- O qu? Mas ela est mentalmente doente...

- Conhece algum na poltica que seja completamente so?
- Porque  que ela haveria de aceitar?

Henry sorriu.

- Ela tem crenas muito fortes a respeito da educao para crianas em desvantagem. Penso que receberia 
de bom grado a oportunidade de as pr em prtica.

- Isso  a coisa mais ridcula...

A mo de Henry estava no ar para deter o ataque do governador.

- O Gordon teve cerca de 80 por cento dos votos - lembrou ele. - Consegue pensar em algum que seja 
uma escolha mais popular do que a viva dele?

Houve um longo silncio enquanto o governador pesava a ideia. Um sorriso nasceu-lhe gradualmente nos 
lbios comprimidos.

- Creio que no teramos problemas em control-la.

- No sei - respondeu Henry. - Se o Gordon a tivesse conseguido controlar, no teria cado da varanda.
